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Criado por engano por um inventor arrependido, o Nobel se tornou o mais cobiçado símbolo de contribuição à humanidade
Estocolmo, Suécia – Toda primeira semana de outubro, o mundo prende a respiração. Não por causa de conflitos ou catástrofes naturais, mas por uma tradição que começou há mais de um século. As expectativas, os rumores, os palpites: é tempo de Nobel. Poucas premiações carregam tanto peso simbólico. Mas poucos também conhecem a história por trás do próprio nome — uma história de explosivos, remorso e uma reviravolta póstuma que ninguém esperava.
O homem por trás do prêmio
Alfred Nobel, nascido em Estocolmo em 1833, foi um dos inventores mais bem-sucedidos e controversos de seu tempo. Seu nome está indissociavelmente ligado à dinamite, patenteada em 1867. A invenção revolucionou a construção civil, mineração e infraestrutura global — mas também foi rapidamente adaptada para fins bélicos. Nobel acumulou uma fortuna gigantesca com a venda de explosivos para exércitos ao redor do mundo.
No entanto, o destino reservava uma ironia trágica. Em 1888, quando seu irmão Ludvig Nobel faleceu, vários jornais europeus confundiram os irmãos e publicaram necrológios de Alfred. Um deles, intitulado “O mercador da morte está morto”, acusava Nobel de ter enriquecido com a destruição. “Dr. Alfred Nobel tornou-se rico ao encontrar meios de matar mais pessoas mais rápido do que nunca”, lia-se no obituário francês.
Esse choque teria sido o ponto de virada. Horrorizado com a forma como seria lembrado, Nobel passou os últimos anos de sua vida reimaginando seu legado.
O testamento que surpreendeu o mundo
Alfred Nobel morreu em 1896, em San Remo, na Itália. Quando seu testamento foi aberto, ninguém acreditou no que lia. Sem aviso prévio à família, sem consultar seu assistente ou conselheiros, Nobel destinou 94% de sua fortuna — cerca de 31 milhões de coroas suecas à época, o equivalente hoje a bilhões — para a criação de cinco prêmios anuais. As áreas escolhidas: Física, Química, Medicina ou Fisiologia, Literatura e Paz.
A última categoria, a da Paz, era especialmente significativa. Ela deveria ser concedida “à pessoa que houver trabalhado mais ou melhor pela fraternidade entre as nações, pela abolição ou redução de exércitos permanentes e pela realização e promoção de congressos pela paz”. O inventor da dinamite queria, assim, redimir sua consciência.
Nem todos, porém, gostaram da ideia. A família Nobel tentou anular o testamento, argumentando que Alfred não estava em sã consciência. A imprensa escandinava chamou o prêmio de “sonho de um excêntrico”. Até o rei Oscar II da Suécia opôs-se inicialmente, temendo que o prêmio da Paz pudesse gerar conflitos diplomáticos.
A luta para tirar o prêmio do papel
Foram necessários cinco anos de intensos debates legais e organizacionais até que o primeiro Prêmio Nobel fosse entregue, em 1901. As instituições responsáveis foram então definidas: a Real Academia Sueca de Ciências (Física e Química), o Instituto Karolinska (Medicina), a Academia Sueca (Literatura) e um comitê de cinco membros eleitos pelo parlamento norueguês (Paz). A Noruega, na época unida à Suécia, foi escolhida para o prêmio da Paz por razões históricas — algo que permanece até hoje, com a cerimônia do Nobel da Paz em Oslo e as demais em Estocolmo.
Em 10 de dezembro de 1901, aniversário da morte de Alfred Nobel, foram entregues os primeiros prêmios. O alemão Wilhelm Röntgen, descobridor dos raios X, venceu em Física. O químico neerlandês Jacobus van 't Hoff, em Química. O médico alemão Emil von Behring, criador da antitoxina da difteria, levou o de Medicina. Em Literatura, o poeta francês Sully Prudhomme foi o escolhido. E a Paz — em meio a grande polêmica — foi dividida entre o suíço Henry Dunant, fundador da Cruz Vermelha, e o francês Frédéric Passy, criador da primeira sociedade europeia de paz.
Prêmios controversos, ausências notórias
Ao longo de 120 anos, o Prêmio Nobel construiu uma história repleta de acertos brilhantes e omissões inexplicáveis. Marie Curie venceu duas vezes (Física, 1903; Química, 1911). Albert Einstein levou o de Física de 1921, não pela relatividade, mas pela explicação do efeito fotoelétrico — uma decisão que hoje parece burocrática. Gandhi nunca ganhou o Nobel da Paz, apesar de ter sido indicado cinco vezes. O comitê norueguês declarou publicamente, em 2006, que essa ausência foi o maior arrependimento de sua história. Em sentido inverso, figuras como Henry Kissinger (1973, Paz), Yasser Arafat (1994, Paz) e Barack Obama (2009, Paz) geraram reações mundialmente divididas.
A Literatura, então, é um capítulo à parte. Leon Tolstói, James Joyce, Virginia Woolf, Jorge Luis Borges, Marcel Proust, Franz Kafka — nenhum deles foi laureado. O que rende ao prêmio críticas recorrentes de “eurocentrismo” e “conservadorismo literário”. Nos últimos anos, porém, a Academia Sueca tentou reparar a rota, premiando nomes como Bob Dylan (2016, para espanto geral) e a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, ainda que como cotada, não vencedora – quem? A polonesa Olga Tokarczuk (2018) e o tanzaniano Abdulrazak Gurnah (2021).
O Nobel que virou instituição
A despeito de controvérsias, o Prêmio Nobel sobreviveu a duas guerras mundiais, à Guerra Fria e ao ceticismo de um século XXI que desconfia de heróis. Tornou-se termômetro do que a humanidade valoriza (ainda que tardiamente). Em 1968, o Banco Central da Suécia criou o Prêmio de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel, que, embora não seja tecnicamente um “Nobel” original, carrega seu prestígio.
Hoje, anualmente, em dezembro, os laureados viajam a Estocolmo ou Oslo, recebem um diploma, uma medalha de ouro de 18 quilates e um prêmio monetário de cerca de 10 milhões de coroas suecas (quase 900 mil euros). E o mundo assiste, entre críticas e esperanças.
Porque, no fundo, o Prêmio Nobel é mais do que ciência ou letras. É a tentativa de um homem rico e perturbado de escrever um final diferente para sua própria biografia. Mais do que dinamite, Alfred Nobel deixou algo que raramente explodiu em frivolidade: a ideia de que o conhecimento e a paz devem ser celebrados — mesmo que nunca plenamente alcançados.
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Cinco fatos curiosos sobre o Nobel
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Ninguém pode concorrer postumamente – a menos que já tenha sido indicado antes de morrer.
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Mahatma Gandhi nunca venceu, mas o Dalai Lama (1989), sim.
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O laureado mais jovem: Lawrence Bragg (Física, 1915), com 25 anos.
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O mais velho: John B. Goodenough (Química, 2019), aos 97.
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Recusaram o prêmio: Jean-Paul Sartre (Literatura, 1964), Le Duc Tho (Paz, 1973).
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