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Vencedor de nove estatuetas do Oscar e dirigido pelo mestre italiano Bernardo Bertolucci, O Último Imperador (1987) é uma obra-prima biográfica e dramática que narra a trágica e fascinante trajetória de Aisin-Gioro Puyi, o derradeiro governante da dinastia Qing na China. Através de um design de produção monumental e de uma narrativa intimista, o longa-metragem se consolidou como um dos maiores marcos visuais e históricos do cinema mundial, examinando os limites da soberania e a melancolia da perda de identidade em meio às tempestades políticas do século XX.

Análise e Enredo: A Tragédia Dourada de Puyi

O Último Imperador não é apenas um épico histórico convencional; é um estudo de personagem extraordinariamente íntimo operando dentro de uma engrenagem de escala colossal. O filme adota uma estrutura narrativa não linear, alternando de maneira brilhante entre dois períodos cruciais da vida de Puyi (interpretado na idade adulta por John Lone): sua infância e juventude na opulência isolada da Cidade Proibida, e sua posterior humilhação e tentativa de reabilitação na Prisão de Criminosos de Guerra de Fushun, em 1950, sob o regime comunista de Mao Tsé-Tung.

A história começa em 1908. Com apenas três anos de idade, Puyi é arrancado dos braços de sua mãe e levado à lendária Cidade Proibida em Pequim. Ele é coroado Imperador da China, cercado por milhares de eunucos e cortesãos que se curvam a cada um de seus caprichos. No entanto, essa soberania é uma farsa existencial. Enquanto Puyi reina dentro dos muros dourados, o mundo exterior passa por transformações drásticas: a dinastia Qing cai, a República da China é proclamada e o jovem imperador se torna um prisioneiro de luxo, um soberano sem império que não pode sequer cruzar os portões de sua própria residência.

À medida que cresce, Puyi é moldado por influências externas, destacando-se a figura de seu tutor britânico, Reginald Johnston (Peter O'Toole), que lhe apresenta conceitos ocidentais, a tecnologia moderna (como a bicicleta e os óculos) e o desejo ardente de escapar de sua prisão dourada. Casando-se com a bela Wanrong (Joan Chen) e tomando Wenxiu (Vivian Wu) como consorte secundária, Puyi tenta em vão exercer algum controle sobre sua vida. Contudo, em 1924, ele é sumariamente expulso da Cidade Proibida por forças republicanas.

O exílio inicia a segunda fase de sua derrocada. Seduzido pelo glamour do Ocidente e pela promessa de recuperar seu trono ancestral, Puyi comete o maior erro de sua vida: alia-se aos invasores japoneses, que o instalam como o governante fantoche de Manchukuo (a Manchúria ocupada) na década de 1930. Sob a influência manipuladora de Amakasu (Ryuichi Sakamoto), Puyi torna-se cúmplice involuntário de um regime brutal, enquanto sua esposa Wanrong afunda no vício em ópio e no desespero. Com a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, Puyi é capturado pelo exército soviético e, posteriormente, entregue à nova China Comunista, onde passa dez anos em reeducação ideológica, sendo forçado a confrontar seus crimes, seu ego imperial e a sua própria inutilidade prática.

O Desfecho Revelado: O Grilo, o Trono e a Transição do Tempo

O final de O Último Imperador é uma das sequências mais poeticamente devastadoras e simbolicamente ricas da história do cinema. Após receber o perdão do governo comunista e ser libertado em 1959, Puyi passa seus últimos anos trabalhando humildemente como jardineiro em Pequim. Ele se tornou, finalmente, um cidadão comum, desprovido de qualquer privilégio, mas paradoxalmente livre pela primeira vez em sua vida.

Em 1967, durante os tumultos da Revolução Cultural chinesa, um Puyi já envelhecido e doente visita a Cidade Proibida como um turista pagante. O palácio que outrora foi seu mundo inteiro agora é um museu público. Ele ultrapassa as cordas de isolamento e sobe os degraus até o Trono do Dragão. Lá, ele é abordado pelo filho de um dos guardas do museu, um menino que usa o lenço vermelho dos pioneiros comunistas. Para provar ao garoto que ele era de fato o imperador, Puyi sorri e retira de trás do trono um objeto escondido há mais de cinquenta anos: a pequena gaiola de bambu que ele recebera de um ancião no dia de sua coroação, contendo um grilo.

Puyi entrega a gaiola ao menino. Quando a criança abre o recipiente, um grilo verde emerge, perfeitamente vivo e ativo. O garoto olha para cima para falar com Puyi, mas o velho imperador desapareceu misteriosamente do salão. A câmera então corta para um grupo de turistas modernos entrando no salão do trono sob a voz de um guia turístico que anuncia secamente que Puyi faleceu em 1967, encerrando mais de dois mil anos de domínio imperial na China.

Significados Ocultos do Desfecho

  • O Grilo como Metáfora da Alma de Puyi: O grilo, que permaneceu preso na pequena gaiola por cinco décadas, representa o próprio Puyi. Ambos foram confinados em estruturas artificiais e requintadas (a gaiola de bambu e a Cidade Proibida), privados de liberdade em nome da tradição. A libertação do grilo no final simboliza que, ao aceitar sua humanidade comum e morrer como um homem simples, a alma de Puyi finalmente se libertou de suas correntes históricas.
  • A Sobrevivência do Espírito Humano: O fato de o grilo estar vivo após tantos anos é um elemento de realismo mágico que desafia a lógica biológica, indicando que a essência da história e das memórias individuais sobrevive aos regimes políticos, sejam eles dinásticos, fascistas ou comunistas.
  • A Ironia da História: Ao comprar um bilhete para entrar em sua própria casa de infância, o filme encerra sua profunda meditação sobre o poder. O homem que já foi considerado o "Filho do Céu" e proprietário de um quarto da população mundial termina sua jornada sem possuir nada além de suas memórias, ilustrando a impermanência do poder secular.

Atuações e o Peso do Elenco

O sucesso dramático do filme repousa fortemente sobre os ombros de seu elenco estelar. John Lone entrega a performance de sua carreira ao interpretar Puyi da juventude à velhice. Lone infunde o personagem com uma vulnerabilidade melancólica singular; ele consegue retratar a arrogância ingênua de um monarca mimado e, simultaneamente, a dor de um homem ciente de sua própria irrelevância histórica. Suas nuances corporais ao transitar de um imperador altivo a um prisioneiro curvado e, finalmente, a um jardineiro sereno são de uma sutileza comovente.

Joan Chen brilha intensamente como a Imperatriz Wanrong. Sua transformação de uma jovem cosmopolita e esperançosa em uma mulher devastada pela depressão, pela negligência de Puyi e pelo vício em ópio é uma das trajetórias mais dolorosas do filme. A cena em que ela mastiga flores de ópio com lágrimas nos olhos é um dos momentos mais icônicos do longa.

Peter O'Toole, com sua presença aristocrática e voz inconfundível, traz calor e humanidade ao papel de Reginald Johnston. Ele atua como a âncora moral de Puyi e o único elo do imperador com a realidade do mundo externo. O elenco de apoio também conta com contribuições notáveis de Vivian Wu como a corajosa consorte Wenxiu, que exige o divórcio (um ato sem precedentes na história imperial), e do lendário compositor e ator japonês Ryuichi Sakamoto, que interpreta o calculista oficial Amakasu com uma rigidez ameaçadora.

Bastidores, Produção e a Teoria das Cores de Storaro

A produção de O Último Imperador foi uma façanha logística sem precedentes. Foi o primeiro longa-metragem ocidental a receber autorização total do governo da República Popular da China para filmar dentro dos muros reais da Cidade Proibida em Pequim. Até então, o local histórico nunca havia aberto suas portas para uma equipe de cinema estrangeira. O nível de cooperação foi tão alto que o exército chinês forneceu mais de 19.000 figurantes para recriar as grandiosas cenas de coroação e assembleias imperiais.

Um dos aspectos mais celebrados do filme é a direção de fotografia do mestre italiano Vittorio Storaro. Ele utilizou uma complexa e meticulosa "Teoria das Cores" para traduzir a evolução psicológica e cronológica de Puyi:

  • Vermelho: Usado na infância de Puyi, representa o nascimento, o sangue, a paixão inicial e os muros da Cidade Proibida que o mantinham isolado do mundo real.
  • Amarelo: A cor imperial exclusiva. Representa a identidade divina de Puyi, sua monarquia absolutista e o isolamento total de seu poder mítico.
  • Verde: Introduzido com a chegada de Reginald Johnston. Simboliza o conhecimento, a educação, a juventude intelectual e o desejo de ver o que há além dos muros.
  • Azul: Domina o período em Manchukuo. Representa a frieza, a melancolia, a perda de controle e a ilusão de um poder que, na verdade, pertencia aos militares japoneses.
  • Cinza: A cor que domina a prisão comunista. Representa a desmistificação do imperador, a realidade nua e crua, a igualdade social e o apagamento de sua individualidade mítica para o renascimento como um cidadão comum.

A trilha sonora original, composta em uma colaboração icônica entre Ryuichi Sakamoto, David Byrne (líder da banda Talking Heads) e o compositor chinês Cong Su, é uma mistura sublime de sonoridades tradicionais chinesas com sintetizadores e arranjos orquestrais ocidentais, capturando perfeitamente o choque cultural e a transição temporal do país.

Polêmicas, Ideologia e a Visão de Bertolucci

Apesar do estrondoso sucesso de crítica, O Último Imperador não esteve imune a debates e controvérsias intelectuais. Sendo Bernardo Bertolucci um homem de convicções marxistas declaradas, muitos historiadores e críticos apontaram que o filme adota uma perspectiva excessivamente benevolente e higienizada em relação ao processo de "reeducação" imposto pelo Partido Comunista Chinês.

O diretor da prisão de Fushun (interpretado por Ying Ruocheng) é retratado de forma quase santificada, como um terapeuta compreensivo e humanista, em vez de um agente de um regime totalitário que utilizava métodos severos de lavagem cerebral e coerção psicológica. Na realidade histórica, o processo de reeducação foi muito mais brutal e destrutivo para milhares de prisioneiros do que a transição pacífica e iluminada sugerida na tela.

Outro ponto de divergência reside na própria representação de Puyi. Historiadores apontam que o filme romantizou o imperador, omitindo traços de sua personalidade que constam em biografias e registros históricos, como episódios de crueldade sádica contra seus eunucos na juventude, sua instabilidade emocional severa e suas complexas relações abusivas com suas esposas. Bertolucci optou por focar em Puyi como uma vítima perpétua das circunstâncias históricas — uma folha ao vento carregada pelas tempestades geopolíticas —, diminuindo sua agência pessoal e responsabilidade moral em suas escolhas políticas em Manchukuo.

Recepção Crítica, Bilheteria e Legado Histórico

No circuito comercial, O Último Imperador desafiou as expectativas de Hollywood para um drama histórico de quase três horas falado parcialmente em inglês e ambientado na Ásia. Com um orçamento estimado em 25 milhões de dólares, o filme arrecadou mais de 44 milhões de dólares apenas nas bilheterias norte-americanas, tornando-se um sucesso financeiro internacional e ampliando o interesse do público ocidental pela história moderna da China.

A aclamação da crítica foi quase unânime. No site agregador de críticas Rotten Tomatoes, o longa mantém um índice de aprovação extremamente alto, sendo elogiado pela crítica especializada como um feito estético incomparável. Na cerimônia do Oscar de 1988, o filme realizou uma das maiores "limpezas" da história da premiação, vencendo em todas as nove categorias para as quais foi indicado:

  • Melhor Filme
  • Melhor Diretor (Bernardo Bertolucci)
  • Melhor Roteiro Adaptado
  • Melhor Direção de Fotografia
  • Melhor Direção de Arte
  • Melhor Figurino
  • Melhor Trilha Sonora Original
  • Melhor Montagem
  • Melhor Mixagem de Som

O legado de O Último Imperador reside na sua capacidade de fundir a grandiosidade visual da era de ouro de Hollywood com a sensibilidade artística e a profundidade existencial do cinema de autor europeu. Ao registrar a transição da China feudal para a modernidade através do olhar desolado de seu último monarca, Bertolucci entregou uma das maiores reflexões cinematográficas sobre o tempo, a solidão do poder e a inevitabilidade da mudança.

Fontes Pesquisadas

  • Roger Ebert Movie Reviews: rogerebert.com/reviews/the-last-emperor-1987
  • The Academy of Motion Picture Arts and Sciences (Oscars Database): oscars.org
  • American Cinematographer (Análise de Vittorio Storaro): ascmag.com
  • Rotten Tomatoes (Recepção Crítica): rottentomatoes.com/m/last_emperor
  • Box Office Mojo: boxofficemojo.com
  • British Film Institute (BFI): bfi.org.uk

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