Lançado em 1982 e dirigido pelo incomparável Steven Spielberg, "E.T.: O Extraterrestre" transcende o gênero de ficção científica para se firmar como um drama emocionante e uma aventura atemporal. Contando a história da amizade improvável entre um menino solitário e um visitante de outro planeta, o filme capturou a imaginação de milhões, tornando-se um marco cultural e um dos maiores sucessos de bilheteria de todos os tempos. Sua magia reside na capacidade de evocar a maravilha da infância, a dor da separação e a universalidade do amor e da conexão, deixando uma marca indelével na história do cinema.
Análise e Enredo
"E.T.: O Extraterrestre" nos transporta para o subúrbio californiano, onde a vida do jovem Elliott (Henry Thomas), um garoto de dez anos que se sente deslocado após o divórcio de seus pais, toma um rumo extraordinário. Em uma noite, enquanto procurava algo no quintal, Elliott descobre uma criatura de outro mundo que fora acidentalmente deixada para trás por sua nave espacial. O ser, de pele enrugada, pescoço alongado e olhos expressivos, rapidamente ganha o apelido de E.T.
Inicialmente assustado, Elliott logo percebe a natureza gentil e vulnerável do alienígena, decidindo escondê-lo em seu quarto. Com a ajuda de seu irmão mais velho, Michael (Robert MacNaughton), e da adorável irmã caçula, Gertie (Drew Barrymore), Elliott embarca em uma jornada para proteger o novo amigo do mundo adulto, que é retratado, em grande parte, como uma ameaça. A casa da família se torna um santuário para E.T., onde ele aprende sobre a cultura humana, desenvolve uma forte conexão telepática com Elliott e revela seu desejo ardente de "telefonar para casa". A perspectiva do filme é intencionalmente focada na visão das crianças, com os rostos dos adultos (exceto Mary, a mãe) raramente sendo mostrados até o terceiro ato, acentuando o mundo secreto e a inocência dos protagonistas mirins.
O Clímax Emocional e o Final Inesquecível
A trama atinge seu ápice quando a saúde de E.T. se deteriora, e Elliott, que compartilha de sua condição devido à conexão, também adoece. A presença de E.T. é descoberta por agentes do governo e cientistas, liderados por Keyes (Peter Coyote), que invadem a casa, transformando-a em uma unidade médica. A cena da "morte" de E.T., com o alienígena pálido e inerte, é um dos momentos mais traumáticos e catárticos do cinema comercial, usando a cor branca e alto contraste para criar uma atmosfera de necrotério, seguida pela emoção crua de Elliott. No entanto, em um momento de pura magia, E.T. revive, revelando que seus amigos estão voltando. A fuga subsequente, com as crianças em bicicletas voadoras contra a silhueta da lua cheia, é uma das cenas mais icônicas e emocionantes da história do cinema, um símbolo de esperança e liberdade. A música magistral de John Williams amplifica essa sequência, culminando na despedida.
O final do filme é uma despedida agridoce, mas profundamente significativa. E.T., ao se despedir de Elliott, aponta para a cabeça do menino e diz "I'll be right here" (Eu estarei bem aqui), selando uma conexão eterna que transcende a distância física. A nave espacial de E.T. parte, deixando um rastro de arco-íris no céu, um símbolo de esperança e da magia que permanece, mesmo após a partida. Este desfecho não é apenas o retorno de um alienígena ao seu lar, mas também uma parábola sobre o amadurecimento, a superação da solidão e a descoberta da empatia. A partida de E.T. representa o fim da infância de Elliott, mas também o legado de uma amizade que o transformou, mostrando que a imaginação pode ser um antídoto para a solidão e que a magia existe, mesmo que precise partir.
O Elenco e Atuações Memoráveis
O sucesso de "E.T." deve muito às performances autênticas de seu jovem elenco. Henry Thomas, no papel de Elliott, entregou uma atuação incrivelmente natural e comovente, capturando a essência de um menino solitário que encontra um amigo em um ser de outro mundo. Sua capacidade de expressar emoções complexas – desde a alegria pura até a angústia da separação – foi fundamental para a ressonância do filme.
Drew Barrymore, então com apenas sete anos, brilhou como a adorável e espontânea Gertie. Sua doçura e curiosidade humanizaram ainda mais o E.T. para o público, e sua reação à descoberta do alienígena é um dos pontos altos de humor e leveza da narrativa. Robert MacNaughton como Michael, o irmão mais velho, completa o trio de crianças, inicialmente cético, mas logo se envolvendo na proteção do visitante.
Dee Wallace interpreta Mary, a mãe solo da família. Ela é a única figura adulta cujo rosto é claramente mostrado na maior parte do filme, representando a perspectiva adulta que, embora preocupada, está inicialmente alheia ao extraordinário evento sob seu teto. Peter Coyote, como o misterioso Keyes, personifica o mundo adulto e governamental que busca E.T., mas que, em última instância, falha em entender a verdadeira natureza da conexão entre Elliott e o alienígena.
A voz de E.T. foi um trabalho meticuloso do designer de som Ben Burtt, que a criou a partir de uma mistura de vozes, incluindo a da atriz Pat Welsh (uma fumante inveterada cuja voz rouca foi gravada por nove horas e meia), a atriz Debra Winger, o próprio Steven Spielberg, e até mesmo sons de guaxinins e lontras.
Bastidores: Magia, Desafios e Curiosidades
A gênese de "E.T." remonta a um amigo imaginário que Spielberg criou após o divórcio de seus pais. Originalmente, a ideia evoluiu para um projeto mais sombrio de ficção científica chamado "Night Skies", sobre alienígenas malévolos. No entanto, durante as filmagens de "Os Caçadores da Arca Perdida", Spielberg pediu à roteirista Melissa Mathison (então namorada de Harrison Ford) para desenvolver um enredo centrado no único alienígena benevolente do roteiro de "Night Skies" e em um menino de um lar desestruturado. O roteiro, inicialmente intitulado "E.T. e Eu", foi escrito por Mathison em apenas oito semanas.
O design do E.T. foi uma colaboração entre Spielberg e o designer de efeitos especiais Carlo Rambaldi. Spielberg queria que o alienígena não parecesse um monstro, mas que fosse vulnerável e com características que evocassem empatia. Rambaldi se inspirou em fotos de Albert Einstein, Ernest Hemingway e em seu próprio gato do Himalaia para os olhos expressivos de E.T., além de um pescoço telescópico. O boneco animatrônico de E.T. custou US$ 1,5 milhão e exigiu até 12 operadores simultâneos para dar vida à criatura na tela. Para as cenas de caminhada, foram utilizadas miniaturas, bem como um menino de 12 anos sem pernas que caminhava com as mãos dentro de uma roupa especial, e um mímico profissional com dedos longos para os movimentos das mãos.
A produção foi conduzida sob extremo sigilo, com o título de trabalho "A Boy's Life" (A Vida de um Garoto), e todos os membros da equipe usavam crachás de identificação. Spielberg optou por filmar em ordem cronológica para facilitar performances emocionais mais convincentes do jovem elenco. Uma curiosidade interessante é que Henry Thomas conseguiu o papel de Elliott ao usar um trunfo em seu teste: as lembranças de seu cãozinho, que havia morrido há pouco tempo, ajudando-o nas cenas mais emocionantes. Além disso, Spielberg dirigiu a maior parte do filme a partir da perspectiva de uma criança, posicionando a câmera na altura dos olhos dos atores mirins, o que contribui para a sensação de realismo mágico suburbano.
Inicialmente, Spielberg queria usar doces M&M's no filme, mas a empresa Mars Corporation recusou a parceria. A Hershey's então aproveitou a oportunidade, pagando US$ 1 milhão para que seus Reese's Pieces fossem usados, o que resultou em um aumento estrondoso nas vendas do doce após o lançamento do filme.
Uma cena notável que foi cortada do filme foi um breve cameo de Harrison Ford como o diretor da escola de Elliott. A cena mostraria o diretor repreendendo Elliott após o incidente com os sapos na aula de biologia. Spielberg decidiu remover a cena, pois a voz reconhecível de Ford poderia distrair o público, e ele achou que não era essencial para a narrativa. A cena foi revelada apenas em lançamentos de DVD posteriores.
Polêmicas e Interpretações Conflitantes
"E.T." não esteve isento de pequenas polêmicas e diversas interpretações. Uma das mais discutidas é a que associa a narrativa a paralelos cristológicos, onde E.T. é visto como uma figura messiânica que desce à Terra, "morre" e ressuscita, retornando ao céu. O "dedo" de E.T. que cura e o arco-íris no final são citados como elementos que reforçam essa leitura, sendo o poster do filme, com os dedos se tocando, uma clara alusão à Criação de Adão de Michelangelo.
Outra controvérsia significativa surgiu com o relançamento do filme em 2002, em comemoração aos 20 anos. Steven Spielberg fez algumas alterações digitais, mais notavelmente substituindo as armas dos agentes federais por walkie-talkies e mudando uma fala da mãe de Elliott de "terrorist" para "hippie" em relação à fantasia de Halloween do filho. Essas mudanças geraram forte reação negativa por parte dos fãs e da crítica, que consideraram as alterações uma censura e uma tentativa de "sanitizar" um clássico. O próprio Spielberg mais tarde expressou arrependimento pelas mudanças, afirmando que "E.T. era um produto de sua era" e que "nenhum filme deveria ser revisado com base nas lentes atuais".
Houve também uma subtrama no roteiro original que sugeria que E.T. poderia ter uma espécie de "queda amorosa" por Mary, a mãe de Elliott. A atriz Dee Wallace revelou que se opôs a uma cena em que E.T. deixaria doces Reese's Pieces em sua mesa de cabeceira, devido à forma como o lençol a cobriria, considerando-a "inapropriada" e que comprometia a pureza do filme familiar. A cena foi ajustada para respeitar sua preocupação.
Embora não seja uma polêmica no sentido tradicional, a origem do design do E.T. foi alvo de comparações com um projeto anterior, "The Alien", do diretor indiano Satyajit Ray, que nunca foi produzido mas que teria um alienígena com aparência e sentimentos semelhantes, levantando questões sobre influências e inspirações.
Recepção, Legado e o Impacto Cultural
"E.T.: O Extraterrestre" foi um sucesso estrondoso de crítica e público desde seu lançamento. Arrecadou US$ 11,8 milhões no fim de semana de estreia, cobrindo seu orçamento de US$ 10,5 milhões, e continuou a faturar um total mundial de US$ 797,3 milhões, tornando-se a maior bilheteria de todos os tempos por 11 anos, até ser superado por outro filme de Spielberg, "Jurassic Park". Críticos aclamaram universalmente o filme, considerando-o uma das maiores e mais influentes produções já feitas.
O filme recebeu nove indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor, vencendo em quatro categorias: Melhor Trilha Sonora Original (John Williams), Melhores Efeitos Visuais, Melhor Som e Melhor Edição de Efeitos Sonoros. Conquistou também cinco Saturn Awards e dois Golden Globe Awards, incluindo Melhor Filme - Drama. O próprio Richard Attenborough, cujo filme "Gandhi" venceu o Oscar de Melhor Filme e Diretor naquele ano, expressou que "E.T." deveria ter ganhado, chamando-o de "inventivo, poderoso e maravilhoso".
O legado de "E.T." é imensurável. A imagem icônica de Elliott e E.T. voando de bicicleta em frente à lua se tornou o logotipo da Amblin Entertainment, a produtora de Spielberg. O filme é frequentemente elogiado por sua capacidade de evocar emoções genuínas, de humor a lágrimas. Críticos como Roger Ebert o descreveram como um filme "como O Mágico de Oz, que você pode crescer e envelhecer com ele, e ele não irá decepcioná-lo", destacando sua mensagem atemporal de amizade e amor. A obra de Spielberg influenciou gerações de cineastas e inspirou inúmeras outras produções, como "Stranger Things" e "Super 8", ao estabelecer o subúrbio americano como um solo fértil para o fantástico. É um testemunho do poder do cinema em tocar vidas, curar feridas e inspirar sonhos, permanecendo como um dos filmes mais pessoais de Spielberg e um clássico imortal da cultura pop.
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