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Parte IV, Capítulo 01.
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  PARTE QUATRO

Anos Depois

Sou Leonardo, como a história não é minha acredito que deva me apresentar antes de me atrever a continuá-la. Digo que estou envergonhado, tantas foram minhas falhas. É um esforço relembrar o quanto meu caráter se desvalorizou naqueles vinte meses de meus vinte dois anos. Poderia, sem encher estas páginas com desculpas, e arrependimentos, falar do porquê me tornara; tão frio e volúvel. Retenho a falar apenas do que me tornei. Deixarei estas palavras registradas, para um dia caso o Alex leia. Descubra o quanto me sinto ruim pelo que fiz.

Devo começar por aqueles últimos dias na casa, quando deixei propositadamente que Alex se envolvesse com aquelas raparigas. Estava sim, cansado daquele comportamento infantil. Tudo parecia uma doença que precisava se curar. Assim o tentei... Fui eu a tentação daquele verão. As garotas eram meros instrumentos. Mas... Confesso também que me envolvi tanto naquele clima que me apaixonei por tudo.

E Sandrinha? Como alguém pode tirar todo sossego de um homem? Não houve vez que ao colocar meus olhos sobre aquela rapariga, não me inquietasse. Ah, como me inquietava! Tinha ciúmes, medo. Compreenderia você o que eu sentia, se tivesse por vez apenas olhado àquela maravilha. Tua pele, teus cabelos, teus movimentos. Nunca esqueci! Hoje casado, aquietei, mas não ouso pensar muito nela ao preço de novamente cair em tentação, ao custo de enlouquecer, e querer outra vez me entregar a alguma perdição da carne.

Ela não aceitou o fato de eu ter que mudar de tão luxuosa casa para um quarto num cortiço. Eu a envergonharia, e assim preferi voltar para casa dos meus pais. A imagem me parecia mais honrada aos olhos preconceituosos. Fui idiota, ceguei-me, não percebia que a volúpia de Sandrinha fazia igual ou pior a minha. Em noites, quando eu estava distante, ela atirava a quem lhe desce atenção, e não demorou para me trair. Neguei aceitar o obvio ainda por três vezes até que uma manhã em que cheguei em sua casa; fui destratado:

— “Não te amo”. — disse com tanta tranquilidade.

O ódio tomou-me. Compreendia que ela não conseguia amar, logo, sai sem pronunciar nenhuma palavra. Retornei para casa e somente quando me vi seguro dos olhos alheios, quando já estava em meu quarto, chorei, por horas me revirando na cama. Devo ter criado alguma neura não buscando ajuda, porque hoje quando me lembro ainda sinto vontade de ir para cama e chorar.

Deixo de contar isto, por agora, muitos outros fatos aconteceram e o objetivo ao qual continuo esta obra não são estes.

Pedi demissão do hospital um mês após ter saído da casa. A formatura chegava e não pretendia continuar trabalhando ali. Os irmãos de meu pai, todos médicos ortopedistas. Queriam abrir uma clínica no interior de São Paulo. Precisava ir.

Desejava que o tempo passasse o mais rápido possível, e o tempo parecia responder-me à expectativa. Nada parecia bom o suficiente, até que um dia após a Aula fui ao cortiço, onde encontrei Alex escrevendo. Fiquei feliz ao ver como o jovem estava entusiasmado, ria de tudo. Ele dizia aos ventos o quanto estava apaixonado, falava do beijo, dos beijos de Maria, dos passeios que teve. Estava feliz... Passei com ele toda à tarde. Contei que não namorava mais Sandrinha, e que pretendia me mudar para São Paulo. Ele desejou sinceros votos de sorte. 

Em meio a um descontraído diálogo, descobri como era grande minha amizade.

O tempo foi mais que justo para mim, deu-me uma formatura que não demorou. Vi meu casal de heróis se divertindo, brincando... e os vi juntos em um longo beijo na rodoviária se despedindo de mim. A última vez que os vi antes de partir para São Paulo.

Em São Paulo esquecia a cada dia o que aprendi na faculdade, não era um fisioterapeuta, e sim o diretor de um pequeno hospital, um hospital que atendia a classe alta que pagavam fortunas para consolar seus hipocondríacos e calmantes aos neuróticos durante as crises daquele final de milênio. O ano 2000 e 2001 passaram, e eu não me preocupava com nada além de enriquecer. Sandrinha se arrependeria se visse o quanto consegui juntar em cinco anos.  Envolvi em tudo o que pudesse ter lucro, e a cada mês ao computar, sentia-me melancólico e depressivo. Queria mais, mais. Tinha tudo? Tinha tudo o que eu queria comprar, mas o prazer era ter dinheiro em conta, grande numerário, os investimentos lucrativos. O carro zero na garagem de meu apartamento.

Passava dias sem lembrar da pequena Anápolis, dos amigos, escola e trabalho. Tinha uma lembrança deprimente para cada um deste, e usava esses pensamentos quando queria concentrar no presente, assim reprimia o passado. Minhas noites eram sozinhas. Cansado pelo trabalho, enclausurado em meu apartamento e por vezes fui frio até mesmo com minha mãe, única que me ligava por verdadeiramente se importar, e não como tantas mulheres que se interessavam por um presente, bom partido para o fim de semana e mesmo aquelas que após uma noite de sexo já se atreviam a falar sobre casamento.

Era setembro, comemoraríamos hoje seis anos na casa? Não droga! Comemoraríamos seis anos que conheci o Alex. Neste dia deixei me envolver pelo seu amor platônico, seus devaneios. Seu jeito enfastiado, a mania de andar pelo quintal nas pouquíssimas noites frias, com uma camisa cavada, e como mergulhava. Verdade é que, não me lembrava de nenhum de seus mergulhos, e mesmo assim sabia como era extraordinário seu fôlego.

Em casa liguei o rádio numa estação FM tipo pop music e lembrei como ficamos na primeira noite junto a um pequeno rádio. Senti saudades. Alex foi importante, foi quem o apoiou a sair de casa. Pensamentos vinham, mas era desejoso dormir, o outro dia seria duro, muitas coisas deviam ser feitas. Talvez daqui a quatro meses voltasse a Goiânia por uma semana, poderia fazer uma visita ao amigo.

Foi em uma noite enquanto escovava os dentes e esperava a banheira encher, que olhei para o espelho, e vi meu rosto. Envelhecia tão lentamente que não notei. E Maria, como estaria seu rosto, e Alex...

— Alex não envelhecia... — sussurrei enquanto cuspia a espuma da pasta dental.

Levantei a cabeça rapidamente e caminhei alguns passos para trás.

— Que!? — gritei

Olhei a banheira e vi Alex mergulhando sua cabeça. Pensei estar louco. Passou uma hora para que chegasse a concluir que aquilo era real. Eu não seria capaz de imaginar tudo aquilo em poucos segundos. Era exato demais, compreensivo demais. Não tinha dúvida. Como pude esquecer que Alex era imortal? Como? Não sabia responder, mas descobriria lá, em Anápolis. Apanhei o molho de chaves e tomei a estrada de volta, cinco anos depois.

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