O Club Atlético Patronato de la Juventud Católica, conhecido simplesmente como Patronato, é uma das instituições mais singulares e resilientes do futebol argentino. Sediado em Paraná, na província de Entre Ríos, o clube atualmente disputa a Primera Nacional (a segunda divisão do futebol argentino), vivendo um período de reconstrução após tocar o céu continental com a histórica conquista da Copa Argentina de 2022 e sua consequente participação na Copa Libertadores da América de 2023.
1. Origens, Fundação e a Missão Social de Bartolomé Grella
A história do Club Atlético Patronato é indissociável da figura do Padre Bartolomé Grella, um sacerdote de profunda vocação social e fervor esportivo. No início do século XX, a cidade de Paraná passava por transformações urbanas, e o ócio dos jovens das classes populares preocupava as autoridades eclesiásticas. Em 1º de fevereiro de 1914, o Padre Grella fundou a instituição com um propósito claro: afastar os jovens das ruas e dos vícios por meio da prática esportiva e da doutrina cristã. Daí deriva o seu nome original e oficial: Club Atlético Patronato de la Juventud Católica.
Inicialmente, o clube funcionava em terrenos vizinhos à capela de Santa Teresinha. As cores do clube, o vermelho e o preto (el rojinegro), possuem uma aura de lenda local. Historiadores apontam que a escolha foi influenciada pelo Newell's Old Boys de Rosario, ou simplesmente pela disponibilidade de tecidos na época, mas o fato é que a camisa listrada verticalmente em vermelho e preto se tornou a identidade visual inconfundível do futebol entrerriano.
Durante as primeiras décadas, o Patronato consolidou sua força na Liga Paranaense de Fútbol, conquistando inúmeros títulos locais e estabelecendo-se como a maior potência da capital provincial. A transição de um projeto de caridade eclesial para um clube de futebol profissional de relevância nacional foi pavimentada pela paixão de seus associados e pela inauguração, em 1956, do seu icônico estádio, posteriormente batizado de Estádio Presbítero Bartolomé Grella, localizado no bairro de Villa Sarmiento.
2. Eras de Ouro e Campanhas Históricas
O Patronato passou grande parte de sua história disputando os torneios regionais do interior argentino, mas o clube sempre guardou momentos de brilho intenso que pavimentaram sua mística.
A Epopeia de 1978: O Primeiro Grito no Torneio Nacional
Em 1978, sob a presidência de Fernando Pascual Gan, o Patronato alcançou o direito de disputar o prestigiado Torneio Nacional da Primeira Divisão, após vencer o Torneio Regional. Foi a primeira vez que o clube mediu forças com os gigantes do futebol portenho de forma oficial. O grande marco dessa campanha ocorreu em 26 de novembro de 1978, quando o Patronato derrotou o poderoso Boca Juniors por 2 a 1 no Estádio Presbítero Grella, um feito que ecoa até hoje na memória dos torcedores mais antigos da província.
O Retorno e a Escalada Rumo à Elite (2010–2015)
Após décadas transitando pelo Torneo Argentino B e A, a era moderna do Patronato começou a desenhar-se em 2010. Sob o comando técnico de Marcelo Fuentes, o clube conquistou o acesso à Primera B Nacional ao vencer o Santamarina de Tandil. Cinco anos mais tarde, em dezembro de 2015, veio o ápice da ascensão nacional. Dirigido por Iván Delfino, o Rojinegro venceu uma final dramática nos pênaltis contra o mesmo Santamarina, com o goleiro e ídolo Sebastián Bértoli defendendo a cobrança decisiva e convertendo a sua própria. O Patronato estava, pela primeira vez no formato moderno de pontos corridos, na divisão principal do futebol argentino.
O Milagre de 2022: Campeões da Copa Argentina
Nenhum capítulo da história do clube supera o ano de 2022. Vivendo o drama do rebaixamento iminente devido à tabela de promedios (média de pontos acumulados que rege o descenso na Argentina), a equipe comandada por Facundo Sava jogou um futebol vistoso, competitivo e corajoso. Embora não tenham conseguido evitar a queda para a segunda divisão por questões matemáticas de temporadas passadas, os jogadores escreveram a página mais gloriosa do futebol de Entre Ríos ao conquistarem a Copa Argentina de 2022.
A campanha foi um verdadeiro conto de fadas futebolístico, no qual o Patronato eliminou sucessivamente os maiores clubes do país:
- Quartas de final: Eliminação do River Plate nos pênaltis, após empate em 2 a 2.
- Semifinal: Eliminação do Boca Juniors nos pênaltis, após empate em 1 a 1.
- Final: Vitória por 1 a 0 sobre o Talleres de Córdoba em Mendoza, com um gol antológico e folclórico de Tiago Banega, que finalizou de carrinho e viu a bola encobrir o goleiro adversário de forma inacreditável.
Com esse título, o Patronato alcançou o inédito direito de disputar a Copa Libertadores da América de 2023 como um clube da segunda divisão nacional, um feito extremamente raro na história do futebol sul-americano.
A Aventura Internacional de 2023
A participação na Copa Libertadores de 2023 foi histórica. O clube não pôde mandar seus primeiros jogos no Estádio Grella devido a exigências de infraestrutura da CONMEBOL (especialmente no gramado e iluminação), tendo que atuar em Santa Fe. Mesmo jogando na segunda divisão local, o Patronato venceu o Melgar do Peru por 4 a 1 e, na última rodada da fase de grupos, conquistou um triunfo histórico ao derrotar o gigante Atlético Nacional por 1 a 0 em Medellín, Colômbia. Essa vitória garantiu o terceiro lugar do grupo e a repescagem na Copa Sul-Americana, onde acabaram eliminados pelo Botafogo, mas saindo de cabeça erguida sob aplausos do continente.
3. Contexto e Momento Atual (2023–2024)
O ano de 2023 e o início de 2024 representaram um duro choque de realidade para o "Patrón". A transição de disputar torneios internacionais de elite ao mesmo tempo em que enfrentava as longas viagens e os campos difíceis da Primera Nacional cobrou o seu preço físico e financeiro. O clube sofreu com o desgaste do elenco e a perda de peças fundamentais campeãs em 2022.
Atualmente, o Patronato passa por um momento de profunda reestruturação interna. Sob a gestão da diretoria encabeçada por Dante Molina, o clube busca sanar as contas, investir fortemente nas categorias de base e modernizar a estrutura do Estádio Presbítero Bartolomé Grella. No plano esportivo, após campanhas irregulares na divisão de acesso sob o comando de técnicos como Walter Perazzo e Diego Pozo, o objetivo prioritário do clube de Paraná é estabilizar o futebol profissional para desenhar um retorno sustentável à Liga Profesional de Fútbol (Primeira Divisão).
4. Principais Ídolos e Técnicos de Época
- Sebastián Bértoli: O maior ídolo da história moderna do clube. Goleiro, capitão e batedor de pênaltis oficial, Bértoli defendeu a meta do Patronato por 16 anos (2003-2019), disputando mais de 500 partidas. Ele liderou a equipe desde o Torneo Argentino B até a consolidação na Primeira Divisão, aposentando-se como uma lenda viva do esporte entrerriano.
- Walter Andrade: O xerife da zaga. "El Negro" Andrade personificou a garra e a raça do clube, atuando em mais de 400 jogos nas campanhas de acesso e sobrevivência na elite.
- Facundo Sava: O treinador que arquitetou a glória tática de 2022. Com seu estilo ofensivo, mentalidade resiliente e capacidade de motivar um grupo desacreditado, Sava cravou seu nome para sempre na história de Paraná ao conquistar a Copa Argentina.
- Iván Delfino: O técnico estrategista que conseguiu o histórico acesso à elite em 2015, montando uma das equipes defensivamente mais sólidas da história da Primera B Nacional.
- Tiago Banega: Meio-campista cujo gol na final da Copa Argentina de 2022 garantiu a eternidade futebolística e o único título nacional de elite do clube.
5. Maiores Rivalidades
O Patronato possui duas rivalidades históricas de profunda relevância sociocultural na província de Entre Ríos:
O Clásico Paranaense: Patronato vs. Atlético Paraná
É o clássico mais antigo e tradicional da capital provincial. A rivalidade nasceu nos anos de fundação de ambas as instituições (o Club Atlético Paraná foi fundado em 1907 e o Patronato em 1914). Historicamente, o clássico dividia a cidade entre os bairros e as visões de mundo das duas torcidas. Enquanto o Patronato tinha fortes ligações com a Igreja Católica e o trabalho comunitário de Grella, o Atlético Paraná era associado aos setores ferroviários e laicos. O clássico perdeu frequência nos últimos anos devido à disparidade de divisões (com o Patronato subindo ao nível nacional e o Atlético Paraná permanecendo em ligas regionais e no Torneo Federal), mas a paixão e a tensão permanecem intactas quando as equipes se enfrentam.
O Clásico de Entre Ríos: Patronato vs. Gimnasia y Esgrima (Concepción del Uruguay)
Esta rivalidade representa a disputa geopolítica dentro da própria província de Entre Ríos. De um lado, o Patronato, representando a capital administrativa (Paraná, às margens do Rio Paraná); do outro, o Gimnasia y Esgrima de Concepción del Uruguay (localizado às margens do Rio Uruguai), historicamente uma cidade de forte relevância histórica e cultural no interior do estado. Os confrontos nos anos 1990 e 2000 pelos torneios de acesso nacionais eram marcados por estádios lotados, forte policiamento e uma atmosfera de intensa rivalidade regional.
6. Galeria de Títulos e Conquistas de Destaque
| Competição | Nível | Títulos / Conquistas | Temporadas / Anos |
|---|---|---|---|
| Copa Argentina | Nacional (Elite) | 1 (Campeão) | 2022 |
| Torneo Argentino A (Terceira Divisão) | Nacional (Acesso) | 1 (Campeão) | 2009–10 |
| Torneo Regional (Acesso ao Nacional) | Regional/Nacional | 1 (Vencedor) | 1978 |
| Torneo Reducido de la Primera B Nacional | Nacional (Acesso) | 1 (Vencedor de Acesso) | 2015 |
| Liga Paranaense de Fútbol | Provincial / Regional | Mais de 30 títulos | Era Amadora e Profissional (Histórico) |
Fontes Pesquisadas
- Asociación del Fútbol Argentino (AFA) - Arquivos Históricos de Competições.
- Diário Uno de Entre Ríos - Cobertura histórica do esporte regional.
- Revista El Gráfico - Edições históricas de 1978 e arquivos digitais sobre a final de 2022.
- Registros históricos do Club Atlético Patronato de la Juventud Católica.
- Acervo de coberturas da Copa CONMEBOL Libertadores 2023.



