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Ziegfeld - O Criador de Estrelas (1936) (Filme)
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Lançado em 1936 pela Metro-Goldwyn-Mayer, Ziegfeld - O Criador de Estrelas (The Great Ziegfeld), dirigido por Robert Z. Leonard, redefine os limites do espetáculo cinematográfico da era de ouro de Hollywood. Misturando drama biográfico e números musicais de proporções colossais, a produção não apenas imortalizou a trajetória do lendário empresário da Broadway Florenz Ziegfeld Jr. (vivido magistralmente por William Powell), mas também se consagrou como um marco tecnológico e estético, faturando o Oscar de Melhor Filme e estabelecendo o padrão ouro para as cinebiografias musicais que viriam a seguir.

Análise e Enredo

Assistir a Ziegfeld - O Criador de Estrelas é ser transportado para uma época em que o cinema não tinha medo de ser hiperbólico. Com quase três horas de duração, o filme é um monumento ao escapismo e ao gigantismo da MGM sob a égide de produtores lendários como Hunt Stromberg e o todo-poderoso chefão do estúdio, Louis B. Mayer. A narrativa acompanha de forma romanceada a ascensão meteórica, o apogeu extravagante e o declínio financeiro de Florenz "Flo" Ziegfeld Jr., um homem cuja vida foi pautada pela máxima de que a beleza e a grandiosidade artística justificavam qualquer endividamento financeiro.

A trama inicia-se na Feira Mundial de Chicago de 1893, onde Flo começa sua carreira como um audacioso promotor de atrações de entretenimento popular. Seu primeiro grande trunfo é gerenciar a carreira de Eugen Sandow, o "Homem Mais Forte do Mundo". Desde esses primeiros momentos, a rivalidade amistosa, mas feroz, com Jack Billings (Frank Morgan) é estabelecida como o motor cômico e dramático de sua jornada comercial. Através de pura lábia, elegância indomável e uma intuição estética invejável, Ziegfeld viaja à Europa, onde conhece a estrela francesa Anna Held (Luise Rainer). Ele a convence a vir para a América sob sua tutela, gerando publicidade instantânea através de golpes de marketing audaciosos — como o famoso boato de que Anna tomava banhos diários em galões de leite puro para manter a pele impecável.

O sucesso de Anna Held pavimenta o caminho para a grande obsessão de Flo: as Ziegfeld Follies. Inspiradas no cabaré francês Folies Bergère, as Follies americanas focavam na glorificação da "garota americana", misturando comédia refinada, coreografias geométricas de tirar o fôlego e figurinos de luxo sem precedentes. À medida que Ziegfeld enriquece e se torna o rei incontestável da Broadway, sua vida pessoal começa a ruir devido à sua incapacidade de separar a admiração profissional por suas estrelas de seus afetos pessoais. Isso leva ao doloroso divórcio com Anna Held e, posteriormente, ao seu casamento com a carismática atriz Billie Burke (Myrna Loy). O colapso da Bolsa de Valores de Nova York em 1929 e a consequente Grande Depressão servem como o clímax trágico de sua trajetória, varrendo sua fortuna acumulada, mas não sua paixão pela arte do espetáculo.

O Final e Seus Significados Ocultos

O terço final do longa-metragem é uma descida melancólica, contrastando fortemente com o brilho ofuscante e as cores (mesmo na fotografia em preto e branco de George J. Folsey) de seus números de dança. Doente, falido e isolado em um quarto de quarto de hotel em Nova York com vista direta para o teatro que leva o seu nome, Ziegfeld confronta o fim de sua jornada terrena. O final do filme transcende a simples narrativa biográfica para se tornar uma elegia sobre a mortalidade da carne versus a imortalidade da criação artística.

Na emblemática cena de sua morte, Ziegfeld delira, ouvindo os ecos de seus maiores sucessos do passado. A câmera realiza movimentos fluidos enquanto a trilha sonora sobrepõe vozes, aplausos e canções, culminando na repetição fantasmagórica de seu hino estético, "A Pretty Girl Is Like a Melody". O significado oculto e subtextual aqui reside no paradoxo do próprio "Show Business": o showman que "criou" tantas estrelas morre na penumbra e na solidão financeira, mas a ilusão coletiva que ele vendeu ao público permanece intacta, pairando no ar como um monumento imaterial. A transição de Flo de um homem de negócios falido para um mito imaterial é selada quando ele murmura suas últimas palavras, exigindo mais luzes e cenários mais altos, provando que, para a mente de um gênio criativo, a realidade sempre foi uma mera imperfeição a ser corrigida pelo teatro.

Elenco e Atuações de Destaque

O sucesso dramático de Ziegfeld ancora-se em um trio de atuações fenomenais. William Powell entrega uma performance irretocável que equilibra perfeitamente o charme canalha, a sofisticação aristocrática e a vulnerabilidade obsessiva do protagonista. Powell, conhecido por sua química inigualável com Myrna Loy (parceria consagrada na franquia de comédia policial The Thin Man), encontra em Loy a âncora emocional perfeita para a segunda metade do filme. Loy interpreta Billie Burke com uma dignidade doce e uma força silenciosa, servindo de contraponto ideal à extravagância por vezes infantil do marido.

No entanto, o verdadeiro furacão dramático do filme atende pelo nome de Luise Rainer. Sua interpretação como Anna Held é de uma intensidade devastadora. A famosa cena em que Anna telefona para Flo para parabenizá-lo por seu novo casamento com Billie Burke — enquanto tenta conter as lágrimas e manter uma voz alegre e descompromissada ao bocal do telefone — é amplamente considerada um dos momentos mais antológicos da história do cinema mundial. Essa única cena praticamente garantiu a Rainer o primeiro de seus dois prêmios consecutivos de Melhor Atriz no Oscar (ela ganharia novamente no ano seguinte por Terra dos Deuses), um feito histórico que demonstrou a força de sua atuação visceral e naturalista em meio a uma produção gigantesca e altamente estilizada.

Curiosidades de Bastidores e a Lendária Escada Espiral

  • A Sequência "A Pretty Girl Is Like a Melody": Este número musical é lendário na história de Hollywood por sua escala monumental. O cenógrafo Cedric Gibbons projetou uma estrutura giratória em espiral de mais de 20 metros de altura, pesando cerca de 100 toneladas, coberta por cortinas de seda gigantescas e habitada por centenas de figurantes, cantores e dançarinas. O custo dessa única sequência foi estimado em $220.000 (um valor astronômico para 1936, equivalente a milhões de dólares hoje), demorando semanas para ser devidamente iluminada e filmada sob a coreografia premiada de Seymour Felix.
  • Alunos Reais das Follies no Set: Para trazer autenticidade ao filme, a MGM fez questão de contratar estrelas reais que foram originalmente descobertas e promovidas por Ziegfeld, como a comediante Fanny Brice (interpretando a si mesma com sua energia cômica habitual) e Ray Bolger (o futuro Espantalho de O Mágico de Oz), além do próprio compositor Irving Berlin, que fez aparições e colaborou com a curadoria musical.
  • A Troca de Estúdios: O projeto foi originalmente desenvolvido pela Universal Pictures. Contudo, devido aos custos crescentes de pré-produção e à saúde financeira extremamente debilitada da Universal na época, os direitos e o material já produzido foram vendidos para a rival MGM, que era o único estúdio com liquidez financeira suficiente para realizar a visão megalomaníaca do projeto sem cortes de orçamento.

Polêmicas e Imprecisões Históricas

Como a esmagadora maioria das cinebiografias produzidas durante a vigência do rígido Código de Censura Hays, Ziegfeld - O Criador de Estrelas toma liberdades poéticas extremas, operando quase como uma peça de hagiografia (santificação do biografado). A maior polêmica reside no "branqueamento" sistemático do caráter de Florenz Ziegfeld. Na vida real, o produtor era conhecido por suas traições conjugais crônicas, seu temperamento explosivo com funcionários, sua frieza implacável nas negociações de bastidores e uma irresponsabilidade financeira crônica que beirava a inconsequência patológica.

Outro ponto de atrito de bastidores envolveu a própria Billie Burke. Viúva real de Ziegfeld e atriz de sucesso em Hollywood, Burke atuou como consultora técnica ativa do filme, mas não pôde interpretar a si mesma na tela porque os executivos da MGM consideraram que, aos 50 anos de idade, ela era "velha demais" para interpretar sua versão de juventude nas telas. A escalação de Myrna Loy gerou desconforto inicial nos bastidores, embora Burke tenha eventualmente elogiado publicamente a delicadeza da performance de Loy. Além disso, a lendária dançarina Marilyn Miller recusou-se categoricamente a participar do filme ou a permitir o uso de seu nome devido a disputas financeiras históricas com o espólio de Ziegfeld, forçando os roteiristas a criar a personagem fictícia "Audrey Dane" (vivida por Virginia Bruce) como um amálgama de Miller e outras dançarinas autodestrutivas das Follies.

Recepção Crítica, Bilheteria e Legado

No seu lançamento em abril de 1936, o filme foi um sucesso estrondoso de público e de crítica. Arrecadou mais de 4,6 milhões de dólares mundialmente, uma soma colossal para o período de depressão econômica, justificando plenamente o altíssimo investimento de produção da MGM. A crítica da época elogiou unanimemente a grandiosidade visual e a capacidade do filme de transpor a atmosfera vibrante da Broadway para a película de cinema de forma orgânica.

Na 9ª edição do Oscar, realizada em 1937, o filme consolidou sua relevância histórica ao vencer três estatuetas de peso: Melhor Filme, Melhor Atriz (Luise Rainer) e Melhor Direção de Dança (Seymour Felix), além de ter sido indicado em outras quatro categorias técnicos e de roteiro. O legado duradouro de The Great Ziegfeld reside no fato de ele ter estabelecido as convenções do subgênero de biografia musical de Hollywood: a estrutura narrativa em ascensão e queda, o casamento sacrificado em prol da obsessão artística, a redenção final através do espetáculo e a utilização de números musicais não apenas como entretenimento isolado, mas como espelhos psicológicos da alma de seus personagens.

Fontes Pesquisadas

  • American Film Institute Catalog: afi.com/catalog/catalog-of-feature-films
  • Internet Movie Database: imdb.com/title/tt0027698
  • Rotten Tomatoes: rottentomatoes.com/m/great_ziegfeld
  • Academy of Motion Picture Arts and Sciences (Oscars Database): oscars.org/oscars/ceremonies/1937
  • Filmsite by Tim Dirks: filmsite.org

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