Vencedor de quatro prêmios Oscar, incluindo o de Melhor Filme, Hamlet (1948), adaptado, dirigido e estrelado por Sir Laurence Olivier, é um marco monumental da história do cinema clássico. Ao transpor a obra-prima trágica de William Shakespeare para as telas, Olivier não apenas desafiou as convenções teatrais de sua época, mas também fundiu a profundidade do texto elisabetano com a estética expressionista do cinema noir e as nascentes teorias da psicanálise freudiana, legando à posteridade um estudo psicológico sombrio, gótico e visualmente revolucionário sobre a procrastinação, a loucura e a decadência moral de uma dinastia.
Análise e Enredo
Laurence Olivier inicia sua ambiciosa adaptação de Hamlet com uma declaração que ecoaria por décadas na crítica cinematográfica: "Esta é a tragédia de um homem que não conseguia se decidir". Esta premissa simplificadora, longe de reduzir a complexidade da obra de Shakespeare, funciona como a chave de portal para a exploração psicológica que Olivier pretendia realizar. O filme se afasta do realismo histórico para abraçar um expressionismo claustrofóbico. O castelo de Elsinore não é um cenário de pedra realista, mas uma projeção da mente torturada do príncipe da Dinamarca — um labirinto infinito de corredores vazios, escadarias sinuosas, névoa persistente e abismos escuros.
O Enredo: A Tragédia no Labirinto de Elsinore
A narrativa acompanha a clássica jornada de Hamlet, o Príncipe da Dinamarca, que retorna ao seu lar após a morte repentina de seu pai, o Rei. Ao chegar, ele encontra a corte em um estado de celebração moralmente questionável: seu tio, Cláudio, usurpou o trono e casou-se apressadamente com a rainha viúva, Gertrudes, mãe de Hamlet. A melancolia profunda do jovem príncipe se transforma em fúria e obsessão quando o fantasma de seu falecido pai surge nas muralhas do castelo, revelando ter sido assassinado por Cláudio com veneno gotejado em seu ouvido enquanto dormia. O espectro exige vingança.
Para mascarar suas intenções e investigar a veracidade da aparição, Hamlet decide fingir demência. Essa falsa loucura consome seus relacionamentos, principalmente com Ofélia, sua pretendente, cujo pai, o pomposo conselheiro Polônio, acredita que a demência do príncipe é fruto de um amor não correspondido. Hamlet adota um jogo mental impiedoso. Quando uma trupe de atores itinerantes chega a Elsinore, ele altera o roteiro da peça a ser encenada (intitulada pelo príncipe como "A Ratonera") para mimetizar exatamente o assassinato de seu pai. A reação de pânico e culpa de Cláudio durante a apresentação confirma a acusação do fantasma.
Decidido a agir, mas paralisado por constantes dilemas morais e existenciais, Hamlet perde a oportunidade de matar Cláudio enquanto este reza. Logo em seguida, em uma confrontação violenta no quarto de sua mãe, o príncipe percebe um vulto atrás das tapeçarias e, acreditando ser o rei usurpador, desfere um golpe mortal — apenas para descobrir que matou o inocente Polônio. Esse erro trágico sela o destino de Elsinore. Cláudio bane Hamlet para a Inglaterra, planejando secretamente sua execução no exterior, enquanto Ofélia, despedaçada pela dor da morte de seu pai pelas mãos de seu amado, perde a sanidade e morre afogada em um riacho.
O Desfecho Desolador: O Significado Oculto do Fim
O retorno de Hamlet à Dinamarca coincide com o funeral de Ofélia. Sedento por vingança e manipulado por Cláudio, Laertes, irmão de Ofélia, desafia Hamlet para um duelo de esgrima. O que parece ser uma disputa esportiva de honra é, na verdade, uma armadilha mortal tripla orquestrada pelo Rei: a ponta do florete de Laertes está embebida em um veneno letal instantâneo, e uma taça de vinho envenenada é preparada caso Hamlet sinta sede durante o combate.
O clímax é uma coreografia de pura tragédia shakespeariana. Durante o duelo, a Rainha Gertrudes, celebrando o desempenho do filho, bebe acidentalmente da taça envenenada e morre. Na confusão que se segue, Laertes fere Hamlet com a lâmina contaminada. No entanto, em um embate físico violento, as espadas são trocadas e Hamlet desarma e fere gravemente Laertes com o próprio florete envenenado. À beira da morte, Laertes confessa a conspiração do Rei.
Em um ímpeto final de fúria e resolução, Hamlet ataca Cláudio, forçando-o a beber o restante do vinho envenenado e trespassando-o com a espada maldita. Com a justiça finalmente feita, mas a um custo humano absoluto, Hamlet desaba nos braços de seu leal amigo Horácio. Suas famosas últimas palavras — "O resto é silêncio" — ecoam pelo salão principal de Elsinore.
O Significado Oculto do Final de Olivier: Diferente do texto original de Shakespeare, onde o príncipe norueguês Fortebrás invade o castelo logo após a carnificina e assume o controle político de uma Dinamarca pacificada, Olivier optou por cortar completamente o personagem de Fortebrás de seu filme. O impacto dessa decisão é profundo. Sem o líder militar estrangeiro para restaurar a ordem social, o final de Olivier foca inteiramente na tragédia existencial e no vácuo de poder absoluto. Elsinore torna-se um mausoléu de ambições frustradas. A cena final mostra o corpo de Hamlet sendo carregado em um cortejo fúnebre solene até o topo da torre mais alta do castelo, recortado contra as nuvens escuras. O sacrifício de Hamlet não limpa o Estado da Dinamarca para um novo recomeço político; em vez disso, ele apaga a dinastia corrupta por completo, transformando o herói trágico em um ícone de martírio existencial cuja dor transcende a própria política.
Elenco e Atuações de Destaque
O elenco de Hamlet (1948) é historicamente lembrado tanto por sua excelência dramática quanto por suas dinâmicas curiosas de bastidores:
- Laurence Olivier (Hamlet): Aos 41 anos, Olivier interpretou o príncipe que, no texto original, costuma ser retratado como um jovem universitário de cerca de 30 anos. Para mitigar o peso da idade e dar um aspecto mais fantasmagórico e poético ao personagem, Olivier descoloriu o cabelo, adotando um loiro platinado marcante. Sua atuação é uma mistura fascinante de vigor físico (ele realiza acrobacias impressionantes nas cenas de ação) e introspecção teatral profunda. Os solilóquios de Hamlet não são simplesmente declamados para a câmera; muitos deles são tratados como monólogos internos, onde ouvimos a voz mental de Olivier enquanto seu rosto expressa a angústia em silêncio absoluto.
- Jean Simmons (Ofélia): Com apenas 18 anos na época das filmagens, Jean Simmons entregou uma das interpretações mais pungentes e etéreas da história do cinema. Sua Ofélia é de uma fragilidade devastadora. A famosa cena da loucura, onde ela distribui flores imaginárias, e seu subsequente desfalecimento físico no rio foram aclamados pela crítica, rendendo-lhe uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante e lançando-a ao estrelato internacional.
- Eileen Herlie (Rainha Gertrudes): Uma das maiores excentricidades do elenco reside na escalação de Herlie para o papel da mãe de Hamlet. Na vida real, a atriz escocesa tinha apenas 28 anos de idade durante as filmagens — sendo treze anos mais jovem do que seu filho na tela, Laurence Olivier. Essa discrepância cronológica, longe de arruinar o filme, foi utilizada deliberadamente por Olivier para acentuar a estranheza visual e a tensão sexual freudiana entre mãe e filho.
- Basil Sydney (Rei Cláudio): Sydney entrega um Cláudio calculista, cujos momentos de aparente arrependimento e oração contrastam com sua natureza essencialmente oportunista e cruel. Ele serve como o contrapeso político perfeito para a volatilidade poética de Hamlet.
Bastidores, Curiosidades e a Estética Noir
A produção de Hamlet foi marcada por inovações técnicas audaciosas e decisões de direção que redefiniram o cinema de época. Olivier, que já havia dirigido o aclamado e colorido Henrique V (1944), decidiu que Hamlet deveria ser filmado em preto e branco austero. Ele acreditava que a ausência de cores ajudaria a focar na psicologia dos personagens e a dar ao filme um tom de "gravura em metal".
O diretor de fotografia Desmond Dickinson utilizou extensivamente a técnica de Deep Focus (foco profundo), inspirada diretamente no trabalho de Gregg Toland em Cidadão Kane (1941). Essa escolha técnica permitia que personagens em primeiro plano e elementos situados no fundo de cenários imensos permanecessem perfeitamente nítidos. O resultado visual é uma sensação constante de espionagem: a câmera frequentemente espreita os personagens através de colunas e arcos de pedra, enfatizando que em Elsinore "o mundo é uma prisão" e todos estão sendo vigiados.
Curiosidades Físicas e Acidentais: Durante a cena climática do assassinato de Cláudio, Olivier realizou ele mesmo o salto acrobático de uma plataforma elevada sobre o dublê que interpretava o Rei (que substituiu Basil Sydney na cena de ação física extrema). O impacto foi tão violento que o dublê perdeu dois dentes e ficou inconsciente por alguns minutos, enquanto Olivier machucou gravemente o peito. Outro fato notório é que o próprio Olivier dublou a voz do espectro do Rei doente, utilizando gravações desaceleradas para criar um efeito sobrenatural e assustador, sugerindo implicitamente que o fantasma do pai e o próprio Hamlet compartilhavam a mesma voz interior.
A Grande Polêmica: O Corte de Personagens e a Psicanálise Freudiana
Apesar de seu sucesso estrondoso, a versão de Olivier de Hamlet não escapou de severas controvérsias, principalmente entre os puristas da literatura shakespeariana. A principal polêmica girou em torno dos cortes drásticos que Olivier realizou no texto original. Cerca de metade das falas de Shakespeare foram eliminadas para fazer com que o filme coubesse em uma duração de duas horas e meia.
Personagens cruciais para a subtrama política e cômica da peça, como os cortesãos Rosencrantz e Guildenstern (amigos de faculdade de Hamlet), foram completamente limpos da narrativa. A exclusão da dupla indignou críticos literários que viam neles um alívio cômico essencial e um espelho da desconfiança humana. A resposta de Olivier a essas críticas foi pragmática: "Tive de escolher entre fazer um filme de cinco horas extremamente fiel ou uma obra cinematográfica que funcionasse artisticamente em seu próprio meio."
A outra grande linha de controvérsia foi a forte e explícita interpretação freudiana adotada por Olivier. Fortemente influenciado pelo ensaio psicanalítico de Ernest Jones (biógrafo oficial de Sigmund Freud), intitulado "Hamlet and Oedipus", Olivier carregou a relação entre o Príncipe e a Rainha Gertrudes de forte tensão sexual. Na famosa cena do quarto da Rainha (a "closet scene"), o confronto verbal entre mãe e filho atinge um ápice de fúria que se resolve com um beijo apaixonado na boca — um momento de óbvia conotação edipiana que chocou parte do público mais conservador de 1948 e gerou intensos debates acadêmicos sobre os limites da interpretação da obra de Shakespeare.
Recepção, Prêmios e o Legado no Cinema
O impacto de Hamlet na indústria cinematográfica foi sísmico. Embora alguns críticos britânicos tenham torcido o nariz para as liberdades textuais tomadas por Olivier, a recepção internacional foi de assombro artístico. O filme foi o grande vencedor do Festival de Cinema de Veneza de 1948, levando o prestigiado Leão de Ouro.
Na cerimônia do Oscar de 1949, o longa-metragem fez história ao se tornar a primeira produção britânica e a primeira produção inteiramente financiada fora dos Estados Unidos a vencer a categoria de Melhor Filme. Ao todo, a obra levou quatro estatuetas douradas para casa:
- Melhor Filme
- Melhor Ator (Laurence Olivier)
- Melhor Direção de Arte em Preto e Branco
- Melhor Figurino em Preto e Branco
Olivier também foi indicado ao Oscar de Melhor Diretor, consolidando seu status como o maior tradutor de Shakespeare para o cinema. O sucesso comercial de Hamlet provou aos grandes estúdios de Hollywood que o público de massa estava disposto a consumir tragédias clássicas de alta cultura, desde que estas fossem embaladas com dinamismo visual e força cinematográfica.
Sete décadas após seu lançamento, o Hamlet de 1948 permanece como a régua de medição pela qual todas as outras adaptações cinematográficas da peça são julgadas. Seja na versão hiper-colorida de Kenneth Branagh (1996) ou na leitura pop-moderna de Michael Almereyda (2000), a sombra do Elsinore expressionista de Laurence Olivier continua a pairar sobre qualquer cineasta que ouse se aventurar pela mente do príncipe dinamarquês.
Fontes Pesquisadas
- British Film Institute (BFI): bfi.org.uk/films-tv-people/4ce2b6b0a1d95
- The Academy of Motion Picture Arts and Sciences (Oscars): oscars.org/oscars/ceremonies/1949
- The Criterion Collection - Essays on Laurence Olivier's Hamlet: criterion.com/current/posts/52-hamlet
- Roger Ebert - Great Movies Review of Hamlet (1948): rogerebert.com
- Internet Movie Database (IMDb) - Hamlet (1948) Production Notes: imdb.com/title/tt0040413
























