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...E o Vento Levou (1939) (Filme)
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Lançado em 1939 e dirigido oficialmente por Victor Fleming, ...E o Vento Levou (Gone with the Wind) é o ápice do melodrama histórico e a obra-prima definitiva da Era de Ouro de Hollywood. Produzido pelo obsessivo David O. Selznick, o longa transpôs o best-seller de Margaret Mitchell para as telas de cinema em uma escala monumental, redefinindo o conceito de superprodução, estabelecendo recordes históricos de bilheteria e moldando, para o bem e para o mal, o imaginário cultural global sobre a Guerra Civil Americana.

Análise e Enredo

...E o Vento Levou não é apenas um filme; é um monumento cinematográfico de quase quatro horas que narra a derrocada do Sul aristocrático dos Estados Unidos através da trajetória de uma das personagens mais complexas, egoístas e fascinantes da história da arte: Scarlett O'Hara (Vivien Leigh).

A narrativa é dividida nitidamente em duas grandes partes, separadas pela devastação da Guerra de Secessão (1861–1865). Na primeira metade, somos apresentados a Scarlett, a bela, voluntariosa e mimada herdeira da plantação de algodão Tara, na Geórgia. Scarlett é obcecada por Ashley Wilkes (Leslie Howard), um homem refinado e melancólico que, para desespero dela, decide se casar com sua doce e altruísta prima, Melanie Hamilton (Olivia de Havilland). Durante um churrasco na plantação vizinha de Twelve Oaks, a rebeldia de Scarlett chama a atenção de Rhett Butler (Clark Gable), um aventureiro cínico, pragmático e banido da boa sociedade sulista, que antevê a inevitável derrota do Sul na guerra iminente.

Com o início do conflito, os homens partem para o combate. Para se vingar de Ashley, Scarlett se casa apressadamente com Charles Hamilton, irmão de Melanie, que morre de pneumonia logo no início das hostilidades sem sequer entrar em batalha. Viúva e entediada, Scarlett muda-se para Atlanta para morar com Melanie. À medida que as forças da União avançam, Atlanta é cercada e bombardeada. O clímax desta primeira parte é a fuga desesperada de Scarlett e Melanie (que acaba de dar à luz) de uma Atlanta em chamas, guiadas por Rhett Butler. No entanto, Rhett as abandona na estrada para se alistar no exército confederado agonizante, deixando Scarlett com a missão de guiar o grupo de volta a Tara.

Ao chegar à sua terra natal, Scarlett encontra um cenário de desolação absoluta: sua mãe faleceu de febre tifoide, seu pai enlouqueceu de dor, a plantação foi saqueada e os campos estão estéreis. É nesse momento de miséria extrema que a personagem transiciona de garota mimada para sobrevivente implacável. Sob o céu crepuscular de Tara, ela faz o seu juramento mais famoso: "Deus é minha testemunha... eu nunca mais passarei fome!".

A segunda parte detalha a era da Reconstrução. Scarlett assume as rédeas de Tara com punho de ferro. Para pagar os impostos abusivos impostos pelos vencedores do Norte, ela rouba o noivo de sua irmã, o comerciante Frank Kennedy, casando-se com ele por dinheiro. Ela se torna uma empresária implacável no ramo madeireiro, desafiando as convenções sociais da época e gerando o desprezo de seus pares. Após Frank ser morto em um confronto armado decorrente de uma retaliação do clã sulista, Scarlett, agora viúva pela segunda vez, finalmente aceita se casar com Rhett Butler, que acumulou uma imensa fortuna durante a guerra.

O casamento, embora repleto de luxo e paixão física, é fadado ao fracasso devido à obsessão contínua de Scarlett por Ashley Wilkes. A dinâmica do casal deteriora-se drasticamente após o nascimento de sua filha, Bonnie Blue Butler. A tragédia se abate sobre a família quando a pequena Bonnie morre em um acidente de pônei, quebrando o último elo emocional que unia Rhett e Scarlett. Pouco depois, Melanie morre devido a complicações de uma segunda gravidez, revelando a Scarlett a dolorosa verdade: Ashley sempre amou apenas Melanie, e o sentimento que ela nutria por ele era apenas a ilusão de um desejo infantil não realizado. Scarlett percebe, tarde demais, que o verdadeiro amor de sua vida sempre foi Rhett Butler.

Desconstruindo o Desfecho: Significados Ocultos e a Redenção da Terra

O final de ...E o Vento Levou é amplamente considerado um dos mais poderosos e melancólicos da história do cinema. Ao perceber que ama Rhett, Scarlett corre para encontrá-lo em sua mansão em Atlanta, apenas para encontrá-lo arrumando as malas para partir permanentemente. Ela implora por seu perdão e amor, perguntando desesperadamente: "Se você for, o que farei? Para onde irei?". A resposta de Rhett é a frase mais icônica da cultura pop ocidental: "Frankly, my dear, I don't give a damn" ("Sinceramente, minha querida, eu não dou a mínima").

Rhett vai embora sob a névoa, deixando Scarlett chorando nos degraus da escada. No entanto, em vez de se entregar à derrota absoluta, a essência resiliente de Scarlett ressurge. Ela ouve as vozes ecoando de seu pai, de Ashley e de Rhett, lembrando-a de que sua força sempre esteve ligada à terra vermelha de Tara. Ela levanta a cabeça, limpa as lágrimas e proclama suas palavras finais: "Afinal, amanhã é outro dia!".

Este desfecho carrega profundos significados psicológicos e temáticos:

  • A Desilusão do Romantismo Vitoriano: O filme inteiro desconstrói a fantasia romântica do Sul aristocrático. Ashley Wilkes representa esse ideal moribundo — fraco, saudosista e incapaz de se adaptar ao mundo moderno. Ao rejeitar Ashley e ser rejeitada por Rhett, Scarlett é forçada a encarar a realidade despida de suas fantasias juvenis.
  • A Terra como Única Constante: Em uma narrativa onde casamentos, fortunas, impérios e vidas são levados pelo vento da história, apenas a terra (Tara) permanece. A terra é apresentada quase como uma divindade pagã, a fonte da força vital de Scarlett. O retorno a Tara não é uma derrota, mas um rito de purificação e reconexão com suas raízes.
  • A Ambiguidade da Sobrevivência: Scarlett sobreviveu à guerra, à fome e à pobreza, mas o custo de sua sobrevivência foi a perda de sua própria humanidade e das pessoas que realmente a amavam. O final deixa em aberto se ela conseguirá reconquistar Rhett ou se está condenada a ser a rainha solitária de um império de terra vermelha e lembranças dolorosas.

Elenco e Atuações de Destaque

O sucesso e a longevidade do filme devem-se em grande parte ao seu elenco perfeitamente escalado, cujos desempenhos definiram suas carreiras:

  • Vivien Leigh (Scarlett O'Hara): A atriz britânica, até então pouco conhecida em Hollywood, entregou uma das atuações mais viscerais do cinema. Leigh capturou com perfeição a transição de Scarlett de uma jovem fútil e manipuladora para uma mulher endurecida pelas circunstâncias, equilibrando uma antipatia quase magnética com uma vulnerabilidade tocante. Sua performance lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz.
  • Clark Gable (Rhett Butler): O "Rei de Hollywood" era a escolha unânime do público para o papel. Gable trouxe um charme cafajeste, inteligência aguda e uma masculinidade magnética que serviram como o contraponto perfeito para a volatilidade de Scarlett. Sua vulnerabilidade na cena em que chora a perda da filha humanizou um personagem que poderia ter sido apenas um canalha cínico.
  • Hattie McDaniel (Mammy): Como a governanta fiel de Tara, McDaniel entregou uma atuação de enorme dignidade, calor humano e autoridade moral, servindo muitas vezes como a verdadeira bússola ética de Scarlett. Sua performance entrou para a história ao fazer dela a primeira pessoa negra a ser indicada e a vencer um prêmio da Academia (Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante).
  • Olivia de Havilland (Melanie Hamilton): Em contraste com a agressividade de Scarlett, de Havilland interpretou a personificação da bondade, graça e resiliência silenciosa. Sua Melanie não é boba, mas sim uma mulher de força moral inabalável, cuja fé incondicional em Scarlett atua como o único freio social e emocional desta última.

Bastidores Tribulados e Curiosidades

A produção de ...E o Vento Levou foi um dos empreendimentos mais caóticos, caros e obsessivos da história do entretenimento, capitaneada pelo megalômano produtor David O. Selznick.

  • A Busca por Scarlett: Selznick promoveu uma das maiores campanhas de elenco da história, entrevistando mais de 1.400 mulheres e testando dezenas de atrizes consagradas, incluindo Bette Davis, Paulette Goddard, Lana Turner e Joan Crawford. O processo custou cerca de 100 mil dólares na época. Vivien Leigh foi escalada de última hora, quando as filmagens da emblemática cena do incêndio de Atlanta já haviam começado (usando dublês).
  • A Dança dos Diretores: O filme teve três diretores principais. George Cukor, o diretor original, passou dois anos na pré-produção, mas foi demitido após poucas semanas de filmagem por conflitos criativos com Selznick e porque Clark Gable temia que Cukor (conhecido como um "diretor de mulheres") priorizasse as atrizes em detrimento de seu papel. Victor Fleming foi trazido para substituí-lo, mas sofreu um colapso nervoso devido à exaustão e à pressão de Selznick. Durante o afastamento de Fleming, Sam Wood assumiu a cadeira de direção. No final, Fleming recebeu o crédito exclusivo.
  • A Escrita do Roteiro: O roteirista principal foi Sidney Howard, mas Selznick, insatisfeito, contratou diversos escritores de renome para reescrever partes do texto em segredo, incluindo o lendário autor F. Scott Fitzgerald.
  • A Censura e o "Damn": O Código de Censura Hays proibia terminantemente o uso de profanidades no cinema, incluindo a palavra "damn". Selznick teve que travar uma batalha intensa e pagar uma multa de 5.000 dólares para garantir que a frase icônica de Rhett Butler permanecesse intacta no corte final.

Polêmicas, Racismo e o Mito da "Causa Perdida"

À medida que as décadas passaram, ...E o Vento Levou tornou-se um dos objetos de estudo mais divisivos e debatidos da história cultural americana, sendo alvo de severas críticas de historiadores e ativistas dos direitos civis.

O cerne da polêmica reside na forma como o filme idealiza e romantiza o Sul escravocrata pré-Guerra Civil, propagando a chamada tese histórica revisionista da "Causa Perdida" (Lost Cause). O filme apresenta o Sul como uma terra idílica de cavalheirismo, honra e harmonia social, ignorando deliberadamente a brutalidade sistêmica, a desumanização e a violência da escravidão. Os escravizados são retratados através de estereótipos paternalistas: são dóceis, submissos, profundamente leais aos seus "senhores" e parecem felizes com sua condição servil.

Embora Selznick tenha suavizado os elementos mais explicitamente racistas do romance original de Margaret Mitchell — como a participação ativa de personagens na Ku Klux Klan durante a Reconstrução —, o filme ainda perpetua uma visão caricata da população negra. A personagem Prissy (Butterfly McQueen) é retratada como histérica e ignorante, uma representação que a própria atriz declarou detestar interpretar.

O ápice dessa contradição histórica ocorreu na própria cerimônia do Oscar em 1940. Hattie McDaniel, apesar de ter feito história ao vencer o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante, foi proibida de sentar-se à mesa com seus colegas de elenco (Vivien Leigh, Clark Gable e o produtor David O. Selznick) devido às leis de segregação racial do hotel Ambassador, em Los Angeles, onde a cerimônia foi realizada. Ela foi relegada a uma mesa nos fundos do salão.

Nos últimos anos, o filme passou por reavaliações institucionais. Em 2020, em meio aos protestos globais por justiça racial, a plataforma de streaming HBO Max retirou temporariamente o filme de seu catálogo, reinserindo-o semanas depois acompanhado de uma introdução contextualizada da historiadora de cinema Jacqueline Stewart, que discute as representações racistas e o contexto histórico do Sul escravocrata.

Recepção, Bilheteria e Legado Imorredouro

Apesar de suas pesadas controvérsias ideológicas, o impacto estético, técnico e comercial de ...E o Vento Levou é incontestável. Na cerimônia do 12º Oscar, o filme quebrou recordes ao receber 13 indicações e vencer 10 prêmios (8 competitivos e 2 honorários), incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante.

Em termos de bilheteria, o longa-metragem permanece como o maior fenômeno financeiro da história do entretenimento. Quando ajustada pela inflação monetária global, a bilheteria de ...E o Vento Levou ultrapassa a marca de 3,7 bilhões de dólares, superando blockbusters modernos como Avatar e Star Wars: O Despertar da Força, consolidando-se como o filme de maior bilheteria de todos os tempos.

O filme estabeleceu os padrões para o que hoje entendemos como o "épico de Hollywood": o uso revolucionário do Technicolor de três tiras para pintar paisagens dramáticas, a trilha sonora arrebatadora e ininterrupta composta por Max Steiner, e a capacidade de fundir uma narrativa íntima e romântica com o pano de fundo de colossais transformações históricas. Trata-se de um testamento da ambição da era dos estúdios; uma obra de arte imperfeita, ideologicamente problemática, mas de uma grandiosidade visual e narrativa que o vento do tempo jamais conseguiu apagar.

Fontes Pesquisadas

  • American Film Institute (AFI) - afi.com
  • The Academy of Motion Picture Arts and Sciences (Oscars) - oscars.org
  • Box Office Mojo (Adjusted for Inflation Rankings) - boxofficemojo.com
  • The Hollywood Reporter (Archives on David O. Selznick) - hollywoodreporter.com
  • Encyclopædia Britannica (Gone with the Wind Analysis) - britannica.com
  • Turner Classic Movies (TCM) Database - tcm.com

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