Caso não conheça nada do caso, minha sugestão é que leia a dramatização depois, e continue lendo os demais artigos. Retorne aqui quando quiser se aventurar pelo imaginário.
[Essa é uma obra de ficção escrita por Silvio Lobo (silviolobo.com.br), em seu celular, enquanto esperava o sono chegar. O evento e os personagens são verdadeiros, mas o que temos aqui não é a verdade, é, tão somente, a opinião de um curioso no assunto. Vamos comigo nos aventurar em um exercício de lógica e imaginação.]
Se realmente quer ler a dramatização (com elementos de ficção, inspirados em fatos reais) antes dos fatos, clique em leia mais...
São 14 horas do dia 08 de junho de 1985. Quatro escoteiros (Marco, Ramatis, Rodrigo e Osvaldo) e seu chefe, Juan, estavam a caminho do cume do Pico dos Marins. Durante boa parte da manhã, até aquele momento, o grupo já havia perambulado perdido pela região, já que o chefe parecia não ter a mínima ideia de como chegar ao seu objetivo e negara (ou havia negado) toda a ajuda que apareceu pela frente na manhã daquele dia.
Osvaldo pisa em falso entre as pedras e sente intensa dor devido ao mal-jeito no joelho. Percebendo a dor do escoteiro, o chefe abandona o ataque ao cume e vislumbra uma nova empreita — já que caminhar pela natureza não era, de longe, uma habilidade sua. Ele pretende usar a oportunidade para uma atividade cujo objetivo era prestar socorro ao jovem.
São apresentadas ideias de como realizar o "salvamento"; a primeira hipótese seria fazer uma maca. Até arrancaram alguns arbustos, mas logo desprezaram essa tentativa sob a alegação de que não existia árvore grande o suficiente para fazer tal equipamento. No íntimo, a ideia de carregar um garoto de 15 anos pico abaixo já tinha amadurecido em suas mentes e se tornado claro e óbvio que descer com o jovem machucado, dando-lhe o ombro para se apoiar, seria o apropriado. E foi o que fizeram.
A ideia de que alguém devesse ir na frente surgiu. E, embora inútil e irresponsável, ela foi ponderada e acolhida pelo único adulto do grupo. E quem irá na frente?
Juan escolheu o mais franzino, um jovem com deficiência visual, eleito para uma aventura incerta em busca de socorro em terreno desconhecido. O chefe poderia, assim, fazer do escoteiro uma espécie de herói (essa foi a hipótese dita pelo colega escoteiro, Rodrigo, quase 40 anos depois).
Além da escolha do jovem mais frágil para a aventura — um clichê —, também existia uma maior afinidade entre o chefe e a família de Marco. Juan passara a noite anterior à viagem na casa da família de Marco e conhecia a história de luta, bravura e superação dessa criança que tinha tudo para ser menos, mas, por esforço, sempre foi mais.
Marco saiu na frente com um apito e algumas folhas de jornais entregues por Osvaldo, para que ele colocasse debaixo da roupa e se protegesse um pouco do frio.
Eram 14h30 quando o grupo viu a última marcação de Marco. E depois de apitar duas ou três vezes, e terem a resposta de Marco, de repente, apitaram e não ouviram mais resposta do amigo.
O grupo de três escoteiros e o chefe chegou junto a duas grandes pedras separadas por uma fenda, onde estava estampado o caminho tomado por Marco, pela anotação "240" (número do agrupamento Olivetano, do qual os escoteiros faziam parte) e uma seta.
Marco passou entre as pedras e seguiu, depois, o caminho à direita, trajeto que o levaria ao Morro do Careca.
Já Juan, ao ver o caminho à direita "antes" da pedra, ponderou que, sendo uma descida, seria o mais fácil, e que Marco também desceria. E lá na frente, como se pensasse que todas as águas um dia se encontram no mar, ele conduziu os garotos, abandonando Marco completamente sozinho em sua jornada.
Nisto, o grupo tomou o caminho à direita, não passando entre as pedras, e desceu um bocado.
Marco apitou e não teve resposta. Ele se confundiu com o caminho, sentiu que se perdera e, diante disso, retornou para encontrar o grupo.
Marco Aurélio teve medo, o apito não tinha resposta e não sentia segurança no caminho. Decidiu, assim, voltar e se reunir ao grupo.
De volta às pedras, que hoje são chamadas de Portal, Marco olhou a marcação nítida na pedra e em nenhum momento acreditou que seu grupo o tivesse traído e tomado um caminho diferente. Ele não tinha dúvidas de que o grupo honrou o compromisso e seguiu sua marcação. Se o grupo tivesse tomado outra direção, seria depois de passar pelo portal. Entendia que, se não havia encontrado o grupo no caminho ao retornar pelas pedras, teria sido porque "depois" da pedra eles tomaram uma direção diferente.
Logo, buscando reencontrar o chefe e amigos, Marco passou pela pedra e, dessa vez, tomou o caminho mais à esquerda.
Não tomaria o caminho mais à direita após passar entre as pedras, pois, se fosse o caminho tomado pelo grupo, teria o encontrado em seu retorno.
Marco se convenceu de que o grupo fez o caminho à esquerda depois da pedra, então ele seguiu por ali, selando seu destino ao entrar no cânion dos Marins.
O fato de não ouvirem o apito era simples: tinham entre eles a parte alta do caminho.
Tanto Marco quanto o grupo tomaram um caminho de descida rápida que tornava o retorno muito difícil.
Descer rapidamente causava um alívio quanto ao frio.
O grupo tomou um caminho desnorteado que o levou à sede da fazenda de Seu Filinho, chegando lá no meio da madrugada.
Juan estava completamente perdido, mas manteve os jovens caminhando. Ele poderia se abrigar, fazer fogo, usar algo que aprendeu no escotismo. Mas uma caminhada rápida evitaria questionamentos dos jovens.
Não se preocuparam em procurar por Marco. Ora pensavam que o destino do amigo fosse melhor que o deles, ora por estarem tão concentrados em sobreviver que a busca pelo amigo era um plano não imediato.
Já o percurso de Marco é oculto pelos jornais.
A aventura do jovem iniciou-se tão logo atravessou pelo portal e caminhou à esquerda, descendo o cânion dos Marins, pensando que seus amigos estivessem lá, pois não os havia encontrado quando retornou até o portal.
Marco não tinha orientação quanto à direção, mas lhe parecia lógico que a direção do seu grupo era aquela que ele não percorreu.
O coração do jovem acelerou. Ele tentava não pensar no doloroso sentimento de estar sem direção.
Ele sentiu a culpa que só é compreendida por quem viveu a experiência desesperadora de estar perdido.
Marco notou algumas bifurcações e sempre escolhia uma, torcendo para ser a correta; quando chegava a um ponto intransponível, voltava até a última bifurcação e, se ambos os caminhos fossem obstruídos de algum modo, voltava à penúltima bifurcação.
Foi essencialmente racional até o frio lhe doer os ossos. Foi quando a emoção lhe tomou o coração e o fez correr.
Foi valente como poucos homens são. Soluçou, mas segurou o choro por uma hora e meia; depois, por trinta minutos, permitiu-se chorar um pouco, e foi revigorante. Enxugou as lágrimas num gesto de bravura, levantou a cabeça e decidiu que, para vencer o frio e sobreviver, não pararia até sair dali.
Marco caminhou em passos rápidos, cheio de convicção e confiança em si. Então, sentiu medo e seus pés vacilaram, quase tropeçou. Teve a compreensão de que vacilava os passos quando sentia medo, e sentia medo quando pensava no seu destino ali.
Caminhou enquanto o claro do céu permitiu.
Enfrentou erosões e fendas, passou por caminhos estreitos com uma altivez, como se parecesse estar sendo observado, como se estivesse em um filme.
Mas a noite venceu, a escuridão chegou. Uma sombra levou-lhe o ânimo por um segundo; sentiu medo, tropeçou e, aquela criança, homem e herói, caiu, arrastando-se por pedras e jazendo no fundo úmido de uma grota.
Mesmo ferido, sentiu um conforto intenso — não conseguiria andar, não podia, então podia esperar — e sorriu por isso. Estava confortável, pois não sentia dor, nem frio. Lembrou de seu pai e confortou-se com a certeza de que não precisava mais caminhar; pensou: seu pai iria lhe buscar.
Neste horário, o grupo chegava à sede da fazenda do Seu Filinho.
No escurecer do dia, o velho Filinho e sua esposa não tardavam no fogão de lenha. Baderneiros e ladrões já rondavam suas terras e todo cuidado era pouco.
Nesta noite, ele trancou as portas cedo e deitou-se, esperando acordar com o canto dos galos, mas acordou com gritos de adolescentes. Catou a espingarda e a lanterna, abriu a janela e gritou um grosso e seguro: "Quem é?"
O chefe dos escoteiros tomou a frente, explicou que queriam chegar à casa do seu Afonso e que estavam um pouquinho perdidos. Coisa de seis quilômetros ou doze horas de viagem. (Eu sei que a matemática não bate).
O velho duvidou que alguém pudesse estar tão perdido assim, mas, para não faltar com seus princípios cristãos, indicou a estrada e explicou que, alguns quilômetros por ela, chegariam à casa do seu Afonso.
Desse ponto até a base dos Marins, não teve conversa. Chegaram lá já de dia. Nada de Marco. Junto à barraca estava a mochila do amigo, deixada para trás. Os jovens dividiram uma lata de leite condensado e, vencidos pelo sono, adormeceram.
Já o Chefe sentia a brisa malcheirosa das consequências de sua autoconfiança.
Ele negou companhia, confiou em sua competência, perdeu-se na dúvida e perdeu-se na descida.
Seria inegavelmente responsabilizado pelo desaparecimento do garoto. A única alternativa que lhe restava era ocultar o fato o máximo que pudesse.
Torcia para encontrar o garoto, e quem sabe poder puxar a orelha dele por não ter conseguido chegar à base.
O desejo de corrigir Marco por ter se perdido durou quarententa minutos. Depois, ele fazia orações em silêncio, prometendo penitências se encontrasse o garoto.
Quatro horas depois, voltaria para a base. E, mesmo que não acreditasse necessitar de ajuda, agora não poderia esconder o desaparecimento.
Obra de Ficção, inspirada em fatos reais. Sílvio de Souza Lôbo Júnior (silviolobo.com.br).
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