Cidade de enorme importância histórica que hoje é símbolo literário mundial por sediar a FLIP, atraindo grandes autores contemporâneos e mantendo viva a memória de relatos coloniais e de viajantes.
Paraty: A Cidade-Estante Onde a Literatura Oficial e a Pirata Navegam Juntas
Paraty é uma anomalia literária. Cercada por montanhas e mar, com ruas de pedra que desafiam a passagem do tempo, a cidade construiu ao longo de cinco séculos uma relação orgânica com a palavra — primeiro oral, pescador e caiçara; depois escrita, turística e, finalmente, festivalizada. Hoje, Paraty é palco de um dos maiores eventos literários da América Latina, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Mas, contraditoriamente, é também o território onde a literatura independente mais resiste, se organiza e inventa novas formas de existir.
Este artigo navega por essas duas faces: a tradição que emergiu da Flip e a cena contemporânea pulsante de editores piratas, saraus e autores que publicam sem pedir licença. Aqui, a literatura não está apenas nos estandes pagantes da Travessa — está nas vielas, nos barcos ancorados no Perequê-Açu e nas vozes que declamam poesia como ato de sobrevivência.
1. Raízes e Tradição: Quando a Flip Ensinou Paraty a Escrever
Durante séculos, Paraty foi uma cidade de histórias contadas, não escritas. A tradição oral dos pescadores, dos quilombolas e dos caiçaras mantinha viva a memória da região, mas o livro — esse objeto concreto — era raridade. A virada aconteceu em 2003, com a criação da Flip. A avaliação é da própria secretária de Cultura do município à época, Cristina Maseda: "A Flip é um marco na história de Paraty e na dinâmica cultural da cidade, pois, além de promover o incentivo à leitura e equipar a cidade e as escolas com mais bibliotecas, fomentou a produção literária local" .
Antes da Flip, segundo Cristina, a tradição da cidade "saía da oralidade e ia para o objeto concreto, que é o livro. Surgiram autores, surgiu uma editora independente, que edita livros de autores de Paraty. Isso seria impensável antes da Flip" .
A Editora Off Flip e o Primeiro Autor Local
Um dos frutos mais significativos desse processo foi o Selo Off Flip, criado por Ovídio Poli Júnior. A ideia nasceu em 2006, de forma independente da organização oficial da Flip, como um prêmio literário associado à festa. Em 2008, foi possível lançar a primeira coletânea com os contos e poesias vencedoras. "A gente começou como um selo, não era intenção de virar editora, era publicar os textos vencedores do prêmio Off Flip", conta Ovídio. "Publicamos a primeira coletânea e resolvemos publicar o livro de um autor local, Flávio de Araújo. Nasceu assim o selo e, em 2009, começamos a publicar outros autores" .
Flávio de Araújo, de família de pescadores da Praia do Sono, escrevia antes mesmo da primeira edição da Flip, mas trabalhava como motoboy e se sentia excluído da festa que acontecia "no quintal da minha casa". "Comecei a escrever para um jornal local, sem esperança de editar um livro. A maior festa literária da América Latina acontecendo no quintal da minha casa e eu não participar disso era muito frustrante", desabafou .
Após lançar "Zangareio" — o primeiro livro da Off Flip —, Flávio teve a oportunidade de participar de eventos literários em outros estados e países. Para ele, a publicação foi mais do que uma realização pessoal: foi um ato de preservação da tradição oral de Paraty. "Estamos em uma cidade turística, influenciada por vários movimentos, e o turismo deixa um legado às vezes bom, às vezes ruim. A cidade estava perdendo a sua oralidade e eu acho que contribuí de alguma forma para preservar, reforçar essas raízes" .
Essa é a tradição paradoxal de Paraty: um festival globalizado que, ironicamente, ensinou a cidade a valorizar sua própria voz local.
2. A Cena Contemporânea: Flip, FLIPEI e a Resistência Pirata
Se a Flip abriu as portas para a literatura em Paraty, foi a reação a ela que criou a cena mais vibrante e autêntica da cidade. O principal antagonista — e complemento — da Flip é a FLIPEI – Festa Literária Pirata das Editoras Independentes.
Criada pela Autonomia Literária e pela Rizoma Livros, a FLIPEI emergiu como um ponto de convergência para debates intensos, slams, shows e lançamentos ousados, acontecendo simultaneamente à Flip e desafiando sua lógica comercial .
Por que "Pirata"?
O nome não é gratuito. Inspirados no livro "Utopias Piratas", de Peter Lamborn Wilson, os organizadores Caue Seigner Ameni e Rafael Limongeli explicam: os piratas foram as primeiras experiências de ocupação dos meios de produção na emergência do capitalismo. "Piratear é sinônimo de ocupar os meios e resistir aos monopólios. Os piratas cultivavam ilhas secretas onde a festa e a liberdade eram regra. Nós também agimos contra os monopólios das antigas megalivrarias ou das plataformas online que querem colonizar Marte enquanto destroem nosso planeta" .
A FLIPEI já realizou atividades em um barco pirata, em um ônibus de livros e em uma "vila pirata" na Praia do Pontal, sempre com entrada gratuita e programação que inclui nomes como Silvia Federici, KL Jay, Rita Von Hunty, Don L, Ailton Krenak, Conceição Evaristo e Djamila Ribeiro .
Em 2019, a FLIPEI protagonizou um dos episódios mais emblemáticos de resistência política na história recente de Paraty. Quando o jornalista Glenn Greenwald foi convidado para uma mesa, a direita da cidade ameaçou-o de morte e fez um "pedágio" na porta da cidade para impedir sua entrada. "A esquerda da cidade de Paraty junto ao público da FLIPEI se auto-organizou para defender nosso território coletivo", contam os organizadores. "Do lado direito do Rio Perequê-Açu, a direita tocava o hino nacional em caixas distorcidas. Do lado esquerdo, mais de 5 mil pessoas reunidas fizeram barricadas na ponte de acesso e articulamos uma rede secreta para levar nosso convidado até nosso barco através de uma lancha caiçara" .
A Casa Gueto: O Encontro das Editoras Independentes
Além da FLIPEI, outro espaço fundamental para a cena literária independente em Paraty é a Casa Gueto. Localizada na Rua Benedito Telmo Coupê, 277, no Centro Histórico, a Casa Gueto é uma das casas parceiras da Flip e integra a programação paralela, reunindo editoras independentes de todo o país .
O nome é uma homenagem ao escritor e editor Rodrigo Novaes de Almeida, coeditor da Revista Gueto, falecido em 2022. O subtítulo — "O centro do mundo está em todo lugar / O mundo é o que se vê de onde se está" — relembra o geógrafo Milton Santos e afirma o compromisso da Casa com a pluralidade e a acessibilidade .
Em 2022, a Casa Gueto reuniu 13 editoras independentes: Aboio, Bambual, Editacuja, Feminas, Kotter, MoMa, Mondru, Patuá, Primata, Quase Oito, Reformatório, Rizoma e Urutau . Em 2023, o espaço recebeu 25 editoras, consolidando-se como um dos principais pontos de encontro da literatura marginal e independente durante a Flip .
Os Autores Independentes que Movimentam Paraty
A cena contemporânea de Paraty não se resume aos espaços — ela é feita por pessoas. Abaixo, alguns dos autores independentes que têm marcado presença na Flip e na FLIPEI nos últimos anos.
Victor P. Viana: O Jornalista do Grotesco Poético
Victor P. Viana é jornalista, escritor e pesquisador. Nasceu em Itaboraí, foi criado em Cachoeiras de Macacu e vive em Armação dos Búzios desde 2005. Na FLIP 2025, ele lançou "O homem que vomitava sapos", publicado pela Sophia Editora .
A obra é uma coleção de textos que transitam entre o real e o fantástico, com forte influência do cotidiano do interior do Rio de Janeiro. Reúne contos, crônicas e artigos, muitos deles publicados anteriormente no jornal satírico "O Perú Molhado", que circulou por décadas em Búzios. O autor afirma que nem todos os textos são ficcionais: "Há relatos reais — entrevistas e reportagens que escrevi como jornalista —, mas em um estilo literário que fui desenvolvendo com o tempo" .
A obra explora a potência do olhar cotidiano e suas distorções. No conto "O saco de bosta", o humor escatológico se transforma em crítica social. O conto-título parte da metáfora de "engolir sapos" para apresentar um personagem que, depois de anos de silêncio, começa a expelir suas angústias em público de forma surpreendente. Grande parte dos cenários é inspirada em cidades da Região dos Lagos. "Essa região é o meu sertão", diz Victor .
Victor é também autor de "A criança debaixo do guarda-chuva" (2021), uma narrativa poética com escrita não sexista voltada ao público jovem .
Rodrigo Cabral: Editor, Poeta da Refinaria
Rodrigo Cabral é jornalista, editor e escritor, fundador da Sophia Editora. Em novembro de 2023, recebeu a terceira colocação no Festival de Poesia de Lisboa . Na FLIP 2024, estreou na festa com seu primeiro livro de poesia, "refinaria" (Sophia Editora, 120 págs.) .
O livro é composto por poemas que dialogam com as transformações da paisagem da Região dos Lagos e com a memória afetiva do autor. "Ouvi o que esses cenários diziam sobre minhas memórias, sempre borradas e fragmentadas", conta Rodrigo . A figueira centenária da rua da infância do autor torna-se inspiração por ser um dos poucos elementos que permanecem em meio ao que se transforma.
Os poemas se movem entre temas como a relação do autor com o pai, a paisagem local (especialmente a Laguna de Araruama) e as dinâmicas internas da memória. "O livro também trata da própria escrita, ao texto constantemente revisto, refeito e relido, em um processo contínuo de busca por significado", revela o escritor. A obra também faz referência à formação geológica da camada pré-sal e traça paralelos com a história da cana-de-açúcar em Campos dos Goytacazes, cidade natal do autor .
Além do lançamento, Rodrigo Cabral participou da mesa "Território e criação literária: de onde parte a escrita" na Casa Gueto, ao lado de Itamar Camilo (Garoupa), Luigi Ricciardi (Madreperola), Marta Cortezão (TAUP), Adriana Antunes (Libertinagem), Leandro Miranda (SOPHIA) e Kim Wicks (Laboriosa) .
Paulo Emílio Azevedo: O Macaense que Escreve o Corpo
Paulo Emílio Azevedo é professor, mestre em Políticas Sociais, doutorando em Ciências Sociais, coreógrafo e escritor. Foi contemplado com o prêmio "Rumos Educação, Cultura e Arte" em 2008 pelo Instituto Itaú Cultural, sendo o único educador de todo o Estado do Rio a recebê-lo .
Na 16ª edição da Flip (2018), lançou seu 13º livro, "Depois do Silêncio: uma obra-prima de amor ou ódio", com projeto gráfico de Jorge Pereira (Philos), ilustração de Filipe Itagiba e prefácio de Isloany Machado. A obra foi lançada na Casa Philos, em Paraty .
No prefácio, Isloany Machado escreve: "A escrita metafórica de Paulo nos toca o corpo, dói na pele, que é o mais profundo. E eu confesso que não confio em qualquer literatura que não toque o corpo" .
Segundo o autor, o livro "ensala um corpo e uma personagem que vão se modificando por diferentes estratégias de contato. Mais que isso, tensiona uma circulação de 'fumaças' e 'tragos' do modo como esses diálogos e forças poderiam e podem ser refletidos no campo da Educação e da Arte" .
Durante a Flip, Paulo Azevedo também participou da mesa de debate "A cidade como obra de arte", ao lado dos poetas Max Medeiros e Slow DaBF, que promoveram a 4ª edição do projeto Tagarela — conhecido como "o maior slam do mundo" .
Renato Fulgoni: O Infantil que Conquistou a Flip
Renato Fulgoni é escritor e editor da Aldeia Editora (sediada em São Pedro da Aldeia, com forte atuação em Casimiro de Abreu e região). Na FLIP 2024, ele foi uma das atrações do Sarau "Entre Poemas e Canções" da Academia de Letras e Artes de Cabo Frio (ALACAF), realizado na Casa do Conhecimento .
Renato apresentou seu mais novo livro infantil, "O Vira-lata Caramelo", uma obra que promete encantar leitores de todas as idades com lições sobre amor e lealdade. Ele também recitou poesias autorais durante o sarau .
Para Fulgoni, estar presente na Flip foi um marco em sua trajetória. Ele comparou a experiência de participar da festa literária com a de um atleta nas Olimpíadas, destacando a magnitude e o prestígio do evento. "Eu fico muito feliz pela oportunidade de estar aqui com os acadêmicos da ALACAF e poder compartilhar desse momento marcante", declarou .
Além de Renato Fulgoni, outros acadêmicos da ALACAF marcaram presença na Flip 2024: a presidente Jaqueline Brum (com sua experiência em produção literária), Isac Machado, Flavio Machado e Luciane Quintanilha (com sua sensibilidade poética) .
Os Editores Independentes que Fazem a Roda Girar
Além dos autores, a cena literária de Paraty é movida por editores que apostam na literatura marginal e na circulação de vozes fora do eixo. Destacam-se:
-
Rodrigo Cabral (Sophia Editora): Além de poeta, é o editor que tem levado autores da Região dos Lagos à Flip. Na FLIP 2023, a Sophia Editora lançou "Rauai – o patrão do Polígono da Maconha", de Katyuscia Brito, e "Terra, céu e mar — poemas e linhas", de Ivo Barreto, na Casa Gueto . O catálogo da Sophia também inclui obras de fôlego histórico, como "Revolta do cachimbo — a luta pela terra no quilombo da Caveira" e "O primeiro indígena universitário do Brasil — Dr. José Peixoto Ypiranga dos Guaranys" .
-
Ovídio Poli Júnior (Off Flip): O criador do selo que publicou Flávio de Araújo e abriu as portas para a produção literária local continua ativo, garantindo que a tradição da Off Flip se mantenha como janela para autores da cidade .
-
Autonomia Literária e Rizoma Livros: As editoras que fundaram a FLIPEI e mantêm vivo o debate político e social através da literatura .
O Atrito com a Flip Oficial: Quando a Periferia Reclama
Nem tudo são flores na relação entre os independentes e a Flip oficial. Em 2024, um atrito público expôs as tensões. As editoras independentes que compraram espaços para comercializar seus livros foram surpreendidas ao descobrir que seus estandes ficariam em um local mais afastado do que o combinado — era preciso cruzar a ponte que sai do centro histórico, dobrar à direita, passar pelo Palco do Areal e ainda atravessar um espaço com comerciantes .
"Descobrimos a mudança quando chegamos. Foi na base do susto", disse João Varella, da Lote 42. "Vendemos 20% menos do que em 2022, quando ocupamos o espaço que hoje é do Areal. Só que, neste ano, investimos mais em decoração, então o resultado está 40% pior" .
A primeira a disparar o alerta foi a editora Chris Fuscaldo, da Garota FM Books: "O mapa enviado esta semana mostra apenas a área das editoras, mas não mostra que essa área é a última coisa da Flip, e que depois da gente nem Flipei tem mais. Não acho nem um pouco justo nos cobrar por essa localização" .
A Flip respondeu em nota: "O diálogo com múltiplos atores sempre foi fundamental na construção da Flip. Há mais de 20 anos, a Flip produz arquiteturas de temporalidade intermediária" . O conflito, no entanto, escancara a relação ambígua entre o festival e a cena independente: ao mesmo tempo que a Flip precisa dos independentes para oxigenar sua programação, os trata como coadjuvantes em seu próprio território.
3. Temáticas e Obras: O Que se Escreve em Paraty
A produção literária contemporânea associada a Paraty — seja de autores locais, seja de editores independentes que utilizam a cidade como vitrine — revela um espectro temático rico e diverso. Longe de um tema único, o que se vê é um diálogo entre o local e o universal, entre a memória e a urgência política.
A Memória do Território e a Paisagem em Transformação
Um dos eixos centrais da produção atual é a relação entre escrita e lugar. Autores como Rodrigo Cabral e Victor P. Viana têm na paisagem da Região dos Lagos e do Norte Fluminense sua matéria-prima.
Em "refinaria" (Rodrigo Cabral), os poemas dialogam com a Laguna de Araruama (a maior laguna hipersalina do mundo), com a figueira centenária da infância e com a camada pré-sal. O livro é uma meditação sobre o que permanece e o que se transforma no território — e na própria memória do autor .
Victor P. Viana, por sua vez, afirma que a Região dos Lagos "é o meu sertão". Em "O homem que vomitava sapos", os cenários de Cabo Frio e Búzios são recriados sob uma ótica grotesca e surrealista, deformando o real para extrair dele uma verdade mais profunda .
O Corpo, a Dor e a Performance
Paulo Emílio Azevedo traz para a cena de Paraty uma literatura que é, antes de tudo, corporal. "Depois do Silêncio" é descrito por sua prefaciadora como uma obra que "toca o corpo, dói na pele". O autor, que é também coreógrafo, transita entre a dança e a escrita, e sua obra reflete essa hibridez. O livro ensaia "um corpo e uma personagem" que se modificam, explorando as "violências totalitárias" e as "energias criativas" que emergem delas .
Essa temática dialoga diretamente com a cena de slams e poesia performática que a FLIPEI ajudou a consolidar em Paraty. O Tagarela, projeto de Paulo Azevedo, é descrito como "o maior slam do mundo" e ocupa as ruas da Flip com poesia declamada em voz alta .
O Humor Escatológico como Crítica Social
Uma das vertentes mais originais da produção recente é o uso do grotesco e do humor escatológico como ferramenta de crítica social. Victor P. Viana, no conto "O saco de bosta", transforma o escatológico em análise das relações sociais. O título do livro — "O homem que vomitava sapos" — parte da metáfora popular de "engolir sapos" (calar-se diante de injustiças) e a subverte: o personagem, depois de anos de silêncio, começa a expelir suas angústias em público de forma literalmente grotesca .
A Literatura Infantil com Consciência Social
Renato Fulgoni, com "O Vira-lata Caramelo", representa uma literatura infantil engajada. O "vira-lata caramelo" — símbolo não oficial do Brasil — é protagonista de uma narrativa sobre amor e lealdade, mas também sobre pertencimento e acolhimento. A escolha do animal símbolo da cultura brasileira como protagonista é, em si, uma declaração política sobre valorização do que é local e popular .
A Literatura Histórica e de Resistência
O catálogo da Sophia Editora inclui obras de fôlego histórico que resgatam memórias apagadas ou silenciadas: "Revolta do cachimbo — a luta pela terra no quilombo da Caveira" e "O primeiro indígena universitário do Brasil — Dr. José Peixoto Ypiranga dos Guaranys" são exemplos de como a literatura independente também é uma ferramenta de reparação histórica .
4. Conclusão: Uma Cidade-Estante de Duas Pontas
Paraty é, hoje, uma cidade-estante. De um lado, a Flip oficial — com sua livraria Travessa pagando centenas de milhares de reais pelo direito de vender livros no centro histórico, com seus patrocínios corporativos e sua curadoria de nomes consagrados. De outro, a FLIPEI, a Casa Gueto e a legião de editores e autores independentes que ocupam as margens — geográficas e simbólicas — do festival.
Essa dualidade não é uma fraqueza. É a força de Paraty. Porque é justamente no atrito entre o oficial e o pirata, entre o comercial e o marginal, que a literatura se reinventa. Flávio de Araújo, o motoboy que se tornou escritor publicado pela Off Flip, resumiu essa potência: "Estamos em uma cidade turística, influenciada por vários movimentos, e o turismo deixa um legado às vezes bom, às vezes ruim. A cidade estava perdendo a sua oralidade e eu acho que contribuí de alguma forma para preservar, reforçar essas raízes" .
A literatura em Paraty não está apenas nos livros expostos nos estandes pagantes. Está nos versos declamados no barco pirata ancorado no Perequê-Açu, nas editoras que se recusam a pagar R$ 3.000 por um estande na periferia do evento, nos corpos que dançam enquanto poetizam e nos sapos que, finalmente, são vomitados depois de anos de silêncio.
Que venham os próximos 20 anos de Flip. E que venham também os piratas.
Fontes pesquisadas:
Folha dos Lagos, Conecta SC, Revista Fórum, Editacuja, Portal Viu, visiteparaty.tur.br, Foco Regional, Aldeia Editora, Vida Moderna, Folha de S.Paulo.















