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Bonfim
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Este município do Estado de Roraima destaca-se por obras que retratam o lavrado roraimense e a influência histórica da Guiana, unindo a história da disputa territorial com a poesia bucólica das savanas e o cotidiano da fronteira.

As margens que escrevem: a cena literária de Bonfim, Roraima

Bonfim, município que abraça a fronteira com a Guiana na região do Vale do Tacutu, vive uma realidade peculiar: é uma cidade que pulsa na divisa, mas que, no mapa literário brasileiro, permanece quase invisível. A capital Boa Vista concentra a produção editorial e os eventos, e as pequenas cidades do interior raramente figuram nas antologias nacionais.

No entanto, a ausência de grandes editoras e livrarias não significa silêncio. Em Bonfim, a literatura nasce da necessidade de registro — da memória indígena, da prática pedagógica e da pesquisa acadêmica que insiste em olhar para o próprio território. Esta reportagem é um mergulho nessa produção discreta, mas fundamental.

1. Raízes e Tradição: O Território como Matriz Literária

A tradição literária de Bonfim, assim como em grande parte de Roraima, não começa no livro impresso, mas na oralidade dos povos originários. A região é historicamente habitada pelos Macuxi e Wapichana, cujas narrativas míticas, lendas de fundação e cantos rituais constituem a camada mais antiga e profunda da literatura local.

Essa tradição ganhou contornos acadêmicos recentemente com a produção de obras que buscam sistematizar o conhecimento sobre o próprio município. Em 2013, a Editora da Universidade Federal de Roraima (UFRR) publicou "Bonfim: um olhar geográfico" (Coleção Paisagem e Território Amazônico, Volume 1), organizado por pesquisadores do Instituto de Geociências . Embora seja uma obra de cunho científico e não literário propriamente dito, o livro representa um marco: pela primeira vez, Bonfim tornou-se objeto de uma publicação formal, com a ambição de descrever sua paisagem, sua história e suas dinâmicas sociais .

Essa obra, ainda disponível para consulta na biblioteca do Campus Amajari do IFRR , pavimentou o caminho para que outros olhares — mais poéticos e subjetivos — pudessem emergir.

2. A Cena Contemporânea: Sala de Aula, Aldeia e Pesquisa

A cena literária de Bonfim hoje é indissociável da escola e da universidade. Diante da ausência de um mercado editorial local consolidado, são as instituições de ensino que funcionam como fomentadoras, espaços de produção e, muitas vezes, editoras improvisadas.

A Pesquisadora que Estuda a Própria Cena: Fabiana Gonçalves do Nascimento Oliveira

Uma figura central nesse ecossistema é a professora e pesquisadora Fabiana Gonçalves do Nascimento Oliveira. Lotada na Escola Estadual Jesus Nazareno de Souza Cruz e na Secretaria Municipal de Educação de Bonfim, ela é também mestranda em Letras pela UFRR .

Sua pesquisa é um exemplo raro e valioso de metalinguagem literária: ela investiga como a literatura produzida em Roraima circula e é recebida na web, com foco nos autores Eli Macuxi, Eliakin Rufino e Zanny Adairalba . Ao estudar a recepção desses autores nas redes sociais, Fabiana não apenas documenta a cena, mas atua dentro dela, como educadora que leva essa produção para a sala de aula.

"A literatura de Roraima na produção de autores locais" e "Recepção de autores regionais nas redes sociais de Boa Vista - RR" são alguns de seus temas de pesquisa . Sua dissertação, intitulada "Produção, circulação e recepção da literatura roraimense na web por Eli Macuxi, Eliakin Rufino, Jacinta Santos e Sony Ferseck" (2023), orientada por Francisco Alves Gomes, é um esforço acadêmico pioneiro para cartografar a literatura do estado, incluindo as vozes que ecoam em cidades como Bonfim .

Os "Rodamoinhos de Leitura": Formação de Leitores na Fronteira

Entre 2016 e 2017, um projeto significativo movimentou as escolas de Bonfim. Idealizado por Sumaira Veras Andrade e Amarildo Ferreira Júnior, do IFRR, o "Rodamoinhos da Leitura" foi uma intervenção prática que levou literatura afro-brasileira e indígena para crianças e adolescentes do ensino fundamental .

A metodologia era lúdica e interdisciplinar: sessões de leitura dinâmicas, chamadas de "rodamoinhos", que sensibilizavam os jovens para questões identitárias e culturais a partir dos textos . O projeto não produziu um livro, mas cumpriu uma função talvez mais urgente: formar leitores em uma região onde o acesso à literatura é escasso. O relato dos pesquisadores indica que os participantes passaram a ter maior interesse pela leitura e se tornaram "disseminadores de discussões" sobre seus próprios contextos socio-históricos .

O Marco de 2024: "Vovó Jamanxim" e a Literatura Indígena Bilíngue

O feito mais recente e mais contundente da cena literária de Bonfim veio em outubro de 2024. Estudantes do Curso de Magistério Indígena do Campus Avançado Bonfim do IFRR lançaram o livro "Vovó Jamanxim" .

A obra é um evento em si mesma. Organizada pelos professores Adnelson Jati, Leila Máximo e Solange Almeida, "Vovó Jamanxim" é um livro bilíngue (Macuxi-Português) que reúne histórias, lendas e tradições do povo Macuxi, registradas pelos próprios alunos autores — 81 professores das regiões da Raposa e do Baixo Cotingo contribuíram com o projeto .

Uma das autoras, a estudante Eitiane Silva, que fala a língua macuxi, descreveu a experiência como transformadora:

"Permitiu-nos registrar a cultura macuxi com histórias, lendas e tradições que carregamos com orgulho. [...] Esse livro oferece às crianças a oportunidade de aprender em nossa própria língua e representa uma das muitas contribuições do curso para fortalecer nossa cultura." 

O lançamento ocorreu na Casa de Cultura Jaider Esbell, em Normandia — uma homenagem ao saudoso artista e escritor indígena Jaider Esbell, que também transitava entre a literatura, a arte visual e o ativismo cultural .

3. Temáticas e Obras: O que se Escreve em Bonfim

A produção literária associada a Bonfim — seja por origem dos autores, seja por temática — pode ser organizada em três eixos principais:

1. Literatura Indígena e Bilinguismo

Este é o gênero mais forte e autêntico. O livro "Vovó Jamanxim" (2024) é o expoente máximo: trata-se de um registro cultural que preserva a história, a língua e as práticas do povo Macuxi, com foco nas crianças das escolas indígenas . Os temas incluem objetos culturais, histórias de origem e lendas ancestrais, resgatadas da oralidade familiar.

2. Geografia e Identidade Local

A obra "Bonfim: um olhar geográfico" (2013), da Coleção Paisagem e Território Amazônico da UFRR, inaugurou um olhar sistemático sobre o município . Embora não seja ficção, sua importância literária reside em ter tornado Bonfim legível como lugar — um passo necessário para que, no futuro, romances e contos possam ambientar ali suas narrativas.

3. Pesquisa sobre Literatura Roraimense

A produção acadêmica de Fabiana Gonçalves do Nascimento Oliveira constitui um esforço de crítica e documentação da cena literária como um todo. Seus artigos — como "A literatura de Roraima na produção de autores locais" (2022) e "Recepção de autores regionais nas redes sociais" (2022) — são ferramentas fundamentais para quem deseja compreender o funcionamento dessa produção nas bordas da Amazônia .

Conclusão: Uma Literatura de Sala de Aula e de Aldeia

Bonfim não tem uma "cena literária" no sentido efervescente e boêmio que se encontra em grandes centros. Não há saraus semanais, sebos históricos ou editoras comerciais instaladas no município. O que há, no entanto, é talvez mais relevante para o futuro da literatura brasileira: uma produção que emerge da escola, da formação de professores indígenas e da pesquisa acadêmica.

Os protagonistas dessa cena não são escritores profissionais que vivem de direitos autorais. São professoras como Fabiana Oliveira, que estuda a literatura local enquanto a ensina; são estudantes como Eitiane Silva, que transformam as histórias de suas avós em livro bilíngue; são projetos como os "Rodamoinhos da Leitura", que plantam sementes em crianças que talvez, um dia, também escrevam.

A literatura de Bonfim é, acima de tudo, literatura de resistência — contra o apagamento, contra a ausência de políticas públicas de leitura e contra a geografia que insiste em isolar. E, como mostrou o lançamento de "Vovó Jamanxim" em 2024, ela está viva e pulsando, pronta para ser descoberta por quem se dispuser a ouvir.

Referências

  • ANDRADE, Sumaira Veras; FERREIRA JÚNIOR, Amarildo. Rodamoinhos da leitura: práticas literárias com crianças e adolescentes de Bonfim-RR. In: Anais do Fórum de Integração Ensino, Pesquisa, Extensão e Inovação Tecnológica do IFRR, 2017. 

  • Currículo Lattes: Fabiana Gonçalves do Nascimento Oliveira. Escavador. Disponível em: https://www.escavador.com/sobre/8354464/fabiana-goncalves-do-nascimento. 

  • Biblioteca do Campus Amajari recebe livros da UFRR. IFRR, 2 ago. 2016. Disponível em: https://bonfim.ifrr.edu.br/amajari/noticias/biblioteca-do-campus-amajari-recebe-livros-da-ufrr. 

  • Vovó Jamanxim: estudantes do IFRR em Bonfim lançam livro em Normandia. Roraima em Foco, 9 out. 2024. Disponível em: https://arquivo.roraimaemfoco.com/post/vovo-jamanxim-estudantes-do-ifrr-em-bonfim-lancam-livro-em-normandia. 

⚠️ Pesquisas elaboradas com auxílio do Deep Research estão sujeitos a ambiguidade referencial.
🖥️Código html limpo com o uso de ferramenta própria.
👥 Pesquisa por Guilherme Felipe, Curadoria Sílvio Lôbo

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