PARIS, 15 DE ABRIL DE 1900 – Sob aplausos oficiais e perante uma multidão estupefata reunida ao longo do rio Sena, o presidente da República Francesa, Émile Loubet, e o comissário-geral Alfred Picard inauguraram formalmente a Exposição Universal de Paris de 1900, grandioso evento concebido sob o lema de erguer o “Balanço de um Século”. Prometendo consagrar a Cidade Luz como a capital incontestável da arte, da eletricidade e do progresso técnico humana, o certame abre hoje seus portões ao público geral após quase oito anos de preparativos, exibindo obras de engenharia colossais como a Ponte Alexandre III e o Grand Palais, ainda que sob uma corrida frenética contra o relógio para ocultar andaimes e canteiros de obras inacabados.
O Desdobramento dos Fatos
Foi na tarde de ontem, no luxuoso anfiteatro da recém-erguida Salle des Fêtes, no Champ de Mars, que o presidente Émile Loubet proferiu o discurso inaugural diante de mais de quinze mil convidados ilustres, diplomatas estrangeiros e ministros do gabinete de Pierre Waldeck-Rousseau. Em tom solene, Loubet declarou o evento uma vitória da concórdia entre as nações e do triunfo da razão científica sobre as sombras do passado. Acompanhado pelo ministro do Comércio e da Indústria, Alexandre Millerand, o cortejo presidencial cruzou em seguida a espetacular Ponte Alexandre III – estrutura metálica de arco único decorada com ninfas e cavalos alados de bronze dourado –, ligando a Esplanada dos Invalides aos monumentais Grand Palais e Petit Palais.
Contudo, a apuração investigativa desta reportagem pelos 120 hectares do perímetro oficial revela um cenário de contrastes dramáticos entre a retórica triumfalista dos discursos e a realidade brutal dos bastidores. Enquanto o público atravessa em choque de admiração a efêmera Porte Monumentale na Place de la Concorde – projetada pelo arquiteto René Binet e coroada pela polêmica estátua de seis metros da La Parisienne –, centenas de operários e gesseiros trabalham anonimamente sob as galerias para finalizar estandes que ainda se encontram repletos de caixotes de madeira fechados.
Mesmo com o pó do gesso flutuando pelas alamedas ensolaradas, as inovações apresentadas fascinam os primeiros observadores. O grande grande triunfo tecnológico desta edição reside no Palais de l'Électricité, cuja fachada cintilante ilumina a noite parisiense com milhares de lâmpadas incandescentes, servindo de fonte de energia para o espetacular Château d'Eau e para a Rue de l'Avenir – uma audaciosa calçada rolante elevada em madeira que transporta os visitantes ao redor do complexo a duas velocidades distintas. Próximo dali, cinegrafistas a serviço dos irmãos Auguste e Louis Lumière registram o movimento das multidões, enquanto no Palácio das Ilusões e no Pavilhão da Óptica o público faz fila para admirar o Sidérostatt, o maior telescópio refrator já construído no planeta.
Repercussões Iniciais
As primeiras impressões da imprensa internacional e das delegatórias das mais de quarenta nações participantes variam entre o deslumbrante assombro estético e a crítica logística. Críticos de arte celebram a consolidação do estilo Art Nouveau, cujas linhas orgânicas e sinuosas dominam desde as fachadas dos pavilhões coloniais até os portões de ferro forjado projetados por Hector Guimard para o novo metrô subterrâneo da capital. Este último, vale destacar, permanece em ritmo febril de obras e teve sua inauguração adiada para os próximos meses.
No âmbito diplomático, o evento é visto como um ato de afirmação política e econômica da Terceira República Francesa perante impérios rivais. O pavilhão da Rússia Imperial, erguido com imponência no Trocadéro no estilo do Kremlin, e o imponente Palácio da Grã-Bretanha chamam atenção pelo luxo interior. Espera-se que mais de 50 milhões de pessoas passem pelas bilheterias a um franco por ingresso até o encerramento do evento, em novembro. Para Paris, o século XX não começa no calendário, mas sim no brilho elétrico das margens do Sena.
Nota do Autor: Os fatos relatados nesta matéria são históricos e ocorreram no passado. Por liberdade criativa, esta reportagem foi escrita em caráter imersivo, como se fosse um evento contemporâneo à sua leitura.


























