FOZ DO IGUAÇU, 25 DE OUTUBRO DE 1984 – Em uma cerimônia cercada por forte esquema de segurança e sob o olhar atento da imprensa internacional, os presidentes João Baptista Figueiredo, do Brasil, e Alfredo Stroessner, do Paraguai, acionaram simultaneamente o comando central da Usina Hidrelétrica de Itaipu, selando a inauguração oficial da maior obra de engenharia do planeta. Localizada na fronteira binacional sobre o Rio Paraná, a gigante energética entra em operação comercial definitiva prometendo suprir as demandas crescentes das indústrias brasileiras e paraguaias, coroando dez anos de obras titânicas, investimentos bilionários e profundas transformações geopolíticas e socioambientais na América do Sul.
O Desdobramento dos Fatos
Às margens do Rio Paraná, no ponto exato onde a geografia separa o oeste paranaense da cidade paraguaia de Hernandarias, o clima era de êxtase técnico e solenidade política. Reunidos na Sala de Comando e Controle, situada na cota 144 do edifício de produção, os chefes de Estado do Brasil e do Paraguai descerraram a placa comemorativa que marca o início oficial do fornecimento elétrico conjunto. A atmosfera no canteiro de obras, no entanto, mesclava o ufanismo governamental e a consciência do gigantismo sem precedentes do empreendimento.
Com a entrada em operação contínua das primeiras unidades geradoras de 700 megawatts (MW) cada, a usina binacional começa a injetar eletricidade nos sistemas interligados dos dois países. No lado brasileiro, a energia percorrerá linhas de transmissão em alta tensão rumo aos grandes centros produtivos do Sudeste e Sul; no Paraguai, a cota destinada garantirá o abastecimento nacional com folga para a venda do excedente ao próprio parceiro brasileiro, conforme estipulado no histórico acordo financeiro da entidade.
Engenharia Titânica e Números Monumentais
Nossa apuração nos bastidores da obra revela dados que impressionam até mesmo os consultores internacionais de engenharia civil. Desde o início da terraplenagem e da escavação do canal de desvio, em outubro de 1975, mais de 40 mil trabalhadores passaram pelos acampamentos de trabalho de Itaipu no pico da construção. A quantidade de concreto derramada na barragem principal e nas estruturas complementares – superior a 12 milhões de metros cúbicos – seria suficiente para construir uma cidade de porte médio inteira ou erguer mais de 200 estádios do Maracanã.
Para desviar o curso do quinto maior rio do mundo em volume de água e secar o leito original para fundar a muralha de concreto de 196 metros de altura, foi necessária a maior operação de detonagem da história da engenharia sul-americana, ocorrida em outubro de 1978 com a explosão das ensecadeiras. Os custos totais da empreitada, financiados sob avultadas garantias do Tesouro Nacional brasileiro e repassados à empresa estatal Eletrobras em parceria com a Administración Nacional de Electricidad (ANDE), ultrapassam a marca dos 12 bilhões de dólares em investimentos diretos.
Geopolítica, Tratados e a Sombra da Ditadura
A consolidação de Itaipu não é apenas uma vitória da engenharia; é o desfecho de um complexo tabuleiro diplomático iniciado na década de 1960. O impasse fronteiriço em torno da posse da região de Sete Quedas e a disputa pela hegemonia hidrográfica da Bacia da Prata levaram à assinatura da Ata do Iguaçu em 1966 e, posteriormente, ao Tratado de Itaipu, firmado em 26 de abril de 1973 pelos então presidentes Emílio Garrastazu Médici e Alfredo Stroessner.
Conduzida sob os regimes militares que vigiam em Brasília e em Assunção, a negociação exigiu também intensa diplomacia internacional para apaziguar as desconfianças da Argentina. O governo de Buenos Aires temia que o controle das águas do Rio Paraná pudesse ser utilizado de forma ostensiva ou afetasse a navegação e seus próprios projetos hidrelétricos a montante e a jusante, impasse solucionado apenas com a assinatura do Acordo Tripartite de outubro de 1979. A presença expressiva do general José Costa Cavalcanti, diretor-geral brasileiro da empresa binacional desde a sua criação em 1974, simboliza a forte estampa institucional das Forças Armadas no comando da estratégia energética nacional.
O Custo Humano e o Fantasma de Sete Quedas
Apesar da atmosfera festiva dos discursos oficiais de Figueiredo e Stroessner, a reportagem colheu relatos das marcas dolorosas deixadas pela formação do gigantesco reservatório de 1.350 quilômetros quadrados. Em outubro de 1982, o fechamento das comportas da barragem represou as águas e submergiu definitivamente os Saltos de Sete Quedas (Guaíra) – o maior conjunto de cachoeiras do planeta em volume d'água –, provocando consternação entre ambientalistas, moradores locais e historiadores.
Estima-se que mais de 40 mil pessoas, entre pequenos agricultores, colonos e comunidades indígenas locais, foram desapropriadas e remanejadas ao longo dos municípios lindeiros para dar lugar ao lago de Itaipu. Grupos de atingidos ainda reivindicam compensações financeiras justas e apoio para reassentamento definitivo, enquanto a empresa binacional destaca a criação de áreas de preservação ecológica, como o Refúgio Biológico Bela Vista, como contrapartida ambiental.
Repercussões Iniciais
No âmbito econômico, especialistas e analistas do setor elétrico avaliam que a capacidade final projetada de 12.600 MW transformará a matriz energética do Brasil, reduzindo o risco de colapsos no abastecimento diante do surto de crescimento industrial. O presidente João Figueiredo enfatizou, em seu discurso, que "Itaipu é o testemunho vivo da capacidade de trabalho e da integração pacífica entre duas nações irmãs". Por sua vez, Alfredo Stroessner ressaltou a autonomia energética garantida ao Paraguai para as próximas décadas.
Com a promessa de instalação gradual das demais turbinas nos próximos anos, Itaipu assume imediatamente o topo do ranking mundial das maiores usinas geradoras de energia. A gigantesca muralha de concreto na fronteira torna-se, assim, o símbolo máximo de uma época marcada por grandes obras operadas sob forte centralização militar e por um debate acalorado sobre os limites ambientais do desenvolvimento na América Latina.
Nota do Autor: Os fatos relatados nesta matéria são históricos e ocorreram no passado. Por liberdade criativa, esta reportagem foi escrita em caráter imersivo, como se fosse um evento contemporâneo à sua leitura.























