“Viridiana” (1961), uma obra-prima do cinema surrealista espanhol e mexicano, dirigida pelo icônico Luis Buñuel, é um drama provocador que mergulha nas profundezas da fé, hipocrisia e da natureza humana. O filme narra a jornada de uma jovem noviça que, prestes a fazer seus votos finais, é confrontada com a decadência moral de seu tio e as complexidades da caridade cristã, em uma narrativa que desafiou as convenções sociais e religiosas de sua época e continua a gerar discussões até hoje.
Análise e Enredo
“Viridiana” (1961) é um filme que transcende o simples drama, mergulhando em uma crítica mordaz à religião, à caridade hipócrita e à própria natureza humana, vista através da lente surrealista de Luis Buñuel. O filme foi uma coprodução hispano-mexicana e marcou o retorno de Buñuel à Espanha natal após mais de duas décadas de exílio, um retorno que se revelaria tão triunfante quanto controverso.
Resumo Completo da História
A trama começa com Viridiana (interpretada por Silvia Pinal), uma jovem noviça piedosa, que está prestes a fazer seus votos finais em um convento. No entanto, sua madre superiora insiste que ela visite seu tio e benfeitor, Don Jaime (Fernando Rey), o único parente vivo que lhe resta, antes de selar seu destino religioso.
Don Jaime, um viúvo recluso e atormentado pela morte de sua esposa na noite de núpcias, fica imediatamente obcecado por Viridiana, devido à sua impressionante semelhança com a falecida. Ele tenta seduzi-la, pedindo que ela vista o vestido de noiva de sua esposa e insinua um casamento. Viridiana, chocada, tenta fugir, mas é drogada por Ramona (Margarita Lozano), a empregada da casa, a mando de Don Jaime.
Em um momento de indecisão, Don Jaime leva Viridiana para seu quarto com a intenção de estuprá-la, mas recua na última hora. Na manhã seguinte, ele tenta manipulá-la, mentindo que a havia desonrado, para impedi-la de retornar ao convento. Quando Viridiana descobre a verdade, ela o confronta furiosamente. Desesperado e humilhado, Don Jaime comete suicídio, enforcando-se com uma corda de pular.
Sentindo-se culpada pela morte de seu tio e acreditando que não pode mais retornar à vida religiosa devido à "impureza" simbólica, Viridiana desiste de seus votos. Ela herda a propriedade de Don Jaime junto com seu filho ilegítimo, Jorge (Francisco Rabal), um homem mais mundano e pragmático.
Movida por um idealismo cristão e um desejo de expiar sua culpa, Viridiana decide transformar a mansão em um refúgio para mendigos e indigentes da região. Ela os acolhe, oferece comida, moradia e tenta ensiná-los sobre fé e trabalho. No entanto, sua benevolência ingênua é confrontada pela ingratidão, preguiça e depravação dos pobres, que rapidamente se aproveitam da situação.
O ponto de virada ocorre quando, em um dos momentos mais icônicos e chocantes do filme, os mendigos invadem a casa principal enquanto Viridiana e Jorge estão fora. Eles organizam um banquete caótico, parodiando a pintura "A Última Ceia" de Leonardo da Vinci, em uma cena que culmina em orgia, destruição e um ataque a Viridiana.
Explicação Detalhada e Aprofundada do Final
O final de “Viridiana” é um dos mais discutidos e impactantes do cinema. Após o banquete dos mendigos, que se transforma em uma orgia de luxúria e violência, Viridiana é atacada por dois dos homens. Jorge, que retorna à propriedade com Ramona, consegue intervir. Ele suborna um dos agressores para matar o outro, salvando Viridiana do estupro iminente.
A experiência traumática desilude completamente Viridiana de seu idealismo religioso e de sua crença na caridade. Ela abandona seu hábito de noviça e sua fé cega. Na cena final, Viridiana entra no quarto de Jorge, onde ele e Ramona estão sentados à mesa, jogando cartas ao som de música animada ("Shake Your Cares Away"). Jorge convida Viridiana para se juntar a eles, dizendo: "Você sabe, a primeira vez que te vi, pensei: 'Minha prima e eu vamos acabar embaralhando o baralho juntos'." Ela se senta à mesa, com um olhar que sugere uma resignação à realidade mundana e talvez um despertar para uma nova forma de existência, longe dos dogmas religiosos.
Originalmente, Buñuel concebeu um final ainda mais explícito, onde Viridiana simplesmente entra no quarto de Jorge e a porta se fecha, implicando uma relação sexual direta entre os dois. No entanto, a censura espanhola rejeitou essa versão. Paradoxalmente, a versão alterada (e aceita), que sugere um ménage à trois entre Viridiana, Jorge e Ramona, é considerada por alguns historiadores de cinema como ainda mais subversiva e debochada, embora menos explícita.
O significado oculto do final é multifacetado. Ele representa a derrota do idealismo religioso e da caridade ingênua diante da depravação humana e do pragmatismo. Viridiana, que tentou emular a pureza e a abnegação cristã, é forçada a confrontar a corrupção e os instintos básicos. O convite de Jorge para "embaralhar o baralho" simboliza a entrada de Viridiana no mundo secular, aceitando a complexidade das relações humanas e a imperfeição da vida, em contraste com a pureza inatingível que ela buscava. É uma transição da santidade para a mundanidade, do idealismo para o realismo, sugerindo que a verdadeira vida se encontra na aceitação da ambiguidade e dos desejos, em vez da repressão.
Detalhes sobre o Elenco e Atuações de Destaque
O elenco de "Viridiana" é fundamental para a potência do filme, com atuações memoráveis que contribuem para a densidade dramática e a complexidade dos personagens. Os três papéis principais são desempenhados por atores que se tornaram ícones do cinema:
- Silvia Pinal como Viridiana: A atriz mexicana Silvia Pinal entrega uma performance magistral como a noviça Viridiana. Sua interpretação capta a inocência inicial da personagem, sua devoção fervorosa e, posteriormente, sua gradual desilusão e transformação. A transição de Viridiana de uma figura etérea e idealista para uma mulher confrontada com a dura realidade é visceralmente retratada por Pinal, que se tornou uma das musas de Buñuel.
- Fernando Rey como Don Jaime: O renomado ator espanhol Fernando Rey brilha como o tio Don Jaime. Sua atuação confere ao personagem uma mistura perturbadora de melancolia, obsessão e fragilidade. Rey consegue transmitir a loucura silenciosa de Don Jaime e sua paixão doentia por Viridiana, tornando-o um vilão trágico e complexo. Esta foi a primeira colaboração de Rey com Buñuel, que se tornaria frequente em filmes posteriores.
- Francisco Rabal como Jorge: Francisco Rabal interpreta Jorge, o filho ilegítimo de Don Jaime. Sua performance oferece um contraponto realista e pragmático à idealista Viridiana. Jorge é charmoso, cínico e mais conectado à realidade mundana, e Rabal o retrata com uma mistura de astúcia e desprendimento que o torna um personagem fascinante e ambíguo.
Margarita Lozano como Ramona, a empregada da casa, também oferece uma atuação notável, desempenhando um papel crucial nos eventos que precipitam a tragédia de Don Jaime e na dinâmica do trio final.
Curiosidades de Bastidores e Polêmicas
“Viridiana” é um filme envolto em uma série de curiosidades e polêmicas que moldaram seu legado:
- O Retorno de Buñuel à Espanha: Após 22 anos de exílio, Buñuel foi convidado a retornar à Espanha para fazer um filme, ironicamente, pelo próprio governo franquista e pelo Diretor Geral de Cinematografia da época. A ideia era mostrar uma imagem mais "aberta" da Espanha. No entanto, Buñuel aproveitou a oportunidade para criar uma de suas obras mais subversivas, um verdadeiro "cavalo de Troia" contra o regime e a Igreja Católica.
- Censura e Banimento: O filme foi enviado pelas autoridades espanholas ao Festival de Cannes de 1961, onde co-ganhou a Palma de Ouro, o prêmio máximo do festival. Contudo, a alegria do governo espanhol durou pouco. No dia seguinte à premiação, o jornal oficial do Vaticano, L'Osservatore Romano, publicou uma crítica feroz descrevendo “Viridiana” como "blasfemo" e um "insulto ao espírito do cristianismo". Isso levou ao banimento imediato do filme na Espanha pelo governo de Francisco Franco, e o Diretor Geral de Cinematografia, José Muñoz Fontán, foi destituído de seu cargo por ter subido ao palco em Cannes para receber o prêmio. “Viridiana” só foi lançado oficialmente na Espanha em 1977, dois anos após a morte de Franco.
- Salvando o Negativo: Houve relatos de que as autoridades espanholas tentaram queimar o negativo original do filme. A cópia só sobreviveu porque estava com uma empresa estrangeira que realizava trabalhos de pós-produção. Há versões que dizem que Silvia Pinal, a atriz principal, conseguiu levar uma cópia clandestinamente para o México, salvando a obra.
- Referências Religiosas e Surrealistas: O filme é repleto de simbolismo religioso e surrealista. A cena da "Última Ceia dos Mendigos" é um dos exemplos mais explícitos da crítica de Buñuel à hipocrisia e à falha da caridade cristã. Buñuel, que se declarava ateu "graças a Deus", utiliza elementos católicos para subvertê-los e expor as contradições. A imagem da coroa de espinhos usada por Viridiana e a cena em que ela, sonâmbula, espalha cinzas na cama do tio são exemplos do uso de simbolismos cristãos e freudianos.
- Inspirações: Buñuel revelou em sua autobiografia que a história de Viridiana foi inspirada em dois elementos: a história de uma santa pouco conhecida que lhe foi ensinada no colégio e uma fantasia sexual que ele teve, na qual abusava sexualmente da rainha da Espanha após drogá-la. Ele enfatizou que nunca chegou a ser um pervertido, mas a inspiração foi um ponto de partida para a trama provocadora.
- Local de Filmagem: As cenas do convento foram rodadas no Hospital de Tavera, em Toledo, enquanto a cena dos mendigos na porta da igreja foi filmada em frente à igreja de San Juan Bautista de Arganda del Rey.
Recepção e Legado do Filme
A recepção de “Viridiana” foi, como esperado, polarizada. Se, por um lado, foi amplamente condenado por setores conservadores e religiosos, por outro, foi aclamado pela crítica internacional e pelo mundo do cinema como uma obra-prima.
- Crítica: A crítica especializada rapidamente reconheceu a genialidade de Buñuel. O filme é considerado uma das obras mais destacadas do diretor e um dos melhores filmes espanhóis de todos os tempos. Em uma pesquisa de 2016 com 350 especialistas, organizada pela revista de cinema espanhola Caimán Cuadernos de Cine, “Viridiana” foi votado como o melhor filme espanhol da história. Bosley Crowther, do The New York Times, apesar de considerá-lo uma "visão feia e deprimente da vida", o incluiu em sua lista dos 1000 melhores filmes do mundo. Críticos destacam a fotografia detalhista e a edição cuidadosa, que, apesar de sóbrias, são carregadas de detalhes vitais.
- Público: Embora o filme tenha sido objeto de censura e controvérsia, seu impacto cultural foi imenso. Ele se tornou um "filme de culto" e continua a intrigar e provocar audiências e estudiosos do cinema até hoje. A reputação de Buñuel como um cineasta visionário e provocador foi solidificada por "Viridiana", impulsionando-o de volta à fama internacional.
- Legado: “Viridiana” deixou um legado duradouro na história do cinema. É frequentemente estudado por sua exploração de temas como o choque entre a fé e a realidade, a futilidade do idealismo ingênuo, a perversidade da miséria humana e a crítica às instituições religiosas. O filme é visto como uma ponte entre as fases intermediária e final da carreira de Buñuel, onde ele abraçaria ainda mais suas declarações mais contundentes e pós-modernistas. A ousadia de Buñuel em desafiar tabus sociais e religiosos permanece tão audaciosa hoje quanto era em 1961.
Fontes Pesquisadas
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- https://www.adorocinema.com/filmes/filme-1336/elenco/
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- https://comunicacionyhombre.com/articulo/viridiana-la-perversion-de-la-miseria/
- https://cinemaesencial.com/resenas/viridiana-luis-bunuel/
- https://www.gaceta.unam.mx/viridiana-de-bunuel-cumple-60-anos/
- https://exprimehistorias.wordpress.com/2017/05/11/luis-bunuel-y-el-veto-a-viridiana/
- https://mubi.com/pt/films/viridiana/cast
- https://cineminhazumbacana.wordpress.com/2017/10/21/viridiana-1961/
- https://saopaulo.cervantes.es/pt/cultura_espanhol/viridiana-bunuel.htm
- https://www.janusfilms.com/films/1017
- https://medium.com/@larissaoliveira7/viridiana-1961-a-patriarchal-surrealist-tale-by-bu%C3%B1uel-1d37452d0b54
































