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Dirigido pelo aclamado cineasta português Miguel Gomes, "Tabu" (2012) é um drama romântico histórico que transcende as barreiras do convencional, oferecendo uma meditação poética sobre a memória, o amor proibido e o legado colonial. Dividido em duas partes distintas, "Paraíso Perdido" e "Paraíso", o filme em preto e branco foi aclamado pela crítica internacional, conquistando prêmios importantes como o Alfred Bauer Award e o FIPRESCI no Festival de Berlim, e sendo reconhecido como uma das obras mais inovadoras e impactantes de sua década.

Uma Odisseia Cinematográfica entre a Memória e o Mito

"Tabu" (2012), de Miguel Gomes, não é apenas um filme; é uma experiência sensorial e intelectual que desafia as convenções narrativas e estéticas. Com sua estrutura fragmentada e uma estética que evoca o cinema mudo clássico, a obra se consolida como um marco na cinematografia contemporânea, explorando as complexidades do passado e a forma como ele ressoa no presente.

Análise e Enredo: Entre Dois Paraísos

O filme é introduzido por um Prólogo enigmático e lírico, narrado pelo próprio Miguel Gomes. Ele descreve uma lenda africana sobre um explorador intrépido que, após a morte de sua amada, se joga em um rio e é devorado por um crocodilo. Muitos juram ter visto um crocodilo triste e uma mulher em trajes antigos à beira do rio, compartilhando uma empatia misteriosa. Este prefácio onírico estabelece o tom de mistério e fatalidade que permeia toda a narrativa.

A primeira parte, intitulada "Paraíso Perdido", nos transporta para a Lisboa contemporânea, em um inverno melancólico. Aqui, somos apresentados a três mulheres cujas vidas se entrelaçam: Pilar (Teresa Madruga), uma ativista social de meia-idade, altruísta e dedicada; Aurora (Laura Soveral), sua vizinha octogenária, excêntrica, temperamental e profundamente supersticiosa; e Santa (Isabel Muñoz Cardoso), a empregada cabo-verdiana de Aurora, que suporta as acusações de bruxaria da patroa com estoicismo.

Pilar tenta ajudar Aurora, que sofre de solidão, devaneios e um vício em jogos de azar que a leva a dissipar sua modesta pensão em cassinos. A saúde de Aurora se deteriora rapidamente, e à beira da morte, ela faz um pedido misterioso a Pilar: que encontre um homem chamado Gian-Luca Ventura, alguém de quem nunca antes havia falado.

A segunda parte, "Paraíso", é o ponto central da genialidade de Gomes. Uma vez encontrado, o idoso Ventura (interpretado por Henrique Espírito Santo) revela a Pilar e Santa a extraordinária história de seu romance proibido com a jovem Aurora (Ana Moreira) em uma colônia portuguesa na África, especificamente em Moçambique, perto do Monte Tabu, durante os anos 1960.

Esta seção é apresentada como um "filme mudo" moderno, filmado em 16mm em um granulado preto e branco, com proporção de tela quase quadrada (1.37:1), sem diálogos audíveis. Em vez disso, a voz de Ventura narra os eventos em um tom nostálgico e melancólico, enquanto a trilha sonora e os sons ambientes preenchem o espaço. Acompanhamos a paixão arrebatadora entre a jovem Aurora, casada com o fazendeiro (Ivo Müller), e o aventureiro Ventura, em um cenário de beleza selvagem e tensão colonial que antecede a Guerra de Independência de Portugal.

O Final: Ecos de um Amor Proibido e um Legado Incômodo

O final de "Tabu" é, em essência, o desfecho da história contada por Gian-Luca Ventura na segunda parte do filme, "Paraíso". Ele revela a tragédia que selou o destino de seu amor com Aurora. Em meio à exuberância da África colonial e ao crescente turbilhão político, o romance adúltero entre Aurora e Ventura atinge seu clímax em um ato de desespero e crime. A gravidez de Aurora, fruto de seu caso, leva a um desfecho violento, onde seu marido é morto – um ato que ela atribui à sua "mão suja de sangue".

O filme não explicita detalhes gráficos do crime, mas a narrativa de Ventura e o desespero subsequente dos amantes sugerem um assassinato em legítima defesa ou acidental durante um confronto. A consequência é a separação inevitável do casal, com Aurora retornando a Portugal e Ventura permanecendo na África, assombrado pela memória de seu grande amor e pelo segredo que os uniu e os separou. O crocodilo, que aparece de forma recorrente ao longo do filme (inclusive como um presente do marido a Aurora), funciona como um símbolo da natureza indomável, da paixão primitiva e talvez da culpa que persegue Aurora, ressurgindo em seus delírios na velhice.

A explicação detalhada do final não se limita apenas aos eventos dramáticos, mas também à forma como Gomes utiliza a estrutura para explorar seus temas. A ausência de diálogos na segunda parte, substituída pela narração de Ventura, torna o passado uma construção da memória, uma fantasia romântica tingida pela distância e pela melancolia. O que ouvimos não é a verdade crua, mas uma versão idealizada e, por vezes, autocondenatória do que realmente aconteceu. A estética do cinema mudo evoca a artificialidade da lembrança e a forma como moldamos o que foi para o que gostaríamos que tivesse sido, ou para o que nossa consciência nos permite recordar.

O legado do colonialismo, embora muitas vezes relegado ao segundo plano na narrativa principal do romance, é um "tabu" central que se manifesta sutilmente. A paixão de Aurora e Ventura acontece em um "paraíso" construído sobre injustiças sociais e raciais, onde a presença africana é em grande parte silenciada ou relegada a papéis secundários e simbólicos. A própria Santa, a empregada cabo-verdiana de Aurora na primeira parte, está aprendendo português lendo "Robinson Crusoé", uma obra que pode ser interpretada como um protótipo do colonialismo e da representação idealizada do "selvagem" obediente.

Assim, o final do filme não é apenas o ponto culminante de uma história de amor trágica, mas também um comentário sobre os paraísos perdidos, sejam eles pessoais ou históricos, e a dificuldade de lidar com um passado complexo, que muitas vezes é romantizado ou silenciado.

Elenco e Atuações de Destaque

O elenco de "Tabu" entrega performances marcantes que se adaptam perfeitamente à proposta estética do filme. Teresa Madruga brilha como Pilar, a vizinha solitária, mas cheia de compaixão, que serve como ponte entre o presente e o passado. Laura Soveral, como a Aurora idosa, transmite a excentricidade, a fragilidade e a carga de um passado tormentoso com grande intensidade.

Na segunda parte, Ana Moreira interpreta a jovem Aurora com uma beleza etérea e uma paixão ardente, enquanto Carloto Cotta encarna Gian-Luca Ventura com um charme aventureiro e um olhar melancólico que preenche a tela, mesmo na ausência de diálogos. Henrique Espírito Santo, na voz do Ventura mais velho, confere à narração uma profundidade e uma poesia que se tornam um dos pilares emocionais do filme. Isabel Muñoz Cardoso, como Santa, a empregada de Cabo Verde, com sua presença estoica e inabalável, oferece um contraponto silencioso e poderoso, levantando questões sobre a relação colonial de forma sutil.

Curiosidades de Bastidores e Estilo

"Tabu" é uma coprodução internacional entre Portugal, Alemanha, Brasil e França, o que reflete seu alcance e ambição. Miguel Gomes e Mariana Ricardo foram os responsáveis pelo roteiro, que deliberadamente invoca a obra homônima de F. W. Murnau de 1931, "Tabu: A Story of the South Seas". Gomes, no entanto, inverte a ordem dos capítulos de Murnau – que começava no "Paraíso" e terminava no "Paraíso Perdido" – para a sua própria estrutura.

A escolha estética do filme em preto e branco é fundamental. A primeira parte, "Paraíso Perdido", é filmada em 35mm, com uma imagem nítida, enquanto a segunda, "Paraíso", utiliza película de 16mm, conferindo uma imagem mais granulada e que remete diretamente à estética dos filmes mudos da primeira metade do século XX. O formato quase quadrado (1.37:1) também é uma homenagem a essa era do cinema. Gomes confessou seu profundo amor pelo cinema, especialmente o mudo, e essa paixão é palpável em cada quadro.

O uso do som é outra curiosidade crucial. Enquanto a primeira parte tem diálogos normais, a segunda abole a fala, mas não o som. Em vez disso, ouvimos os sons ambientes da selva africana, a trilha sonora e a voz poética do narrador, Ventura, que se torna a única fonte de diálogo, guiando o espectador através da memória. Essa abordagem sonora complexa proporciona uma experiência imersiva e ao mesmo tempo onírica.

Polêmicas e Interpretações Conflitantes

A principal discussão em torno de "Tabu" reside na sua abordagem do colonialismo português. O filme retrata a África colonial a partir da perspectiva do colonizador, com pouca voz ou destaque para os personagens negros. O movimento de independência é vagamente mencionado, e os personagens africanos são frequentemente vistos em papéis de serviçais ou em representações que flertam com o exótico.

Críticos e analistas discutiram se essa abordagem é uma falha ou uma escolha deliberada de Gomes para espelhar a perspectiva eurocêntrica da época, subvertendo-a implicitamente. Alguns argumentam que, ao focar na história de amor dos colonizadores, o filme reflete a amnésia ou a romantização de um período histórico problemático, fazendo com que a crítica ao colonialismo seja "implícita", coexistindo com a "beleza" e a "evocação de algo destruído". A frieza de Santa, a empregada, pode ser vista como uma forma de resistência silenciosa ou uma "recusa tácita da intimidade" com seus empregadores brancos, subvertendo a dinâmica mestre-serviçal.

Outra interpretação é que Gomes, ao "romantizar" certos eventos históricos e ao evocar a artificialidade da memória, na verdade, ressalta a impossibilidade de retornar ao "tempo perdido" de forma objetiva, inevitavelmente filtrado por arranjos narrativos e subjetividade. O filme, portanto, não seria um endosso, mas uma reflexão sobre como a memória individual e coletiva lida com um passado incômodo.

Recepção e Legado do Filme

"Tabu" foi calorosamente recebido pela crítica internacional, sendo aclamado por sua originalidade, beleza visual e ousadia narrativa. Na 62ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim, o filme conquistou o Alfred Bauer Award, para obras que abrem novas perspectivas na arte cinematográfica, e o prêmio FIPRESCI da crítica internacional. Também recebeu o Grand Prix no Film Fest Gent. Foi considerado um dos melhores filmes do ano e da década por diversas publicações.

A crítica elogiou a forma como Gomes tece referências cinéfilas sem cair na ironia, criando uma "sinfonia visual" que mistura melodrama, romance e reflexão histórica. Muitos destacaram a beleza da fotografia em preto e branco e a audácia da segunda parte, quase silenciosa, como uma "carta poética ao cinema e suas origens". A bilheteria, no entanto, foi modesta, com cerca de 1.1 milhão de dólares mundialmente, e em Portugal, registrou 20.700 espectadores, um número considerado baixo. Apesar disso, "Tabu" consolidou a reputação de Miguel Gomes como um dos diretores mais inovadores do cinema português e mundial, deixando um legado como uma obra-prima que continua a ser debatida e admirada por sua profundidade e sua forma única de encarar a memória e a história.

Fontes Pesquisadas

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  • revistacinetica.com.br/nova/2013/07/19/tabu-de-miguel-gomes-portugalalemanhabrasilfranca-2012/
  • dogandwolf.com/film-reviews/tabu-2012/

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