Lançado em 1997 e dirigido pelo aclamado cineasta português Pedro Costa, "Ossos" é um drama cru e visceral que mergulha nas profundezas do bairro da Fontainhas, em Lisboa, retratando a vida de personagens marginalizadas em um ciclo de desespero e sobrevivência. O filme marca o início da aclamada "Trilogia das Fontainhas" de Costa, uma série de obras que redefiniriam seu estilo cinematográfico e o posicionariam como uma das vozes mais importantes do cinema contemporâneo, conquistando reconhecimento internacional com sua estética sombria e abordagem quase documental.
Análise e Enredo
"Ossos" nos transporta para o labirinto de ruas e vielas do bairro das Fontainhas, um gueto crioulo à beira de Lisboa, onde a vida é uma luta constante contra a pobreza, o abandono e a desesperança. O filme, uma obra-prima do cinema português, é um drama minimalista que se desdobra através de uma narrativa fragmentada e visualmente impactante, combinando elementos de ficção com uma sensibilidade documental.
A trama central gira em torno de Tina (Mariya Lipkina), uma jovem mãe adolescente que, em um ato de desespero avassalador, tenta o suicídio com gás, na companhia de seu recém-nascido. Seu companheiro, um pai adolescente e desorientado (Nuno Vaz), intervém, salvando a criança. No entanto, ele logo se vê igualmente incapaz de cuidar do bebê e o utiliza como um adereço para pedir esmolas nas ruas de Lisboa, na esperança de obter caridade. Essa jornada desesperada o leva a cruzar caminhos com Eduarda (Isabel Ruth), uma enfermeira de meia-idade que tenta ajudar, e com uma prostituta (Inês de Medeiros), que em certo momento se torna uma figura de cuidado para a criança.
Paralelamente, a história segue Clotilde (Vanda Duarte), irmã de Tina e uma empregada doméstica que trabalha em casas mais abastadas da cidade. Clotilde, uma figura mais forte e resiliente, observa com apreensão a espiral de autodestruição de Tina e as ações irresponsáveis do pai. Ela tenta amparar Tina e, junto a outras mulheres do bairro, as "vizinhas", busca uma forma de intervir e recuperar o bebê, que chega a ser oferecido para venda por desespero do pai. O filme é um retrato implacável de vidas à deriva, onde a amizade e a solidariedade entre as mulheres, como Tina e Clotilde, surgem como as únicas fontes verdadeiramente calorosas e humanas em um ambiente de profunda miséria.
O Final e Suas Interpretações
O desfecho de "Ossos" é tão ambíguo e brutal quanto o restante da narrativa, refletindo a natureza cíclica e opressiva da vida nas Fontainhas. A vingança de Tina, com a ajuda das vizinhas do bairro, aproxima-se. Em um dos momentos mais chocantes, Clotilde, ao encontrar o pai do bebê dormindo sozinho (sem a criança), liga o gás em seu apartamento e o abandona, possivelmente resultando em sua morte. Este ato pode ser interpretado como uma forma extrema de justiça ou retribuição, executada por Clotilde em nome de Tina e do bebê, contra a irresponsabilidade e o abandono do pai. É uma vingança que ecoa a tentativa inicial de suicídio de Tina com o gás, mas agora direcionada ao causador de grande parte do sofrimento.
O filme não oferece resoluções fáceis ou finais felizes. Em vez disso, reitera a brutalidade da sobrevivência em um ambiente onde as escolhas são poucas e as consequências, severas. O bebê encontra uma "nova mãe" na figura da prostituta, sugerindo que, mesmo na marginalidade, há uma busca por conexão e cuidado. O final sublinha a ideia de que a tragédia em "Ossos" não é um acidente, mas um "tipo específico de acontecimento e de relação que são genuinamente trágicos", enraizados nas condições de vida das personagens. O filme termina sem uma catarse tradicional, deixando o espectador com a sensação de uma realidade que persiste, um estado de coisas em vez de uma fábula com desfecho claro.
Elenco e Atuações de Destaque
Pedro Costa é conhecido por trabalhar com atores não profissionais, muitos deles moradores dos próprios bairros que retrata, conferindo uma autenticidade visceral às suas obras. "Ossos" não é exceção. Vanda Duarte, no papel de Clotilde, emerge como uma força magnética na tela. Sua performance, que transmite uma notável dignidade e "dureza" em meio à adversidade, é central para a ressonância emocional do filme.
Mariya Lipkina como Tina e Nuno Vaz como o pai adolescente também entregam atuações cruas e despojadas, capturando a essência da desesperança de seus personagens. A presença de Isabel Ruth, uma atriz mais experiente, como a enfermeira Eduarda, adiciona uma camada de complexidade e contraste ao elenco predominantemente não profissional. A direção de Costa extrai performances que, por sua autenticidade e minimalismo, são frequentemente comparadas à abordagem de Robert Bresson com seus "modelos".
Curiosidades de Bastidores e Polêmicas
"Ossos" marcou uma virada crucial na carreira de Pedro Costa. Após a experiência de filmar "Casa de Lava" (1995) em Cabo Verde, onde usou membros das comunidades migrantes pela primeira vez, Costa chegou a Lisboa com mensagens para os familiares desses migrantes nas Fontainhas. A descoberta desse bairro marginalizado se tornaria o centro geográfico e espiritual de seus três filmes seguintes, formando a "Trilogia das Fontainhas".
O filme foi o último de Costa a ser rodado em celuloide (35mm) e com uma equipe de filmagem completa e mais tradicional. Durante a produção, o diretor percebeu que a "maneira normal de fazer filmes" estava "totalmente errada" para as pessoas e o lugar que queria retratar, levando-o a adotar um estilo mais íntimo e minimalista em suas obras subsequentes. A cinematografia de Emmanuel Machuel, que colaborou com Bresson, foi premiada com a Golden Osella no Festival de Veneza de 1997, apesar das dificuldades de filmar em locais "extremamente apertados" e degradados.
Uma curiosidade notável e uma espécie de "polêmica" de bastidor envolve a escolha musical. Em uma cena, Tina ouve a música "Lowdown" da banda Wire. Pedro Costa admitiu, em retrospectiva, que os personagens do bairro "definitivamente não ouviam Wire" e que as músicas predominantes eram hip hop, rap, Metallica ou Pantera. Ele levou o CD para a comunidade, mas reconheceu que a escolha foi mais sua do que diegética para o ambiente. Essa "deturpação" da realidade sonora, embora pequena, é um ponto interessante sobre a interseção entre a visão autoral e a representação do real.
O filme também gerou discussões sobre sua categorização, oscilando entre o drama social, o neorrealismo e uma espécie de "documentário encenado". Alguns críticos notaram que, embora tenha o enredo de um melodrama, a abordagem de Costa subverte as expectativas do gênero, resultando em uma obra com pouca luz, cor, diálogo ou narrativa convencional, focando na "dureza" e dignidade dos personagens.
Recepção e Legado
"Ossos" foi recebido com aclamação crítica, especialmente no circuito de cinema de autor e festivais internacionais. Estreou em 2 de setembro de 1997 no Festival de Cinema de Veneza, onde foi indicado ao Leão de Ouro e ganhou o prêmio Golden Osella de Melhor Fotografia para Emmanuel Machuel. O filme também foi exibido em outros festivais importantes, como o International Film Festival Rotterdam, o São Paulo International Film Festival e o Mar del Plata International Film Festival.
Críticos elogiaram a capacidade de Pedro Costa de capturar a essência da vida marginalizada sem sentimentalismo, mas com uma "delicadeza hipnotizante" e um olhar que honra os moradores das Fontainhas. O "Rotten Tomatoes" registra que o filme, com seu título traduzido para "Bones", tem uma recepção crítica geralmente positiva, destacando sua "visão saturada" e "momentos surrealistas de atividade transgressora". "Ossos" é amplamente considerado uma obra poderosa e evocativa, um marco que não apenas solidificou a reputação de Pedro Costa, mas também abriu caminho para uma nova forma de explorar a realidade social através do cinema, influenciando subsequentemente filmes como "No Quarto da Vanda" (2000) e "Juventude em Marcha" (2006), que continuam a saga das Fontainhas.
Fontes Pesquisadas
- Wikipedia - Ossos (https://pt.wikipedia.org/wiki/Ossos_(filme))
- RTP - Ossos (https://www.rtp.pt/programa/tv/p14828)
- Cinema Português - Ossos (https://www.cinept.ubi.pt/pt/filme/168/Ossos)
- The Criterion Channel - Ossos (https://www.criterionchannel.com/ossos)
- MUBI - Ossos (1997) (https://mubi.com/films/ossos-1997)
- AdoroCinema - Ossos (https://www.adorocinema.com/filmes/filme-11912/)
- Netflix - Ossos (https://www.netflix.com/br/title/70046524)
- LEFFEST - Lisboa Film Festival - Ossos (https://leffest.com/filmes/ossos-2)
- Film at Lincoln Center - Ossos (https://www.filmlinc.org/films/ossos/)
- Senses of Cinema - Ossos/Bones (https://www.sensesofcinema.com/2009/great-directors/pedro-costa-ossos/)
- dcpfilm - Ossos (Costa, 1997) (https://dcpfilm.wordpress.com/2013/11/29/ossos-costa-1997/)
- Cinema Talk - Ossos (1997) (https://cinematalk.wordpress.com/2008/08/05/ossos-1997/)
- thedullwoodexperiment - Ossos (1997) (https://thedullwoodexperiment.wordpress.com/2015/04/09/ossos-1997/)
- Dennis Grunes - BONES (Pedro Costa, 1997) (https://grunes.wordpress.com/2010/05/30/bones-pedro-costa-1997/)
- O TRÁGICO EM PEDRO COSTA: NOTAS SOBRE OSSOS (1997) - ResearchGate (https://www.researchgate.net/publication/267860959_O_TRAGICO_EM_PEDRO_COSTA_NOTAS_SOBRE_OSSOS_1997)
- Screen Slate - Ossos (https://www.screenslate.com/articles/ossos)
- Românticos Radicais - Filme: "Ossos" (1997), Pedro Costa (https://romanticosradicais.blogs.sapo.pt/filme-ossos-1997-pedro-costa-33758)
- Rotten Tomatoes - Bones (1997) (https://www.rottentomatoes.com/m/bones_1997)
































