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Dirigido pelo visionário João Pedro Rodrigues, "O Ornitólogo" (2016) é uma obra cinematográfica luso-franco-brasileira que transcende as fronteiras do drama para mergulhar em um realismo fantástico e uma profunda exploração da identidade. O filme, que é uma ousada e queer releitura da vida de Santo António de Lisboa, desafia o espectador com sua narrativa densa e simbolismos religiosos e pagãos, resultando em uma experiência cinematográfica tão desafiadora quanto gratificante.

Análise e Enredo

"O Ornitólogo" inicia-se com uma citação de Santo António de Lisboa, preparando o terreno para uma jornada que rapidamente se desvia do documental para o surreal. O filme acompanha Fernando (interpretado por Paul Hamy), um ornitólogo solitário que viaja de caiaque por um rio remoto no norte de Portugal, em busca de cegonhas-pretas, uma espécie em risco de extinção. Nos seus primeiros dezasseis minutos, a obra mantém um ritmo sereno, quase como um documentário sobre a vida selvagem, com Fernando observando pacientemente as aves através dos seus binóculos e registando as suas observações.

No entanto, a tranquilidade é abruptamente quebrada quando Fernando se distrai com uma ave rara e é arrastado pelas corredeiras do rio, capotando o seu caiaque. Resgatado por duas peregrinas chinesas, Lin (Chan Suan) e Fei (Han Wen), que se perderam no Caminho de Santiago de Compostela, a sua odisseia toma um rumo inesperado. As mulheres, inicialmente apresentadas como salvadoras, revelam intenções sádicas, amarrando Fernando a uma árvore com cordas, em uma cena que evoca o bondage japonês (Kinabku ou Shibari) e imagens erotizadas de São Sebastião.

Após escapar, Fernando aventura-se cada vez mais fundo na floresta, perdendo-se e encontrando uma série de personagens e situações progressivamente bizarras e sobrenaturais. Ele cruza-se com um pastor surdo-mudo chamado Jesus (Xelo Cagiao), com quem estabelece uma relação carnal e intensa. Encontra um grupo de homens fantasiados de Caretos, figuras folclóricas portuguesas, envolvidos em rituais dionisíacos e pagãos. É atacado e ressuscitado por um trio de caçadoras de seios nus, cavalgando pela floresta. A cada encontro, Fernando é posto à prova, confrontado com a sua própria mortalidade, sexualidade e descrença, transformando-se gradualmente. A presença constante de aves, muitas vezes com perspetivas em primeira pessoa (usando uma câmara GoPro modificada), serve como um elo entre o protagonista e o mundo natural, e também como um olhar divino que observa a sua metamorfose.

Explicação Detalhada do Final

O clímax e o final de "O Ornitólogo" são o culminar da jornada de transfiguração de Fernando, que se metamorfoseia na figura de Santo António de Lisboa. Após uma série de "mortes" e renascimentos simbólicos e literais ao longo do filme, Fernando, interpretado por Paul Hamy, é assassinado. No entanto, ele é imediatamente "renascido" como António, e, surpreendentemente, o papel é assumido pelo próprio realizador, João Pedro Rodrigues. Esta mudança de corpo, de Paul Hamy para Rodrigues, é o ponto de viragem visual e simbólico que solidifica a transformação do naturalista cético no santo, do ornitólogo para o homem "iluminado".

O filme termina com António (agora Rodrigues) e Thomas (o irmão gémeo de Jesus, também interpretado por Xelo Cagiao) a caminhar de mãos dadas por uma estrada movimentada, pulando ao ritmo de uma canção pop. Esta cena, que muitos críticos descrevem como "sem sentido" ou até "goofy" (boba), desafia o público a não procurar explicações fáceis para uma narrativa tão densa em simbolismo. O realizador, com esta conclusão, parece "brincar" com a audiência, sugerindo que a busca por um significado único e literal é menos importante do que a experiência visceral e aprofundada da jornada espiritual e erótica.

O final representa a perda de uma identidade terrena e a adoção de um "plano de ser" superior. Fernando, que inicialmente se declara cético em relação a espíritos, Deus ou o Diabo, vê as suas convicções abaladas pelos eventos sobrenaturais. A metamorfose é completa: o ornitólogo, que observava a natureza de forma científica e distanciada, torna-se um com ela, abraçando o misticismo e o sagrado de uma forma profundamente pessoal e, por vezes, blasfema. A indefinição entre a doença e a epifania, exacerbada pela menção de Fernando estar sem a sua medicação, adiciona uma camada de ambiguidade, questionando se as suas experiências são alucinações ou uma verdadeira revelação espiritual.

Elenco e Atuações

O elenco de "O Ornitólogo" é encabeçado pelo ator francês Paul Hamy no papel de Fernando. A sua performance é notável pela exigência física e pela capacidade de transmitir uma "terrestrialidade" que se adapta bem ao cenário naturalista. Curiosamente, a voz de Paul Hamy é integralmente dobrada pelo próprio João Pedro Rodrigues, um detalhe que não só adiciona uma camada de intimidade e autobiografia à obra, mas também prenuncia a eventual transformação e apropriação do personagem pelo realizador.

Xelo Cagiao interpreta Jesus, o pastor surdo-mudo, e posteriormente o seu irmão gémeo Thomas. A sua atuação, marcada pela expressividade não verbal, é crucial para as cenas de interação intensa e erótica com Fernando. As atrizes chinesas Han Wen e Chan Suan, nos papéis das peregrinas Fei e Lin, oferecem uma introdução enigmática e ameaçadora à jornada de Fernando. O próprio João Pedro Rodrigues surge em tela na fase final do filme, assumindo o papel de António, solidificando a sua visão pessoal e transfiguradora da narrativa.

Curiosidades e Bastidores

João Pedro Rodrigues confessou que o desejo de ser ornitólogo foi uma paixão de infância, tendo mesmo estudado biologia antes de se dedicar ao cinema. Esta experiência pessoal é o ponto de partida e a espinha dorsal de "O Ornitólogo", que ele descreve como um caminho que poderia ter seguido. A rodagem decorreu em Trás-os-Montes, no norte de Portugal, aproveitando a natureza selvagem e misteriosa da região para criar uma atmosfera única. A cinematografia de Rui Poças é frequentemente elogiada pela forma como capta as paisagens deslumbrantes do Douro e a vida selvagem, por vezes incorporando o ponto de vista das aves através de câmaras GoPro modificadas, o que contribui para o carácter onírico e documental da obra.

O filme enfrentou desafios de produção, incluindo problemas financeiros, mas a persistência da equipa permitiu que a obra fosse concluída. O realizador, ao receber o prémio em Locarno, dedicou-o à sua equipa, sublinhando que o filme só foi possível graças àqueles que acreditaram no projeto, mesmo antes de serem pagos. A revista francesa Cahiers du Cinéma chegou a incluir "O Ornitólogo" na sua lista dos 12 filmes mais esperados de 2016, destacando a sua relevância no panorama cinematográfico internacional.

Polêmicas e Interpretações Conflitantes

"O Ornitólogo" é, por natureza, um filme que provoca e desafia, suscitando múltiplas interpretações. João Pedro Rodrigues descreveu-o como uma "reapropriação propositadamente transgressora e blasfema da vida do santo", misturando iconografia cristã com elementos pagãos e perversos. Esta fusão de sacro e profano, de erotismo e espiritualidade, é uma das principais fontes de discussão e, para alguns, de "polêmica".

A natureza "queer" do filme é inegável, com a proliferação de casais do mesmo sexo e uma exploração abertamente homoerótica da figura de Santo António. Rodrigues brinca com as expectativas religiosas e sexuais, criando uma obra que é tanto uma "oda gay" quanto um ensaio blasfemo sobre mitos e simbolismos.

Alguns críticos consideraram o filme "hermético", "denso" e "pouco didático", exigindo um espectador ativo e aberto à desorientação. Houve quem sentisse que o filme caía no "absurdo mais do que o necessário", questionando a sua eficácia como filme de terror, experiência espiritual ou história de autodescoberta. A ambiguidade sobre se os eventos são reais ou produto de alucinações de Fernando, que está sem medicação, também gerou diferentes leituras sobre a linha ténue entre a doença mental e a epifania religiosa.

A própria narrativa, descrita como "disforme e picaresca" como as Vidas dos Santos, em vez de uma trama linear, contribui para a sua natureza enigmática, onde o que é "sentido" prevalece sobre o que é "contado". No entanto, a forma como o realizador "naturaliza" aspetos que poderiam ser controversos, como a sexualidade e a religião, faz com que estes se tornem harmoniosos e complementares, em vez de conflitantes.

Recepção Crítica e Legado

"O Ornitólogo" foi amplamente aclamado pela crítica internacional, sendo frequentemente referido como a "magnum opus" de João Pedro Rodrigues e o seu melhor filme. A obra foi elogiada pela sua originalidade, pela estética impecável, pelo som "fantástico" e pela abordagem ousada e pessoal do realizador. Críticos destacaram a capacidade de Rodrigues em criar um "cinema que respira", com um estilo que não pode ser reduzido a regras ou precedentes.

A recepção do público, no entanto, foi mais polarizada. Dada a sua densidade, ritmo lento e complexidade simbólica, o filme foi considerado uma experiência para poucos, com potencial para afastar espectadores habituados a narrativas mais convencionais. No entanto, para aqueles que se permitiram embarcar no seu realismo fantástico e simbolismo denso, a experiência foi descrita como "recompensadora", "hipnotizante" e "sublime".

O reconhecimento internacional veio com o prémio de Melhor Realizador (Leopardo de Melhor Realização) no prestigiado Festival Internacional de Cinema de Locarno em 2016, consolidando a posição de João Pedro Rodrigues como uma voz proeminente no cinema contemporâneo português e mundial. O filme também recebeu o prémio de Melhor Filme no Black Movie – Geneva International Independent Film Festival e o Peter Brunette Award para Melhor Diretor no RiverRun International Film Festival. Foi exibido em festivais importantes como o de Toronto e San Sebastián, ampliando a sua projeção global. Embora a sua bilheteira não tenha sido expressiva ($74,714 mundialmente), o seu impacto cultural e artístico é inegável, estabelecendo-o como um marco no cinema de autor e LGBTQ+.

Fontes Pesquisadas

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