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Dirigido por Zhang Yimou e Yang Fengliang, "Ju Dou" (1990) é um romance dramático chinês que se desenrola no início do século XX e narra a trágica história de uma jovem vendida em casamento a um cruel proprietário de tinturaria. Considerado uma obra-prima visual e um marco do cinema chinês da Quinta Geração, o filme aborda temas complexos como desejo, opressão feudal e a luta individual contra as normas sociais sufocantes, deixando uma marca indelével na crítica internacional e enfrentando notória censura em seu país de origem.

Análise e Enredo

"Ju Dou" mergulha o espectador na atmosfera claustrofóbica de uma tinturaria rural na China do início do século XX, onde as cores vibrantes dos tecidos contrastam dramaticamente com a escuridão da vida de seus personagens. A história começa com Yang Tianqing (Li Baotian), o sobrinho adotivo de cerca de 40 anos do idoso e sádico Yang Jinshan (Li Wei), retornando de uma viagem para vender seda. Ele descobre que seu tio adquiriu uma nova esposa, Ju Dou (Gong Li), a terceira, após supostamente ter espancado as duas anteriores até a morte por não lhe darem um filho.

Jinshan, que é impotente, submete Ju Dou a torturas diárias na tentativa de engravidá-la, tratando-a mais como uma propriedade do que como uma esposa. Tianqing, que não tem condições de ter uma esposa por ser pobre, observa secretamente Ju Dou, inicialmente por um orifício, mas logo seu voyeurismo se transforma em compaixão e atração ao ver as marcas de abuso em suas costas. A paixão entre eles se torna incontrolável, e Ju Dou e Tianqing iniciam um relacionamento clandestino.

Ju Dou engravida do filho de Tianqing, e o casal engana Jinshan, fazendo-o acreditar que o bebê é seu herdeiro. A notícia enche o velho de alegria, mas sua impotência e a verdade sobre a paternidade do filho acabam por atormentá-lo. Após um acidente, Jinshan fica paralisado da cintura para baixo, e os amantes revelam-lhe a verdade sobre o caso e a paternidade de Tianbai. Jinshan, humilhado e furioso, tenta matar o bebê e incendiar a casa, mas é contido por Tianqing, que o suspende em um barril, tornando-o uma testemunha impotente de sua "usurpação". O filho do casal é nomeado Tianbai (Zhang Yi quando criança, Zheng Ji'an quando adolescente) e é criado como o tão esperado herdeiro de Jinshan.

Apesar da morte acidental de Jinshan em um dos tonéis de tinta, com Tianbai observando e rindo, a tragédia se aprofunda. A sociedade conservadora da vila ainda não aceita o relacionamento de Ju Dou e Tianqing, forçando Tianqing a se mudar e Ju Dou a permanecer sozinha com o filho, proibida de casar-se novamente. Tianbai cresce como um adolescente silencioso, zangado e com comportamento cada vez mais destrutivo, envergonhado e influenciado pelos rumores sobre a infidelidade de seus pais. Ele se recusa a aceitar Tianqing como seu pai, e em um acesso de raiva e vergonha, arrasta os pais para fora de um porão onde eles estavam desmaiados (em algumas interpretações, tentando cometer suicídio) e afoga Tianqing na tina de tinta vermelha. Em desespero, Ju Dou incendeia a tinturaria.

Significados Ocultos e Simbolismo do Final

O final de "Ju Dou" é um clímax brutal que sintetiza os temas de opressão, destino e a natureza inescapável da tradição. A morte de Tianqing pelas mãos de seu próprio filho, Tianbai, é a manifestação máxima da hipocrisia social e da internalização da moralidade repressora. Tianbai, que para alguns simboliza a brutalidade dos Jovens Guardas da Revolução Cultural ou, mais genericamente, a crueldade do Maoismo, cresce imbuído de raiva e vergonha pelos fofocas, rejeitando a verdade de sua paternidade biológica em favor da ordem social.

A recusa de Tianbai em aceitar Tianqing como seu pai, mesmo sabendo a verdade, e seu ato de patricídio (duas vezes, uma vez "acidentalmente" com Jinshan e deliberadamente com Tianqing) sublinha a ideia de que o poder do regime ou da estrutura patriarcal transcende o indivíduo e perdura através das gerações. Sua figura muda e vingativa sugere que a opressão é cíclica, e o oprimido pode se tornar o opressor, ou perpetuar a estrutura que o feriu.

O incêndio da tinturaria por Ju Dou no final é um ato desesperado de rebelião e, para muitos, simboliza a destruição e abandono de tradições e instituições opressoras em busca de progresso e liberdade. É uma forma de Ju Dou queimar não apenas o local físico de sua miséria, mas também as amarras de um sistema feudal que a condenou a uma vida de sofrimento. A cor vermelha, que permeia o filme nas tintas, tem múltiplos significados, representando paixão, amor, luxúria, mas também morte, angústia e a "bagunça sangrenta" do pecado e da tragédia.

A ambiguidade da cena no porão, onde Ju Dou e Tianqing desmaiam por falta de ar, levanta a questão de um possível pacto suicida. Embora o filme não o declare explicitamente, alguns críticos interpretam que eles estavam tentando cometer suicídio, pois sabiam que não poderiam viver juntos realisticamente naquele mundo. O resgate por Tianbai e o subsequente assassinato de Tianqing tornam o final ainda mais trágico, negando aos amantes até mesmo a escolha de sua própria libertação.

Elenco e Atuações de Destaque

O filme é estrelado por talentos notáveis que entregam performances memoráveis:

  • Gong Li como Ju Dou: Sua interpretação da protagonista é universalmente aclamada. Gong Li, em sua terceira colaboração com Zhang Yimou, brilha no papel, transmitindo a luta, a sensualidade, a resiliência e a eventual desesperança de Ju Dou. Sua beleza e a forma como a narrativa explora seu sofrimento e espírito de luta a tornaram sinônimo de uma feminilidade chinesa glamorizada e, muitas vezes, erótica.
  • Li Baotian como Yang Tianqing: Li Baotian entrega uma atuação convincente como o sobrinho oprimido e compassivo, que se apaixona por Ju Dou. Ele encarna o homem comum, preso entre o desejo pessoal e as expectativas sociais e familiares.
  • Li Wei como Yang Jinshan: Li Wei é assustadoramente eficaz como o tirano cruel e impotente Yang Jinshan, cuja maldade é a força motriz da tragédia.
  • Zhang Yi (criança) e Zheng Ji'an (jovem) como Yang Tianbai: Apesar de ter pouco diálogo, a presença de Tianbai é poderosa. Sua mudez e falta de expressividade, que evoluem para uma raiva silenciosa, destacam o impacto corrosivo do ambiente em que cresce.

As performances são uniformemente excelentes e os personagens são inesquecíveis.

Curiosidades de Bastidores

  • Coprodução e Tecnologia Technicolor: "Ju Dou" foi uma coprodução entre a China e o Japão. O filme foi produzido utilizando o vívido processo Technicolor, muito depois de ter sido abandonado nos Estados Unidos. Uma das fábricas da Technicolor Corporation, responsável pelo processo de coloração de três tiras, foi vendida para a China, o que permitiu a Zhang Yimou fazer um uso estonteante de cores ricas e brilhantes, raramente vistas em filmes de Hollywood desde a era de ouro dos musicais da MGM.
  • "Trilogia Vermelha": "Ju Dou" é frequentemente considerado a parte central da "Trilogia Vermelha" de Zhang Yimou, que inclui "Red Sorghum" (1987) e "Raise the Red Lantern" (1991). Esses filmes são caracterizados pelo uso abundante da cor vermelha, por explorarem temas de desejo pessoal contra as restrições sociais e por apresentarem Gong Li como a protagonista.
  • Adaptação Literária: O filme é baseado na novela "Fuxi, Fuxi" (伏羲伏羲) de Liu Heng, que também adaptou o roteiro para o cinema. Na novela original, Tianqing é sobrinho biológico de Jinshan, mas a adaptação cinematográfica removeu o elemento incestuoso, retratando-os como não relacionados por sangue.

Polêmicas e Censura

"Ju Dou" gerou forte controvérsia e enfrentou censura significativa na China. O governo chinês baniu o filme em seu lançamento inicial em 1990, e a proibição só foi suspensa em 1992. Embora o filme tenha sido aprovado pelas autoridades chinesas antes da produção, sua natureza adulta, com cenas de seminudez e paixão ilícita, foi considerada "não saudável" e "decadente" pelas autoridades.

Críticos chineses argumentaram que o filme era prejudicial à "imagem da China", retratando uma sociedade patriarcal, repressiva e ritualística. Além disso, alguns interpretaram a figura do velho Jinshan como uma alegoria do antigo regime Maoista e Tianbai como um símbolo da Guarda Vermelha ou do autoritarismo, o que ofendeu os linha-dura do governo. A nomeação para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1991, a primeira para um filme chinês, adicionou combustível à polêmica. O governo chinês tentou retirar o filme da cerimônia, mas a Academia recusou. Funcionários do Chinese Film Bureau que selecionaram o filme para a nomeação foram disciplinados e forçados a escrever "autocríticas" por "atrair a atenção mundial" para ele.

Recepção e Legado do Filme

Apesar da censura interna, "Ju Dou" foi um sucesso internacional, conquistando aclamação crítica e estabelecendo Zhang Yimou e Gong Li como figuras proeminentes no cenário cinematográfico mundial. O filme foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, tornando-se o primeiro filme chinês a receber tal honra. Também recebeu um prêmio de Melhor Filme no Chicago International Film Festival em 1990. Críticos ocidentais elogiaram sua beleza visual, a cinematografia estonteante de Gu Changwei, o uso suntuoso da cor e a narrativa melodramática, muitas vezes comparando-o a um conto de fadas sombrio ou uma obra de melodrama delirante.

Roger Ebert, por exemplo, destacou a beleza visual do filme, mencionando que as cores brilhantes das tintas na fábrica lembram a intensidade dos filmes de Hollywood da era de ouro do Technicolor. Muitos críticos também o interpretaram como uma alegoria da luta entre o indivíduo e o estado, e como uma crítica ao tratamento das mulheres na sociedade chinesa patriarcal. "Ju Dou" cimentou a reputação de Zhang Yimou como um dos mestres pictóricos do cinema moderno e a de Gong Li como uma atriz com uma capacidade notável de retratar personagens femininas fortes e sofredoras. A restauração do filme em 2017 pela empresa francesa Impex Films, com o apoio da ARTE France e Hiventy, garantiu que sua beleza visual continue a ser apreciada.

Fontes Pesquisadas

  • Wikipedia: Ju Dou
  • Brandon's Cinema Journal: “Ju Dou” (1990): An Oppressive and Genderized China
  • UBC Wiki: Course:ASIA355/2023/Ju Dou: Exploring the Fabric of Gender Construct through a Transnational Lens
  • The Garden Cinema: Ju Dou
  • Wikipedia: Film censorship in China
  • Moviegique: Ju Dou (1990)
  • Wenxia's - WordPress.com: Ju Dou (1990)
  • Roxie Theater: Ju Dou
  • Senses of Cinema: A Portrait of Lives Constrained: Zhang Yimou’s Ju Dou
  • LA Times: China's Angry Old Men Crack Down Again : Movies: Embarrassed by 'Ju Dou's' Oscar nomination, cultural officials demand admissions of 'error' of film bureau officials who sought it. But film's director has apparently not been affected.
  • Eternality Tan: Ju Dou (1990)
  • Film Movement: Theatrical: Ju Dou
  • Britannica: Ju Dou | film by Zhang
  • Classic Movie Review: Ju Dou [Judou] **** (1990, Gong Li, Li Wei, Zhang Yi) – Classic Movie Review 7880
  • Cleveland Cinematheque: Ju Dou
  • MoMA: Ju Dou. 1990. Directed by Zhang Yimou and Yang Fengliang
  • The Cameraman: Dying in Color: Ju Dou Review
  • Eye for Film: Ju Dou (1990) Movie Review from Eye for Film
  • AMC Theatres: Ju Dou (1990) (re)
  • Wikipedia: List of Chinese submissions for the Academy Award for Best International Feature Film
  • MovieChat: Near the end *Major Spoiler!* - Ju Dou (1990) Discussion & Reviews
  • Nick Lacey on films - WordPress.com: Ju Dou (China-Japan, 1990) | Nick Lacey on films
  • Film at Lincoln Center: NYFF '90: Ju Dou
  • Cinema St. Louis Hi-Pointe Theatre: Ju Dou
  • Classic Film Review: Seminal Cinema — The Exquisite “Ju Dou” (1990) is Restored
  • Too Much Art - WordPress.com: “Ju Dou”
  • Roger Ebert: Ju Dou movie review & film summary
  • Jonathan Rosenbaum: Feudal Attraction [JU DOU]
  • The Film Sufi: “Ju Dou” - Zhang Yimou and Yang Fengliang (1990)
  • Film Movement: Press Kit
  • Amirul's blog for "Asian Cinemas" - WordPress.com: Ju Dou, 菊豆 (1990 film)
  • The Washington Post: 'JU DOU' THE CULTURAL CLAMPDOWN
  • Gene Siskel Film Center: JU DOU
  • Asian Cinemas: Ju Dou (1990) – 'Hidden Affairs'

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