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"O Que É Isso, Companheiro?" é um eletrizante thriller político brasileiro de 1997, dirigido por Bruno Barreto, que mergulha no turbulento período da ditadura militar no Brasil. Baseado no livro autobiográfico de Fernando Gabeira, o filme narra o audacioso sequestro do embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick, em 1969, por grupos guerrilheiros de esquerda. Com uma trama que explora os dilemas éticos da luta armada e a complexidade de seus protagonistas, o longa-metragem não só alcançou destaque internacional com uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, mas também se consolidou como um marco na retomada do cinema nacional, gerando intensos debates sobre a representação histórica e as motivações humanas em tempos de repressão.

Análise e Enredo

O filme "O Que É Isso, Companheiro?" transporta o espectador para o Brasil de 1969, um país sob o jugo da ditadura militar e recém-impactado pelo endurecimento do regime com o Ato Institucional nº 5 (AI-5). O enredo acompanha de perto a formação de um grupo de jovens militantes de esquerda, em sua maioria universitários da classe média carioca, que optam pela clandestinidade e pela luta armada como forma de combater a repressão e tentar restaurar a democracia. Entre eles estão Fernando (Pedro Cardoso), um jornalista idealista e o alter ego de Fernando Gabeira, e seu amigo César (Selton Mello).

A premissa central e a espinha dorsal da narrativa é a planejada e executada ação mais audaciosa do grupo: o sequestro do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Burke Elbrick (interpretado por Alan Arkin), em setembro de 1969, no Rio de Janeiro. O objetivo não era financeiro, mas político e simbólico: exigir a libertação de quinze presos políticos em troca da vida do diplomata e a leitura de um manifesto em cadeia nacional de rádio e televisão, buscando furar o "muro do silêncio" imposto pela censura da imprensa.

A trama se desenrola com a captura de Elbrick e sua posterior manutenção em cativeiro, enquanto os guerrilheiros lidam com a tensão crescente, o medo da descoberta e as complexidades de manter um refém de alto perfil. O filme explora as personalidades diversas dentro do grupo, as divergências ideológicas e as dificuldades práticas e éticas de suas escolhas. Fernando e Maria (Fernanda Torres), outra integrante importante do MR-8, são figuras centrais que personificam os dilemas daquele momento histórico. O embaixador Elbrick, por sua vez, é retratado como um homem calmo e inteligente, capaz de dialogar e manter a compostura em meio ao perigo, o que adiciona uma camada de complexidade à dinâmica entre sequestradores e refém.

Explicação Detalhada do Final

O clímax do filme, assim como na história real, gira em torno da negociação. Após dias de cativeiro e intensa pressão do governo brasileiro, que inicialmente demonstrava resistência em ceder às exigências, a ditadura militar finalmente aceita as condições dos sequestradores. Quinze presos políticos são libertados e levados para o exílio no México, e o manifesto dos grupos revolucionários é lido publicamente. Em contrapartida, o embaixador Charles Burke Elbrick é libertado ileso.

O "final" de "O Que É Isso, Companheiro?" não é um encerramento simples, mas uma reflexão sobre as consequências de tais atos. Para os guerrilheiros, a libertação do embaixador é uma vitória tática, um momento de visibilidade e de resgate de companheiros, mas não o fim da luta. O filme sugere as diferentes rotas tomadas pelos participantes reais após o sequestro, como o exílio, a continuidade na luta armada, ou o retorno à clandestinidade em um cenário de repressão ainda mais intensa por parte do regime. Embora o filme não ofereça um epílogo explícito para todos os personagens, a sensação que permanece é a de que, para muitos, a vida jamais voltaria ao normal, carregando o peso das decisões tomadas e das vidas impactadas. A narração, que acompanha a jornada de Fernando (Gabeira), mostra que o sequestro foi um marco, mas a luta contra a ditadura estava longe de terminar, e as sequelas pessoais e políticas seriam duradouras.

Elenco e Atuações de Destaque

Um dos pontos fortes de "O Que É Isso, Companheiro?" é seu elenco estelar, que reúne nomes consagrados e talentos emergentes do cinema brasileiro, além de uma participação internacional de peso. Pedro Cardoso entrega uma atuação convincente como Fernando, o protagonista que reflete o próprio Fernando Gabeira, capturando o idealismo e as dúvidas de um jovem militante. Fernanda Torres brilha como Maria, uma das guerrilheiras, imprimindo força e vulnerabilidade à personagem.

A presença do renomado ator americano Alan Arkin no papel do embaixador Charles Burke Elbrick foi amplamente elogiada. Arkin confere humanidade e dignidade ao diplomata, que se torna uma figura central não apenas como refém, mas como um observador astuto e, em certa medida, um catalisador das tensões internas do grupo.

O filme também se beneficia de um elenco de apoio formidável, incluindo Selton Mello como César, o amigo de Fernando, e Luiz Fernando Guimarães como Marcão. Matheus Nachtergaele e Marco Ricca complementam o grupo de guerrilheiros. As participações especiais de grandes nomes como Fernanda Montenegro, Nelson Dantas, Milton Gonçalves e Othon Bastos enriquecem ainda mais a produção, mesmo em papéis menores, como a cena em que Fernanda Montenegro liga para a polícia para relatar algo suspeito e não é levada a sério. Cláudia Abreu interpreta Renée, outra guerrilheira cuja personagem geraria uma das maiores controvérsias do filme.

Curiosidades de Bastidores e Polêmicas

"O Que É Isso, Companheiro?" não foi apenas um sucesso de crítica e público, mas também um filme cercado por debates e controvérsias, especialmente devido à sensibilidade do tema que aborda.

Primeiramente, o filme é uma adaptação do livro homônimo de 1979 de Fernando Gabeira, um dos participantes reais do sequestro de Elbrick. Gabeira também co-escreveu o roteiro com Leopoldo Serran. A adaptação para o cinema, no entanto, tomou "diversas licenças ficcionais", condensando figuras, dividindo uma em duas, e atribuindo ações e protagonismos a quem não os teve na realidade.

A produção do filme foi um desafio, custando R$ 4,5 milhões, um dos maiores investimentos do cinema brasileiro na época, e enfrentou ceticismo de investidores que temiam que fosse percebido como "pró-comunista" ou que glorificasse "terroristas". O diretor Bruno Barreto e o produtor Luiz Carlos Barreto defenderam que a intenção não era glorificar a luta armada ou a tortura, mas sim explorar as motivações e tensões humanas de um momento específico da história brasileira. Barreto reiterou seu desejo de evitar um filme maniqueísta, buscando retratar os personagens e o período com complexidade, fugindo de clichês de heróis e vilões.

A maior polêmica, no entanto, veio de participantes reais do sequestro. Vera Sílvia Magalhães, a única mulher envolvida na ação histórica, criticou o filme veementemente, mesmo antes de assisti-lo, classificando-o como "desrespeitoso". Ela se sentiu retratada nas personagens de Maria (Fernanda Torres) e Renée (Cláudia Abreu) e ficou particularmente indignada com a cena em que Renée supostamente usa a sexualidade para obter informações do chefe de segurança da embaixada. Vera Sílvia declarou que "não estava no nosso universo o uso da sexualidade como mercadoria", refutando a representação. Além disso, criticou o filme por, em sua visão, apresentar os guerrilheiros como "pessoas estúpidas, quase bárbaras", enquanto os torturadores seriam "humanizados", distorcendo a memória de quem viveu o período de perto.

Cláudio Torres, outro ex-dirigente do MR-8, também expressou "indignação", questionando a fidelidade do filme aos processos históricos e ao significado do sequestro e da ditadura militar. Segundo ele, o filme construiu uma "caricatura do período, dos personagens e da própria disputa política em si". Essas críticas levantaram um importante debate sobre a responsabilidade da ficção ao abordar eventos históricos traumáticos, especialmente quando há sobreviventes e diferentes perspectivas sobre os fatos. Barreto, por sua vez, defendeu que o filme não era um documentário, mas uma "interpretação ficcional da realidade", focada em "medos, vontades e as tensões envolvidas em um episódio específico".

Recepção e Legado do Filme

"O Que É Isso, Companheiro?" foi um dos filmes brasileiros de maior repercussão internacional de sua época. Ele foi lançado nos Estados Unidos com o título "Four Days in September" e conquistou uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1998, um feito que o colocou em destaque mundial. Além disso, o filme foi selecionado para o Festival Internacional de Cinema de Berlim em 1997 e ganhou o prêmio de Melhor Longa-Metragem (Prêmio do Público) no AFI Fest no mesmo ano.

No Brasil, o filme foi bem recebido pelo público e pela crítica, sendo amplamente visto como um marco na "Retomada" do cinema nacional, ajudando a revitalizar a produção cinematográfica brasileira após um período de declínio. A crítica geralmente elogiou a competência técnica de Bruno Barreto, a direção de cena, o roteiro e a montagem, bem como a atmosfera opressiva que o filme conseguiu criar, retratando o clima de periculosidade da ditadura. Muitos o consideraram um "belíssimo filme", importante para que todas as gerações brasileiras compreendessem a ditadura militar e a luta armada, mesmo com seus defeitos ou com a inevitável contrariedade de algumas memórias.

Apesar das controvérsias em relação à sua precisão histórica e à representação dos guerrilheiros e do embaixador, o filme conseguiu iniciar um diálogo importante e provocar reflexão sobre o passado recente do Brasil. Seu legado reside não apenas nas premiações e no sucesso comercial, mas também em sua capacidade de manter viva a memória de um período complexo e doloroso, gerando discussões sobre os limites da ficção na história e as múltiplas faces da verdade. A relevância do filme é tal que, em setembro de 2025, uma versão remasterizada de "O Que É Isso, Companheiro?" foi anunciada para retornar aos cinemas, reafirmando seu status de clássico do cinema brasileiro contemporâneo.

Fontes Pesquisadas

  • https://mubi.com/pt/films/o-que-e-isso-companheiro
  • https://www.adorocinema.com/filmes/filme-14022/creditos/
  • https://www.youtube.com/watch?v=1F_454BqYI8
  • https://tv.apple.com/br/movie/o-que-e-isso-companheiro/umot.umad.35821r0yv8b2q9e4i7u5d3knh
  • https://revistadecinema.com.br/2025/09/o-que-e-isso-companheiro-classico-de-bruno-barreto-retorna-aos-cinemas-em-versao-remasterizada/
  • https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Que_%C3%89_Isso,_Companheiro%3F_(filme)
  • https://www.adorocinema.com/filmes/filme-14022/criticas-imprensa/
  • https://cinegarimpo.com.br/o-que-e-isso-companheiro/
  • http://cinemateca.gov.br/bases/?FILMOGRAFIA-021462
  • http://www.filmografia.org.br/conteudo/filme/021462/o-que-e-isso-companheiro-
  • https://www.adusp.org.br/files/cadernos/24/encarte.pdf
  • https://memoriasduditadura.org.br/filmes/o-que-e-isso-companheiro/
  • https://www.cinema10.com.br/filme/o-que-e-isso-companheiro
  • https://www.youtube.com/watch?v=d_k8v-3B-2s
  • https://www.mis.sp.gov.br/programacao/clube-do-filme-do-livro-o-que-e-isso-companheiro
  • https://en.wikipedia.org/wiki/Four_Days_in_September
  • http://maisdecinquentaanosdefilmes.blogspot.com/2012/03/o-que-e-isso-companheiro.html
  • https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1997/5/01/ilustrada/11.html
  • https://play.google.com/store/movies/details/O_Que_%C3%89_Isso_Companheiro?id=z0B-NqW_V5k
  • https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1997/2/18/ilustrada/10.html

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