Dirigido por Mel Gibson, "Até o Último Homem" (Hacksaw Ridge, 2016) é um épico drama de guerra biográfico que narra a extraordinária história real de Desmond Doss, um médico de combate americano na Segunda Guerra Mundial que, movido por suas profundas convicções adventistas do sétimo dia, recusou-se a portar ou usar qualquer tipo de arma. O filme cativou crítica e público com sua representação visceral do conflito e sua comovente ode à fé inabalável e à coragem desarmada, marcando um retorno aclamado de Gibson à direção e consolidando seu impacto com múltiplas indicações e vitórias em premiações.
Análise e Enredo
"Até o Último Homem" nos transporta para a vida de Desmond Doss (interpretado por Andrew Garfield), começando em sua infância na zona rural de Lynchburg, Virgínia. Testemunhas de um incidente violento em família — onde, na versão cinematográfica, Desmond quase atira em seu pai abusivo para proteger sua mãe, um evento que, na vida real, envolvia seu pai ameaçando o tio e sua mãe intervindo — e uma educação pautada pelos preceitos adventistas do sétimo dia, incutem nele uma firme crença no mandamento "Não matarás". Esse princípio se torna a base de sua vida, especialmente após um romance com a enfermeira Dorothy Schutte (Teresa Palmer).
Com o ataque a Pearl Harbor e a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, Desmond sente o chamado para servir seu país, mas de uma maneira que não viole sua consciência. Ele se alista no Exército como médico de combate, um "objetor de consciência" que se recusa a tocar em uma arma. Essa decisão o coloca em rota de colisão com seus superiores e colegas durante o treinamento básico em Fort Jackson, Carolina do Sul, onde é ridicularizado, agredido e acusado de covardia. O Sargento Howell (Vince Vaughn) e o Capitão Glover (Sam Worthington) tentam de todas as formas forçá-lo a desistir ou portar uma arma, chegando a ameaçá-lo com uma corte marcial. No entanto, Desmond se mantém firme, convicto de que, enquanto outros tiram vidas, ele salvará vidas. Sua determinação e fé são finalmente reconhecidas após uma intervenção legal, permitindo-lhe servir sem empunhar uma arma.
O cenário brutal da Batalha de Okinawa, particularmente no topo da escarpa Maeda, conhecida como "Hacksaw Ridge", é onde a fé e a coragem de Doss são postas à prova de forma mais extrema. Após um assalto inicial bem-sucedido, as forças americanas são forçadas a recuar sob um contra-ataque japonês avassalador, deixando centenas de feridos para trás. Em meio ao inferno de balas, granadas e corpos desmembrados, Desmond Doss recusa-se a abandonar seus companheiros. Sozinho, desarmado e sob fogo inimigo incessante, ele passa a noite e o dia seguinte resgatando um por um os soldados feridos, arrastando-os até a borda do penhasco e baixando-os em segurança com uma corda. A cada soldado resgatado, ele repete sua oração: "Senhor, ajude-me a salvar apenas mais um". Estima-se que ele salvou 75 homens, um número que foi um consenso entre ele e seu oficial superior, apesar das estimativas divergentes. Suas ações não só salvaram vidas, mas também inspiraram uma nova ofensiva que levou à vitória na crista.
O Final e Seus Significados
O clímax do filme mostra Desmond Doss, ferido por estilhaços de granada e com um braço fraturado, sendo finalmente baixado da crista de Hacksaw. Ele segura firmemente a Bíblia que Dorothy lhe deu, um símbolo de sua fé inabalável e sua conexão com a esposa. A cena é um momento de triunfo e paz após o caos, com a câmera desacelerando e a iluminação enfatizando uma sensação de elevação espiritual. O ato de Desmond lavar o rosto com água de uma cantina após o resgate é ritualístico, simbolizando a purificação dos horrores que testemunhou, mas sem quebrar seu espírito.
O filme conclui com imagens do verdadeiro Desmond Doss recebendo a Medalha de Honra do Presidente Harry S. Truman e depoimentos do próprio Doss pouco antes de sua morte, contando suas experiências. Isso não só valida a veracidade da história, mas também sublinha a mensagem central: a fé e a coragem de um indivíduo podem transcender as expectativas mais sombrias e as convenções da guerra. O final ressoa com o poder da crença em si mesmo e em algo maior, defendendo a ideia de nunca julgar alguém por suas convicções. A história de Doss se torna um lembrete de que o maior heroísmo não reside em tirar vidas, mas em salvá-las, mantendo a bússola moral inabalável em meio ao conflito.
Elenco e Atuações de Destaque
O sucesso de "Até o Último Homem" deve-se em grande parte às performances poderosas de seu elenco. Andrew Garfield entrega uma atuação elogiada e indicada ao Oscar como Desmond Doss, capturando a inocência, a humildade e a resiliência inabalável do personagem. Sua preparação para o papel incluiu um "processo espiritualmente transformador" de meditação e caminhada imaginária com Jesus, além de um retiro de meditação silenciosa, para realmente incorporar a fé de Doss.
Hugo Weaving, como Tom Doss, o pai veterano da Primeira Guerra Mundial com PTSD, oferece uma performance intensa e comovente, embora seu papel seja relativamente curto, que também foi elogiada. Rachel Griffiths interpreta Bertha Doss, a mãe de Desmond. Vince Vaughn, conhecido por papéis cômicos, surpreende como o Sargento Howell, que inicialmente intimida Doss, mas eventualmente o respeita, trazendo um alívio cômico necessário à tensão do filme. Sam Worthington é o Capitão Glover, cujo ceticismo inicial se transforma em profunda admiração. Teresa Palmer, como Dorothy Schutte, a esposa de Desmond, traz calor e sensibilidade à história de amor que ancora a vida de Doss. Luke Bracey interpreta Smitty, um personagem que, embora seja uma amálgama de vários soldados que atormentaram Doss, representa o ceticismo e a eventual redenção dos companheiros de unidade.
Bastidores e Curiosidades
"Até o Último Homem" marcou o tão esperado retorno de Mel Gibson à cadeira de diretor após dez anos, desde "Apocalypto" (2006), e foi amplamente visto como um "retorno à boa forma" para o cineasta, cuja carreira havia sido ofuscada por diversas controvérsias. O filme foi um projeto de paixão que levou 16 anos para ser concretizado, com produtores como Bill Mechanic e David Permut enfrentando inúmeros obstáculos, incluindo a relutância inicial do próprio Desmond Doss em ter sua história contada por Hollywood de forma imprecisa ou sensacionalista. Terry Benedict, produtor e diretor do documentário de 2004 "The Conscientious Objector" (no qual o filme é baseado), foi fundamental para garantir a integridade da história de Doss, sendo um "arquivo de referência" para Andrew Garfield e Gibson.
A produção foi realizada na Austrália entre setembro e dezembro de 2015, com um orçamento relativamente modesto de 40 milhões de dólares para um épico de guerra, o que exigiu grande engenhosidade da equipe. A recriação da escarpa Maeda, com seus 350 pés de altura, foi filmada em Goulburn, na Austrália. Gibson priorizou efeitos práticos e menos CGI para as cenas de batalha, o que contribuiu para a brutalidade e realismo gráfico que chocaram e imergiram o público. A mixagem de som foi um desafio particular para Gibson, que é conhecido por filmes "sonicamente desafiadores", com sons de armas e explosões sendo cuidadosamente elaborados para aumentar a intensidade.
Polêmicas e Interpretações
A representação da fé em "Até o Último Homem" gerou algumas discussões. Embora o filme celebre a fé inabalável de Desmond Doss, alguns críticos argumentaram que Mel Gibson, conhecido por suas próprias convicções religiosas fortes e às vezes polarizadoras, usou a história de Doss para "empurrar suas crenças" ou que a representação da religião era "mais simbólica do que substancial", potencialmente alienando espectadores não-cristãos. A crítica Ariana Aboulafia, por exemplo, sugeriu que Gibson poderia ter transformado Doss em uma "figura de Cristo" de forma excessivamente óbvia, o que diminuiria a mensagem de mudança pessoal para o público. No entanto, outros viram a abordagem de Gibson como uma "história inspiradora da fé inabalável de um cristão em Deus", onde as crenças adventistas de Doss vêm à tona de forma poderosa.
Outro ponto de debate foi a precisão histórica versus a licença dramática. Embora o filho de Desmond Doss, Desmond Doss Jr., tenha elogiado o filme por "manter a integridade do princípio da história", algumas liberdades criativas foram tomadas:
- O pai de Doss não era um alcoólatra violento que batia na esposa como retratado; ele havia abandonado o álcool e o fumo ao se tornar adventista.
- O personagem Smitty (Luke Bracey) é uma composição de vários soldados que atormentaram Doss.
- A ameaça de corte marcial foi real, mas não escalou tanto quanto no filme.
- Doss e Dorothy se casaram antes de ele ser convocado, não tendo perdido o casamento devido à prisão militar.
- O filme omite o serviço de combate anterior de Doss nas Batalhas de Guam e Leyte, onde ele já havia demonstrado bravura e ganhado a Medalha Estrela de Bronze.
- A cena em que Doss dá seu lugar na maca para outro ferido e depois é atingido por um atirador, rastejando 270 metros sozinho por cinco horas, foi omitida por Gibson por considerar que o público não acharia a cena crível.
Apesar dessas alterações, a essência do heroísmo de Doss e seus princípios centrais foram mantidos, e a brutalidade das cenas de batalha foi intencional para contextualizar o milagre de suas ações.
Recepção, Legado e Premiações
"Até o Último Homem" foi aclamado pela crítica e pelo público. No Rotten Tomatoes, o filme possui uma aprovação de 84% com base em 280 críticas, e uma pontuação de 91% da audiência verificada. No Metacritic, obteve 71 de 100, indicando "críticas geralmente favoráveis". Foi amplamente elogiado pela direção de Mel Gibson, a atuação de Andrew Garfield, a representação visceral da violência da guerra e a exploração de temas como fé, coragem e o impacto do pacifismo em tempos de conflito. Muitos o consideraram um dos melhores filmes de guerra dos últimos anos.
O filme também foi um sucesso de bilheteria, arrecadando mais de US$ 180,6 milhões em todo o mundo contra um orçamento de produção de US$ 40 milhões.
Seu legado é marcado por diversas premiações. No 89º Oscar, "Até o Último Homem" recebeu seis indicações, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor (Mel Gibson) e Melhor Ator (Andrew Garfield), vencendo nas categorias de Melhor Edição de Filme e Melhor Mixagem de Som. Também recebeu três indicações ao Globo de Ouro e venceu nove de doze indicações no Australian Academy Awards. Foi nomeado um dos dez melhores filmes de 2016 pelo National Board of Review e pelo American Film Institute. "Até o Último Homem" solidificou a história de Desmond Doss na história mundial como um modelo de heroísmo pessoal, coragem, bravura, integridade, fidelidade, fé e amor.
Fontes Pesquisadas
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