“Ainda Estou Aqui” (2024) é um drama biográfico impactante, dirigido pelo aclamado Walter Salles, que mergulha na dolorosa história da ditadura militar brasileira através dos olhos de Eunice Paiva, esposa do ex-deputado federal Rubens Paiva, desaparecido em 1971. Estrelado pelas brilhantes Fernanda Torres e Fernanda Montenegro em diferentes fases da vida de Eunice, o filme transcende a mera narrativa histórica, tornando-se um poderoso grito pela memória, justiça e resiliência de uma família e de uma nação.
Análise e Enredo
“Ainda Estou Aqui” (2024), dirigido por Walter Salles, marca o retorno triunfante do cineasta ao cinema nacional, solidificando-se como uma obra de profunda relevância histórica e emocional. O filme é uma adaptação da autobiografia homônima de Marcelo Rubens Paiva, lançada em 2015, e narra a história real de Eunice Paiva (interpretada por Fernanda Torres e, na velhice, por Fernanda Montenegro), cuja vida é abruptamente transformada pelo sequestro e desaparecimento de seu marido, o ex-deputado federal Rubens Paiva (Selton Mello), em janeiro de 1971, durante o auge da ditadura militar brasileira.
A trama inicia-se no Rio de Janeiro da década de 1970, retratando a efervescência cultural e a aparente normalidade da vida de uma família numerosa e unida. Rubens Paiva, um engenheiro civil e político que havia se afastado da vida pública, vive com sua esposa Eunice e seus cinco filhos em uma casa alegre e sempre aberta a amigos. No entanto, a atmosfera de alegria é rapidamente contrastada pela brutalidade do regime militar, que se infiltra na vida cotidiana, como evidenciado em uma blitz policial arbitrária que afeta a filha mais velha do casal, Vera. Rubens, embora não envolvido em luta armada, auxilia pessoas perseguidas, entregando cartas de parentes exilados, o que o coloca na mira das autoridades.
A vida da família é estilhaçada quando agentes armados do regime invadem a casa dos Paiva e levam Rubens para um interrogatório, do qual ele jamais retornaria. A partir desse ponto, o filme se concentra na jornada de Eunice, uma mulher que é forçada a se reinventar e a traçar um novo destino para si e para os filhos. Sua busca por respostas sobre o paradeiro de Rubens se estende por décadas, transformando-a em uma incansável ativista dos direitos humanos e um símbolo da luta contra a impunidade dos crimes da ditadura. O roteiro de Murilo Hauser e Heitor Lorega é elogiado por sua sutileza em traduzir a dor silenciada e a resistência, utilizando silêncios repletos de sentimentos que permeiam todo o período da ditadura militar.
Final Explicado: Memória, Verdade e o Luto Incompleto
O final de “Ainda Estou Aqui” é um dos pontos mais comoventes e significativos do filme, oferecendo uma profunda reflexão sobre memória, justiça e a resiliência humana diante da dor contínua. Décadas após o desaparecimento de Rubens, somos apresentados a Eunice Paiva em sua velhice, interpretada por Fernanda Montenegro. Ela está lidando com os efeitos do Alzheimer, uma ironia cruel para uma mulher que dedicou a vida a preservar a memória e a verdade sobre o destino de seu marido e de tantos outros desaparecidos políticos.
O momento mais emblemático da conclusão se dá quando Eunice finalmente recebe a certidão de óbito de Rubens. Essa cena não é apenas o fim de uma busca por respostas, mas também uma dolorosa constatação da brutalidade do regime, que negou a milhares de famílias o direito ao luto e à verdade por tanto tempo. A certidão, embora tardia, representa um reconhecimento oficial da morte de Rubens Paiva "por causa não natural, violenta e provocada pelo Estado brasileiro". No entanto, a verdade permanece incompleta: o corpo de Rubens jamais foi encontrado. A família recebe um pedaço de papel, um reconhecimento formal que não preenche o vazio da ausência física, nem pune os responsáveis diretos pelos crimes.
A doença de Alzheimer de Eunice na velhice adiciona uma camada trágica à narrativa. Após anos sendo a força motriz que manteve a família unida e lutou incansavelmente pela verdade, ela começa a perder a própria memória. Este desfecho sugere que, mesmo que a justiça e a verdade cheguem formalmente, as cicatrizes profundas deixadas pela ditadura, tanto individual quanto coletivamente, persistem e se manifestam de diferentes formas. O olhar inerte de Fernanda Montenegro, "sem palavras, sem respiração", transmite a história de todo o filme e de todo um país, tornando a cena "uma eternidade" de impacto emocional. O filme, assim, destaca que a memória, mesmo fragilizada, "ainda está aqui", resistindo e informando as gerações futuras sobre os horrores de um passado que não pode ser esquecido.
Elenco e Atuações de Destaque
O sucesso de “Ainda Estou Aqui” é inseparável das performances estelares de seu elenco. Fernanda Torres entrega uma atuação "espetacular" e "cheia de camadas" como Eunice Paiva em sua fase adulta, explorando cada nuance de uma mulher que se reconstrói a partir da devastação, dividida entre o papel de mãe e a incansável busca pelo marido. Sua interpretação foi universalmente elogiada, rendendo-lhe o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme – Drama, tornando-a a primeira atriz brasileira a conquistar o prêmio em uma categoria de atuação. A consagração de Torres no Oscar, com a indicação de Melhor Atriz, também foi amplamente discutida.
Fernanda Montenegro, mãe de Fernanda Torres, assume o papel de Eunice na velhice, entregando uma performance "sem palavras, sem respiração" que, em poucos segundos, transmite a história e o peso de décadas de luta e luto, mesmo com o avanço do Alzheimer. Sua presença icônica no filme, ecoando sua própria indicação ao Oscar por outro filme de Walter Salles, "Central do Brasil", adiciona uma camada extra de emoção.
Selton Mello, como Rubens Paiva, embora apareça mais no início do filme, entrega uma interpretação "marcante" do ex-deputado. Sua "cena final", onde o personagem é levado pelos militares, foi descrita pelo próprio ator como "uma das coisas mais difíceis que já fiz", pois exigiu que ele não se comovesse com o que sabia (o destino de Rubens), mas agisse como o personagem, que desconhecia seu trágico fim.
O elenco de apoio também é fundamental para a riqueza da narrativa, incluindo nomes como Daniel Dantas, Dan Stulbach, Humberto Carrão, Camila Márdila, Caio Horowicz, Maitê Padilha, Charles Fricks e Valentina Herszage (como Vera Paiva). A colaboração entre Salles, Fernanda Torres e Fernanda Montenegro, um trio que já havia feito história com "Central do Brasil", é vista como um reencontro cinematográfico potente.
Curiosidades de Bastidores e Polêmicas
A produção de "Ainda Estou Aqui" foi marcada por detalhes que buscaram imergir tanto o elenco quanto o público na atmosfera da década de 1970. Uma das curiosidades notáveis é que Walter Salles optou por gravar o filme integralmente em câmeras analógicas e película, uma escolha estética que remete ao período retratado e conferiu uma textura visual autêntica à obra. Essa decisão, inclusive, exigiu que a finalização do filme fosse feita na França, dada a falta de suporte para esse tipo de material no Brasil.
Outra medida para manter a imersão foi a proibição do uso de celulares e outros aparelhos eletrônicos modernos no set de filmagem, conforme revelado pela atriz Valentina Herszage. A intenção era manter atores e equipe focados e imersos no período da história, longe das distrações contemporâneas.
O filme teve um impacto emocional profundo na própria família Paiva. Vera Paiva, filha mais velha de Eunice e Rubens, contou que assistir ao filme antes de sua finalização foi um choque, precisando "parar, sair e fumar um cigarro" durante a cena da prisão de sua mãe. Ela ressaltou que o filme "ajudou a família a falar sobre isso", já que, por anos, foram "dominados pelo silêncio" sobre o assunto. Marcelo Rubens Paiva, autor do livro, também sentiu a presença da própria mãe, já falecida, através da atuação de Fernanda Montenegro, em uma cena que não entrou no corte final.
Embora amplamente aclamado, o filme não esteve isento de algumas "polêmicas" ou, mais precisamente, de interpretações críticas sobre sua recepção. Um artigo, por exemplo, criticou o "ufanismo" da mídia brasileira em relação ao desempenho de bilheteria inicial do filme, argumentando que a comparação com outros blockbusters não era feita de forma justa e que outras produções nacionais de 2024 tiveram melhores estreias, como "Nosso Lar 2: Os Mensageiros" e "Os Farofeiros 2". Essa crítica sugere uma badalação midiática desproporcional em alguns veículos.
No entanto, a recepção geral foi esmagadoramente positiva e o filme também gerou um impacto político significativo. A obra reacendeu o debate sobre a Lei da Anistia no Supremo Tribunal Federal (STF) e levou o Ministério Público Federal (MPF) a reabrir investigações sobre crimes da ditadura. Graças à repercussão do filme, a família Paiva finalmente obteve a retificação da certidão de óbito de Rubens Paiva, que agora reconhece sua morte violenta provocada pelo Estado brasileiro.
Recepção e Legado do Filme
“Ainda Estou Aqui” foi um fenômeno de crítica e público. O filme alcançou impressionantes 96% de aprovação da crítica especializada e 99% da audiência no Rotten Tomatoes, principal agregador de críticas da web, recebendo o selo "Fresh" e sendo avaliado por dezenas de especialistas. A "Variety" o descreveu como um "retrato profundamente comovente de uma família — e uma nação — rompida".
No circuito de festivais, o filme foi aplaudido ininterruptamente por 10 minutos no Festival de Cinema de Veneza, onde conquistou o Osella de Ouro de Melhor Roteiro, além dos Troféus Green Drop e SIGNIS. Também foi ovacionado no Festival de Toronto e recebeu o Prêmio de Público do Festival de Roterdã.
Comercialmente, “Ainda Estou Aqui” obteve um desempenho notável. Arrecadou mais de R$ 100 milhões em bilheteria no Brasil e levou mais de 5 milhões de pessoas aos cinemas, tornando-se a terceira maior bilheteria do cinema brasileiro desde 2018. Nos Estados Unidos, mesmo com exibição limitada, teve um excelente desempenho, arrecadando mais de US$ 434,2 mil em duas semanas (até janeiro de 2025) e superando a média de faturamento por sala de clássicos como “Central do Brasil” e “Cidade de Deus” em seus respectivos lançamentos norte-americanos.
O legado do filme é multifacetado. Sua vitória no Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025 fez história na cinematografia brasileira, sendo a primeira vez que um filme brasileiro é indicado na categoria de Melhor Filme, além de Melhor Atriz para Fernanda Torres. Este reconhecimento global não apenas impulsionou a visibilidade do audiovisual nacional, atraindo investimentos estrangeiros e valorizando a cultura brasileira, mas também destacou o papel vital dos filmes na luta pela democracia e direitos humanos. Como um "futuro clássico do cinema" e um "filme necessário", ele "ajuda a contar para gerações que desconhecem a história de abuso, violência, arbitrariedade, ilegalidades e crimes que o regime ditatorial vivido pelo Brasil... impôs para tantas famílias". A obra é, portanto, "um legado, um lembrete de que até mesmo no caos há resistência, e na ausência, há memória".
Fontes Pesquisadas
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- exame.com/pop/com-5-milhoes-de-espectadores-ainda-estou-aqui-passa-dos-r-100-milhoes-em-bilheteria/
- www.medeiafilmes.com/filmes/ainda-estou-aqui
- juntospodemos.com.br/ainda-estou-aqui/
- jornal.unifal-mg.edu.br/2025/01/ainda-estou-aqui-2024-a-voz-que-a-ditadura-esforcou-se-em-silenciar
- www.gazetadopovo.com.br/colunistas/francisco-escorsim/ainda-estou-aqui-filme-walter-salles-ufanismo/
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- www.publico.pt/2025/01/16/culturaipsilon/critica/ainda-estou-aqui-historia-casa-maculada-ditadura-2115166
- mixdeseries.com.br/ainda-estou-aqui-o-que-o-final-do-filme-realmente-sugere/
- sinprocampinas.org.br/noticias/ainda-estou-aqui-o-filme-sobre-o-impacto-da-ditadura-na-vida-das-familias-brasileiras-chega-aos-cinemas
- meio.com.br/o-meio/2025/01/18/oito-curiosidade-sobre-ainda-estou-aqui/
- www.terra.com.br/diversao/cinema/ainda-estou-aqui-obtem-excelente-desempenho-de-bilheteria-em-sua-estreia-nos-eua,876b3281e289c09c646b1076634c0344q1h4f91t.html
- m.youtube.com/watch?v=1xN5h-N6rT8
- tvcultura.com.br/noticias/24068_ainda-estou-aqui-veja-curiosidades-sobre-o-filme-com-fernanda-torres.html
- comitespopulares.org.br/2025/03/03/ainda-estou-aqui-o-impacto-historico-e-cinematografico-do-brasil-no-oscar/
- diariodonordeste.verdesmares.com.br/verso/curiosidades/veja-5-curiosidades-sobre-as-gravacoes-do-filme-ainda-estou-aqui-indicado-ao-critics-choice-awards-2025-1.3473183
- blogdocuca.wordpress.com/2024/11/21/ainda-estou-aqui-com-spoilers/
- veja.abril.com.br/coluna/pop/a-marca-sugestiva-alcancada-por-ainda-estou-aqui-na-bilheteria-mundial
- aindaestouaqui.wordpress.com/2024/11/14/ainda-estou-aqui/
- www.correiodopovo.com.br/arteagenda/selton-mello-comenta-cena-final-de-ainda-estou-aqui-uma-das-mais-dificeis-que-fiz-1.1558913
- mundoeducacao.uol.com.br/literatura/ainda-estou-aqui-analise-obra-resumo.htm




























