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A Malvada (1950) (Filme)
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Lançado em 1950, A Malvada (All About Eve), escrito e dirigido pelo mestre do diálogo sofisticado Joseph L. Mankiewicz, é o ápice do drama psicológico e da sátira de bastidores do teatro americano. Estrelado por uma incandescentemente feroz Bette Davis e uma gélida Anne Baxter, o longa-metragem não é apenas uma obra-prima sobre ambição desmedida, obsolescência feminina e a crueldade da indústria do entretenimento; é um raio-X definitivo do ego humano que continua assustadoramente atual na era das redes sociais e da busca incessante pela validação pública.

Análise e Enredo

A narrativa de A Malvada inicia-se pelo final — uma técnica de engenharia narrativa brilhante empregada por Joseph L. Mankiewicz. Estamos na prestigiada premiação do fictício prêmio teatral Sarah Siddons. A jovem e aparentemente angelical Eve Harrington (Anne Baxter) está prestes a receber a honraria máxima do teatro de Nova York. A câmera de Mankiewicz passeia pelas mesas e foca nos rostos gélidos, quase fúnebres, daqueles que a ajudaram a subir os degraus da fama: a lendária estrela da Broadway Margo Channing (Bette Davis), o dramaturgo Lloyd Richards (Hugh Marlowe), sua esposa Karen (Celeste Holm) e o diretor Bill Sampson (Gary Merrill). Apenas o cínico e poderoso crítico teatral Addison DeWitt (George Sanders, em performance vencedora do Oscar) exibe um sorriso de cumplicidade sardônica. A partir da narração em voice-over desses personagens, a verdade por trás da ascensão meteórica de Eve começa a ser desvelada.

O filme retrocede para mostrar como Eve se infiltrou no círculo íntimo de Margo Channing. Apresentada a Margo por Karen, que se compadeceu da devoção obsessiva da jovem fã que assistia a todas as suas apresentações da peça "Aged in Wood", Eve conta uma história trágica e irresistível de perda, pobreza e viuvez precoce. Comovida pela aparente fragilidade e reverência absoluta da garota, Margo decide adotá-la como secretária pessoal e assistente de confiança.

No entanto, o que parecia ser altruísmo rapidamente se transforma em uma invasão territorial sistemática. Eve passa a mimetizar os gestos de Margo, a organizar sua vida de forma a torná-la dependente e, sorrateiramente, a conspirar para ocupar seu lugar. Apenas Birdie Coonan (Thelma Ritter), a assistente prática e desconfiada de Margo, percebe o perigo iminente, alertando que Eve está "estudando Margo como se fosse um livro de receitas".

À medida que a paranoia e a insegurança de Margo aumentam — exacerbadas pelo fato de ela estar prestes a completar 40 anos, uma idade considerada "limite" para atrizes interpretarem mocinhas na Broadway —, seu comportamento se torna cada vez mais errático, culminando na lendária cena da festa de aniversário de Bill, onde, embriagada e defensiva, ela solta a imortal frase: "Apertem os cintos, a noite vai ser turbulenta!" ("Fasten your seatbelts, it's going to be a bumpy night!").

Aproveitando-se das fragilidades de Margo, Eve consegue se tornar sua dublê oficial. Através de uma armação meticulosa orquestrada com a ajuda involuntária de Karen (que sabota o carro de Margo para dar uma lição de humildade na amiga temperamental), Eve assume o papel principal em uma das apresentações. Ela brilha intensamente, tendo convidado previamente todos os críticos influentes da cidade, incluindo Addison DeWitt. A partir daí, a máscara de Eve cai por completo. Ela chantageia Karen para conseguir o próximo papel escrito por Lloyd Richards, tenta seduzir Bill Sampson (que a rejeita com desprezo) e manipula todos ao seu redor para destruir a reputação de Margo.

Contudo, o triunfo de Eve encontra seu limite na figura de Addison DeWitt. Descobrindo que toda a história de vida de Eve era uma farsa ultrajante (ela nunca foi casada, foi expulsa de sua cidade natal após se envolver com o chefe e era apenas uma oportunista barata), DeWitt a encurrala em um quarto de hotel. Ele a confronta não por imperativo moral, mas por sadismo e desejo de posse. DeWitt percebe em Eve um reflexo exato de sua própria amoralidade e declara que ela agora pertence a ele, controlando seu destino teatral sob a ameaça de destruí-la publicamente.

O Final e Seus Significados Ocultos

O encerramento de A Malvada é uma das sequências mais brilhantes, cínicas e proféticas da história do cinema. Após vencer o prêmio Sarah Siddons — a cena que abriu o filme —, Eve retorna exausta e vazia para seu luxuoso apartamento. Ela decide não comparecer à festa pós-premiação, ciente de que, apesar do sucesso, é uma pária social entre aqueles que realmente importam, além de estar sob o controle implacável de Addison DeWitt.

Ao entrar em seus aposentos, Eve depara-se com uma jovem estudante chamada Phoebe (Barbara Bates), que se esgueirou para dentro de seu apartamento e adormeceu em sua poltrona. Phoebe demonstra a mesma adoração cega, a mesma humildade fingida e o mesmo discurso de devoção que a própria Eve utilizara com Margo Channing no início do filme. Lisonjeada pelo espelho de sua própria ambição, Eve aceita a ajuda de Phoebe.

A tomada final é puramente visual e carrega uma riqueza semiótica devastadora: enquanto Eve está em outro cômodo, Phoebe veste a capa de veludo de Eve, segura o troféu Sarah Siddons e posiciona-se em frente a um espelho de três faces. Ela faz reverências solenes para uma plateia imaginária multiplicada ao infinito pelo jogo de reflexos. Mankiewicz nos entrega aqui uma tese assustadora: a ambição implacável e o canibalismo artístico são cíclicos. Eve, que devorou Margo Channing, está prestes a ser devorada por Phoebe. O espelho triplo simboliza a fragmentação da identidade e a natureza interminável dessa engrenagem que descarta o antigo em prol do novo, perpetuando o vazio existencial da fama a qualquer custo.

O Elenco e Atuações de Destaque

O sucesso imperecível de A Malvada deve-se, em grande parte, ao seu elenco impecável, que extraiu cada gota de veneno e vulnerabilidade do roteiro de Mankiewicz.

  • Bette Davis (Margo Channing): Originalmente, o papel pertencia a Claudette Colbert, que teve de desistir devido a uma grave lesão nas costas. Davis assumiu o papel e entregou a atuação de sua vida. Margo não é uma vilã; ela é uma mulher trágica, extremamente talentosa, mas aterrorizada pelo envelhecimento em uma sociedade patriarcal que avalia o valor de uma mulher por sua juventude. A voz rouca de Davis (causada pela ruptura de um vaso vocal devido ao estresse de seu recente divórcio na época) e sua postura leonina conferiram a Margo uma autoridade dramática inigualável.
  • Anne Baxter (Eve Harrington): Baxter realiza um trabalho extraordinário de sutil transição psicopática. No início, sua doçura é tão convincente que o espectador quase se sente culpado por desconfiar dela. À medida que o filme avança, seus olhares tornam-se cortantes, sua postura ereta e sua voz perde o tom trêmulo, revelando o monstro calculista por trás da máscara de ingenuidade.
  • George Sanders (Addison DeWitt): Sanders criou o arquétipo definitivo do crítico esnobe, elegante e perigoso. Sua entrega vocal, arrastada, cínica e repleta de desprezo aristocrático, rendeu-lhe o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Ele é o único personagem capaz de ler Eve perfeitamente desde o início, pois ambos compartilham da mesma falta de alma.
  • Celeste Holm (Karen Richards): Representando o ponto de equilíbrio moral da história, Holm dá vida à "boa esposa" burguesa que, por um momento de fraqueza e ingenuidade, abre as portas para o mal. Sua química de amor e ódio com Bette Davis na tela é palpável.
  • Thelma Ritter (Birdie Coonan): Como a ex-atriz de vaudeville e atual camareira de Margo, Ritter rouba todas as cenas em que aparece. Seu pragmatismo proletário serve como o detector de mentiras oficial do filme.
  • Marilyn Monroe (Miss Casswell): Em um papel pequeno, mas marcante, uma jovem Marilyn Monroe interpreta uma aspirante a estrela descrita por DeWitt como "uma graduada na escola de arte dramática de Copacabana". Sua presença física e timing cômico já prenunciavam o estrondo que ela causaria em Hollywood nos anos seguintes.

Bastidores, Polêmicas e Curiosidades

A produção de A Malvada foi quase tão dramática e fascinante quanto a própria trama encenada nas telas da Twentieth Century-Fox.

A Guerra Fria entre Bette Davis e Celeste Holm

As tensões nos bastidores eram constantes. Celeste Holm, conhecida por sua personalidade polida, tentou estabelecer uma relação amigável com Bette Davis desde o primeiro dia de filmagem. Ao entrar no set, Holm exclamou alegremente: "Bom dia!", ao que Davis respondeu rudemente: "Oh, merda! Boa noite!". As duas atrizes mantiveram uma distância gélida durante toda a produção, o que ironicamente alimentou a dinâmica de desconfiança de suas personagens na tela.

O Romance Real que Nasceu no Set

Se as relações femininas eram tensas, o mesmo não se pode dizer da química entre Bette Davis e Gary Merrill (que interpretava seu par romântico, Bill Sampson). Os dois se apaixonaram perdidamente durante as filmagens. Davis, que estava em meio a um divórcio turbulento de seu terceiro marido, casou-se com Merrill logo após o término das gravações do filme. Eles adotaram uma filha juntos e permaneceram casados por uma década.

A Fúria de Tallulah Bankhead

Após o lançamento do filme, a famosa e excêntrica atriz de teatro Tallulah Bankhead iniciou uma campanha pública alegando que a personagem Margo Channing era uma caricatura descarada de sua própria personalidade e trejeitos. Bankhead acusou publicamente Bette Davis de ter roubado sua voz rouca, seus maneirismos exagerados e até suas famosas festas regadas a álcool. Davis sempre negou ter se inspirado em Bankhead, atribuindo a caracterização inteiramente às instruções de Mankiewicz e ao roteiro.

A Troca de Elenco de Última Hora

Como mencionado, o filme foi escrito tendo Claudette Colbert em mente. Quando Colbert se acidentou, o estúdio considerou atrizes como Ingrid Bergman, Marlene Dietrich e Gertrude Lawrence. Quando o roteiro chegou às mãos de Bette Davis, sua carreira na Warner Bros. estava praticamente acabada após uma série de fracassos de bilheteria. Davis leu o roteiro de uma só vez e declarou que era o melhor texto que já havia lido em sua vida, aceitando o papel imediatamente e ressuscitando sua carreira com glória máxima.

Recepção, Bilheteria e Legado

A Malvada estreou em Nova York em outubro de 1950 sob aclamação crítica unânime. Os críticos da época elogiaram a sofisticação sem precedentes do roteiro de Mankiewicz, que tratava o público com inteligência adulta e sem moralismos fáceis. O prestigiado crítico do The New York Times, Bosley Crowther, chamou o filme de "uma comédia brilhante, satírica e incrivelmente afiada".

Nas bilheterias, o filme foi um sucesso estrondoso para a época, arrecadando mais de 8 milhões de dólares nos Estados Unidos contra um orçamento de produção estimado em modestos 1,4 milhão de dólares. O longa consolidou a Fox como o estúdio da sofisticação urbana e do drama de prestígio.

O Recorde de Indicações ao Oscar

Na 23ª edição do Academy Awards, A Malvada fez história ao receber impressionantes 14 indicações ao Oscar — um recorde absoluto que permaneceu intocado por 47 anos, vindo a ser igualado apenas por Titanic (1997) e La La Land (2016). O filme conquistou 6 estatuetas:

  • Melhor Filme (Darryl F. Zanuck, produtor)
  • Melhor Diretor (Joseph L. Mankiewicz)
  • Melhor Roteiro Adaptado (Joseph L. Mankiewicz)
  • Melhor Ator Coadjuvante (George Sanders)
  • Melhor Figurino em Preto e Branco (Edith Head e Charles LeMaire)
  • Melhor Gravação de Som

Um dos fatos mais curiosos daquela cerimônia foi a divisão de votos para Melhor Atriz: tanto Bette Davis quanto Anne Baxter foram indicadas na categoria principal, o que acabou dividindo os votos da Academia e permitindo que Judy Holliday vencesse por Nascida Ontem.

O Legado na Cultura Pop

Décadas após seu lançamento, A Malvada permanece como um pilar da cultura pop e da cinefilia mundial. Em 1990, o filme foi selecionado para preservação no National Film Registry da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos por sua relevância cultural, histórica e estética. O American Film Institute (AFI) classifica-o constantemente entre os 30 melhores filmes americanos de todos os tempos.

A influência do filme reverbera em obras modernas que exploram a rivalidade feminina, a ambição corporativa ou artística e a simbiose obsessiva, servindo de inspiração direta para produções como Showgirls (1995), Cisne Negro (2010) e a aclamada série de TV Feud: Bette and Joan (2017), que detalha as rivalidades da Hollywood clássica.

A Malvada transcende sua era porque expõe uma verdade universal e incômoda: a juventude é uma moeda de troca cruel na sociedade do espetáculo, e aqueles que sobem pisando nos outros inevitavelmente pavimentam o caminho para sua própria obsolescência. É um monumento cinematográfico sobre a fragilidade da glória e a perenidade do cinismo humano.

Fontes Pesquisadas

  • https://www.imdb.com/title/tt0042192/
  • https://www.rottentomatoes.com/m/all_about_eve
  • https://www.boxofficemojo.com/title/tt0042192/
  • https://www.afi.com/100years/movies.aspx
  • https://www.criterion.com/films/29023-all-about-eve
  • https://www.oscars.org/oscars/ceremonies/1951

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