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No coração do Sudeste Asiático, onde a geopolítica, a reconstrução pós-guerra e a paixão popular se fundem em uma identidade nacional singular, o futebol do Vietnã emerge como um dos fenômenos mais fascinantes e complexos do esporte contemporâneo. Longe de ser apenas um jogo de onze contra onze, o futebol em Hanói, Ho Chi Minh e Pleiku funciona como um espelho de uma nação que se reconstruiu das cinzas de conflitos devastadores para se tornar uma das economias de crescimento mais rápido do planeta. No entanto, nos gramados, a trajetória da "Golden Star Warriors" (os Guerreiros da Estrela Dourada) é marcada por uma oscilação pendular entre o lirismo de suas eras de ouro e o abismo de crises administrativas crônicas, escândalos de manipulação de resultados e o eterno desafio de transpor a hegemonia regional para o cenário continental asiático. Este dossiê mergulha nas entranhas de um futebol que pulsa com fervor quase religioso, analisando suas origens coloniais, seus momentos de glória sob o comando de mentores estrangeiros, as fraturas expostas de seus bastidores e o labirinto tático que define seu presente e seu futuro.

1. Origens e Formação da Identidade Nacional

A introdução do futebol no Vietnã é uma narrativa indissociável do colonialismo francês do final do século XIX. Foi em 1896 que os marinheiros, mercadores e burocratas franceses trouxeram a "la balle au pied" para as ruas de Saigon (atual Ho Chi Minh). Inicialmente restrito às elites coloniais e aos soldados de ocupação, o esporte rapidamente capturou a imaginação da população local. A fundação de clubes como o Cercle Sportif Saigonnais e, posteriormente, do Gia Dinh Sport Club — a primeira equipe composta majoritariamente por jogadores vietnamitas — marcou o início de uma apropriação cultural. O futebol não era apenas uma distração; tornou-se um espaço onde a população local podia desafiar fisicamente e, ocasionalmente, derrotar seus colonizadores, transformando o retângulo gramado em um território de resistência silenciosa.

Com a partilha do país em 1954, após os Acordos de Genebra, o futebol vietnamita sofreu uma cisão geopolítica que refletia a Guerra Fria. Duas seleções nacionais distintas emergiram, cada uma alinhada a um bloco ideológico. Ao sul, a República do Vietnã (Vietnã do Sul) tornou-se uma das forças fundadoras da Confederação Asiática de Futebol (AFC). Dotada de recursos e sob forte influência ocidental, a seleção sul-vietnamita viveu anos de relevância continental notável. Participou das duas primeiras edições da Copa da Ásia, em 1956 e 1960, alcançando o quarto lugar em ambas as ocasiões — um feito extraordinário para a época. Jogadores lendários como Pham Huynh Tam Lang tornaram-se ícones de uma Saigon que respirava futebol e ostentava conquistas como a prestigiosa Copa Merdeka, na Malásia, em 1966.

Enquanto isso, ao norte, a República Democrática do Vietnã (Vietnã do Norte) trilhava um caminho de isolamento esportivo em relação ao bloco capitalista, mas de intensa atividade no circuito socialista. Filiada à Federação de Esportes dos Países de Nova Força Emergente (GANEFO), a seleção norte-vietnamita disputava competições contra nações como a China de Mao Tsé-Tung, a Coreia do Norte e a União Soviética. O futebol no Norte era gerido sob uma ótica estritamente estatal e militarizada, onde o clube Thê Cong (o time do Exército) dominava o cenário doméstico. A preparação física extrema e a disciplina tática quase militar eram as marcas registradas de uma equipe que via o esporte como uma extensão do esforço de defesa nacional e de coesão ideológica.

A reunificação do país em 1975, após a queda de Saigon, marcou o fim das duas seleções, mas não a unificação imediata do futebol. O processo de fusão foi lento e doloroso, espelhando as dificuldades econômicas e sociais do Vietnã no pós-guerra. Foi somente em 1991, após as reformas econômicas conhecidas como Doi Moi (que abriram o país para o mercado global), que uma seleção unificada do Vietnã fez sua estreia oficial em um amistoso contra o Camboja. Esse renascimento esportivo foi acompanhado por uma febre nacionalista: o futebol passou a ser o grande catalisador da nova identidade vietnamita, unindo o Norte e o Sul sob a mesma bandeira vermelha com a estrela dourada. O Estádio Nacional My Dinh, em Hanói, inaugurado em 2003, tornou-se o novo templo dessa identidade reconstruída, onde os gritos de "Viet Nam Vo Dich" (Vietnã Campeão) ecoavam como um hino de afirmação de uma nação que emergia para o mundo.

2. Era de Ouro, Grandes Campanhas e Ídolos Eternos

O primeiro grande marco de afirmação internacional do Vietnã unificado ocorreu em 1998, na Copa Tiger (atual Campeonato da AFF), realizada em solo doméstico. Sob o comando do técnico austríaco Alfred Riedl, o Vietnã chocou o Sudeste Asiático ao golear a arquirrival Tailândia por 3 a 0 na semifinal, em uma noite mágica no Estádio Hang Day. Embora a derrota na final para Cingapura por 1 a 0 tenha adiado o título, aquela campanha gerou a primeira geração de ídolos nacionais do pós-guerra, capitaneada pelo atacante Le Huynh Duc e pelo talentoso meia Nguyen Hong Son, eleito o melhor jogador do torneio. Hong Son, com sua técnica refinada e visão de jogo, personificava o futebol de drible e velocidade que os vietnamitas tanto apreciavam.

A redenção definitiva e o primeiro título de expressão vieram dez anos depois, em 2008. Sob a liderança carismática do treinador português Henrique Calisto, o Vietnã conquistou o Campeonato da AFF em uma final dramática contra a Tailândia. Após uma vitória surpreendente por 2 a 1 em Bangcoc, o jogo de volta no My Dinh, em Hanói, caminhava para uma prorrogação angustiante até que, aos 94 minutos, o atacante Le Cong Vinh cabeceou uma falta cobrada por Pham Thanh Luong para o fundo das redes. O gol de Cong Vinh desencadeou uma das maiores festas de rua da história do Sudeste Asiático, consolidando o atacante como o maior artilheiro e o maior ícone do futebol do país, um verdadeiro herói nacional cuja trajetória profissional inspirou uma nova geração.

No entanto, nenhuma era foi tão dourada e transformadora quanto a "Era Park Hang-seo", que se estendeu de 2017 a 2023. O treinador sul-coreano, ex-assistente de Guus Hiddink na Copa do Mundo de 2002, revolucionou o futebol vietnamita em todos os níveis. O ponto de partida dessa revolução foi a campanha histórica no Campeonato Sub-23 da AFC em 2018, em Changzhou, na China. Sob uma nevasca inédita para os jogadores tropicais do Vietnã, a equipe alcançou a final, caindo apenas no último minuto da prorrogação contra o Uzbequistão. O gol de falta de Nguyen Quang Hai na final, apelidado de "Arco-Íris na Neve", tornou-se uma imagem eterna da resiliência vietnamita.

A partir de Changzhou, a seleção principal sob o comando de Park enfileirou conquistas sem precedentes: o título da Copa da AFF em 2018, as medalhas de ouro nos Jogos do Sudeste Asiático (SEA Games) em 2019 e 2021, e uma histórica caminhada até as quartas de final da Copa da Ásia de 2019, onde foram eliminados de forma digna pelo Japão por apenas 1 a 0. O ápice dessa era foi a classificação inédita para a terceira e última fase das Eliminatórias Asiáticas para a Copa do Mundo de 2022. Enfrentando potências como Japão, Austrália e Arábia Saudita, o Vietnã não apenas competiu, mas conquistou uma vitória histórica por 3 a 1 sobre a China no dia do Ano Novo Lunar de 2022, além de arrancar um empate por 1 a 1 contra o Japão em Saitama. Essa geração, liderada pelo genial meia Nguyen Quang Hai, pelo xerife defensivo Que Ngoc Hai e pelo dinâmico meio-campista Do Hung Dung, elevou o patamar do futebol vietnamita a níveis nunca antes imaginados.

3. Rivalidades, Crises e Bastidores do Poder

A geopolítica do futebol no Sudeste Asiático é intensa, e a rivalidade entre Vietnã e Tailândia é frequentemente descrita como o "El Clásico" da região. Trata-se de uma disputa que transcende as quatro linhas, envolvendo orgulho nacional, supremacia econômica regional e uma rivalidade histórica de liderança na ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático). Por décadas, a Tailândia foi a "besta negra" do Vietnã, impondo derrotas dolorosas que alimentavam um complexo de inferioridade esportiva nos vietnamitas. Sob a gestão de Park Hang-seo, essa barreira psicológica foi quebrada, mas os confrontos diretos continuam sendo batalhas táticas e físicas de alta voltagem, onde cada dividida é disputada como se fosse a última.

Nos últimos anos, uma nova e feroz rivalidade se desenvolveu com a Indonésia. Alimentada por disputas intensas em torneios de base e profissionais, a relação entre as duas seleções e suas torcidas tornou-se altamente inflamável. Os confrontos são marcados por um jogo físico agressivo e por uma guerra de narrativas nas redes sociais, que muitas vezes transborda para o campo diplomático. A recente política da Indonésia de naturalizar em massa jogadores de ascendência holandesa elevou ainda mais a tensão, com os vietnamitas defendendo o orgulho de sua equipe formada quase exclusivamente por atletas formados localmente contra o que chamam de "seleção europeia" da Indonésia.

Por trás dos holofotes e da paixão das arquibancadas, o futebol vietnamita carrega cicatrizes profundas causadas por crises administrativas e escândalos de corrupção. O episódio mais sombrio da história recente do esporte no país ocorreu durante os Jogos do Sudeste Asiático de 2005, em Bacolod, nas Filipinas. Sete jogadores da seleção sub-23, incluindo a grande promessa do futebol nacional, o atacante Pham Van Quyen, foram acusados e posteriormente condenados por conspirar com sindicatos de apostas ilegais para manipular o placar de uma partida contra Myanmar. O escândalo chocou a nação e destruiu o que muitos consideravam a geração mais talentosa do país, lançando uma sombra de desconfiança sobre a integridade da V-League (a liga profissional vietnamita) que demorou mais de uma década para se dissipar.

A Federação de Futebol do Vietnã (VFF) também tem sido historicamente um terreno de disputas políticas e ineficiência burocrática. A falta de continuidade nos projetos de longo prazo, a interferência de patrocinadores e de figuras influentes da política estatal na escolha de treinadores e na convocação de jogadores têm sido obstáculos recorrentes. A transição abrupta da era de estabilidade de Park Hang-seo para a tumultuada gestão do técnico francês Philippe Troussier, em 2023, evidenciou a fragilidade do planejamento da VFF. A demissão precoce de Troussier em março de 2024, após uma sequência de derrotas humilhantes para a Indonésia, expôs a falta de um plano de contingência e a pressão desmedida de uma opinião pública que não aceita mais retrocessos, deixando a federação em meio a uma crise de identidade e de governança.

4. O Momento Atual: Tática, Geração e Desafios

Do ponto de vista tático, o futebol vietnamita moderno foi moldado pela filosofia pragmática e altamente eficiente de Park Hang-seo. O treinador sul-coreano implementou um sistema baseado em uma linha defensiva de três zagueiros (geralmente estruturada em um 3-4-3 ou 5-4-1 em fase defensiva), priorizando a compactação das linhas, a intensidade física na marcação e uma transição ofensiva fulminante. Park explorou ao máximo a velocidade e a agilidade natural dos jogadores vietnamitas, compensando a histórica desvantagem de estatura física com uma organização defensiva obsessiva e um espírito de sacrifício coletivo inabalável. Sob seu comando, o Vietnã tornou-se uma equipe extremamente difícil de ser batida, capaz de frustrar as maiores potências do continente com seu ferrolho defensivo.

A tentativa de transição tática proposta por Philippe Troussier em 2023 representou uma ruptura radical com esse modelo. O experiente treinador francês, conhecido como o "Feiticeiro Branco", tentou implementar um estilo de jogo baseado na posse de bola proativa, na saída de jogo curta desde o goleiro e em uma linha defensiva alta. Troussier argumentava que, para alcançar o nível global e sonhar com uma vaga na Copa do Mundo de 2026, o Vietnã precisava parar de apenas se defender e aprender a controlar os jogos. No entanto, a mudança drástica revelou-se um desastre prático. Os jogadores vietnamitas, habituados ao jogo de transição rápida, demonstraram imensa dificuldade para assimilar os conceitos de posicionamento e circulação de bola do francês, resultando em erros defensivos infantis e em uma alarmante ineficiência ofensiva que culminou na eliminação precoce na Copa da Ásia de 2023 e no colapso nas Eliminatórias de 2026.

Atualmente, sob o comando do também sul-coreano Kim Sang-sik, contratado em meados de 2024, a seleção busca encontrar um ponto de equilíbrio entre a solidez defensiva da era Park e a necessidade de evolução técnica. Kim herdou uma geração que dá claros sinais de desgaste físico e mental. Pilares da "Geração de Ouro", como o meia Nguyen Quang Hai e o atacante Nguyen Cong Phuong, enfrentaram dificuldades em suas carreiras após transferências mal-sucedidas para o exterior e lutam para recuperar a melhor forma. Ao mesmo tempo, jovens talentos como o atacante Nguyen Dinh Bac e o meio-campista Nguyen Thai Son ainda carecem de consistência e de casca internacional para assumir o protagonismo da equipe nacional.

O principal desafio tático e estrutural do Vietnã no cenário atual é superar sua limitação física crônica. Embora a estatura média dos atletas tenha melhorado graças a investimentos em nutrição nas academias de base, a seleção ainda sofre severamente em duelos aéreos e em confrontos de forte imposição física contra equipes do Oriente Médio ou da Austrália. Além disso, a dependência excessiva de atletas que atuam exclusivamente na V-League limita o desenvolvimento competitivo do elenco. Sem jogadores expostos semanalmente aos ritmos intensos e à exigência tática das ligas de elite da Ásia (como a J-League do Japão ou a K-League da Coreia do Sul), a seleção vietnamita esbarra em um teto técnico difícil de superar, mantendo-se em um limbo entre a soberania regional e a irrelevância continental.

5. Formação de Talentos, Estrutura e Futuro

A revolução silenciosa que permitiu o surgimento da geração mais vitoriosa do Vietnã começou longe dos holofotes da seleção principal, nas academias de formação de atletas. O grande divisor de águas foi a criação da Academia HAGL-Arsenal JMG em 2007, idealizada pelo empresário Doan Nguyen Duc, proprietário do clube Hoang Anh Gia Lai. Em parceria com o clube inglês Arsenal e com a metodologia francesa de Jean-Marc Guillou, a academia em Pleiku implementou um modelo inédito de formação integral. Os jovens atletas eram selecionados em processos rigorosos por todo o país e recebiam, além de treinamento técnico de excelência descalços nos primeiros anos para aprimorar o controle de bola, educação formal, aulas de inglês e acompanhamento nutricional científico. Dessa academia saíram nomes como Cong Phuong, Tuan Anh e Xuan Truong, que mudaram o perfil técnico do jogador vietnamita.

Inspirados pelo sucesso da HAGL, outros projetos de grande porte surgiram. A Academia PVF (Fundo de Promoção do Talento do Futebol Vietnamita), inicialmente financiada pelo conglomerado Vingroup e posteriormente transferida para a gestão do grupo de segurança privada Van Lang, construiu um centro de treinamento de nível mundial na província de Hung Yen. Com instalações que rivalizam com as melhores academias da Europa, a PVF foca no desenvolvimento atlético e tático de ponta, utilizando tecnologia de análise de desempenho e profissionais estrangeiros em cargos diretivos. Outro pilar fundamental é o Viettel FC, o clube militar que herdou a tradição do antigo Thê Cong, mantendo uma estrutura de captação de talentos altamente disciplinada e eficiente por todo o território nacional.

Apesar do sucesso na produção de jovens talentos, o futebol vietnamita enfrenta um gargalo crítico: a quase total incapacidade de exportar seus jogadores com sucesso para o mercado internacional. As tentativas dos principais astros do país de atuar no exterior têm sido marcadas por frustrações e retornos precoces. A transferência de Nguyen Quang Hai para o Pau FC, da segunda divisão francesa, em 2022, foi cercada de enorme expectativa, mas o meia sofreu com a barreira do idioma, a diferença de intensidade física e a falta de adaptação tática, passando a maior parte do tempo no banco de reservas ou na equipe B antes de retornar ao Vietnã. Destino semelhante tiveram Cong Phuong em suas passagens por Bélgica (Sint-Truiden) e Japão (Yokohama FC), e o lateral Doan Van Hau no SC Heerenveen, da Holanda. Essa dificuldade de exportação cria um ciclo vicioso, onde os melhores atletas permanecem em uma zona de conforto financeira e técnica na V-League, sem o estímulo necessário para evoluir.

O futuro do futebol vietnamita depende de uma reforma profunda em sua liga nacional e de uma visão estratégica de longo prazo que vá além do imediatismo dos resultados da seleção principal. A V-League precisa se profissionalizar de fato, melhorando a qualidade dos gramados, a arbitragem (com a implementação plena do VAR) e a sustentabilidade financeira dos clubes, muitos dos quais ainda dependem do capricho de magnatas locais que podem retirar seus investimentos a qualquer momento. Para o sonho de disputar uma Copa do Mundo se tornar realidade — especialmente com a expansão do torneio para 48 seleções —, o Vietnã precisará não apenas de novas academias, mas de uma mentalidade globalizada, incentivando seus jovens a buscar desafios em ligas mais competitivas e integrando de forma mais eficiente a comunidade de jogadores de ascendência vietnamita nascidos no exterior (os chamados Viet Kieu), como o goleiro Filip Nguyen. Somente assim a estrela dourada poderá, finalmente, brilhar de forma consistente no firmamento do futebol mundial.

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