O Club Atlético San Martín de San Juan, conhecido carinhosamente em toda a Argentina como "El Verdinegro" ou "El Santo", é a expressão máxima do futebol na província de San Juan, situada na histórica região de Cuyo. Atualmente competindo na Primera Nacional (a segunda divisão do futebol argentino), o clube vive um momento de reconstrução institucional e esportiva sob a liderança técnica de Raúl Antuña, figurando de forma consistente nas primeiras posições de sua zona e lutando de forma obstinada pelo retorno à elite do futebol nacional, de onde se despediu em 2019.
História do Clube: Das Origens de Esquina à Identidade de uma Província
Para compreender a gênese do Club Atlético San Martín de San Juan, é preciso recuar ao início do século XX, quando o futebol dava seus primeiros passos fora da região portuária de Buenos Aires. Em 27 de setembro de 1907, nas esquinas das ruas 25 de Mayo e General Acha, em Concepción (um dos bairros mais antigos de San Juan), um grupo de jovens entusiastas decidiu formalizar sua paixão pelo esporte bretão.
O nome escolhido para a agremiação foi uma homenagem direta ao herói da independência hispano-americana, o General José de San Martín. A escolha não foi mero acaso: a província de San Juan desempenhou um papel logístico e humano crucial na travessia dos Andes pelo Exército dos Andes, liderado por San Martín. Logo, o clube nasceu profundamente entrelaçado com o sentimento de identidade patriótica e regional.
As cores do clube — o verde e o preto — carregam consigo uma forte simbologia de época. O verde representa a esperança e os campos férteis de Concepción (conhecidos pela produção agrícola em meio à aridez cuyana), enquanto o preto evoca o luto respeitoso, a sobriedade e a seriedade com que a instituição conduziria seus destinos esportivos. O primeiro presidente do clube foi o jovem Amador Izasa, que organizou as primeiras partidas amistosas contra equipes locais e de províncias vizinhas como Mendoza e San Luis.
O desenvolvimento do San Martín foi severamente testado pela história. Em 15 de janeiro de 1944, um terremoto devastador destruiu mais de 90% da cidade de San Juan. O clube perdeu suas primeiras instalações e muitos de seus sócios e atletas se envolveram ativamente nas tarefas de resgate e reconstrução da província. A resiliência demonstrada nesse período consolidou o caráter comunitário do Verdinegro, que ressurgiu das cinzas paralelamente à reconstrução urbana da cidade de San Juan.
Eras de Ouro e Campanhas Históricas
Durante décadas, o San Martín reinou no âmbito da Liga Sanjuanina de Fútbol, conquistando dezenas de títulos locais. No entanto, o salto para o cenário nacional consolidou-se em momentos cruciais da história do futebol argentino:
A Estreia no Nacional de 1970
O primeiro grande marco nacional ocorreu em 1970. Ao vencer o Torneio Regional, o San Martín de San Juan obteve o direito histórico de disputar o prestigiado Campeonato Nacional da Primera División. Pela primeira vez, os gigantes do futebol argentino tiveram que viajar até San Juan para enfrentar o Santo. Embora a campanha não tenha culminado em títulos, a vitória por 2 a 1 contra o San Lorenzo de Almagro e o empate diante do Independiente no reduto sanjuanino provaram que o futebol do interior tinha força para competir de igual para igual.
A Épica Ascensão de 2007: O Gol de Tonelotto no Minuto 98
Após anos oscilando nas divisões de acesso, a temporada 2006/2007 da Primera B Nacional reservou o capítulo mais dramático da história do clube. Sob o comando técnico de Fernando "Teté" Quiroz, a equipe chegou à final da repescagem de promoção (Promoción) contra o histórico Huracán.
Após uma derrota no jogo de ida em Buenos Aires, a partida de volta em San Juan parecia caminhar para uma tragédia esportiva. O relógio marcava o fim do tempo regulamentar e o placar ainda não favorecia o Verdinegro. Contudo, aos 8 minutos de acréscimo do segundo tempo (98 minutos de jogo), o centroavante Luis Tonelotto marcou o gol da vitória por 3 a 1, selando o acesso inédito do clube à Primera División sob o formato moderno de torneios (Apertura e Clausura). A comemoração nas ruas de San Juan durou dias e transformou Tonelotto em uma lenda eterna.
O Milagre de 2011 e a Consolidação
Em 2011, sob a batuta de Daniel Garnero, o San Martín realizou mais uma façanha ao derrotar o tradicional Gimnasia y Esgrima de La Plata na Promoción. O empate em 1 a 1 em La Plata, após vitória em San Juan, assegurou o retorno à elite. Este período inaugurou a época mais estável do clube na Primera División, onde permaneceu por várias temporadas consecutivas, jogando de igual para igual com os grandes do país.
O Histórico 6 a 1 contra o Boca Juniors (2013)
No dia 13 de abril de 2013, o Estadio Hilario Sánchez foi palco da maior exibição de futebol da história da província. Pela 9ª rodada do Torneio Final, o San Martín de San Juan recebeu o poderoso Boca Juniors, então comandado pelo lendário técnico Carlos Bianchi.
Em uma tarde inspiradíssima do atacante colombiano Humberto Osorio (autor de três gols), do ídolo Sebastián Penco, de Lucas Landa e de Claudio Riaño, o Verdinegro aplicou uma goleada humilhante de 6 a 1 sobre os portenhos. Esse resultado permanece até hoje como uma das maiores goleadas sofridas pelo Boca Juniors em sua era moderna de futebol profissional.
O Momento Atual e Contexto Recente (2023-2024)
Desde o rebaixamento sofrido em 2019, o San Martín de San Juan tem como objetivo absoluto e obsessivo o retorno à Liga Profesional de Fútbol (LPF). O clube tem demonstrado uma gestão financeira equilibrada sob a influência de dirigentes históricos como Jorge Miadosqui, evitando as graves crises financeiras que assolam outras equipes tradicionais do interior argentino.
Na temporada de 2023, o clube realizou uma campanha marcante na Copa Argentina, alcançando as quartas de final após eliminar adversários da elite como Vélez Sarsfield e Argentinos Juniors, caindo de pé diante do San Lorenzo de Almagro em uma partida disputadíssima.
Atualmente, na temporada de 2024 da Primera Nacional, o clube é comandado tecnicamente por Raúl Antuña. Com um elenco caracterizado pela solidez defensiva e pela força ofensiva de nomes como Federico González e a liderança no meio-campo, o San Martín disputa ponto a ponto a liderança da Zona A contra o San Martín de Tucumán. O objetivo claro da instituição é garantir a vaga direta na final pelo acesso ou, alternativamente, consolidar sua posição para o mata-mata do Torneo Reducido.
O Templo do Cuyo: Estadio Hilario Sánchez
O Estadio Hilario Sánchez, localizado no histórico bairro de Concepción, é a fortaleza do clube. Inaugurado em 16 de junho de 1951, o estádio leva o nome de um dos presidentes mais emblemáticos da história da instituição, o Engenheiro Hilario Sánchez, que liderou os esforços de reconstrução física do clube após o terremoto de 1944.
Com capacidade para aproximadamente 19.000 espectadores, o estádio passou por severas reformas e ampliações para se adequar às exigências da Primera División em 2007 e 2011, incluindo a construção de novas tribunas populares e cabines de transmissão modernas. O gramado do Hilario Sánchez é historicamente conhecido por suas dimensões e pela proximidade da torcida com o campo de jogo, criando uma atmosfera de pressão intensa apelidada de "O Caldeirão do Cuyo".
Principais Ídolos e Treinadores Marcantes
A rica história do Santo Sanjuanino foi escrita por homens que demonstraram dedicação e talento inquestionáveis com o manto verde e preto:
- Luis Ardente: O goleiro e capitão que se tornou uma lenda contemporânea. Além de suas defesas milagrosas em mais de 200 partidas oficiais pelo clube, Ardente era o cobrador oficial de pênaltis, convertendo vários gols decisivos na elite do futebol nacional.
- Sebastián Penco: Centroavante de raça e presença de área implacável. Autor de gols cruciais em campanhas de acesso e carrasco de equipes grandes. O apelido "Motola" é sinônimo de gol em Concepción.
- Luis Tonelotto: O homem do milagre de 2007. Seu gol nos acréscimos contra o Huracán o eternizou na galeria dos imortais do clube.
- Emmanuel Mas: Revelado nas divisões de base do San Martín de San Juan, o lateral-esquerdo representou a excelência da formação do clube. Suas grandes atuações o levaram ao San Lorenzo (onde conquistou a Copa Libertadores), ao Boca Juniors e à Seleção Argentina.
- Daniel Garnero (Treinador): O arquiteto tático do acesso de 2011. Garnero deu ao San Martín uma identidade de jogo ofensiva e vistosa que rendeu elogios de toda a imprensa argentina.
- Rubén Forestello (Treinador): Conhecido como "Yagui", comandou a equipe em diferentes etapas com sucesso, destacando-se pela capacidade de montar times altamente competitivos e focados na permanência na elite.
Rivalidades de Fogo: O Clássico Sanjuanino e o Clássico de Cuyo
O futebol em San Juan é vivido com paixão extrema, e essa paixão se traduz em duas rivalidades históricas de profunda relevância sociocultural.
O Clássico Sanjuanino: San Martín vs. Sportivo Desamparados
É o clássico citadino por excelência, que divide a província de San Juan. A rivalidade com o Club Sportivo Desamparados remonta às primeiras décadas do século XX e carrega um forte componente de identidade de classe e geografia urbana:
- Contexto Histórico: Enquanto o San Martín nasceu no bairro de Concepción (tradicionalmente ligado às primeiras famílias aristocráticas e aos proprietários de terras agrícolas do norte da cidade), o Desamparados surgiu na zona oeste (Puyuta), associado a classes trabalhadoras e operárias da região que se desenvolveu em torno da antiga ferrovia.
- O Nome "Desamparados": Originou-se da praça e da paróquia dedicadas à Virgen de los Desamparados. O clássico é sinônimo de festa nas arquibancadas, mas também de forte esquema de segurança devido à histórica hostilidade entre as torcidas organizadas.
O Clássico de Cuyo: San Martín de San Juan vs. Godoy Cruz Antonio Tomba
Quando o San Martín transcende as fronteiras provinciais, ele se depara com o seu maior e mais feroz rival regional: o Godoy Cruz de Mendoza. Este confronto é conhecido como o "Clásico de Cuyo".
- A Origem da Rivalidade Regional: A rivalidade vai muito além das quatro linhas do gramado. Historicamente, as províncias de San Juan e Mendoza disputam a hegemonia política, econômica e cultural da região de Cuyo. Mendoza, por ser uma província maior e de maior peso econômico, sempre foi vista pelos sanjuaninos com desconfiança e sentimento de competição.
- No Futebol: Os confrontos entre o Verdinegro e o Tomba ganharam contornos dramáticos a partir dos anos 1990, na antiga Primera B Nacional, e se intensificaram quando ambas as equipes alcançaram a Primera División. Cada partida é considerada um "assunto de Estado" para os governos provinciais, sendo frequentemente disputada apenas com torcida local devido ao alto risco de incidentes.
Títulos, Conquistas e Campanhas de Destaque
| Competição / Conquista | Nível / Categoria | Ano / Temporada | Destaque Histórico |
|---|---|---|---|
| Liga Sanjuanina de Fútbol | Regional (San Juan) | Mais de 25 títulos | Maior campeão histórico da liga local de futebol. |
| Torneo Regional | Nacional (Acesso) | 1970 | Campeão invicto da Região, garantindo acesso inédito ao Campeonato Nacional de 1970. |
| Primera B Nacional (Ascenso) | Nacional (2ª Divisão) | 2006/2007 | Acesso à Primera División ao vencer o Huracán no histórico gol de Tonelotto. |
| Promoción Primera División | Nacional (Playoff) | 2010/2011 | Promoção conquistada em cima do Gimnasia de La Plata. |
| Primera B Nacional (Transición) | Nacional (2ª Divisão) | 2014 | Conquista do acesso direto para a Primera División no torneio de transição da AFA. |
| Quartas de Final - Copa Argentina | Copa Nacional | 2023 | Melhor campanha histórica em copas nacionais, eliminando equipes de prestígio da Primeira Divisão. |
Fontes Pesquisadas
- Asociación del Fútbol Argentino (AFA) - Arquivos históricos de torneios e súmulas de jogos.
- Diario de Cuyo - Hemeroteca e cobertura diária do clube desde as primeiras décadas do século XX.
- El Gráfico - Edições especiais sobre os acessos de 2007 e 2011 e a cobertura da goleada de 6-1 contra o Boca Juniors.
- TyC Sports & Olé - Estatísticas atualizadas e dados sobre as campanhas na Primera Nacional (temporadas 2023 e 2024).
- Centro de Investigaciones de la Historia del Fútbol (CIHF) - Documentação sobre a fundação do clube e as consequências do terremoto de 1944.



