O Club Atlético Peñarol, gigante do futebol sul-americano e mundial, vive hoje um momento de reconstrução e reafirmação de sua grandeza. Atual semifinalista da Copa Libertadores da América de 2024 sob o comando do técnico Diego Aguirre, o clube carbonero lidera as disputas na Primera División do Uruguai, sustentado pela mística de sua torcida no Estádio Campeón del Siglo e por uma história rica em glórias, lendas e acalorados debates institucionais sobre suas origens ferroviárias do século XIX.
História do Clube
1. Origens, Fundação e a Controvérsia do Decanato
A história do Club Atlético Peñarol está intrinsecamente ligada à revolução industrial e à expansão ferroviária na América do Sul durante o final do século XIX. Em 28 de setembro de 1891, engenheiros, técnicos e operários da empresa britânica Central Uruguay Railway Company of Montevideo (CUR) fundaram o Central Uruguay Railway Cricket Club (CURCC) na Villa Peñarol, um povoado localizado nos arredores de Montevidéu. O nome da localidade remonta a Giovanni Battista Crosa, um imigrante italiano originário de Pinerolo, Piemonte, que ali se estabeleceu no século XVIII e cujo sobrenome italianizado acabou por batizar a região.
Inicialmente dedicado ao críquete e ao rúgbi, o CURCC logo adotou o futebol como sua principal atividade, impulsionado pelo entusiasmo dos trabalhadores britânicos e crioulos. O clube vestia as cores preto e amarelo ("oro y carbón"), inspiradas nas locomotivas a vapor e na sinalização ferroviária da época.
Em 13 de dezembro de 1913, diante do crescimento da massa de torcedores que não pertenciam aos quadros funcionais da empresa ferroviária e das restrições administrativas impostas pela diretoria inglesa, ocorreu uma transição institucional. A seção de futebol do CURCC separou-se formalmente da companhia férrea, adotando o nome de Club Atlético Peñarol. A transição foi liderada por figuras como Jorge Clulow, que assumiu a presidência do clube reformulado.
A Disputa Historiográfica: Peñarol vs. Nacional
A transição de 1913 é o epicentro do maior debate historiográfico do futebol uruguaio, conhecido como a controvérsia do Decanato:
- A tese do Peñarol (Continuidade): Defende que o Club Atlético Peñarol e o CURCC são a mesmíssima instituição jurídica e social. O clube argumenta que houve apenas uma mudança de nome e uma reforma estatutária para permitir a emancipação da tutela da empresa ferroviária. Documentos de época, como o reconhecimento da personalidade jurídica pelo governo uruguaio em 1914 e as atas da própria Associação Uruguaia de Futebol (AUF), corroboram a tese de que os direitos de filiação do CURCC foram herdados diretamente pelo Peñarol. Portanto, a data de fundação legítima é 28 de setembro de 1891.
- A tese do Nacional (Ruptura): O arquirrival Club Nacional de Football argumenta que o CURCC e o Peñarol foram entidades distintas que coexistiram temporariamente até a dissolução definitiva do CURCC em 1915. Segundo historiadores alinhados ao Nacional, o CURCC não "se transformou", mas sim foi extinto, e o Peñarol teria sido fundado do zero em 1913 como um clube novo. Sob essa ótica, o Nacional (fundado em 14 de maio de 1899) reivindica o título de "Decano do Futebol Uruguaio", alegando ser o clube mais antigo do país em atividade ininterrupta.
2. Eras de Ouro e Campanhas Históricas
O Peñarol consolidou sua reputação internacional como o "Campeón del Siglo" (título outorgado pela IFFHS em 2009 para designar o clube sul-americano mais vitorioso do século XX) graças a ciclos esportivos avassaladores.
A Era de Ouro dos Anos 1960: A Dinastia Continental
Na década de 1960, sob a liderança técnica de treinadores como Roberto Scarone e Roque Máspoli, o Peñarol estruturou um dos maiores esquadrões da história do futebol mundial. Comandados em campo pelo equatoriano Alberto Spencer (maior artilheiro da história da Copa Libertadores), pelo peruano Juan Joya e pelos uruguaios Pedro Rocha, Néstor Gonçalves e Luis Cubilla, os carboneros conquistaram as duas primeiras edições da Copa Libertadores da América, em 1960 (vencendo o Olimpia do Paraguai) e 1961 (derrotando o Palmeiras do Brasil).
Em 1961, o clube faturou sua primeira Copa Intercontinental ao golear o Benfica de Eusébio por 5 a 0 no jogo desempate em Montevidéu. O ápice dessa geração ocorreu em 1966, na emblemática final da Libertadores contra o River Plate da Argentina. Após perder por 2 a 0 no Chile, o Peñarol protagonizou uma virada histórica para 4 a 2 na prorrogação, em partida que rendeu ao River o apelido pejorativo de "gallinas". Meses depois, o Peñarol calou o Santiago Bernabéu ao vencer o Real Madrid por 2 a 0, conquistando seu segundo título mundial.
A Mística dos Anos 1980 e o Milagre de 1987
Após um período de domínio regional, o Peñarol ressurgiu com força no cenário internacional nos anos 1980. Em 1982, sob a batuta de Hugo Bagnulo e com os gols do implacável centroavante Fernando Morena, o clube conquistou sua quarta Copa Libertadores ao bater o Cobreloa do Chile com um gol agonizante no último minuto em Santiago. Posteriormente, conquistou o tricampeonato mundial em Tóquio ao vencer o Aston Villa da Inglaterra por 2 a 0.
Em 1987, desacreditado e enfrentando grave crise financeira, o Peñarol montou um time extremamente jovem liderado pelo jovem técnico Diego Aguirre. Na finalíssima da Libertadores contra o América de Cali, após perder na Colômbia e vencer em Montevidéu, foi necessário um terceiro jogo em Santiago. O empate favorecia os colombianos pelo saldo de gols. No último segundo da prorrogação, exatamente aos 120 minutos de jogo, Diego Aguirre recebeu na área e cruzou cruzado de perna esquerda, decretando o placar de 1 a 0 e selando a quinta e mais dramática Copa Libertadores da história do clube.
3. Contexto e Momento Atual
Após anos de jejum internacional e dificuldades financeiras que limitaram sua competitividade diante do poderio financeiro dos clubes brasileiros na Copa Libertadores, o Peñarol experimenta um renascimento institucional e esportivo nos anos de 2023 e 2024.
A gestão do presidente Ignacio Ruglio, reeleito no final de 2023, priorizou a modernização administrativa, a saúde financeira e o investimento nas categorias de base. Em campo, a grande virada de chave ocorreu com o retorno do ídolo Diego Aguirre ao cargo de treinador para a temporada de 2024. Sob o comando de "La Fiera", o Peñarol recuperou sua identidade de jogo agressiva, baseada na solidez defensiva e em transições rápidas.
A campanha na Copa Libertadores de 2024 foi histórica. O clube superou a fase de grupos com autoridade, eliminou o The Strongest nas oitavas de final e chocou o continente ao eliminar o estrelado Flamengo nas quartas de final, vencendo por 1 a 0 no Maracanã e segurando um empate sem gols em um superlotado Estádio Campeón del Siglo. Embora a equipe tenha caído nas semifinais diante do Botafogo após uma acachapante derrota no Rio de Janeiro e uma vitória honrosa de 3 a 1 em Montevidéu, a campanha reacendeu o orgulho da torcida e recolocou o clube no mapa da elite sul-americana.
No plano doméstico, o Peñarol faturou o Torneio Apertura de 2024 e manteve-se firme na liderança da Tabela Anual do Campeonato Uruguaio, despontando como o grande favorito ao título nacional.
O Estádio Campeón del Siglo
Inaugurado em 28 de março de 2016, o Estádio Campeón del Siglo, localizado na rota nacional 102, na periferia de Montevidéu, é o orgulho da torcida carbonera. Com capacidade para mais de 43.000 espectadores, o estádio de propriedade do clube encerrou décadas de dependência do Estádio Centenário para grandes jogos, tornando-se um caldeirão de pressão acústica e uma fonte vital de receitas por meio do programa de sócios e da venda de camarotes.
4. Principais Ídolos e Técnicos
Jogadores Lendários
- Alberto Spencer (1937–1996): O atacante equatoriano é o maior ídolo da história do clube. Apelidado de "Cabeza de Mágica", Spencer marcou 326 gols pelo Peñarol e permanece como o maior artilheiro de todos os tempos da Copa Libertadores, com 54 gols marcados (48 deles pelo clube uruguaio).
- Fernando Morena (1952–): O maior artilheiro da história do Campeonato Uruguaio, com 230 gols, e herói do título da Libertadores de 1982. Conhecido por seu faro de gol implacável e oportunismo na área.
- Obdulio Varela (1917–1996): O eterno "Negro Jefe", capitão do Uruguai no Maracanazo de 1950, jogou por mais de uma década no Peñarol, personificando a chamada garra charrúa e a liderança inabalável dentro de campo.
- Ladislao Mazurkiewicz (1945–2013): Considerado um dos melhores goleiros da história do futebol mundial, foi o pilar defensivo nas conquistas da Libertadores e da Intercontinental de 1966. Sua plasticidade e frieza debaixo das traves tornaram-se lendárias.
- Pablo Bengoechea (1965–): "El Profesor", exímio cobrador de faltas e líder técnico da equipe durante a histórica campanha do segundo Quinquenio de Oro (cinco títulos nacionais consecutivos entre 1993 e 1997).
Treinadores de Época
- Hugo Bagnulo (1915–2008): Um mestre da estratégia pragmática uruguaia. Teve múltiplas passagens pelo clube, conquistando diversos campeonatos nacionais e a consagração máxima em 1982 com a Libertadores e a Copa Intercontinental.
- Roque Máspoli (1917–2004): Lendário goleiro campeão do mundo em 1950 que, como técnico, moldou o time espetacular do Peñarol na década de 1960, alcançando os títulos da Libertadores e do Mundo em 1966.
- Diego Aguirre (1965–): Entrou para a história primeiro como jogador ao marcar o gol do título da Libertadores de 1987. Como treinador, levou o clube à final da Libertadores de 2011 e às semifinais de 2024, além de acumular diversos títulos uruguaios, consolidando-se como o maior comandante carbonero do século XXI.
5. Rivalidades Históricas e o "Superclásico"
O futebol uruguaio é estruturado em torno da polarização extrema entre Peñarol e Nacional, uma rivalidade que transcende as quatro linhas e divide o país quase ao meio.
O Clásico del Fútbol Uruguayo
O confronto entre Peñarol e Nacional é considerado o clássico mais antigo das Américas fora das Ilhas Britânicas. O primeiro confronto oficial ocorreu em 15 de julho de 1900, com vitória do CURCC por 2 a 0.
A origem da rivalidade assenta-se em profundas clivagens socioeconômicas e culturais do início do século XX:
- O Peñarol (oriundo do CURCC): Era visto originalmente como o clube dos imigrantes britânicos e, posteriormente, da massa operária ferroviária multiétnica. Seus torcedores eram apelidados depreciativamente pelos rivais de "Manyas" (termo derivado da expressão italiana "mangia-merda", proferida pelo jogador do Nacional Carlos Scarone em 1914 para descrever o sustento humilde dos operários). A torcida ressignificou o insulto, adotando orgulhosamente a alcunha.
- O Nacional: Surgiu em 1899 como uma reação nacionalista das elites locais contra a influência estrangeira no esporte. Foi fundado por estudantes universitários crioulos, utilizando as cores da bandeira do herói nacional José Gervasio Artigas (azul, branco e vermelho). Representava a elite urbana intelectualizada de Montevidéu.
Partidas Históricas do Clássico
- O Clássico da Mala (1934): Em uma partida decisiva, uma bola cruzada pelo Peñarol saiu de campo, bateu na mala de massagista do Nacional que estava fora das quatro linhas, e voltou para o campo. O atacante do Peñarol marcou o gol na sequência da jogada. O árbitro validou o gol, gerando revolta no Nacional, que teve jogadores expulsos. O jogo foi suspenso devido à invasão e, meses depois, os minutos restantes foram disputados com o gol sendo anulado, mas a lenda da mala entrou para o folclore do futebol.
- O Clássico do 8 contra 11 (1949): Conhecido também como "El Clásico de la Fuga". O lendário time do Peñarol de 1949, apelidado de "La Máquina", dominava amplamente o jogo e vencia por 2 a 0 no primeiro tempo sob intensa chuva. Diante da iminência de uma goleada histórica e indignados com as marcações da arbitragem, os jogadores do Nacional decidiram não retornar para o segundo tempo, fugindo do estádio pelo túnel dos vestiários. O Peñarol sagrou-se vencedor por W.O.
6. Quadro Geral de Títulos de Destaque
A galeria de troféus do Peñarol é uma das mais pesadas e laureadas do futebol mundial, registrando conquistas que abrangem três séculos diferentes.
| Competição | Títulos | Anos das Conquistas |
|---|---|---|
| Copa Intercontinental / Mundial de Clubes | 3 | 1961, 1966, 1982 |
| Copa Libertadores da América | 5 | 1960, 1961, 1966, 1982, 1987 |
| Supercopa dos Campeões Intercontinentais | 1 | 1969 |
| Campeonato Uruguaio (Era AUF)* | 51 (ou 53) |
Como CURCC: 1900, 1901, 1905, 1907, 1911 (5 títulos) Como Peñarol: 1918, 1921, 1928, 1929, 1932, 1935, 1936, 1937, 1938, 1944, 1945, 1949, 1951, 1953, 1954, 1958, 1959, 1960, 1961, 1962, 1964, 1965, 1967, 1968, 1973, 1974, 1975, 1978, 1979, 1981, 1982, 1985, 1986, 1993, 1994, 1995, 1996, 1997, 1999, 2003, 2009-10, 2012-13, 2015-16, 2017, 2018, 2021. |
| Supercopa Uruguaia | 2 | 2018, 2022 |
*Nota: O número exato de títulos uruguaios é alvo de disputa política. O Peñarol contabiliza os 5 títulos do CURCC e os títulos conquistados durante o cisma do futebol uruguaio na década de 1920 (sob a égide da Federación Uruguaya de Fútbol), totalizando historicamente 53 taças de campeão uruguaio.
Curiosidades Históricas e Identidade
- As Onze Estrelas: O escudo oficial do Peñarol exibe onze estrelas amarelas sobre um fundo preto. Elas não representam títulos obtidos, mas sim os onze jogadores que entram em campo para defender a instituição.
- A Bandeira Gigante: Em 2011, a torcida do Peñarol entrou para o Livro Guinness dos Recordes ao estender nas arquibancadas do Estádio Centenário aquela que era, na época, a maior bandeira de clube de futebol do mundo, medindo 309 metros de comprimento por 46 metros de largura.
- O Termo Carbonero: O apelido remete diretamente aos carvoeiros que alimentavam as caldeiras das locomotivas britânicas da Central Uruguay Railway Company, reafirmando as origens proletárias do clube.
Fontes Pesquisadas
- ÁLVAREZ, Luciano. Historia de Peñarol. Montevidéu: Aguilar, 2010.
- GARRIDO, Atilio. Peñarol: El Campeón del Siglo. Montevidéu: Ediciones de la Plaza, 2001.
- Asociación Uruguaya de Fútbol (AUF). Registro oficial de títulos e controvérsia de filiação histórica de clubes (Acessado em novembro de 2024).
- CONMEBOL. Histórico de competições continentais e fichas técnicas da Copa Libertadores (1960-2024).
- Diário El País (Uruguai) / Caderno Ovación. Cobertura diária, eleições presidenciais do clube e campanha na Copa Libertadores de 2024.



