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O futebol, em sua essência mais pura, costuma ser descrito como uma metáfora da vida. Para a Palestina, no entanto, essa definição é acanhada. No território fragmentado entre a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e uma diáspora que se espalha por todos os continentes, a seleção nacional de futebol não é apenas uma equipe esportiva; é a representação física, móvel e internacional de uma soberania constantemente contestada. Vestir a camisa vermelha, preta, branca e verde é um ato de afirmação geopolítica. Cada entrada em campo da seleção palestina, conhecida carinhosamente como "Al-Fidai" (Os Combatentes ou Os Redentores), carrega o peso de uma narrativa nacional que luta contra o esquecimento, o isolamento geográfico e a violência sistemática. Sob o escrutínio da FIFA e em meio a um dos conflitos mais longos e complexos da história moderna, o futebol palestino emergiu como um espaço de resistência, unidade e assombrosa evolução técnica.

Nas últimas duas décadas, o selecionado palestino deixou de ser uma mera curiosidade diplomática nos arquivos da Confederação Asiática de Futebol (AFC) para se consolidar como uma força competitiva e respeitada no cenário continental. A classificação histórica para as oitavas de final da Copa da Ásia de 2023 (disputada no início de 2024, no Catar) e a inédita presença na terceira fase das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2026 são marcos esportivos que desafiam a lógica material. Como uma seleção consegue evoluir taticamente, revelar talentos de classe internacional e competir em alto nível contra potências financeiras do Golfo Pérsico e gigantes do Extremo Oriente se o seu campeonato local está paralisado, seus estádios são bombardeados e seus jogadores enfrentam restrições severas de movimento? Este dossiê mergulha nas entranhas do futebol palestino para entender como a bola continua a rolar contra todas as probabilidades, revelando uma engrenagem que mistura paixão popular, diplomacia esportiva, dor e uma busca incessante por dignidade através do esporte.

1. Origens e Formação da Identidade Nacional

A história do futebol na Palestina remonta ao início do século XX, muito antes de o esporte se tornar a indústria globalizada que conhecemos hoje. Durante o período do Mandato Britânico (1920-1948), o futebol foi introduzido na região por soldados, funcionários coloniais e comunidades de imigrantes. Em 1928, foi fundada a Federação de Futebol da Palestina (PFA). No entanto, este capítulo inicial é marcado por uma profunda disputa de narrativa. Embora a federação original estivesse registrada sob o nome de "Palestina" perante a FIFA, ela era controlada majoritariamente por organizações desportivas sionistas, que utilizavam a seleção nacional e as competições locais como ferramentas de afirmação do projeto nacional judaico. Os clubes árabes locais, embora numerosos em cidades históricas como Jafa, Jerusalém, Haifa e Gaza, operavam à margem dessa estrutura oficial, organizando seus próprios torneios sob a égide da Federação Esportiva Árabe-Palestina, fundada na década de 1930 e refundada em 1944.

O cataclismo de 1948, conhecido pelos palestinos como a Nakba ("A Catástrofe"), que resultou na criação do Estado de Israel e no deslocamento forçado de mais de 700 mil palestinos, destruiu por completo o tecido social, econômico e esportivo da região. Clubes históricos desapareceram do dia para a noite, campos de jogo foram destruídos ou reapropriados e a população palestina foi fragmentada: parte permaneceu sob controle israelense, outra parte ficou sob administração jordaniana na Cisjordânia e egípcia na Faixa de Gaza, enquanto milhões buscaram refúgio em países vizinhos como o Líbano, a Síria e a Jordânia. Durante as cinco décadas seguintes, o futebol palestino sobreviveu no exílio e na clandestinidade. A Federação Palestina de Futebol foi reorganizada na diáspora, operando a partir de escritórios itinerantes em capitais árabes e lutando pelo reconhecimento internacional que lhe daria voz e legitimidade.

A virada histórica ocorreu na esteira dos Acordos de Paz de Oslo, na década de 1990. Em 1998, após anos de intensa campanha diplomática liderada por dirigentes esportivos e apoiada por nações árabes, a FIFA, sob a presidência de João Havelange e a posterior transição para Sepp Blatter, reconheceu oficialmente a Federação Palestina de Futebol como membro de pleno direito. Esse reconhecimento antecedeu a própria admissão da Palestina como Estado observador não-membro da ONU, o que transformou a seleção nacional na primeira instituição oficial do país a ser reconhecida globalmente. O primeiro jogo oficial como membro da FIFA ocorreu em 26 de julho de 1998, um empate por 1 a 1 contra o Líbano, em Beirute. A partir daquele momento, a seleção palestina passava a existir não apenas como um conceito político, mas como uma realidade estatística nos relatórios da entidade máxima do futebol mundial.

Os primeiros anos de filiação foram marcados por dificuldades logísticas extremas. Sem um estádio próprio que atendesse aos padrões internacionais de segurança e infraestrutura da FIFA, a Palestina foi forçada a mandar seus jogos em países vizinhos, principalmente na Jordânia, no Catar e no Egito. Essa condição de "eterno visitante" moldou o caráter resiliente da equipe, mas também limitou seu crescimento técnico e a conexão direta com sua torcida. O cenário começou a mudar em 2008, com a inauguração do Estádio Internacional Faisal Al-Husseini, localizado em Al-Ram, na Cisjordânia, imediatamente adjacente ao muro de separação construído por Israel. Em 26 de outubro de 2008, a Palestina disputou sua primeira partida oficial em casa na história, um amistoso contra a Jordânia que terminou empatado em 1 a 1, diante de mais de 20 mil torcedores e sob os olhares atentos do presidente da FIFA, Sepp Blatter. O evento transcendeu o esporte: era a prova física de que, apesar da ocupação militar, das barreiras de concreto e dos postos de controle, a Palestina possuía um território desportivo soberano.

A consolidação da identidade nacional através do futebol também enfrentou o desafio da fragmentação geográfica interna. A separação política e física entre a Cisjordânia (governada pela Autoridade Nacional Palestina) e a Faixa de Gaza (sob controle do Hamas desde 2007) refletiu-se diretamente na estrutura do futebol. Foram criadas duas ligas de elite distintas: a West Bank Premier League e a Gaza Strip Premier League. A seleção nacional, portanto, precisava atuar como uma ponte de unidade nacional, convocando atletas de ambas as regiões, além de buscar talentos na vasta diáspora global. Esse processo de unificação identitária sob uma única camisa tornou-se um dos pilares de sustentação social do país, transformando os noventa minutos de jogo no único momento em que a fragmentação territorial palestina era temporariamente superada.

2. Era de Ouro, Grandes Campanhas e Ídolos Eternos

O amadurecimento técnico do futebol palestino começou a se desenhar de forma mais nítida na segunda década do século XXI. O marco zero dessa transformação ocorreu em 2014, com a conquista da AFC Challenge Cup, torneio organizado pela Confederação Asiática para nações emergentes no futebol do continente. Sob o comando técnico do treinador local Jamal Mahmoud, a Palestina realizou uma campanha impecável nas Maldivas. Sem sofrer um único gol ao longo de todo o torneio, a equipe derrotou as Filipinas por 1 a 0 na grande final, em 30 de maio de 2014. O gol do título, cobrado em uma falta magistral pelo atacante Ashraf Nu'man aos 14 minutos do segundo tempo, paralisou as ruas de Ramallah, Gaza e Jerusalém Oriental. Mais do que erguer um troféu internacional pela primeira vez, a conquista garantiu à Palestina a classificação inédita para a Copa da Ásia de 2015, na Austrália.

A participação na Copa da Ásia de 2015 foi um choque de realidade, mas também um aprendizado inestimável. Sorteada em um grupo extremamente difícil ao lado de potências como Japão, Iraque e Jordânia, a equipe sofreu três derrotas consecutivas. No entanto, o torneio reservou um momento de catarse coletiva: na derrota por 5 a 1 contra a Jordânia, o meio-campista Jaka Ihbeisheh, nascido na Eslovênia e de origem palestina, marcou o primeiro gol da história da seleção em uma fase final de Copa da Ásia. O gol foi celebrado como se fosse um título, simbolizando a inserção definitiva do país na elite do futebol asiático. Quatro anos depois, na Copa da Ásia de 2019, disputada nos Emirados Árabes Unidos, a Palestina demonstrou uma clara evolução tática. Sob o comando do argelino Noureddine Ould Ali, a seleção conquistou seus primeiros pontos na competição ao empatar sem gols contra a Síria e a Jordânia, despedindo-se na fase de grupos de cabeça erguida e com a certeza de que a distância para as grandes potências do continente estava diminuindo.

O verdadeiro apogeu técnico e emocional da seleção palestina ocorreu na Copa da Ásia de 2023, realizada no Catar no início de 2024. A preparação para o torneio ocorreu sob a sombra devastadora da escalada do conflito na Faixa de Gaza, iniciada em outubro de 2023. Com o campeonato nacional suspenso, sem poder treinar em seu próprio território e com atletas profundamente afetados psicologicamente pela perda de familiares e amigos, a equipe liderada pelo técnico tunisiano Makram Daboub transformou a dor em combustível competitivo. Na fase de grupos, após uma derrota inicial para o Irã (4 a 1), a Palestina conquistou um empate heróico por 1 a 1 contra os Emirados Árabes Unidos e, no jogo decisivo, goleou Hong Kong por 3 a 0. Os gols de Oday Dabbagh (duas vezes) e Zeid Qunbar garantiram a primeira vitória da história da Palestina em Copas da Ásia e a histórica classificação para as oitavas de final como um dos melhores terceiros colocados.

Nas oitavas de final, a Palestina enfrentou os donos da casa e futuros campeões, o Catar, no imponente Estádio Al Bayt. Longe de se intimidar, a equipe palestina abriu o placar aos 37 minutos do primeiro tempo com uma jogada individual brilhante do craque Oday Dabbagh, que driblou a defesa catariana e finalizou com precisão. Embora o Catar tenha conseguido a virada para 2 a 1 com gols de Hassan Al-Haydos e Akram Afif, a atuação da Palestina foi aplaudida de pé pelos mais de 60 mil espectadores presentes. A campanha foi classificada pela imprensa internacional como uma das histórias mais comoventes e inspiradoras da história recente do futebol mundial, demonstrando que a equipe possuía não apenas força mental, mas um repertório tático moderno e competitivo.

Essa trajetória vitoriosa foi pavimentada pelo talento de jogadores que se tornaram verdadeiros heróis nacionais. O principal símbolo dessa geração é o atacante Oday Dabbagh. Nascido na Cidade Velha de Jerusalém, Dabbagh iniciou sua carreira no Hilal Al-Quds antes de se transferir para o futebol do Kuwait e, posteriormente, fazer história ao se tornar o primeiro jogador formado localmente na Palestina a se transferir para a primeira divisão de uma liga europeia, brilhando no FC Arouca, de Portugal, e mais tarde no Charleroi, da Bélgica. Ao lado dele, destaca-se o lendário zagueiro e ex-capitão Abdelatif Bahdari. Natural de Gaza, Bahdari personificou a resiliência palestina ao longo de quase duas décadas de serviços prestados à seleção, atuando como um pilar defensivo e um líder espiritual para os atletas mais jovens. Outros nomes fundamentais incluem o goleiro Rami Hamadeh, cujas defesas milagrosas garantiram resultados históricos, o dinâmico lateral-direito e atual capitão Mus'ab Al-Battat, e o versátil atacante Tamer Seyam, um dos maiores artilheiros da história da seleção.

3. Rivalidades, Crises e Bastidores do Poder

No contexto do futebol palestino, a palavra "rivalidade" assume contornos que extrapolam as quatro linhas. A principal e mais evidente tensão geopolítica ocorre com o vizinho Estado de Israel. Embora nunca tenham se enfrentado em uma partida oficial masculina de nível principal desde a filiação da Palestina à FIFA — uma vez que Israel compete na UEFA (Europa) desde a década de 1990 e a Palestina integra a AFC (Ásia) —, os bastidores do futebol entre as duas federações são marcados por intensas batalhas jurídicas e políticas. A Federação Palestina de Futebol (PFA), sob a liderança de seu influente e controverso presidente, Jibril Rajoub, tem denunciado repetidamente na FIFA o que classifica como um "apartheid esportivo" promovido por Israel. As queixas palestinas baseiam-se em três pilares principais: as restrições severas impostas por Israel à liberdade de movimento de jogadores, comissões técnicas e árbitros palestinos; a destruição de infraestrutura esportiva em Gaza e na Cisjordânia por ações militares; e a inclusão de clubes sediados em assentamentos israelenses na Cisjordânia (considerados ilegais pelo direito internacional) nas ligas oficiais da Associação de Futebol de Israel (IFA).

A questão da liberdade de movimento é o obstáculo diário mais asfixiante para o futebol palestino. Jogadores baseados em Gaza frequentemente enfrentam a recusa de vistos de saída por parte das autoridades de segurança israelenses, o que historicamente impediu a seleção de reunir sua força máxima para treinamentos e jogos oficiais. Um caso emblemático ocorreu em 2019, quando a final da Copa da Palestina — que deveria opor o campeão da Cisjordânia (Hilal Al-Quds) ao campeão de Gaza (Khadamat Rafah) — teve de ser adiada indefinidamente após Israel negar vistos de viagem para 31 dos 35 membros da delegação do clube de Gaza. Além disso, atletas de destaque da seleção já sofreram prisões prolongadas sem julgamento formal, como o caso do jogador Mahmoud Sarsak, que realizou uma greve de fome de 90 dias na prisão em 2012 para garantir sua libertação, atraindo a atenção de astros do futebol mundial como Eric Cantona e do então presidente da FIFA, Sepp Blatter.

Os bastidores do poder dentro da própria Federação Palestina também são complexos e imersos na política local. Jibril Rajoub, ex-chefe de segurança da Autoridade Palestina e figura proeminente do partido Fatah, acumula a presidência da federação de futebol e do Comitê Olímpico Palestino desde 2008. Críticos apontam que Rajoub utiliza o futebol como uma plataforma de projeção política pessoal e de consolidação de poder. Sob sua gestão, o futebol foi profissionalizado e recebeu investimentos significativos da FIFA e de doadores árabes, mas vozes dissidentes acusam a federação de falta de transparência financeira e de centralização excessiva de decisões. A gestão de Rajoub também é marcada por discursos inflamados, o que já lhe rendeu suspensões da FIFA por comportamento considerado antidesportivo, como quando instou torcedores a queimarem camisas de Lionel Messi caso a seleção da Argentina disputasse um amistoso planejado contra Israel em Jerusalém, em 2018.

Outra crise silenciosa que desafia os bastidores da seleção é a delicada integração entre os jogadores formados localmente e aqueles recrutados na diáspora, conhecidos como os "shatat" (dispersos). Ao longo dos anos, a Palestina buscou ativamente jogadores de origem palestina em países como Chile (onde há a maior comunidade palestina fora do mundo árabe, representada pelo tradicional clube Club Deportivo Palestino), Suécia, Dinamarca, Alemanha, Estados Unidos e Argentina. Embora essa estratégia tenha elevado significativamente o nível técnico da equipe, ela também gerou tensões internas relacionadas a barreiras linguísticas, diferenças culturais e ressentimentos sobre a titularidade de atletas que não vivenciam as agruras diárias da ocupação em solo palestino. Treinadores que passaram pelo comando da seleção relataram a complexidade de gerenciar um vestiário onde se fala espanhol, sueco, inglês e árabe, exigindo um trabalho constante de mediação cultural para construir um espírito de equipe verdadeiramente coeso.

A maior de todas as crises, contudo, é a física e humanitária. O impacto das operações militares israelenses sobre o futebol palestino é devastador. Durante os conflitos recorrentes na Faixa de Gaza, estádios foram reduzidos a escombros, incluindo o icônico Estádio Palestina, em Gaza, bombardeado em mais de uma ocasião. A perda de vidas humanas no meio esportivo é uma realidade trágica e constante. Em janeiro de 2024, a comunidade do futebol lamentou a morte de Hani Al-Masdar, ex-jogador e treinador da seleção olímpica da Palestina, vítima de um ataque aéreo em Gaza. Estima-se que dezenas de atletas, árbitros e dirigentes de divisões de base e do futebol amador tenham perdido a vida nos últimos anos, gerando um trauma coletivo que a federação precisa administrar enquanto tenta manter a seleção ativa nos torneios internacionais.

4. O Momento Atual: Tática, Geração e Desafios

Apesar do cenário de extrema adversidade, a seleção da Palestina vive, sob o ponto de vista estritamente esportivo, o momento mais maduro e competitivo de sua história. Este salto de qualidade deve-se em grande parte ao trabalho do técnico Makram Daboub. O treinador tunisiano, que assumiu o comando principal em 2021 após anos trabalhando como preparador de goleiros e auxiliar na própria comissão técnica palestina, conseguiu implementar uma filosofia de jogo caracterizada pela rigidez tática, solidez defensiva e transições ofensivas extremamente velozes. Daboub abandonou a postura puramente defensiva e reativa que caracterizava a seleção em décadas anteriores, adotando um sistema híbrido que varia entre o 4-4-2 clássico e o 4-2-3-1, dependendo do adversário e das circunstâncias do jogo.

A arquitetura tática da Palestina atual apoia-se em um bloco defensivo compacto e de muita imposição física. A dupla de zaga, frequentemente composta por Michel Termanini (nascido na Suécia e com passagens pelo futebol europeu) e Yaser Hamed (zagueiro de imponente estatura nascido no País Basco, Espanha, de pai palestino), oferece segurança aérea e qualidade na saída de bola. O grande motor da equipe, contudo, reside nas laterais e no meio-campo. O capitão Mus'ab Al-Battat é um dos melhores laterais-direitos em atividade no futebol asiático, destacando-se não apenas pela consistência defensiva, mas por sua extraordinária capacidade de apoiar o ataque e desferir cruzamentos precisos, como ficou demonstrado na Copa da Ásia de 2023, onde foi um dos líderes de assistências da competição. No meio-campo, a dupla de volantes formada por Mohammed Rashid (que atua no futebol da Indonésia) e Oday Kharoub garante a sustentação física, a roubada de bola e a transição rápida para os pontas velozes, como Tamer Seyam e Mahmoud Abu Warda.

No setor ofensivo, a Palestina conta com a referência técnica incontestável de Oday Dabbagh. O atacante do Charleroi atua como um "camisa 9" moderno: possui excelente mobilidade para flutuar fora da área, arrastar defensores e abrir espaços para a infiltração dos meias, além de ser extremamente letal no jogo aéreo e nas finalizações de primeira. A evolução de Dabbagh no futebol europeu elevou o patamar de confiança de toda a equipe. Quando joga pela seleção, ele costuma ser acompanhado por atacantes de maior mobilidade, como Zeid Qunbar ou Wessam Abou Ali, centroavante do Al Ahly do Egito, nascido na Dinamarca, que optou por defender a seleção palestina em 2024, adicionando ainda mais poder de fogo ao ataque comandado por Makram Daboub.

A eficácia desse modelo tático foi colocada à prova de maneira brilhante no início da terceira fase das Eliminatórias Asiáticas para a Copa do Mundo de 2026. Em 5 de setembro de 2024, a Palestina viajou a Seul para enfrentar a poderosa seleção da Coreia do Sul, semifinalista da última Copa da Ásia e repleta de astros da Premier League e da Bundesliga, como Son Heung-min e Kim Min-jae. O que se viu no Estádio de Seul foi uma obra-prima de organização tática e resiliência mental. O goleiro Rami Hamadeh realizou defesas espetaculares, enquanto o sistema defensivo de Daboub neutralizou as principais linhas de passe coreanas. A Palestina não se limitou a defender; criou chances claras de gol em contra-ataques rápidos conduzidos por Dabbagh e quase chocou o mundo com uma vitória nos minutos finais. O empate por 0 a 0 foi celebrado como um feito histórico, confirmando que a Palestina não é mais uma equipe que entra em campo apenas para evitar goleadas, mas sim um adversário temível e capaz de competir de igual para igual contra as maiores potências do continente.

No entanto, manter esse nível de desempenho tático exige um esforço logístico e psicológico sobre-humano. Sem poder mandar seus jogos em Ramallah devido às restrições de segurança e à escalada da violência na região, a Palestina tem sido forçada a adotar uma rotina nômade. A equipe manda seus jogos de eliminatórias em países neutros como o Kuwait, o Catar e a Malásia. Essa ausência do calor de sua torcida e o desgaste de viagens constantes são fatores que pesam significativamente no rendimento físico dos atletas. Além disso, o aspecto mental é um desafio diário para a comissão técnica. Jogadores entram em campo sabendo que seus familiares na Faixa de Gaza ou na Cisjordânia estão expostos a bombardeios e operações militares. Transformar essa angústia e o medo constante em foco tático e competitividade esportiva é, talvez, o maior feito de Makram Daboub e de seus comandados.

5. Formação de Talentos, Estrutura e Futuro

Para compreender as perspectivas de futuro do futebol na Palestina, é preciso analisar a precária, porém criativa, estrutura de formação de atletas no país. O desenvolvimento de jovens talentos em solo palestino enfrenta barreiras que seriam consideradas intransponíveis em qualquer país de estrutura esportiva convencional. A ausência de centros de treinamento modernos, a escassez de campos de grama natural de qualidade, a falta de equipamentos de medicina esportiva e a impossibilidade de realizar intercâmbios regulares entre jovens atletas da Cisjordânia e de Gaza limitam severamente o surgimento de novos valores. A West Bank Premier League e a Gaza Strip Premier League, embora tenham revelado nomes importantes no passado, sofrem com a instabilidade financeira crônica dos clubes, que dependem quase exclusivamente de patrocínios governamentais escassos, doações da comunidade local e repasses limitados da federação.

Diante dessas limitações internas, a Federação Palestina de Futebol desenvolveu uma sofisticada rede de monitoramento e captação de talentos na diáspora global, frequentemente referida como a "conexão Shatat". O caso mais emblemático dessa relação simbiótica ocorre com o Chile. A imigração palestina para o país sul-americano, iniciada no final do século XIX, gerou uma comunidade de mais de 500 mil pessoas. Em 1920, foi fundado em Santiago o Club Deportivo Palestino, agremiação que disputa a primeira divisão chilena e cujas cores e símbolos são idênticos aos da bandeira da Palestina. O CD Palestino funciona como uma verdadeira embaixada esportiva e um celeiro de atletas para a seleção nacional. Jogadores nascidos no Chile, formados em categorias de base altamente competitivas da América do Sul e com ascendência palestina, como Roberto Kettlun, Alexis Norambuena, Yashir Pinto, Jonathan Cantillana e Camilo Saldaña, desempenharam papéis cruciais na consolidação técnica da seleção principal ao longo das últimas duas décadas.

Nos últimos anos, essa busca por talentos expandiu-se com vigor para a Europa, especialmente para os países escandinavos, que abrigam grandes comunidades de refugiados palestinos. Olheiros da federação monitoram ligas de base na Suécia, Dinamarca, Noruega e Alemanha. Esse esforço resultou na captação de jogadores importantes como o zagueiro Michel Termanini e o atacante Wessam Abou Ali. A integração desses atletas de dupla nacionalidade é facilitada pelo forte sentimento de pertencimento e identidade cultural transmitido por suas famílias na diáspora. Para muitos desses jogadores, vestir a camisa da Palestina não é uma segunda opção esportiva, mas uma escolha de profunda carga emocional e uma oportunidade de honrar a história e a luta de seus antepassados.

Apesar do sucesso dessa estratégia de captação externa, o futuro do futebol palestino a longo prazo depende da reconstrução e sustentabilidade de sua estrutura interna. O maior desafio pós-conflito será a reestruturação das ligas locais, completamente paralisadas desde o final de 2023. Sem uma liga doméstica ativa, o futebol local corre o risco de desaparecer, o que interromperia o fluxo de jogadores formados no próprio território — atletas que trazem para a seleção a garra, a identidade urbana e a conexão visceral com a realidade do país. A federação precisará de um plano massivo de reconstrução de infraestrutura, que exigirá recursos significativos da FIFA através do programa Forward, além do apoio financeiro de federações parceiras do mundo árabe e da comunidade internacional.

A curto e médio prazo, a grande meta esportiva da Palestina é consolidar sua presença nas fases decisivas do futebol asiático e alimentar o sonho de uma classificação para a Copa do Mundo de 2026, cuja expansão para 48 seleções abriu novas vagas para o continente asiático. Embora a classificação direta ainda seja um desafio hercúleo diante de potências consolidadas como Japão, Irã, Coreia do Sul e Austrália, a presença constante da Palestina na terceira fase das eliminatórias e sua capacidade de arrancar pontos dessas equipes demonstram que o país já não é um figurante. O futuro da seleção "Al-Fidai" está intrinsecamente ligado ao seu papel como símbolo de resistência. Enquanto houver um campo de futebol, uma bola rolando e onze jogadores vestindo a camisa vermelha, preta, branca e verde, a Palestina continuará a lembrar ao mundo que, apesar de todas as fronteiras, muros e adversidades, sua identidade nacional permanece viva, soberana e competitiva.

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