
O Sol nasceu às 6h35min, Pôr do Sol (local) às 17h23min, e o Meio-dia Solar foi às 11h59min. Às 18h00 deste dia, a Lua estava na fase Minguante Convexa (66%). Em Piquete - SP, ela nasceu às 23h48 a 100° e se pôs às 12h05 a 257°.
Dia do Ataque ao Cume
São utilizadas diversas expressões para indicar a jornada final até o cume; o termo mais comum é o "ataque". Este, por sua vez, pode acontecer por meio de uma caminhada (trekking), um trepa-pedra (quando a pessoa precisa utilizar as mãos e os pés), ou a escalada propriamente dita, com o uso de equipamentos, como cordas.
Acordam às 6h00.
Mesmo em 1985, é sabido que o Pico dos Marins era um local bastante frequentado. Causa-me muita estranheza a resistência em afirmar categoricamente que existiam muitas pessoas ali naquele fim de semana. Muitos dizem: "Sentia que não estávamos sozinhos".
Mas eles não estavam sozinhos mesmo!
Nesse sábado, pouco após acordarem às 6h00 da manhã, já passou um grupo que iria subir para o Pico dos Marins. Inclusive, esse grupo se ofereceu para subir junto com os escoteiros.
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O primeiro grupo era uma família da região.
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Depois, passou um grupo de 15 a 20 pessoas vindo de Lorena - SP.
O Chefe Juan nega os dois convites. Segundo o relatório [11], Juan alega que ainda era cedo e que eles iriam sair depois, às 9h00.
Vamos aceitar aqui, de uma vez por todas: a trilha nesse dia tinha gente!
Era 9h00 (aproximado) quando o grupo de Juan, Marco Aurélio, Ricardo e Ramatis saiu levando uma única mochila com enlatados e uma panela.
Logo na saída, eles pegaram um caminho errado, o que atrasou a chegada no Morro do Careca. Chegaram ao morro cansados, pois tinham pegado o caminho errado.
A maior parte das fontes fala que eles simplesmente erraram o caminho, mas 35 anos depois, em entrevista em live [13], Juan conta que havia uma saída na estrada e que, distraídos, passaram por ela sem ver.
Peço sinceras desculpas, mas tenho a grande responsabilidade de ser verdadeiro. Vamos falar um pouco sobre o começo dessa jornada; para isso, veja a foto a seguir:

No círculo vermelho, temos a Base dos Marins (hoje chamado Refúgio dos Marins), o local do acampamento dos escoteiros. O círculo azul é o Morro do Careca, e o caminho em laranja é o trajeto esperado. Aquela seta em vermelho, lá em cima, aponta a estrada usada pelos escoteiros!
Vamos ser sinceros: Não tinha como essa jornada dar certo. Já começou errada; foi uma escolha perigosa e irresponsável empreender uma jornada por um local desconhecido, sem sequer saber o rumo que se estava tomando. O final seria, de algum modo, trágico.
Quando o chefe e os escoteiros chegaram ao Morro do Careca, eles estavam cansados. Já era um ótimo momento para assumir o erro e voltar para São Paulo. O frio era mortal, eles não estavam vestidos de forma adequada e não tinham as provisões necessárias.
Neste momento, chegaram a uma barraca armada perto de uma clareira [11]. Tanto em 1985 quanto hoje, esse local é muito usado para acampamentos. Segundo contam os garotos (hoje já homens), não havia ninguém ali. Mais uma evidência de que existiam mais pessoas ali. Como disse, existiam os grupos que passaram no Refúgio e as barracas que demonstravam haver mais gente.
Outro ponto registrado em vários depoimentos, lives e podcasts é que, já neste momento, os jovens começaram a apresentar clara diferença em seu preparo físico. Marco Aurélio, neste momento, foi deixado para trás.
Ricardo [11] conta que Marco Aurélio, em um momento, ao ficar para trás, se confundiu a ponto de, na dúvida sobre que direção tomar, ter se atrasado.
Logo, a explicação mais fidedigna é que Marco Aurélio ficou para trás por confundir-se quanto ao caminho.
Sejamos racionais. Não estamos aqui para culpar este ou aquele. O fato é que não era uma jornada ao Pico dos Marins, pois eles não sabiam onde o Pico estava. Também não era uma jornada de exploração, pois não trabalhavam com mapas, coordenadas ou instruções. Resumindo, eles vagavam, acreditando estarem na direção certa, quase que movidos pela fé.
Tenho certeza de que o jovem Chefe Juan jamais se aventuraria em uma empreitada acreditando que perderia algum dos adolescentes. Não vejo maldade nas decisões, apenas a irresponsabilidade de um jovem rapaz, embora as consequências fossem repercutir na vida de muitas pessoas.
Na faculdade, tive um velho e sábio professor que dizia que europeus não abaixam a crista para nada. E, brincadeiras à parte, imagine você: se hoje, quase 40 anos depois dos fatos, Juan, como visto na live para o Conexão UFO, não foi capaz de baixar a cabeça e dizer "eu errei", vamos esperar que ele fizesse isso quando tinha 36 anos?
Eu, particularmente, prefiro chamar Juan e os adolescentes de sobreviventes!
Felizmente, e é até irônico, o mesmo chefe atrapalhado que colocou a si e aos escoteiros (Ramatis, Osvaldo, Ricardo e Marco) em perigo de morrerem de hipotermia na Mantiqueira, foi o mesmo que conseguiu salvar a si e a outros três adolescentes, incentivando-os a se manterem em movimento.
No Direito, temos algumas expressões que podem incomodar pessoas de outras áreas, termos como "ignorância" ou "incompetência".
Em síntese de todos os depoimentos e documentos do caso, extrai-se claramente que o jovem chefe não estava preparado para aquela missão. Ignorava as dificuldades (note que nem as roupas necessárias para a jornada foram levadas; eles passaram intenso frio), ignorava o caminho e não sabia usar a bússola.

(Imagem criada por inteligência artificial Bing, Dall-e)
O uso da bússola é algo interessante neste caso. Os participantes alegavam que o instrumento não estava bom. Ora, uma bússola não é o Google Maps; sua função é unicamente apontar o Norte. Para utilizá-la, é necessário ter conhecimento de pontos fixos, que pode ser uma montanha ou uma estrela. De um ponto A, se for possível ver o ponto B, podemos traçar uma linha em graus, apontando o destino pela linha de pontaria.
Em nenhum vídeo ou depoimento encontrei o menor indício de que alguém soubesse utilizar uma bússola.
A partir do Morro do Careca, todos esperávamos que, agora, os escoteiros e seu chefe tomassem a trilha tradicional. Engano nosso. Mais uma vez, tomaram direção diversa e foram parar na Cruz de Ferro.
A Cruz de Ferro é um antigo ponto de referência de um caminho há muito desativado por ser perigoso; o trajeto possui fendas difíceis e facilmente levaria aos cânions.
Acredita-se, pelos depoimentos, que, após passarem a Cruz de Ferro, mais à frente, conseguiram retornar ao caminho comumente usado por aqueles que querem chegar ao pico.
Neste momento, um dos jovens sofreu um acidente ao pisar em falso em um buraco e torcer a rótula do joelho.
Osvaldo contou em live que ficou realmente machucado, precisando fazer tratamento médico, embora existam muitos relatos que dizem que ele não sofreu lesão. É inegável, porém, que ele sentiu o joelho e que isso foi o suficiente para abortarem o ataque ao Pico.
Eu não gosto de afirmações condicionais (que digam "se isso, se aquilo"). Muitos acham que, se Osvaldo não tivesse machucado, Marco Aurélio estaria vivo. Eu penso que, se o adolescente não tivesse machucado, eles demorariam mais duas horas até o Pico, ficariam no cume de forma irresponsável por mais uma hora e se colocariam na mesma condição de perigo à qual se expôs o adolescente desaparecido. Puras suposições!
Embora muitos queiram inventar uma Teoria da Conspiração, alegando que o jovem Osvaldo não se machucou, essas teorias não têm qualquer base lógica. Osvaldo se machucou, sim! Nada grave, mas é ponto comum em todas as narrativas que o jovem pisou em falso e deu um mau jeito no joelho, o que lhe causou muita dor e o impossibilitou de firmar o pé no chão.
Acidentes acontecem, e se você nunca se machucou por uma besteira, é porque sua vida deve ser um tédio.
Os jovens e o chefe indicam que, diante do acontecido, a subida ao Pico dos Marins foi corretamente abortada. Ninguém esperava algo do tipo e, segundo os manuais de sobrevivência, eles fizeram uma pausa para dimensionar tudo o que estava acontecendo e poderem tomar as decisões cabíveis.
Durante a pausa, eles se alimentaram. O grupo comeu legumes, maionese e sardinha [11].

(imagem criada por inteligência artificial bing e dall-e: escoteiros alimentando na montanha)
No primeiro momento, dizem os garotos, que foi ideia de Marco Aurélio fazer uma espécie de rede para carregar o amigo, mas tiveram dificuldade em encontrar o material necessário para tal.
Neste momento, Ramatis se oferece para ir na frente buscar ajuda e fazer sinais de volta; Marco Aurélio também se ofereceu. O Chefe Juan decide que Marco iria, por ser mais preparado. Ramatis continuaria carregando a mochila, e Juan e Ricardo ajudariam Osvaldo.
A estratégia de criar uma maca por si só já demonstra o quanto os jovens eram criativos, mas pouco instruídos.
Uma maca é para alguém inconsciente, algo a ser feito em situações extremas. No caso, o jovem Osvaldo poderia ter se apoiado em um galho, que lhe serviria de muleta, ou no ombro de um companheiro, o que de fato aconteceu.
Neste momento, contam que Ricardo e Juan (os mais fortes) apoiavam Osvaldo lado a lado, Ramatis carregava a mochila, e Marco Aurélio ia um pouco à frente, 'abrindo o caminho'.
Cada um que conta essa história acrescenta um ponto.
Parece consenso que, após alguns minutos nesta formação, o próprio Marco Aurélio se ofereceu para ir à frente abrir caminho.
De toda a história, esse é o ponto mais ESQUISITO.
Imaginem vocês: a turma completa conseguiu se perder entre a Base e o Morro do Careca, entre o Morro do Careca e o local do acidente, mas agora... Agora que estavam diante de um fator de estresse real, um jovem ficaria a cargo de achar o caminho de volta.
Parece evidente que Marco Aurélio se desorientou e, tentando refazer o caminho que passava pela Cruz de Ferro, único que conhecia, se desorientou e foi parar dentro do Cânion do Marins, onde jaz até hoje. [Teoria apresentada neste artigo].
É sabido que Marco Aurélio recebeu de Osvaldo um jornal para esquentar o peito, uma blusa, e saiu na frente com um giz, entregue pelo chefe Juan, com o qual ele devia fazer marcações pelo caminho. É sabido que foram vistas duas marcações de '240', número que indicava o grupo Olivetano de escotismo, e que a última marcação foi entre duas pedras, que hoje é conhecida como Portal.

Essa é a foto do dito Portal, peguei essa foto no site Alta Montanha, (link https://altamontanha.com/o-desaparecimento-de-marco-aurelio-no-pico-dos-marins/) e essa figura simpática ai é o Pedro Hauck, vou ficar devendo quem tirou a foto.
Prosseguindo, contam que o grupo passou por duas marcações feitas por Marco Aurélio.
Foi ali, junto ao Portal, que Juan decidiu seguir caminho diferente (pela direita) daquele apontado por Marco Aurélio em suas marcações (esquerda).
A pergunta eterna é: por que colocar alguém para ir na frente marcando o caminho e depois não seguir essa pessoa?
Nesse momento, deveriam ter parado tudo, começado a apitar como loucos e partido para um plano B, já que o plano A não deu certo. Não fizeram isso. Os escoteiros e o chefe seguiram um caminho alheio àquele que Marco Aurélio fez. E nunca mais veriam o colega novamente.
Eram 14h30min ou 14h40min (aproximadamente).
Esse foi o último momento em que alguém afirma ter visto a marcação de Marco Aurélio: "240" escrito na pedra do Portal.
As teorias do que teria acontecido com o adolescente são muitas.
Abaixo, algumas teorias. Todas são suposições e especulações:
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Desorientação e morte por hipotermia ou inanição.
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Homicídio praticado pelo chefe Juan.
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Loucura que o levou a vagar pelo mundo desde então.
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Abdução por alienígenas.
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O garoto fugiu da família.
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O garoto foi sequestrado.
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Morte após queda em fenda ou buraco, ou em decorrência de lesões provocadas por isso.
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Homicídio cometido por morador da região que o confundiu com um ladrão ao ser surpreendido pelo adolescente de madrugada.
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Assassinato por maníaco ou fanático.
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Aliciamento por grupo fanático.
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Teria sido morto por um animal e, em seguida, devorado.
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Marco Aurélio teria chegado ao Refúgio dos Marins e sido assassinado pelo filho do Seu Afonso, João Carlos, e, quando o pai descobriu, teria ocultado o corpo. (Terá um tópico dedicado, por ser uma controvertida recente).
Em um tópico próprio aqui no site, trataremos sobre cada uma dessas hipóteses.
Mas, antes de entrar em cada uma dessas hipóteses, falaremos sobre os demais escoteiros e como eles, sofridamente, conseguiram retornar para suas casas.
Os fatos demonstram claramente que não foi apenas Marco Aurélio que se desviou do seu caminho. Embora este nunca tenha sido encontrado, os garotos e o chefe também enfrentaram um caminho de luta pela sobrevivência!
É importante destacar que, muito diferente da imagem descrita de um jovem perdido em uma montanha, Marco Aurélio estava em mata fechada depois de poucos metros de caminhada.

Imagem criada por inteligência artificial. (Bing Dall-e)
A jornada de volta para casa sem Marco Aurélio (A partir das 14h40min).
Sabemos, pelo que foi contado pelos sobreviventes dessa malfadada e desorganizada incursão ao Pico dos Marins, que Juan e três dos escoteiros foram descendo em direção ao Estado de Minas Gerais, o que é clara evidência de desorientação.
Até o menos atento já observou que o caminho que leva aos Marins se faz pela parte alta do morro, visto que nas laterais temos um cânion e um vale.

A descrição mais fiel do retorno do chefe e dos três escoteiros está no artigo "A hipótese de desorientação no Pico dos Marins: caso Marco Aurélio em 1985", escrito por Daniel Iozzi Sperandelli, de 7 de outubro de 2022, no site Alta Montanha (Acesse neste link).
O caminho de volta deveria durar duas horas, mas demorou doze. Se isso não é estar completamente perdido, o que é? A sensação térmica era de temperatura inferior a 0 °C (zero grau Celsius).
Segundo relato [11], os escoteiros acreditavam que Marco Aurélio estaria seguro e teria chegado à Base dos Marins.

Quando era meia-noite, sem qualquer proteção ao frio, Juan e os escoteiros caminhavam já do lado mineiro da montanha, sem saber para onde iriam, com Osvaldo machucado, e sem notícias do companheiro de jornada Marco Aurélio.

Continuaremos ao falar do dia 09 de junho de 1985, no próximo artigo.



