O error in procedendo, ou erro de procedimento, constitui um vício de atividade decorrente da inobservância de normas processuais cogentes pelo magistrado, incidindo sobre a forma e a estrutura do iter procedimental, o que enseja a anulação (cassação) do ato jurisdicional viciado, distinguindo-se substancialmente do erro de julgamento (error in iudicando).
1. Conceito, Definição e Natureza Jurídica
O error in procedendo configura-se como um vício na atividade jurisdicional, ocorrendo quando o magistrado, ao conduzir o processo ou ao proferir uma decisão, desrespeita as normas de cunho procedimental estabelecidas pelo ordenamento jurídico. Diferentemente do error in iudicando, que recai sobre o conteúdo da decisão (o mérito) e a interpretação do direito material, o erro de procedimento atinge a validade do ato em si, por descumprimento de ritos, formas ou garantias processuais.
A natureza jurídica do error in procedendo é de invalidade processual. Enquanto o erro de julgamento gera uma decisão injusta (reformável), o erro de procedimento gera uma decisão inválida (anulável). Consequentemente, o provimento jurisdicional que reconhece tal vício opera a cassação da decisão, determinando o retorno dos autos à instância de origem para que o ato seja renovado em conformidade com o devido processo legal, ressalvadas as hipóteses de causa madura previstas no Artigo 1.013, § 3º, do Código de Processo Civil (CPC/2015).
2. Origem Histórica e Evolução no Direito
As raízes do instituto remontam ao Direito Romano, especificamente ao período da cognitio extra ordinem, onde a distinção entre o ius dicere (dizer o direito) e o procedere (conduzir o rito) começou a ganhar contornos técnicos. No sistema romano clássico, a nulidade era a sanção primária para o desvio das fórmulas rituais.
No Direito Comparado, a escola italiana, sob a influência de Giuseppe Chiovenda e Piero Calamandrei, consolidou a distinção dogmática entre o vício de juízo e o vício de atividade. No Brasil, a evolução do tema acompanhou a transição do formalismo rígido do Código de Processo Civil de 1939 para o sistema de nulidades do Código de 1973, culminando na visão contemporânea do CPC/2015. Atualmente, a doutrina brasileira moderna, capitaneada por nomes como Cândido Rangel Dinamarco, defende a instrumentalidade das formas, segundo a qual o error in procedendo só deve conduzir à anulação se houver efetivo prejuízo à finalidade do ato ou ao direito de defesa (pas de nullité sans grief).
3. Previsão Legal e Enquadramento Normativo
A fundamentação legal do error in procedendo é multifacetada, espraiando-se pela Constituição Federal e pelas legislações infraconstitucionais:
- Constituição Federal (CF/88): Art. 5º, incisos LIV (Devido Processo Legal) e LV (Contraditório e Ampla Defesa), além do Art. 93, inciso IX, que exige a fundamentação de todas as decisões judiciais sob pena de nulidade.
- Código de Processo Civil (CPC/2015):
- Art. 276 a 283: Disciplinam as nulidades processuais.
- Art. 489, § 1º: Define hipóteses de decisões não fundamentadas, o que constitui típico error in procedendo.
- Art. 1.013, § 3º, inciso II: Autoriza o tribunal a julgar o mérito se a sentença for anulada por falta de fundamentação ou por ser citra, ultra ou extra petita.
- Art. 1.022: Embargos de Declaração para suprir omissão, contradição ou erro material, que muitas vezes mascaram erros de procedimento.
- Código de Processo Penal (CPP):
- Art. 564: Enumera taxativamente as hipóteses de nulidade, que representam a materialização do error in procedendo na esfera criminal.
4. Aplicação Prática e Jurisprudência Consolidada
Na prática forense, o reconhecimento do error in procedendo impõe ao Tribunal a obrigação de cassar a decisão recorrida. A jurisprudência dos Tribunais Superiores estabelece parâmetros rígidos para sua identificação:
Superior Tribunal de Justiça (STJ)
O STJ possui entendimento sedimentado de que o erro de procedimento é matéria de ordem pública em diversas situações, mas exige a demonstração de prejuízo. No REsp 1.835.598, a Corte reiterou que a ausência de intimação para manifestação sobre prova nova constitui vício procedimental insanável. Outro exemplo clássico é a decisão extra petita (além do pedido), que viola o princípio da congruência (Arts. 141 e 492 do CPC).
Supremo Tribunal Federal (STF)
O STF atua no controle do error in procedendo principalmente sob a ótica da violação ao Art. 93, IX, da CF. No entanto, o Tribunal firmou a tese de que a violação aos princípios do contraditório e da ampla defesa, quando dependente do exame de normas infraconstitucionais, configura ofensa reflexa à Constituição, não ensejando Recurso Extraordinário (Tema 660 da Repercussão Geral), a menos que o vício procedimental afronte diretamente o texto constitucional.
Tribunal Superior do Trabalho (TST)
No âmbito laboral, o cerceamento de defesa pelo indeferimento injustificado de prova testemunhal é a face mais comum do error in procedendo, levando à nulidade do julgado por violação ao Art. 5º, LV, da CF.
5. Princípios Correlatos e Divergências Doutrinárias
O estudo do error in procedendo é regido por princípios basilares:
- Princípio da Instrumentalidade das Formas: O processo é meio, não fim. Se o ato atingiu sua finalidade sem prejuízo, não há nulidade (Art. 277, CPC).
- Princípio da Primazia do Julgamento de Mérito: O juiz deve privilegiar a resolução do conflito em detrimento de questões processuais superáveis (Arts. 4º e 6º, CPC).
- Divergência sobre Nulidade Absoluta vs. Relativa: Existe debate doutrinário sobre se certos erros de procedimento (como a falta de fundamentação) seriam nulidades absolutas (insuscetíveis de preclusão) ou relativas (que exigem arguição oportuna). A jurisprudência atual tende a considerar a falta de fundamentação como vício transrescisório em casos extremos, mas majoritariamente sujeita aos prazos recursais e à ação rescisória (Art. 966, V, CPC).
6. Relevância Contemporânea e Impactos Práticos
No cenário do processo judicial eletrônico e da crescente automação judiciária, o error in procedendo ganha nova relevância. A utilização de "modelos" genéricos de decisões que não enfrentam os argumentos específicos das partes configura vício de fundamentação (Art. 489, § 1º, IV, CPC), sendo um dos erros procedimentais mais combatidos atualmente.
Além disso, a distinção correta entre error in procedendo e error in iudicando é vital para a estratégia recursal. Um recurso que pede a reforma quando deveria pedir a anulação pode enfrentar óbices técnicos, embora o princípio da fungibilidade e a primazia do mérito venham mitigando esse rigor excessivo. O impacto prático da declaração do erro de procedimento é a restauração da higidez processual, garantindo que a justiça do mérito seja alcançada por um caminho legítimo e constitucionalmente hígido.
Referências Legais e Jurisprudenciais
- BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF.
- BRASIL. Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil.
- BRASIL. Decreto-Lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941. Código de Processo Penal.
- STJ. Recurso Especial nº 1.835.598/SP. Relatoria: Min. Nancy Andrighi. Julgado em 2021.
- STF. Tema 660 de Repercussão Geral. ARE 748371. Relator: Min. Gilmar Mendes.
- DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de Direito Processual Civil. São Paulo: Malheiros, 2023.













