A aberratio criminis, ou erro na execução com resultado diverso, constitui instituto do Direito Penal que descreve a hipótese em que o agente, ao buscar a consumação de um delito, atinge bem jurídico de natureza distinta daquele inicialmente visado. Sua finalidade é estabelecer critérios de imputação subjetiva, limitando a responsabilidade penal ao campo da culpa, conforme estabelecido pelo Código Penal Brasileiro.
Conceito e Fundamentação
A aberratio criminis, tecnicamente denominada erro na execução com resultado diverso, configura-se quando o agente, pretendendo cometer um crime, acaba por produzir, por acidente ou erro no uso dos meios de execução, um resultado delituoso de espécie diversa. Diferencia-se da aberratio ictus (erro na execução), onde o resultado é da mesma natureza do pretendido, e da aberratio causae (dolo geral), onde o resultado pretendido ocorre, porém por nexo causal diverso.
A natureza jurídica do instituto reside na responsabilidade penal subjetiva. O ordenamento jurídico pátrio, sob a égide do princípio da culpabilidade, veda a responsabilidade objetiva (versari in re illicita). Assim, para que o agente responda pelo resultado diverso, é imperativo que este tenha sido alcançado por culpa, nos termos do artigo 74 do Código Penal.
Origem Histórica e Evolução
O instituto encontra raízes na dogmática penal clássica europeia, sendo incorporado pelo Código Penal de 1940 como forma de dirimir conflitos de imputação quando a vontade do agente (dolo) se desvia do resultado material. A evolução doutrinária buscou afastar a punição pelo resultado puro, focando na previsibilidade objetiva e na negligência, imprudência ou imperícia que permeiam a conduta do agente no momento do desvio da execução.
Previsão Legal e Aplicação Prática
A previsão normativa encontra-se estritamente delimitada no Artigo 74 do Código Penal Brasileiro:
"Fora dos casos do artigo anterior [erro na execução], quando, por acidente ou erro na execução do crime, sobrevém resultado diverso do pretendido, o agente responde por culpa, se o fato é previsto como crime culposo; se ocorre também o resultado pretendido, aplica-se a regra do artigo 70."
A aplicação prática exige dois juízos de valor: a verificação da intenção inicial (dolo) e a verificação do resultado efetivamente produzido (natureza diversa). Se o agente pretendia danificar um bem (crime de dano) e, por erro, causa lesão corporal (crime contra a pessoa), a punição por lesão corporal só será possível se o tipo penal da lesão prever a modalidade culposa. Caso o resultado culposo não seja tipificado, o agente responde apenas pela tentativa do crime pretendido.
Jurisprudência e Entendimento Atual
O entendimento consolidado nos Tribunais Superiores (STF e STJ) reforça a necessidade de análise da estrutura do crime culposo. A jurisprudência tem reiterado que a aberratio criminis impede a punição pelo resultado pretendido a título de dolo se este não se consumou, devendo a responsabilidade ser aferida pela conduta que gerou o resultado diverso, desde que observada a tipicidade culposa.
Decisões recentes reforçam que a ausência de previsão de crime culposo para o resultado atingido leva à impunidade pelo resultado, restando apenas a tentativa do crime pretendido. O STJ, em julgados sobre crimes contra o patrimônio e integridade física, tem mantido a exigência de prova da violação do dever de cuidado objetivo no momento da execução.
Princípios Correlatos e Divergências
O princípio basilar é o da Culpa stricto sensu. A divergência doutrinária reside na interpretação da "regra do artigo 70" (concurso formal) quando ocorre simultaneamente o resultado pretendido e o diverso. A doutrina majoritária, liderada por nomes como Damásio de Jesus e Luiz Regis Prado, entende que o concurso formal aplica-se apenas quando o resultado diverso for também culposo, sob pena de violação ao princípio da legalidade.
Relevância Contemporânea
No ordenamento jurídico atual, a aberratio criminis atua como salvaguarda contra a expansão indevida do direito penal. Em um cenário de crescente punitivismo, a manutenção do rigor técnico na interpretação do Art. 74 do CP é essencial para garantir que a responsabilidade penal não se converta em mera verificação de resultado (resultado naturalístico), preservando a essência da conduta humana como pressuposto do delito.
Referências Legais e Jurisprudenciais
- Brasil. Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. Artigo 74.
- Brasil. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Artigo 5º, inciso XXXIX (Princípio da Legalidade).
- Superior Tribunal de Justiça (STJ). Precedentes sobre erro na execução e imputação subjetiva (HC e REsp).
- BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal, Volume 1: Parte Geral. Editora Saraiva.
- PRADO, Luiz Regis. Curso de Direito Penal Brasileiro. Editora Revista dos Tribunais.















