Este município do Estado de Minas Gerais viu nascer e crescer nomes como Otto Lara Resende e o cronista Paulo Mendes Campos, mantendo viva uma rica tradição de letras e história colonial.
A cena literária de São João del-Rei é um organismo vivo que pulsa entre o peso de suas pedras históricas e a efervescência de sua juventude universitária. Atuando como pesquisador, apresento um panorama que conecta a tradição das bibliotecas coloniais à urgência dos saraus periféricos.
1. Raízes e Tradição: O Berço das Letras Mineiras
São João del-Rei ostenta o título de cidade das rimas e dos sinos. A tradição literária local é alicerçada na Biblioteca Municipal Baptista Caetano d’Almeida, a primeira biblioteca pública de Minas Gerais (1827), que serviu de refúgio intelectual para gerações.
Entre as figuras fundamentais, destacam-se:
Bárbara Eliodora: Poetisa e heroína da Inconfidência Mineira, cuja presença histórica ainda reverbera na identidade poética da cidade. Tancredo Neves: Embora político, sua produção de discursos e textos consolidou um estilo de "mineiridade" retórica que influenciou a escrita regional. Academia de Letras de São João del-Rei (ALSJDR): Instituição que preserva o cânone local, tendo figuras como o Prof. José Antônio de Resende e Evaldo Balbino (também premiado nacionalmente) como elos entre a pesquisa acadêmica e a criação literária. 2. A Cena Contemporânea: Vozes da Resistência e Juventude
Se a tradição está nas academias, a alma contemporânea está nas ruas, bares e centros culturais. A presença da UFSJ (Universidade Federal de São João del-Rei) é o principal catalisador dessa nova leva de escritores independentes.
Coletivos e Saraus Coletivo Arteferia: Um dos grupos mais vibrantes da atualidade. O coletivo produz o Fanzine Arteferia, uma publicação artesanal que reúne poemas, HQs e manifestos. Eles organizam saraus itinerantes que ocupam desde a Estação da Cidadania até praças públicas, focando em temas como ancestralidade e revolução. Sarau de Ancestralidade: Realizado recentemente na Biblioteca Municipal, este movimento busca descolonizar a literatura local, trazendo para o centro nomes como Conceição Evaristo e incentivando autores negros locais a lerem suas obras originais. Escritores e Editoras Independentes
A produção atual foge do eixo comercial, apostando no formato de "livro de autor" e pequenas tiragens:
Evaldo Balbino: Um nome que transita entre o clássico e o novo. Com obras como Os Fios de Ícaro e Fantasma de Joana d’Arc, ele é uma referência de técnica e sensibilidade. Maximiliano Lara: Pesquisador e escritor que une a geografia local à poesia, explorando a simplicidade do saber mineiro. Editora UFSJ: Embora institucional, cumpre um papel vital ao publicar obras de novos talentos acadêmicos que mesclam ensaio literário com ficção. Cena de Zines: Jovens autores como Yuri Amaral e integrantes do movimento de fanzines local utilizam a estética do "faça você mesmo" para distribuir textos que criticam a urbanização e celebram o afeto. 3. Temáticas e Obras: Entre o Barroco e o Bitita
A literatura são-joanense atual não ignora o passado, mas o ressignifica. Os gêneros predominantes são a poesia marginal, o conto fantástico e a crônica de costumes.
Temas em Destaque: Identidade e Ancestralidade: Fortemente impulsionada pelo movimento negro local, a produção foca na "escrevivência", termo de Conceição Evaristo que encontra eco em jovens poetas da região que escrevem sobre a periferia e a herança africana na "Cidade dos Sinos". A "Interioridade" Urbana: Diferente do regionalismo bucólico, os novos autores escrevem sobre a vida em uma cidade histórica que lida com o turismo, a vida universitária e as contradições sociais. O Sagrado e o Profano: A convivência com as tradições religiosas (Semana Santa, toques de sinos) aparece de forma irônica ou profundamente lírica em obras de autores independentes. Exemplos de Publicações Recentes: "Fanzine Arteferia" (Várias Edições): Temas como Primavera dos Povos e Amor e Utopia. "A Contemporânea Literatura Brasileira" (Participações Locais): Antologias que reúnem contos de pesquisadores e alunos da UFSJ. "Retalhos Literários": Colunas e crônicas publicadas no Jornal das Lajes, que servem como termômetro da produção literária da região.
Conclusão: São João del-Rei vive um momento de "retomada da cidade". Se outrora a literatura era um privilégio de gabinetes fechados, hoje ela é uma ferramenta de ocupação do espaço público. A cena independente local prova que, entre uma ladeira de pedra sabão e outra, há sempre um novo verso sendo impresso em um mimeógrafo moderno ou declamado sob a luz de um poste.














