Este município do Estado do Pará é cenário de obras que discutem os grandes dilemas da Amazônia moderna, focando nos conflitos de terra e na construção de novas identidades na Transamazônica.
As palavras que emergem da Transamazônica: a cena literária de Altamira entre a barragem e a poesia
Introdução
Altamira é, antes de tudo, uma cidade de contradições. Maior município do Brasil em extensão territorial, espremida entre a floresta amazônica e as obras faraônicas da hidrelétrica de Belo Monte, a cidade do sudoeste paraense carrega nas entranhas uma história marcada por migrações forçadas, conflitos agrários, violência e resistência. Mas é justamente nesse caldeirão de tensões que floresce uma das cenas literárias mais vibrantes e diversas da Amazônia paraense — uma cena que não se restringe aos livros impressos, mas que pulsa em cantos indígenas, rimas de rap periférico, cordéis combativos e saraus flutuantes sobre as águas do Xingu.
Este artigo é um mergulho nesse universo múltiplo: das raízes fincadas nas migrações da Transamazônica à efervescência contemporânea da Festa Literária Internacional do Xingu (FLIX), passando pelas vozes dos poetas marginais, dos acadêmicos e das cosmopoéticas indígenas. Em Altamira, a palavra é uma ferramenta de sobrevivência — e de transformação.
1. Raízes e Tradição: O Território como Matéria-Prima
A história literária de Altamira não pode ser dissociada de sua geografia humana. A região do Médio Xingu é um território multilíngue que abriga nove povos indígenas — Asuriní do Xingu, Araweté, Parakanã, Juruna, Xipaya, Kuruaya, Xikrin, Kararaô e Arara — além de quilombolas, extrativistas e migrantes que chegaram com a abertura da Rodovia Transamazônica na década de 1970 . Essa diversidade étnica e cultural é a matéria-prima fundamental da qual a literatura local se alimenta.
A cidade também foi palco de episódios trágicos que marcaram profundamente o imaginário local. O assassinato da missionária norte-americana Dorothy Stang, em 2005, em Anapu (município vizinho), e a construção da usina de Belo Monte, que deslocou milhares de famílias ribeirinhas, são feridas abertas que se transformaram em literatura de denúncia .
As Figuras Célebres: Os Nomes que Abriram Caminho
João Jesus é, sem dúvida, o nome mais representativo da tradição literária altamirense. Membro fundador da Academia Altamirense de Letras (criada no início dos anos 2010 e composta por 37 cadeiras), João Jesus publica desde o final dos anos 1980. Suas obras mais importantes são "Camponeses" (1997) e "Cantos e lamentos" (2018). Com temáticas ligadas à terra, seus poemas exploram uma Amazônia ceifada pelas mãos dos poderosos, denunciando a exploração predatória e o sofrimento dos trabalhadores rurais .
Sônia Portugal é outra figura central. Nascida em Barrinha (SP), mas radicada em Altamira há muitas décadas, ela também publica desde os anos 1980. Sua obra mais notável é "Anamã" (2017), um livro composto de um único poema narrativo, a respeito de um acidente trágico ocorrido na Ilha do Marajó com uma lancha que carregava lavradores para Altamira em 1970. O longo poema é uma elegia às vítimas e uma denúncia das condições desumanas da migração forçada para a Amazônia .
João de Castro, pernambucano radicado na região, é um dos principais incentivadores da literatura de cordel no Médio Xingu. Ele foi fundamental na fundação da Academia Transxinguana de Literatura de Cordel, em 2019, que vem desenvolvendo um trabalho consistente junto a cordelistas experientes e jovens aprendizes .
Há ainda figuras anônimas, mas igualmente importantes, como João Mendes, poeta e agricultor analfabeto que teve seu livro transcrito por colaboradores. Seus versos, de uma contundência impressionante, registram a violência que assola a região: "Este ano aqui na Prelazia, 80 anos se passaram. Dom Erwin, ele celebrou missa com colete à prova de bala" .
2. A Cena Contemporânea: Cinco Núcleos de Resistência Poética
A pesquisa conduzida pelo projeto "Poetas e Poéticas do Médio Xingu", publicada na Revista Baraquitã em setembro de 2023, mapeou 75 registros de poetas e manifestações poéticas em oito dos dez municípios da região . O levantamento revelou um ecossistema literário complexo, organizado em cinco núcleos distintos de práticas poéticas :
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Poetas de confrarias literárias (vinculados às academias)
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Poetas de expressões populares (cordelistas)
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Poetas alternativos/periféricos/marginais
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Poetas vinculados às universidades
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Poéticas, artes verbais e regimes discursivos originários (indígenas)
A Academia Altamirense de Letras e a Tradição Erudita
A Academia Altamirense de Letras (AAL) é a instituição mais antiga e estruturada da cena literária local. Fundada no início dos anos 2010, ocupa 37 cadeiras e reúne os principais nomes da literatura erudita da cidade. Além de João Jesus e Sônia Portugal, a academia promove lançamentos de livros, saraus e participa ativamente da FLIX, com um stand dedicado a expor e vender obras de seus membros .
A Academia Transxinguana de Literatura de Cordel
A literatura de cordel tem um espaço próprio e institucionalizado em Altamira. A Academia Transxinguana de Literatura de Cordel, fundada em 2019 sob a liderança de João de Castro, reúne cordelistas da região e promove a publicação de folhetos que abordam desde questões sociais até acontecimentos regionais .
Um exemplo marcante é o cordel "Naufrágio em Vila do Conde" (2016), de Mariano Silva, que narra o desastre ambiental e social ocorrido na Vila do Conde, em Barcarena (PA), em 2015 . O cordel, nesse contexto, não é apenas entretenimento — é um jornal rimado, um registro urgente da memória coletiva.
O Coletivo de Poetas Marginais: A Juventude Periférica no Centro do Debate
O terceiro núcleo identificado pela pesquisa é, talvez, o mais vibrante e politicamente engajado. Trata-se do Coletivo de Poetas Marginais, formado por uma juventude majoritariamente preta e de origem (nem sempre reconhecida) indígena . Esse coletivo publicou o e-book "Um pouco de tudo de..." e se destaca por suas práticas poéticas que circulam tanto no ambiente digital quanto em saraus e bares da cidade.
Os poetas marginais de Altamira dialogam diretamente com a tradição da "poesia marginal" brasileira dos anos 1970 (como Paulo Leminski, Ana Cristina César e Chacal), mas a adaptam à realidade amazônica. Seus versos abordam violência urbana, racismo, LGBTQIA+fobia, desigualdade social e os impactos de Belo Monte no cotidiano dos jovens da periferia.
As Cosmopoéticas Indígenas
A pesquisa do Médio Xingu fez um esforço deliberado de incluir, em seu mapeamento, as manifestações poéticas dos povos originários da região. As cosmopoéticas indígenas — expressão que abrange cantos rituais, narrativas míticas e performances orais — são compreendidas como parte integrante da cena literária, ainda que não se encaixem nos formatos convencionais do livro impresso .
A presença indígena na FLIX é notável. Em 2021, a terceira edição da festa teve como tema "A Poética dos Povos Tradicionais e Indígenas do Xingu, outras margens" , colocando as narrativas originárias no centro do debate literário . Em 2025, a programação incluiu apresentações do povo Juruna do KM 17 de Vitória do Xingu, oficinas sobre figuras míticas femininas da Amazônia Legal e mesas sobre etnoconhecimentos ancestrais .
Saraus e Espaços de Performance
A cena literária altamirense não se limita às páginas dos livros. Ela ocupa as ruas, os bares, as escolas e até as águas do Xingu. A Sarabalsa é um dos eventos mais emblemáticos: um sarau flutuante que acontece sobre o rio, unindo poesia, música e a paisagem amazônica .
Além disso, a pesquisa identificou 20 registros em áudio e vídeo disponíveis no YouTube, incluindo declamações de poemas, videoclipes e performances — uma evidência de que a poesia altamirense também se expande para o ambiente digital, alcançando públicos que não têm acesso aos livros impressos .
3. Temáticas e Obras: A Estética da Luta e da Sobrevivência
A literatura de Altamira é, antes de tudo, uma literatura de testemunho. Seus autores não escrevem por vaidade estética ou para entreter — escrevem porque precisam denunciar, registrar, sobreviver. Essa urgência molda as temáticas e os gêneros predominantes.
Gêneros Predominantes
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Poesia: É, de longe, o gênero mais praticado, tanto na forma erudita (livros individuais e antologias) quanto na forma popular (cordel) e performática (slam, rap, declamações).
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Cordel: Um gênero com forte presença institucional, graças à Academia Transxinguana de Literatura de Cordel. Aborda desde questões locais até críticas políticas nacionais.
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Narrativas orais indígenas: As cosmopoéticas dos povos do Xingu incluem cantos rituais, mitos de criação e narrativas de encantarias, que vêm sendo cada vez mais registradas e valorizadas.
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Performance e videopoesia: A cena marginal tem forte presença no YouTube, com declamações filmadas e videoclipes poéticos.
Temas Centrais
1. A Barragem e o Deslocamento Forçado
A construção da Usina de Belo Monte (2011-2019) é o evento mais traumático da história recente de Altamira. Milhares de famílias ribeirinhas foram deslocadas, comunidades inteiras foram submersas, e a cidade viu seus índices de violência, prostituição e suicídio dispararem . Antônio Claret Fernandes, atuante no Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), é uma das vozes que transformam essa dor em poesia .
2. Violência e Martírio
A região do Xingu é uma das mais violentas do Pará, marcada por conflitos agrários, assassinatos de lideranças e impunidade. O poeta Aldemir Alfeu Federicci (Dema) e a missionária Dorothy Stang são figuras martirizadas que aparecem repetidamente nos poemas locais . Os poemas elegíacos sobre essas figuras são uma forma de manter viva a memória da luta.
3. A Luta pela Terra e a Reforma Agrária
A abertura da Transamazônica prometeu "terra sem homens para homens sem terra", mas entregou violência e grilagem. Os poemas de João Jesus, como os de "Camponeses" , denunciam a exploração do trabalhador rural e a concentração fundiária .
4. A Ecologia e o "Ponto de Não Retorno"
Altamira está no epicentro das discussões sobre o futuro da Amazônia. A pesquisa que mapeou a cena literária local destaca que a cidade é "um dos epicentros das questões climáticas que envolvem o futuro do planeta e a preocupação em torno de um ponto de não retorno da floresta amazônica" . A ecopoética — poesia que dialoga com as questões ambientais — é um tema emergente, inclusive com mesas dedicadas ao tema na FLIX .
5. Protagonismo Feminino e Ecofeminismo
A VI FLIX (2025) teve como tema "Mulheres Amazônidas – Literaturas e outras margens poéticas" , colocando as escritoras no centro da programação . As mesas debateram ecofeminismo, narrativas de mulheres na universidade, migração e diáspora feminina. O conceito de "bruxa amazônica", defendido pela professora Mariene Gomes de Almeida, resume essa vertente: "Ser uma bruxa amazônica é ser defensora da vida, do meio ambiente, das águas, do planeta, das crianças" .
Exemplos de Obras Recentes
| Autor | Obra | Ano | Gênero | Núcleo/Observações |
|---|---|---|---|---|
| João Jesus | Camponeses | 1997 | Poesia | Academia Altamirense de Letras |
| João Jesus | Cantos e lamentos | 2018 | Poesia | Temática ligada à terra e à luta camponesa |
| Sônia Portugal | Anamã | 2017 | Poema narrativo | Um único poema sobre acidente com lavradores em 1970 |
| Mariano Silva | Naufrágio em Vila do Conde | 2016 | Cordel | Sobre desastre ambiental em Barcarena |
| Coletivo de Poetas Marginais | Um pouco de tudo de... | Anterior a 2023 | E-book de poesia | Poesia marginal/periférica |
| João Mendes | Cantos e poesias | — | Poesia | Poeta analfabeto, obra transcrita por colaboradores |
| Diversos autores (org. João de Castro) | Antologias de cordel | Diversos | Cordel | Publicações da Academia Transxinguana de Cordel |
Conclusão
Altamira é um paradoxo literário: uma cidade que sofre com altos índices de violência, miséria e degradação ambiental, mas que, exatamente por isso, produz uma das literaturas mais urgentes e autênticas da Amazônia. Das cosmopoéticas indígenas aos versos marginais dos jovens periféricos, passando pelos cordéis combativos e pela poesia acadêmica, a palavra altamirense é uma ferramenta de resistência.
A existência da Academia Altamirense de Letras, da Academia Transxinguana de Literatura de Cordel, do Coletivo de Poetas Marginais e da Festa Literária Internacional do Xingu (FLIX) — que em 2025 chegou à sua sexta edição consolidada — demonstra que Altamira não é apenas um território de exploração e violência. É, acima de tudo, um território de criação.
Como bem sintetizou a pesquisa que mapeou esses poetas: "apesar de apresentar altos índices de homicídio, suicídio, prostituição e miséria (muito por influência da hidrelétrica de Belo Monte), existem tentativas de reconstrução de uma cidade culturalmente esfacelada" . Essas tentativas se chamam poesia. E elas resistem — na página, na tela, na sarabalsa e no canto ancestral do Xingu.
Referências
[1] AMAZONIA LATITUDE. Poetas e poéticas que despontam no médio Xingu. 19 dez. 2023. Disponível em: https://www.amazonialatitude.com/2023/12/19/poetas-poeticas-poesia-medio-xingu-altamira/. Acesso em: 10 abr. 2026.
[2] AGÊNCIA PARÁ. Festa Literária Internacional do Xingu valoriza protagonismo feminino na Amazônia. 13 ago. 2025. Disponível em: https://agenciapara.com.br/noticia/69653/festa-literaria-internacional-do-xingu-valoriza-protagonismo-feminino-na-amazonia. Acesso em: 10 abr. 2026.
[3] PREFEITURA MUNICIPAL DE ALTAMIRA. VI Festa Literária Internacional do Xingu começa nesta quarta-feira, 13 de agosto. Disponível em: https://altamira.pa.gov.br/vi-festa-literaria-internacional-do-xingu-comeca-nesta-quarta-feira-13-de-agosto/. Acesso em: 10 abr. 2026.
[4] G1 PARÁ. Altamira recebe 3ª edição da Festa Literária Internacional do Xingu. 2 nov. 2021. Disponível em: https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2021/11/02/altamira-recebe-3a-edicao-da-festa-literaria-internacional-do-xingu.ghtml. Acesso em: 10 abr. 2026.
[5] PREFEITURA MUNICIPAL DE ALTAMIRA. Livros de escritores regionais chegam à escola Florêncio Filho após aprovação em edital cultural. Disponível em: https://altamira.pa.gov.br/livros-de-escritores-regionais-chegam-a-escola-florencio-filho-apos-aprovacao-em-edital-cultural/. Acesso em: 10 abr. 2026.
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