Este município do Estado do Pará é o berço do escritor Benedito Monteiro, autor de Verde Vagabundo, cuja escrita visceral explora a relação mística e política do homem com a floresta e os rios.
As letras que resistem no encontro das águas: a cena literária de Alenquer entre o Surubiú e a eternidade
Introdução
Alenquer — a "Princesa do Surubiú", a "Cidade Amor" ou, como carinhosamente chamam seus naturais, a "Terra Ximanga" . Aninhada à margem esquerda do rio Amazonas, no coração do Baixo Amazonas paraense, esta cidade de mais de 43 mil habitantes guarda um segredo que poucos conhecem: é um dos berços literários mais férteis e esquecidos do Pará.
Foi aqui que nasceu um dos maiores nomes da literatura amazônica — Benedicto Monteiro — cuja obra-prima Verde Vagomundo ecoa o sotaque, as dores e as esperanças dos ximangos. É aqui que, em pleno século XXI, uma academia de letras recém-fundada reúne 40 "imortais" dedicados a cultivar a memória local. E é também aqui que a poesia se faz doméstica, íntima e profunda, nas mãos da filha que herdou do pai a vocação para transformar o rio em verso.
Este artigo é uma imersão nesse universo — das raízes fincadas nos quilombos do Curuá às antologias que ainda estão por vir. Porque, em Alenquer, a literatura não é apenas um passado de glórias. É um presente que resiste, página a página.
1. Raízes e Tradição: Benedicto Monteiro e a Tetralogia do Baixo Amazonas
A história literária de Alenquer tem um nome incontornável: Benedicto Wilfred Monteiro (1924-2008). Nascido em 1º de março de 1924 na cidade que viria a imortalizar em prosa, Monteiro foi muito mais que um escritor — foi advogado, promotor público, juiz, deputado estadual cassado pela ditadura militar e, finalmente, deputado federal constituinte .
Sua biografia é um romance em si. Em 1964, com o golpe militar, teve seu mandato cassado. Fugiu de Belém para Alenquer e se escondeu "nas matas do rio Curuá, onde foi caçado como um animal e preso no dia 16 de abril, com muitas humilhações públicas" . Anos depois, já na Assembleia Nacional Constituinte, subiu à tribuna exibindo um cartaz com sua própria foto: algemado, descalço, cercado por policiais — a imagem viva da violência que a literatura, por si só, não podia nomear .
Mas é na ficção que Benedicto Monteiro alcançou a imortalidade. Autor de mais de uma dezena de livros, consagrou-se com a tetralogia amazônica formada por Verde Vagomundo (1972), O Minossauro (1975), A Terceira Margem (1983) e Aquele Um (1985) . A elas se somam O Carro dos Milagres (1975), livro de contos premiado pela Academia Paraense de Letras, e Maria de todos os rios (1992), entre outros .
Verde Vagomundo, em particular, é uma obra fundadora. Nela, Monteiro transporta o leitor para as paisagens de Alenquer — seus igarapés, seus quilombos, sua gente. O "vagomundo" do título é uma referência direta aos trens que cortavam a região, mas também uma metáfora para o próprio escritor errante, que nunca deixou de voltar, em suas páginas, ao rio Surubiú. Em seus últimos dias, pediu que suas cinzas fossem lançadas naquelas águas — um gesto de retorno definitivo à terra natal .
Além de Monteiro, Alenquer também viu florescer a obra de Wanda Monteiro — sua filha, que herdou o dom da palavra e o transformou em uma poética própria, feminina e visceral, como veremos adiante.
A tradição literária alenquerense, porém, não se limita aos Monteiro. A cidade possui uma história cultural rica, marcada pela presença do Quilombo Pacoval, no rio Curuá, onde Benedicto Monteiro se casou em 1954 e cuja "cultura marambiré" influenciou profundamente sua narrativa e poesia . Essa herança afro-amazônica, ainda pouco estudada, é uma das veias mais originais da literatura local.
2. A Cena Contemporânea: A Academia Alenquerense de Letras e as Novas Vozes
Se o passado literário de Alenquer pertenceu a Benedicto Monteiro, o presente — e o futuro — está sendo escrito por um grupo organizado e combativo de intelectuais locais. O grande acontecimento da cena literária contemporânea é a Academia Alenquerense de Letras (AAL) , fundada em 27 de dezembro de 2021 sob o lema luceat lux vestra — "Deixe sua luz brilhar" .
A Academia Alenquerense de Letras: 40 Imortais Ximangos
A AAL reúne escritores, historiadores, poetas, compositores e pesquisadores dedicados a temas relacionados ao município. Presidida pelo historiador Wildson Queiroz — idealizador e membro fundador —, a academia completou seu quadro de 40 membros em junho de 2025, com a posse da professora Marion Cardoso Patrício na cadeira número 10, que tem como patrona a poetisa Júlia Rebelo .
Entre os 40 "imortais" estão nomes como:
| Cadeira | Membro | Perfil |
|---|---|---|
| 1 | Nil Martins | — |
| 6 | João Lopes da Silva Filho | — |
| 12 | Wildson Pinto de Queiroz | Presidente da AAL, historiador, idealizador |
| 15 | Márcio de Siqueira Arrais | Diretor de Assuntos Gerais da AAL |
| 20 | Walmir Viana | — |
| 25 | Natalina Cardoso Patrício | Tesoureira da AAL |
| 40 | Anthymio Wanzeller Figueira Neto | Último cadeira a ocupar o quadro |
A academia, desde sua fundação, já publicou duas antologias reunindo a produção literária dos "imortais ximangos" — um feito notável para uma instituição com menos de cinco anos de existência .
Wildson Queiroz: O Pesquisador que Revelou Alenquer
O presidente da AAL, Wildson Queiroz, é um dos nomes mais ativos da cena literária contemporânea. Sua principal contribuição até o momento é o livro "Alenquer nas obras de Benedicto Monteiro" , lançado em fevereiro de 2024 na Livraria Travessia, em Belém .
A obra, resultado de uma pesquisa aprofundada, "surgiu com o objetivo de identificar de que maneira Benedicto Monteiro retrata Alenquer, sua terra natal, em suas obras literárias". Queiroz analisou romances, artigos em jornais, cartas e até canções do autor, encontrando as principais referências em Verde Vagomundo, O Minossauro e A Terceira Margem . É um trabalho de arqueologia literária que, ao mesmo tempo, homenageia o passado e projeta o futuro da escrita local.
Wanda Monteiro: A Poesia como Herança e Reinvenção
Se há um nome que sintetiza a continuidade da tradição literária alenquerense, esse nome é Wanda Monteiro. Filha de Benedicto, Wanda construiu uma carreira sólida como escritora, publicando ensaios, contos, poemas e romances nas maiores revistas literárias do país .
Sua obra mais recente, "Poesia Reunida" , foi lançada pela Secretaria de Estado de Cultura (Secult) durante a 28ª Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes, em agosto de 2025, onde Wanda foi homenageada. O livro reúne antigos trabalhos — de A Liturgia do Tempo e outros Silêncios, Aquatempo e Chão de Exílio — e poemas inéditos .
A própria Wanda descreve sua escrita como profundamente enraizada na experiência de ser amazônida: "Nesse livro finco os pés sobre o chão de uma escrita cujo movimento é regido pelo fluxo de meu rio interior. Nele há a voz de uma mulher que nasceu dentro do rio, no coração da floresta, cuja visão de mundo está enraizada na cosmogonia de ser uma amazônida que sente ser parte física e orgânica da terra e das águas onde nasceu" .
Em 2025, além do livro de Wanda, a Secult também relançou "O Homem Rio: A Saga de Miguel dos Santos Prazeres" , de Benedicto Monteiro, em tributo ao centenário do autor completado em 2024 — um gesto simbólico que reafirma a centralidade de Alenquer no mapa literário paraense .
Outras Vozes: O Pioneirismo Digital e a Memória Oral
A cena literária alenquerense também inclui iniciativas independentes e de caráter memorialístico. Destaca-se o trabalho do Prof. Dr. Luiz de Souza Martins (também conhecido como Abaré Surubiu ou Padre Geovane Crisóstomo), que organizou e compilou o livro online "As Memórias da Terra Ximanga - Alenquer-PA" . A obra, disponível em formato digital, é um esforço de reunir a história, a cultura e as tradições do povo ximango, funcionando como uma ponte entre a oralidade ancestral e a tecnologia contemporânea.
A Questão das Editoras Locais e dos Saraus
É preciso registrar uma lacuna: a pesquisa não identificou editoras estabelecidas sediadas em Alenquer, nem coletivos literários organizados com forte presença digital ou saraus regulares. A produção literária local, no momento, está concentrada na Academia Alenquerense de Letras (que publica antologias) e em iniciativas individuais de autores como Wildson Queiroz e Wanda Monteiro, que contam com o apoio da estrutura editorial de Belém (no caso de Wanda, a Secult; no caso de Queiroz, a Livraria Travessia).
Essa ausência de infraestrutura local — comum a tantas cidades do interior amazônico — é também um chamado: Alenquer tem talento, tem memória, tem tradição. Falta-lhe, talvez, o fôlego financeiro e logístico para transformar sua produção literária em um circuito mais amplo de leitura e difusão.
3. Temáticas e Obras: A Estética do Rio, do Quilombo e da Resistência
A literatura alenquerense, tanto em sua vertente clássica (Benedicto Monteiro) quanto contemporânea (Wanda Monteiro, Wildson Queiroz), converge para alguns eixos temáticos que revelam a alma da cidade — uma alma formada no encontro entre o rio, a floresta, a herança quilombola e a ferida da ditadura.
Gêneros Predominantes
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Romance de tetralogia amazônica: Benedicto Monteiro consagrou-se com uma estrutura romanesca de fôlego, que percorre quatro livros interligados.
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Poesia lírica e memorialística: Wanda Monteiro representa a vertente mais introspectiva e sensorial, em que o rio se torna metáfora do tempo e da memória.
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Ensaio e pesquisa literária: Wildson Queiroz inaugura um subgênero importante: a investigação acadêmica sobre a própria tradição local, funcionando como um espelho crítico da produção literária alenquerense.
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Memória histórica e digital: O livro online de Luiz de Souza Martins representa uma tentativa de fixar, em formato acessível, a história oral e documental da "Terra Ximanga".
Temas Centrais
1. O Rio como Personagem e Destino
A referência ao Surubiú, ao Curuá e ao Amazonas é ubíqua em toda a literatura alenquerense. Para Benedicto Monteiro, o rio era o cenário de suas histórias e, no fim da vida, seu túmulo simbólico — suas cinzas foram lançadas no Surubiú . Para Wanda, o rio é o "fluxo de meu rio interior", uma força cósmica que estrutura sua própria identidade .
2. O Quilombo e a Herança Afro-Amazônica
O Pacoval, quilombo situado no rio Curuá, é um território recorrente na obra de Benedicto Monteiro. A "cultura marambiré dos negros do Curuá" — com seu modo de falar, sua relação com a natureza e sua organização social — é descrita com riqueza de detalhes em seus romances . É uma das vozes mais originais e ainda pouco estudadas da literatura afro-amazônica.
3. A Ditadura, o Exílio e a Resistência
A experiência traumática de Benedicto Monteiro — cassado, preso, humilhado — atravessa sua obra como uma sombra. O cartaz com a foto de si mesmo algemado, exibido na tribuna da Constituinte, é um gesto de coragem que sintetiza sua postura ética e estética: a literatura como forma de testemunho e denúncia .
4. A Amazônia como Cosmogonia
Wanda Monteiro fala em "cosmogonia de ser uma amazônida" — uma visão de mundo em que o ser humano não está separado da natureza, mas é parte orgânica dela. Essa perspectiva, que dialoga com as cosmologias indígenas, é uma das marcas mais originais da poética alenquerense contemporânea .
Exemplos de Obras Recentes e Relevantes
| Autor | Obra | Ano | Gênero | Premiações/Observações |
|---|---|---|---|---|
| Benedicto Monteiro | Verde Vagomundo | 1972 | Romance | Primeiro volume da tetralogia amazônica |
| Benedicto Monteiro | O Minossauro | 1975 | Romance | Segundo volume da tetralogia |
| Benedicto Monteiro | A Terceira Margem | 1983 | Romance | Prêmio Nacional de Literatura da Fundação Cultural do DF |
| Benedicto Monteiro | O Carro dos Milagres | 1975 | Contos | Premiado pela Academia Paraense de Letras |
| Wanda Monteiro | Poesia Reunida | 2025 | Poesia | Lançamento na 28ª Feira Pan-Amazônica do Livro |
| Wanda Monteiro | A Liturgia do Tempo e outros Silêncios | Anterior | Poesia | Coletânea reunida em Poesia Reunida |
| Wildson Queiroz | Alenquer nas obras de Benedicto Monteiro | 2024 | Ensaio/Pesquisa | Lançado em Belém |
| Luiz de Souza Martins | As Memórias da Terra Ximanga | — | Memória digital | Livro online disponível gratuitamente |
Conclusão
Alenquer é uma cidade que respira literatura — mas respira de um jeito silencioso, quase doméstico. Não há grandes livrarias, editoras locais ou festivais literários anuais de grande porte. O que há são pessoas: um pesquisador que dedica anos a entender como Benedicto Monteiro retratou sua terra; uma filha que transforma a herança paterna em poesia própria; uma academia recém-fundada que reúne 40 "imortais" dispostos a cultivar a palavra ximanga.
A literatura alenquerense, como o rio Surubiú que corta a cidade, corre em dois regimes: há a cheia — representada pelo legito monumental de Benedicto Monteiro, que atravessou o século XX e conquistou prêmios nacionais — e há a vazante — representada pelos esforços contemporâneos de organização, pesquisa e publicação, que ainda buscam um fluxo mais constante.
Mas, como todo rio amazônico, essa literatura não seca nunca. Na cheia ou na vazante, ela corre. E, se depender da Academia Alenquerense de Letras, de Wildson Queiroz e de Wanda Monteiro, continuará correndo — levando consigo a memória dos quilombos, a dor da ditadura e a beleza de uma "mulher que nasceu dentro do rio".
Que venham mais antologias. Que venham mais pesquisas. Que a palavra ximanga continue a brilhar — luceat lux vestra.
Referências
[1] URUAÚ-TAPERA. Alenquer nas obras de Benedicto Monteiro. 2 fev. 2024. Disponível em: https://uruatapera.com/alenquer-nas-obras-de-benedicto-monteiro/. Acesso em: 10 abr. 2026.
[2] APRINCESADOSURUBIUALENQUERPA. Livro online: As Memórias da Terra Ximanga - Alenquer-PA. Disponível em: https://aprincesadosurubiualenquerpa.wordpress.com/. Acesso em: 10 abr. 2026.
[3] CARNEIRO, Jeso. Academia Alenquerense de Letras completa quadro de 40 imortais; saiba quem são eles. 19 jul. 2025. Disponível em: https://www.jesocarneiro.com.br/cidade/alenquer/academia-alenquerense-de-letras-completa-quadro-de-40-imortais-saiba-quem-saos-eles.html. Acesso em: 10 abr. 2026.
[4] BIBLIOTECA NACIONAL. Casa da Leitura – 1º de março de 1924 – Nascimento do escritor Benedicto Monteiro. Facebook, 1 mar. 2022. Disponível em: https://www.facebook.com/bibliotecanacional.br/posts/1344389631053474/. Acesso em: 10 abr. 2026.
[5] ATHIAS, Renato. De volta para Alenquer, no Pará!. Medium, 5 jul. 2018. Disponível em: https://renatoathias.medium.com/de-volta-para-alenquer-no-par%C3%A1-1417ca8a899. Acesso em: 10 abr. 2026.
[6] AGÊNCIA PARÁ. "Poesia Reunida" celebra rios, memórias e ancestralidade amazônica de Wanda Monteiro. 21 ago. 2025. Disponível em: https://agenciapara.com.br/noticia/69922/poesia-reunida-celebra-rios-memorias-e-ancestralidade-amazonica-de-wanda-monteiro. Acesso em: 10 abr. 2026.
[7] CARNEIRO, Jeso. Academia de Letras é fundada em Alenquer; entidade conta com 30 membros. 28 dez. 2021. Disponível em: https://www.jesocarneiro.com.br/cidade/alenquer/academia-de-letras-e-fundada-em-alenquer-entidade-conta-com-30-membros.html. Acesso em: 10 abr. 2026.
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