O Hinduísmo Smartismo, também conhecido como Smarta, é uma tradição dentro do Hinduísmo que reverencia múltiplos deuses principais como manifestações do Deus supremo e impessoal, Brahman. Sua origem remonta à Índia antiga, e sua característica distintiva é a adoração sincrética de cinco divindades principais: Vishnu, Shiva, Devi (a Deusa Mãe), Ganesha e Surya (o Sol), como caminhos para a realização do Divino.
Origem e Fundamentação Histórica
O Hinduísmo Smartismo emergiu como uma resposta à diversidade de práticas devocionais e a consolidação de cultos a divindades específicas que ganharam proeminência na Índia antiga. Sua fundação pode ser associada ao período pós-védico, especialmente a partir do século VIII d.C., com a obra e o pensamento de Adi Shankaracharya (ou Shankara). Shankara foi um filósofo e teólogo que sistematizou a escola Advaita Vedanta (não-dualismo), promovendo uma visão unificada do Divino. Ele argumentou que as diversas divindades veneradas pelos hindus não eram separadas, mas sim diferentes faces ou manifestações da única realidade última, Brahman. O termo "Smarta" deriva de "Smriti" (aquilo que é lembrado), referindo-se aos textos sagrados secundários, como os Puranas e os épicos (Mahabharata e Ramayana), que, juntamente com os Vedas, fundamentam suas práticas e teologia. O contexto geográfico de seu surgimento é o subcontinente indiano, onde o pensamento filosófico e religioso estava em constante efervescência, buscando harmonizar diferentes tradições e correntes de pensamento.
Definição Sociológica e Teológica
Sociologicamente, o Smartismo pode ser entendido como uma tradição que promove a inclusão e a tolerância dentro do próprio Hinduísmo, ao aceitar a adoração de múltiplas divindades como válidas e interconectadas. Ele representa uma forma de "sincretismo organizado", onde a diversidade é acolhida sob um guarda-chuva teológico unificador. Teologicamente, o Smartismo é profundamente influenciado pela filosofia Advaita Vedanta, que postula a identidade fundamental entre o Atman (a alma individual) e Brahman (a Realidade Última). O objetivo final para um seguidor do Smartismo é alcançar a liberação (moksha) através do conhecimento (jnana yoga) e da devoção (bhakti yoga) a qualquer uma das divindades escolhidas, reconhecendo-as como manifestações do Absoluto. A prática de *pancayatana puja* (adoração das cinco divindades) é um exemplo claro dessa abordagem, onde o devoto adora uma divindade principal enquanto honra as outras quatro, promovendo a harmonia e o respeito entre as diferentes escolas de devoção dentro do Hinduísmo.
Principais Crenças, Dogmas, Ritos e Práticas
As principais crenças do Smartismo giram em torno da supremacia de Brahman como a realidade impessoal e incognoscível que subjaz a toda a existência. As divindades hindus – Vishnu, Shiva, Devi, Ganesha e Surya – são vistas como manifestações de Brahman, cada uma oferecendo um caminho distinto para a devoção e a realização espiritual. Não há um dogma centralizado e inflexível, mas sim uma ênfase na unidade subjacente a todas as formas de adoração. Os ritos e práticas são diversos, mas a *pancayatana puja* é central. Nela, o devoto consagra cinco imagens ou símbolos das principais divindades em um círculo e as adora. Outras práticas incluem japa (repetição de mantras), meditação, estudo das escrituras (Vedas, Upanishads, Bhagavad Gita, Puranas) e peregrinações a locais sagrados. A cremação dos mortos e os rituais de herança também seguem as tradições hindus gerais, com ênfase na libertação da alma do ciclo de nascimento e morte (samsara).
Estrutura Organizacional e o Perfil de sua Liderança
O Hinduísmo Smartismo, por sua natureza descentralizada e inclusiva, não possui uma estrutura organizacional hierárquica rígida como algumas outras religiões. A liderança é frequentemente exercida por sadhus (ascetas), gurus e chefes de mosteiros (mathas), especialmente aqueles associados às linhagens estabelecidas por Adi Shankara, como os de Sringeri, Puri, Dwaraka e Kanchi. Esses líderes espirituais são venerados por sua sabedoria, erudição e capacidade de guiar os discípulos no caminho da sabedoria e da devoção. O perfil da liderança é, em geral, o de indivíduos profundamente versados nas escrituras, praticantes ascéticos e conhecedores da filosofia Advaita Vedanta, que dedicam suas vidas ao ensino e à manutenção das tradições. A autoridade é baseada no conhecimento espiritual e na adesão aos princípios védicos e das tradições Smarta.
[ADVERTÊNCIA/CONTROVÉRSIAS] Análise Factual sobre Polêmicas e Desvios
É crucial distinguir o Hinduísmo Smartismo, como tradição filosófica e devocional histórica e amplamente estabelecida, de quaisquer grupos que possam tentar se apropriar de seus termos ou símbolos de forma indevida. O Hinduísmo Smartismo em si, com suas raízes profundas e aceitação geral dentro do espectro hindu, não é caracterizado por desvios éticos sistêmicos, abusos, exploração financeira, controle mental ou danos a terceiros que justifiquem a classificação de "seita destrutiva". Ao contrário de grupos que podem apresentar essas características, o Smartismo promove a harmonia entre diferentes tradições e um caminho espiritual baseado no conhecimento e na devoção. Incidentes isolados de má conduta por parte de indivíduos que se autodenominam líderes espirituais podem ocorrer em qualquer tradição religiosa, mas estes não representam a essência ou a prática sistêmica do Hinduísmo Smartismo. Não há relatos significativos em fontes acadêmicas confiáveis, artigos de pesquisa ou notícias sérias que associem a tradição Smartista em sua totalidade a atividades criminosas, abusos sistemáticos ou às características de uma "seita destrutiva". Em vez disso, os desafios contemporâneos enfrentados pelo Smartismo, como por outras tradições hindus, incluem a preservação de suas tradições em um mundo globalizado, a adaptação de práticas antigas às realidades modernas e o diálogo inter-religioso. O termo "Hinduísmo Smartismo" refere-se a um pilar do pensamento e prática hindu, não a um grupo proselitista com histórico de manipulação ou dano.
Impacto Social, Cultural e Relevância Contemporânea
O Hinduísmo Smartismo teve um impacto profundo e duradouro na paisagem religiosa, filosófica e cultural da Índia. A sistematização de Adi Shankara e a filosofia Advaita Vedanta continuam a ser influentes não apenas entre os seguidores do Smartismo, mas em todo o espectro do pensamento hindu. A ênfase na unidade do Divino e a aceitação de múltiplas formas de adoração contribuíram para a tolerância e a diversidade dentro do próprio Hinduísmo. Culturalmente, o Smartismo influenciou a arte, a literatura, a música e as práticas rituais em toda a Índia. Sua relevância contemporânea reside em sua capacidade de oferecer um quadro filosófico sofisticado que concilia o monismo com o politeísmo aparente, fornecendo um caminho espiritual acessível a uma ampla gama de devotos. Em um mundo cada vez mais fragmentado, a mensagem de unidade e interconexão promovida pelo Smartismo ressoa, oferecendo uma perspectiva de harmonia e compreensão mútua. A contínua vitalidade dos mathas estabelecidos por Shankara e a popularidade de ensinamentos baseados na Advaita Vedanta demonstram a persistente relevância desta tradição.
Referências e Fontes de Pesquisa
- Koller, John M. "The Indian Way: Hinduism, Buddhism, Jainism, Sikhism." Pearson Prentice Hall, 2007.
- Ninian Smart. "The World's Religions." Cambridge University Press, 1998.
- Padma, T. (2003). "Hinduism." In The Cambridge Encyclopedia of Religion (pp. 175-186). Cambridge University Press.
- Dasgupta, Surendranath. "A History of Indian Philosophy, Vol. 1-5." Cambridge University Press, 1922-1955.
- Shankara. "Vivekachudamani." (Várias traduções e edições).
- Artigos acadêmicos sobre Advaita Vedanta e tradições Smarta em periódicos como o Journal of the American Oriental Society, Journal of the Royal Asiatic Society, etc.



