"Relatos Selvagens" (2014), dirigido pelo aclamado cineasta argentino Damián Szifron e produzido por Pedro Almodóvar, é uma comédia dramática de humor negro com elementos de suspense que se tornou um fenômeno cultural. O filme antológico explora os limites da paciência humana, a vingança e a explosão de instintos primitivos em seis histórias independentes, mas tematicamente conectadas, que ressoam com a universalidade da fúria cotidiana. Sua premissa intrigante e execução impecável garantiram-lhe sucesso de crítica e público, além de uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
Análise e Enredo
"Relatos Selvagens" (Relatos Salvajes no original) é uma obra cinematográfica que desafia as convenções, apresentando uma coletânea de seis contos distintos que, apesar de não possuírem conexão narrativa direta, são intrinsecamente unidos por um tema central poderoso: a explosão da fúria humana diante de situações de injustiça, opressão ou humilhação que levam indivíduos comuns ao ponto de ruptura. O filme, uma coprodução hispano-argentina, mergulha na linha tênue que separa a civilização da barbárie, explorando o prazer inegável de perder o controle. A genialidade do roteiro de Damián Szifron reside em sua capacidade de construir personagens com os quais o público pode se identificar, mesmo em suas ações mais extremas e moralmente questionáveis.
Os Seis Relatos: Uma Jornada Pela Fúria Humana
1. Pasternak
O filme abre de forma impactante com "Pasternak", um segmento que serve como prólogo. A bordo de um avião, os passageiros Isabel (María Marull) e Salgado (Darío Grandinetti) descobrem que têm um conhecido em comum: Gabriel Pasternak. A coincidência se revela assustadora quando mais passageiros percebem que também foram vítimas ou algozes de Pasternak. A tensão aumenta exponencialmente ao se dar conta de que o piloto da aeronave é o próprio Gabriel Pasternak, um músico frustrado que planejou uma vingança coletiva contra todos que, de alguma forma, o prejudicaram. A história culmina em uma queda violenta e carregada de humor negro, estabelecendo o tom para o que virá.
2. Las Ratas (Os Ratos)
No segundo conto, ambientado em uma lanchonete de beira de estrada em uma noite chuvosa, uma garçonete (Julieta Zylberberg) reconhece um cliente como o agiota que arruinou sua família e levou seu pai ao suicídio. A cozinheira do local (Rita Cortese), uma ex-presidiária com um senso de justiça implacável, sugere colocar veneno na comida do homem, que agora é um político em ascensão. A garçonete se debate entre o desejo de vingança e sua moral, enquanto a cozinheira a incita a agir. A situação foge ao controle de forma brutal, com consequências inesperadas e chocantes para todos os envolvidos.
3. El más fuerte (O Mais Forte)
Este segmento apresenta uma escalada de raiva no trânsito. Diego (Leonardo Sbaraglia), um homem abastado em seu carro de luxo, tenta ultrapassar um veículo velho e caindo aos pedaços, dirigido por Mario (Walter Donado), em uma estrada deserta. Um gesto obsceno e insultos trocados acendem um pavio que leva a uma perseguição selvagem e a um confronto físico brutal, com ambos os motoristas buscando humilhar o outro. A disputa transforma-se em uma batalha pela sobrevivência em que os instintos mais básicos e animalescos afloram, culminando em um desfecho grotesco e absurdamente cômico.
4. Bombita (O Pequeno Bomba)
Ricardo Darín brilha neste que é um dos episódios mais comentados e aclamados. Simón Fisher (Ricardo Darín), um engenheiro especialista em demolições, tem seu carro injustamente guinchado enquanto compra um bolo para o aniversário da filha. Cansado da burocracia e da corrupção das autoridades de trânsito, ele tenta resolver a situação legalmente, mas é repetidamente ignorado e humilhado pelo sistema. A frustração acumulada faz com que Simón perca o emprego, o casamento e a guarda da filha. Chegando ao seu limite, ele planeja uma vingança elaborada contra a empresa de guinchos, tornando-se um "herói popular" para muitos que também se sentem oprimidos pelo sistema.
5. La Propuesta (A Proposta)
Mauricio (Oscar Martínez), um empresário rico, tenta encobrir um atropelamento fatal causado por seu filho adolescente, que dirigia embriagado e matou uma mulher grávida. Com a ajuda de seu advogado (Osmar Núñez), ele propõe que o jardineiro da família (Germán de Silva) assuma a culpa em troca de uma grande soma de dinheiro. No entanto, a negociação se complica quando o advogado, o promotor e até o próprio jardineiro tentam extorquir mais dinheiro, revelando a corrupção e a cupidez que permeiam a sociedade. A situação se desdobra em um tenso jogo de poder e chantagem, com um desfecho violento e trágico para todos os envolvidos.
6. Hasta que la muerte nos separe (Até que a morte nos separe)
O último e talvez mais icônico segmento do filme, estrelado por Érica Rivas, mostra o casamento de Romina e Ariel (Diego Gentile). Durante a festa, Romina descobre que seu recém-marido a traiu com uma convidada. O ciúme e a raiva a levam a uma série de atitudes extremas e destrutivas, culminando em uma festa de casamento caótica, onde segredos são revelados, objetos são quebrados e a violência explode. Entre ataques de fúria e momentos de paixão reconciliadora, o casal explora os limites de seu relacionamento de uma forma visceral e inesquecível, com um final que é ao mesmo tempo perturbador e surpreendentemente romântico em sua barbárie.
O Final: Catarse, Caos e a Tênue Linha
Embora cada "relato" tenha sua própria conclusão, o filme como um todo culmina com o caos controlado do episódio do casamento. "Até que a morte nos separe" é um final simbólico que encapsula a essência da obra de Szifron. Romina, a noiva traída, passa por uma montanha-russa de emoções, alternando entre a raiva descontrolada e a vulnerabilidade. Sua vingança pública contra Ariel é brutal e humilhante. No entanto, em meio aos destroços da festa e das revelações, há um momento de erotismo e reconciliação primitiva. O sexo explícito e selvagem dos noivos, ainda que grotesco no contexto da destruição, sugere uma espécie de renascimento, um laço afetivo construído "para além da morte" ou do caos. Não se trata de um final feliz no sentido tradicional, mas de uma catarse que expõe a hipocrisia e as falsidades dos rituais sociais. Os personagens, ao abraçarem seu lado mais instintivo e selvagem, encontram uma estranha forma de honestidade e prazer. O filme não oferece respostas fáceis, mas provoca o espectador a refletir sobre os próprios impulsos e a fragilidade das convenções sociais.
Elenco e Atuações de Destaque
O sucesso de "Relatos Selvagens" deve-se em grande parte ao seu elenco estelar, que entrega atuações memoráveis em cada um dos segmentos. Damián Szifron teve a perspicácia de reunir alguns dos maiores talentos do cinema argentino e espanhol.
- Ricardo Darín como Simón Fisher em "Bombita": Darín, um dos atores mais renomados da Argentina, entrega uma performance cativante como o engenheiro que, cansado da burocracia, decide levar a justiça às próprias mãos. Sua atuação transita entre o desespero e a satisfação vingativa, rendendo-lhe elogios e uma indicação ao Prêmio Goya. O próprio Darín expressou surpresa com sua indicação, sugerindo que outras performances masculinas no filme foram ainda mais arriscadas.
- Érica Rivas como Romina em "Hasta que la muerte nos separe": A atuação de Rivas é um ponto alto do filme, capturando a espiral de loucura e paixão da noiva traída. Ela expressa uma gama impressionante de emoções, do choque e da raiva incontrolável à sensualidade catártica, que lhe rendeu o Prêmio Platino de Melhor Atriz.
- Leonardo Sbaraglia como Diego em "El más fuerte": Sbaraglia convence como o motorista arrogante que se envolve em uma briga de trânsito mortal, demonstrando a escalada da raiva e do orgulho masculino.
- Oscar Martínez como Mauricio em "La Propuesta": Martínez entrega uma atuação complexa como o pai rico disposto a tudo para proteger seu filho, revelando a frieza e a manipulação por trás de sua fachada.
- Darío Grandinetti como Salgado em "Pasternak": Embora em um papel mais breve, Grandinetti é eficaz ao iniciar a intrigante teia de conexões no primeiro segmento.
- Julieta Zylberberg como a Garçonete em "Las Ratas": Sua interpretação da jovem dividida entre a vingança e a moralidade é sutil e poderosa.
- Rita Cortese como a Cozinheira em "Las Ratas": Cortese é formidável como a cozinheira implacável que instiga a vingança, adicionando um toque de humor negro e experiência de vida.
Szifron optou por escalar atores renomados porque acreditava em suas carreiras e admirava seu trabalho, dando-lhes a liberdade de escolher os papéis que desejavam. Essa liberdade, aliada ao excelente roteiro, resultou em performances intensas e autênticas.
Produção, Bastidores e Curiosidades
"Relatos Selvagens" é um testemunho da exuberância criativa do cinema argentino e da visão singular de seu diretor, Damián Szifron.
- A Mente Por Trás da Fúria: Damián Szifron não apenas dirigiu, mas também escreveu o roteiro original do filme. A ideia para "Relatos Selvagens" surgiu de um período sabático de Szifron, após duas séries de TV e dois filmes. Ele começou a escrever diversas histórias curtas inspiradas em situações cotidianas que o irritavam ou em lapsos criativos. Szifron explicou em entrevistas que as histórias são baseadas em situações da vida real que ele mesmo experimentou ou conheceu, dando imaginação livre para desenvolvê-las. Por exemplo, a história de "El más fuerte" nasceu de uma briga de trânsito que ele teve.
- O Toque Almodóvar: O filme foi produzido pela Kramer & Sigman Films na Argentina e pela El Deseo, produtora dos irmãos Pedro e Agustín Almodóvar, na Espanha. A influência de Almodóvar pode ser percebida no humor negro, na estética vibrante e na exploração de paixões intensas.
- Música Inesquecível: A trilha sonora foi composta por Gustavo Santaolalla, vencedor de dois Oscars (por "Brokeback Mountain" e "Babel"). Sua música, especialmente o tema de violão, é memorável e contribui significativamente para o clima de tensão e catarse do filme.
- Origens Televisivas: Szifron iniciou sua carreira na televisão argentina, dirigindo séries policiais e cômicas como "Los Simuladores". Essa experiência é visível na estrutura narrativa descomplicada e no ritmo ágil de "Relatos Selvagens".
- A Escolha do Título: Szifron revelou que o título "Relatos Salvajes" surgiu "do nada" após ter as histórias prontas, percebendo que era o elo de ligação perfeito para as seis narrativas sem conexão direta.
- A Advertência no Cinema: Em alguns cinemas, como o BFI de Londres, uma nota era exibida antes do filme, avisando: "Por favor, atenção: 'Relatos Selvagens' é uma obra de ficção, e qualquer semelhança com fatos reais é uma coincidência não intencional e lastimável", ironicamente destacando a universalidade de suas temáticas.
Polêmicas e Interpretações Conflitantes
Apesar do amplo reconhecimento, "Relatos Selvagens" não esteve isento de polêmicas e interpretações diversas, especialmente no meio acadêmico e em algumas esferas da crítica.
- Acusações de Reacionarismo: Um dos debates mais notáveis girou em torno da interpretação política do filme. Enquanto a crítica jornalística foi majoritariamente favorável, alguns críticos acadêmicos e universitários classificaram o filme como "reacionário". Essa visão argumenta que o filme não propõe soluções institucionais ou coletivas para os problemas sociais, mas sim celebra a raiva e a vingança individual, apostando em soluções privadas e na liberação de paixões sem controle. Segundo essa perspectiva, o filme seria niilista, pois a catarse que oferece não constrói laços de solidariedade política e a referência à história (comum no cinema argentino) está ausente.
- A Subversão do Comportamento Humano: Szifron, no entanto, afirmou que seu objetivo era explorar a repressão de emoções e instintos na sociedade e o prazer que as pessoas sentem ao "perder a cabeça", não necessariamente endossando a violência, mas sim usando-a como forma de expressão e reflexão. O filme é, para muitos, uma crítica social inteligente sobre o tratamento do controle humano, as situações de desespero e a ética humana posta à prova.
- O Erotismo no Final: O desfecho do último segmento, com a cena de sexo entre os noivos após a briga, gerou discussões. Alguns a interpretaram como um ato erótico, enquanto outros a viram como algo mais próximo do "estranhamento e surpresa", ou um erotismo que nem mesmo "desperta libido", mas sim a união sensual da tragédia e da comédia. Essa ambiguidade contribui para a riqueza de conteúdo e o debate sobre o filme.
Recepção e Legado
"Relatos Selvagens" foi um sucesso retumbante, tanto de crítica quanto de público, solidificando seu lugar como um dos filmes mais importantes do cinema argentino do século XXI.
- Recorde de Bilheteria: O filme quebrou recordes de bilheteria na Argentina, tornando-se o filme argentino de maior arrecadação de todos os tempos em seu país de origem. Ele permaneceu em cartaz por um tempo notável, como os dois anos em um cinema de São Paulo, no Brasil, o que atesta seu impacto cultural e a demanda do público.
- Aclamação da Crítica: Recebeu avaliações extremamente positivas da crítica internacional, sendo frequentemente descrito como inventivo, hilário, impactante e original. Foi elogiado por sua capacidade de criar personagens memoráveis em curtas metragens e por sua trilha sonora. Críticos notaram o humor áspero e inteligente, as sequências de tensão bem elaboradas e a direção segura de Szifron.
- Prêmios e Indicações:
- Oscar: Foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2015.
- Goya: Recebeu nove indicações ao Prêmio Goya, o "Oscar do cinema espanhol", levando o prêmio de Melhor Filme Ibero-Americano.
- Platino: Foi o grande vencedor do Prêmio Platino do Cinema Ibero-Americano em 2015, conquistando oito estatuetas, incluindo Melhor Filme de Ficção, Melhor Direção, Melhor Roteiro e Melhor Atriz (Érica Rivas).
- BAFTA: Venceu o BAFTA de Melhor Filme Estrangeiro em 2016.
- Cannes: Foi selecionado para concorrer à Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes.
- Influência e Comparação: O filme foi comparado a obras de Quentin Tarantino por seu humor negro e elementos de vingança, e a séries como "Premonição" ou "Contos Assombrosos" pela estrutura de antologia e a imprevisibilidade dos eventos. Sua exploração da raiva e da vingança gerou identificação com o público, que via nas explosões dos personagens uma catarse para as frustrações do dia a dia.
- Continuações Planejadas: Damián Szifron revelou planos para duas sequências de "Relatos Selvagens", incluindo uma intitulada "Planeta Selvagem", que exploraria histórias de fúria e injustiça ao redor do mundo, prometendo uma abordagem "poderosa e poética".
Em suma, "Relatos Selvagens" transcendeu as fronteiras do cinema latino-americano para se tornar um marco global, aplaudido por sua ousadia narrativa, performances vibrantes e a capacidade de espelhar as tensões e os impulsos mais selvagens da condição humana de forma divertida, chocante e profundamente reflexiva.
Fontes Pesquisadas
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