Lançado em 2003, "O Homem que Copiava" é uma joia do cinema brasileiro que mescla comédia dramática e crime de forma engenhosa. Dirigido por Jorge Furtado, o filme narra a jornada de André, um jovem operador de fotocopiadora em Porto Alegre, interpretado por Lázaro Ramos, que, impulsionado pela paixão e pelo desejo de ascensão social, mergulha em um universo de falsificações e escolhas moralmente ambíguas. Com um roteiro afiado e atuações memoráveis, a obra se consolidou como um marco, provocando reflexões sobre ética, dinheiro e os caminhos tortuosos da vida moderna.
Análise e Enredo
"O Homem que Copiava" é uma obra que se destaca por sua narrativa cativante e pela forma como subverte as expectativas do público. A história nos apresenta André (Lázaro Ramos), um rapaz de dezenove ou vinte anos, introspectivo e sonhador, que trabalha em uma papelaria como operador de fotocopiadora na cinzenta Porto Alegre. Desiludido com sua condição humilde e com o sonho de se tornar ilustrador, André passa suas noites desenhando e, como um voyeur moderno, espionando a vida de seus vizinhos com um binóculo, dedicando atenção especial a Sílvia (Leandra Leal), uma bela balconista que mora no prédio em frente.
A trama ganha seu primeiro grande impulso quando André decide que precisa de 38 reais para comprar um lenço (ou "chambre", em algumas sinopses) na loja onde Sílvia trabalha, a fim de se aproximar dela e impressioná-la. Em um momento de desespero e ousadia, ele tem a "brilhante ideia" de falsificar uma nota de R$ 50,00 usando a fotocopiadora colorida recém-adquirida pela papelaria. O que começa como um plano aparentemente inocente para conquistar um amor platônico, rapidamente se transforma em uma espiral de crimes e decisões moralmente questionáveis.
Com a ajuda de seu amigo Cardoso (Pedro Cardoso) e da sedutora colega de trabalho Marinês (Luana Piovani), que sonha em se casar com um homem rico, André se aprofunda no mundo da falsificação de dinheiro. A trama se adensa com reviravoltas inesperadas: um assalto a carro-forte para conseguir mais dinheiro, que culmina em um tiroteio envolvendo Antunes (Carlos Cunha), o pai de Sílvia, e a eventual necessidade de lidar com a ameaça de Feitosa (Júlio Andrade), um "amigo" que empresta a arma para André e depois tenta extorqui-lo. A narrativa, muitas vezes conduzida pela voz-off de André, mistura realidade com elementos de fantasia, transformando o espectador em cúmplice de suas escolhas.
Explicação Detalhada do Final
O desfecho de "O Homem que Copiava" é um dos pontos mais discutidos e marcantes do filme, desafiando convenções morais e narrativas tradicionais. Após uma série de eventos criminosos, incluindo roubos e assassinatos, André, Sílvia, Marinês e Cardoso conseguem se livrar de seus antagonistas – Feitosa e Antunes – em planos elaborados que, surpreendentemente, dão certo. Feitosa morre empalado após cair de uma ponte, enquanto Antunes é morto em uma explosão, sendo incriminado pelo assalto ao banco.
Com seus problemas "resolvidos" e, ironicamente, enriquecidos pelos frutos de seus crimes, os protagonistas alcançam seus objetivos de ascensão social e felicidade romântica. O filme termina com um "final feliz": André e Sílvia se casam e viajam para o Rio de Janeiro, desfrutando de uma vida de luxo, enquanto Marinês e Cardoso também se casam, simbolizando a concretização de seus sonhos materiais e afetivos. Este "happy end", como notam alguns críticos, é uma escolha proposital de Jorge Furtado, que opta por não julgar moralmente seus personagens, permitindo que o público faça sua própria leitura ética.
No entanto, a grande revelação do final, que adiciona uma camada de complexidade e ironia à história, é a inversão do ponto de vista da espionagem. André descobre que, na verdade, ele também era o "espionado". Sílvia sabia o tempo todo que André o observava com o binóculo e, mais surpreendente ainda, havia se apaixonado por ele ao descobrir-se alvo de sua atenção. Essa revelação recontextualiza toda a jornada de André, transformando seus encontros com Sílvia de meras coincidências em uma dança de obsessões e interesses mútuos. A musa se apaixona pelo "Pigmalião" capaz de copiá-la, e o voyeurismo se torna uma forma distorcida de afeto e reconhecimento. Assim, o filme sugere que a imitação da vida pode ser a vida em si mesma, com um final que, apesar de controversamente otimista para a senda criminosa, afirma a felicidade alcançada pelos personagens.
Elenco e Atuações de Destaque
O sucesso de "O Homem que Copiava" deve muito ao seu elenco afiado e às atuações marcantes:
- Lázaro Ramos como André: O protagonista André é interpretado com sensibilidade por Lázaro Ramos, que entrega um personagem tímido, sonhador e, ao mesmo tempo, capaz de atos extremos. Sua atuação foi amplamente elogiada e lhe rendeu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Havana. A forma como ele transmite a desilusão e a gradual transformação de André é um dos pilares do filme.
- Leandra Leal como Sílvia: Leandra Leal dá vida a Sílvia, a vizinha observada por André. Sua performance captura a complexidade de uma personagem que não é apenas o objeto de desejo, mas também uma figura com suas próprias percepções e segredos, culminando na surpreendente revelação final.
- Luana Piovani como Marinês: Luana Piovani brilha como a sensual e ambiciosa Marinês. Sua atuação lhe valeu o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro em 2004. Marinês representa a busca pelo status e a riqueza material, com frases icônicas que refletem sua visão de mundo.
- Pedro Cardoso como Cardoso: Pedro Cardoso, como o amigo Cardoso, entrega uma performance cômica e essencial para o desenvolvimento da trama. Seu personagem é cúmplice e motivador das ações de André, e Cardoso também foi reconhecido com o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.
O diretor Jorge Furtado elogiou a química do elenco, que soube misturar atores gaúchos com nomes nacionais, e destacou o processo de escolha de Lázaro Ramos, que incluiu testes com Wagner Moura e Mateus Solano, sendo Leandra Leal uma das que o indicou para o papel. A espontaneidade e a química entre os atores contribuíram significativamente para a autenticidade e o charme do filme.
Curiosidades de Bastidores e Polêmicas
A produção de "O Homem que Copiava" é rica em detalhes interessantes:
- **Origem e Desenvolvimento:** O roteiro original foi concebido em 1996, mas levou cinco anos para ser finalizado, sendo concluído em 2001. O filme é o segundo longa-metragem dirigido por Jorge Furtado, que já havia se destacado com o curta "Ilha das Flores" (1989).
- **Locações:** A maior parte das filmagens ocorreu em Porto Alegre, cidade que Furtado considera um "personagem" à parte no filme, com suas paisagens urbanas cinzentas. As cenas finais, contudo, foram rodadas no Rio de Janeiro, incluindo a icônica imagem do Cristo Redentor.
- **Elementos Visuais e Sonoros:** As sequências animadas que ilustram a mente de André foram criadas por Allan Sieber, adicionando um toque visual único. A trilha sonora é ecletica, misturando clássicos como Creedence Clearwater Revival, Wolfgang Amadeus Mozart e Johann Sebastian Bach. O filme ainda inclui referências a William Shakespeare, com uma citação de Hamlet oculta em um anagrama no nome "Thelma".
- **Orçamento e Produção:** Com um orçamento de R$ 3 milhões, o filme arrecadou R$ 4,6 milhões, um sucesso para a época. Foi produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre, em parceria com a Globo Filmes e Columbia Tristar.
- **Liberdade no Set:** Jorge Furtado revelou que, apesar do planejamento rigoroso, incentivava os atores a improvisarem e "se divertirem fazendo besteira", o que contribuiu para o tom cômico e natural do filme.
A principal polêmica associada a "O Homem que Copiava" surgiu anos depois de seu lançamento, quando o diretor Jorge Furtado descobriu uma "cópia" não autorizada de sua obra. Um filme indiano de 2009, intitulado "Currency" (no idioma malaio), replicava integralmente o roteiro de Furtado, incluindo os musicais típicos do cinema indiano. Furtado revelou que produtores indianos haviam tentado comprar os direitos do roteiro em 2003, mas as negociações falharam devido a uma oferta financeira "ridícula". Apesar de não ter chegado a um acordo, eles decidiram produzir o filme, "roubando o roteiro", conforme Furtado denunciou em suas redes sociais. O diretor de "Currency", Swathi Bhaskar, negou conhecer o filme brasileiro quando questionado.
Outro ponto de "controvérsia" ou, melhor, de interpretação, reside na ambiguidade ética do filme. Alguns críticos apontam que a obra de Furtado parece "fazer concessões" a atos criminosos como falsificação, assalto à mão armada e até assassinato, desde que os perpetradores sejam carismáticos o suficiente, sugerindo que o amor (e, no caso de Cardoso, a luxúria) justifica tudo. Essa abordagem, que questiona códigos morais tradicionais, é uma marca do estilo de Furtado, que não busca moralizar, mas sim explorar a complexidade humana diante das circunstâncias.
Recepção e Legado do Filme
"O Homem que Copiava" foi recebido com aclamação pela crítica e pelo público, solidificando seu lugar como um dos filmes mais importantes do cinema brasileiro do século XXI.
- **Recepção Crítica:** O filme recebeu críticas geralmente positivas, sendo elogiado por seu roteiro inteligente, direção cativante e atuações de destaque. Foi descrito como um "contra-argumento pronto para quem diz que o cinema brasileiro não possui bons títulos". A engenhosidade da narrativa e a humanização dos personagens foram pontos frequentemente destacados.
- **Prêmios e Reconhecimento:** A obra de Jorge Furtado foi amplamente premiada, nacional e internacionalmente. Venceu o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro em 2004 nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor (Jorge Furtado, dividido com Hector Babenco), Melhor Roteiro Original, Melhor Montagem (Giba Assis Brasil), Melhor Ator Coadjuvante (Pedro Cardoso) e Melhor Atriz Coadjuvante (Luana Piovani). Além disso, Lázaro Ramos ganhou o prêmio de Melhor Ator no Festival de Havana. O filme também foi premiado pela APCA como Melhor Filme e selecionado para o Festival de San Sebastian.
- **Impacto e Legado:** "O Homem que Copiava" é considerado um clássico do cinema gaúcho e nacional. Ele aborda temas relevantes como a busca por mobilidade social, a crítica à "ditadura do consumo" e a reavaliação de conceitos éticos em uma sociedade onde o estudo e a honestidade nem sempre garantem o sucesso. O filme foi lançado em um período de efervescência para o cinema brasileiro, que ganhava cada vez mais competitividade nos mercados nacional e internacional, ao lado de outras grandes produções como "Cidade de Deus". A capacidade de Furtado de balancear diferentes núcleos narrativos e subverter expectativas, especialmente no final, é apontada como um de seus maiores méritos. Em 2023, o filme celebrou 20 anos de lançamento, consolidando seu status de obra atemporal e influente.
Fontes Pesquisadas
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- https://www.band.uol.com.br/entretenimento/o-homem-que-copiava-veja-como-esta-o-elenco-do-filme-hoje-16781987
- https://mubi.com/pt/films/the-man-who-copied/cast
- https://wiki-wikicine-103-coltec.fandom.com/pt-br/wiki/Resenha_do_filme_%22O_homem_que_copiava%22
- https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2022/11/19/diretor-do-filme-o-homem-que-copiava-descobre-copia-da-obra-gravada-na-india.ghtml
- https://www.criticos.com.br/v2/filmes/o-homem-que-copiava-2003
- https://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra123362/o-homem-que-copiava
- https://hqscomcafe.com.br/como-e-o-final-do-filme-o-homem-que-copiava/
- https://www.perfilnews.com.br/entretenimento/o-homem-que-copiava-leva-6-premios/71720/
- https://www.youtube.com/watch?v=0hX036qV92s
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- https://www.youtube.com/watch?v=GjYd966yWb8
- https://www.contracampo.com.br/38/criticaohomemquecopiava.htm
- https://meninodasletras.wordpress.com/2010/09/04/o-homem-que-copiava/
- https://www.casadecima.com.br/2004/09/08/o-homem-que-copiava-e-o-melhor-filme-brasileiro-do-ano/
- https://traduagindo.com.br/o-homem-que-copiava-por-luiz-carlos-oliveira-jr/
- https://www.casadecima.com.br/2023/05/05/os-20-anos-de-um-dos-melhores-filmes-feitos-em-porto-alegre/




























