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Harry e Sally: Feitos um para o Outro (1989) (Filme)
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Lançado em 1989 e dirigido por Rob Reiner, "Harry e Sally: Feitos um para o Outro" (originalmente "When Harry Met Sally...") transcendeu o gênero da comédia romântica para se tornar um marco cultural e um referencial indelével sobre as complexidades da amizade e do amor entre homens e mulheres. Com um roteiro brilhante de Nora Ephron e a química explosiva de Billy Crystal e Meg Ryan, o filme não apenas arrecadou impressionantes US$ 92.8 milhões nas bilheterias, contra um orçamento de US$ 16 milhões, mas também consolidou seu lugar como um clássico atemporal, questionando de forma sagaz se "sexo sempre atrapalha" uma amizade platônica.

Análise e Enredo

A premissa central de "Harry e Sally: Feitos um para o Outro" é tão simples quanto profunda: "Homens e mulheres podem ser apenas amigos sem que o sexo atrapalhe?". O filme acompanha Harry Burns (Billy Crystal) e Sally Albright (Meg Ryan) através de uma década de encontros e desencontros em Nova York, desde o momento em que se conhecem em 1977, durante uma carona de Chicago para a Grande Maçã, até a virada do ano de 1989.

No primeiro encontro, ainda como recém-formados, Harry e Sally estabelecem imediatamente suas filosofias conflitantes sobre relacionamentos: Harry, cínico e pessimista, afirma que homens e mulheres não podem ser amigos devido à inevitabilidade da atração sexual; Sally, otimista e idealista, discorda veementemente. Eles se separam, convencidos de que nunca serão amigos. Cinco anos depois, em 1982, se reencontram em um aeroporto, onde descobrem que Sally está namorando o vizinho de Harry e Harry está noivo. A tensão inicial diminui, mas a discordância sobre a amizade entre sexos persiste.

Em 1987, cinco anos mais tarde, Harry e Sally se encontram novamente em uma livraria. Ambos estão solteiros e se recuperando de términos de relacionamentos significativos — Sally de Joe, Harry de Helen. É aqui que eles finalmente tentam estabelecer uma amizade. Passam a ter longas conversas noturnas ao telefone, jantam juntos e discutem abertamente suas vidas amorosas e frustrações. O filme habilmente mostra a evolução dessa amizade por meio de montagens, onde suas interações se tornam cada vez mais íntimas e confortáveis, enquanto tentam manter distância romântica, inclusive tentando arranjar seus respectivos melhores amigos, Jess (Bruno Kirby) e Marie (Carrie Fisher), um para o outro. No entanto, Jess e Marie se apaixonam e se casam, enquanto Harry e Sally se veem cada vez mais próximos.

A amizade atinge um ponto de virada dramático após Sally demonstrar, de forma memorável, um orgasmo falso em um restaurante lotado (o famoso Katz's Delicatessen), para provar a Harry que homens não conseguem diferenciar um orgasmo real de um encenado. A cena culmina com a impagável fala de uma senhora à mesa ao lado: "Vou querer o que ela está comendo". Este momento icônico, inclusive, foi sugerido por Billy Crystal e a fala final pela mãe de Rob Reiner, Estelle Reiner. Após uma festa de Ano Novo, a atração reprimida entre Harry e Sally transborda em um beijo desajeitado. A situação se complica quando, após um momento de vulnerabilidade e conforto mútuo, eles acabam dormindo juntos, o que inicialmente parece arruinar a amizade.

O Final: Significado e Impacto

O final de "Harry e Sally: Feitos um para o Outro" é um dos mais célebres das comédias românticas. Após a noite juntos, Sally se sente magoada e evita Harry, que inicialmente recua. Harry percebe que a perdeu. Na véspera de Ano Novo, sozinho, ele caminha pela cidade, revendo todos os momentos que compartilharam. É então que ele tem a epifania: ele ama Sally. Ele corre para a festa onde Sally está, chegando justo quando ela está prestes a sair.

Harry então declara seu amor em um discurso apaixonado e inesquecível, listando todas as pequenas peculiaridades que ama em Sally: "Eu amo que você sinta frio quando está 21 graus lá fora. Eu amo que leve uma hora e meia para você pedir um sanduíche. Eu amo a ruga que aparece entre suas sobrancelhas quando você me olha como se eu fosse louco. Eu amo que depois de passar o dia com você, ainda posso sentir seu perfume em minhas roupas. E eu amo que você é a última pessoa com quem eu quero falar antes de ir dormir à noite. E não é porque eu estou sozinho, e não é porque é véspera de Ano Novo. Eu vim aqui esta noite porque quando você percebe que quer passar o resto da sua vida com alguém, você quer que o resto da sua vida comece o mais rápido possível." Sally, emocionada, mas ainda com sua personalidade prática, o acusa de estar ali por estar sozinho, mas ele a convence. Eles se casam três meses depois, doze anos após o primeiro encontro.

Curiosamente, o roteiro original de Nora Ephron e a visão inicial de Rob Reiner previam um final em que Harry e Sally permaneciam apenas amigos, ou até mesmo seguiam caminhos separados, refletindo o cinismo de Reiner sobre o amor após seu divórcio de Penny Marshall. No entanto, Reiner conheceu sua futura esposa, Michele Singer, durante a produção do filme, o que o inspirou a mudar o desfecho para um final feliz e mais romântico. A cena final com o discurso de Harry foi inclusive reescrita e aprimorada com contribuições de Billy Crystal. Este desvio do plano original é um testemunho do poder das experiências pessoais na criação artística, e, para muitos, foi a escolha certa, tornando o final mais satisfatório para o público.

O filme também intercala a narrativa de Harry e Sally com depoimentos de casais idosos reais sobre como se conheceram. Estas "histórias de como nos conhecemos" foram coletadas por Nora Ephron de funcionários da produtora e reencenadas por atores, adicionando um toque de realismo e atemporalidade ao tema do amor e dos relacionamentos. A última dessas entrevistas é a do próprio Harry e Sally, já casados, fechando o ciclo da história.

Elenco e Atuações de Destaque

O sucesso de "Harry e Sally: Feitos um para o Outro" é inseparável das performances estelares de seu elenco principal. Billy Crystal e Meg Ryan entregam atuações que definiram uma geração de comédias românticas.

  • Billy Crystal como Harry Burns: Harry é o protótipo do cínico charmoso, mas vulnerável. Crystal infunde no personagem uma mistura perfeita de humor ácido, pessimismo e uma profunda insegurança sobre o amor. Sua química com Ryan é singular e muitos consideram este o melhor trabalho de sua carreira, permitindo-lhe contribuir com improvisações que enriqueceram o roteiro. Para entrar no estado de espírito de um homem recém-divorciado e solitário, Crystal chegou a se isolar em um quarto de hotel durante as filmagens.
  • Meg Ryan como Sally Albright: Sally é a contraparte "high-maintenance" de Harry, com sua personalidade metódica e otimismo inicial sobre o amor, que gradualmente se torna mais realista. Ryan entrega uma atuação cativante, que a solidificou como a "rainha das comédias românticas" da época. Sua interpretação de Sally é complexa, mostrando a força e a vulnerabilidade da personagem. A cena do orgasmo falso, em particular, é um testemunho de seu talento cômico e coragem, e foi, segundo Ephron, ideia da própria Meg Ryan.
  • Carrie Fisher como Marie: A melhor amiga de Sally, Marie, é uma jornalista com um senso de humor sarcástico e uma visão mais pragmática dos relacionamentos. Fisher entrega uma atuação memorável, com suas tiradas rápidas e conselhos realistas.
  • Bruno Kirby como Jess: O melhor amigo de Harry, Jess, é um personagem igualmente neurótico e leal. Kirby complementa Crystal perfeitamente, e sua dinâmica com Fisher como o casal secundário adiciona outra camada de charme e comédia ao filme.

A interação entre os quatro protagonistas, especialmente na cena em que Harry e Sally ligam para Jess e Marie separadamente após dormirem juntos, é um primor de comédia e montagem, filmada em três sets separados conectados por uma linha telefônica real para sincronia perfeita.

Curiosidades de Bastidores e Polêmicas

  • Origem do Roteiro: A ideia para o filme surgiu em 1984, quando o diretor Rob Reiner, o produtor Andrew Scheinman e a roteirista Nora Ephron se encontraram. Reiner, que estava recém-divorciado de Penny Marshall, estava vivenciando a vida de solteiro e contou a Ephron sobre suas "relações desastrosas e confusas". A personagem Sally foi baseada em Ephron e algumas de suas amigas, enquanto Harry foi baseado em Reiner e suas experiências.
  • Processo de Escrita: Nora Ephron levou cinco anos para escrever o roteiro, passando por várias versões. Seu roteiro é notável por não ter um "vilão" externo; o obstáculo para o casal são as próprias inseguranças de Harry e Sally.
  • A Cena do Orgasmo Falso: Uma das cenas mais icônicas da história do cinema, a ideia para Sally fingir um orgasmo em um restaurante lotado partiu de Meg Ryan. A famosa fala "Vou querer o que ela está comendo" foi sugerida por Billy Crystal e dita pela mãe de Rob Reiner, Estelle Reiner.
  • Casting Quase Diferente: Rob Reiner considerou Susan Dey, Elizabeth Perkins e Molly Ringwald para o papel de Sally, mas Meg Ryan fez lobby intensivo para conseguir o papel. Para Harry, nomes como Tom Hanks, Jeff Bridges, Albert Brooks, Richard Dreyfuss, Harrison Ford, Michael Keaton e Bill Murray foram considerados antes de Billy Crystal. Reiner até considerou interpretar Harry ele mesmo.
  • Inspirações Reais: Além das experiências de Reiner e Ephron, muitos diálogos entre Harry e Sally foram baseados na amizade real entre Reiner e Crystal. Por exemplo, a cena em que eles conversam ao telefone em tela dividida, enquanto assistem TV e trocam de canal, era algo que Crystal e Reiner faziam todas as noites.
  • Polêmica do Título Brasileiro: O título original, "When Harry Met Sally...", que se tornou um "shorthand universal" para discussões sobre relacionamentos, foi transformado para o "água com açúcar" "Harry e Sally: Feitos um para o Outro" no Brasil, o que gerou críticas de especialistas por diminuir a sutileza da premissa.
  • A questão da "alta manutenção": Uma discussão que ressurge é sobre a frase de Harry, que descreve Sally como "high-maintenance". Alguns interpretam isso como uma crítica sutil da era pós-feminista a mulheres que "querem demais", mas outros argumentam que a própria personagem de Sally, apesar de suas idiossincrasias, é adorável e a classificação de Harry é mais uma de suas observações cínicas do que uma crítica do filme em si.

Recepção e Legado

"Harry e Sally: Feitos um para o Outro" foi lançado em 1989 com grande aclamação da crítica. Roger Ebert o chamou de "uma história de amor com uma forma tão antiga quanto os filmes e um diálogo tão novo quanto a edição deste mês da Vanity Fair", elogiando Reiner como "um dos melhores diretores de comédia de Hollywood" e destacando a química entre Crystal e Ryan. O filme obteve uma rara nota "A+" nas pesquisas de audiência do CinemaScore. No Rotten Tomatoes, possui uma pontuação de 91% "Certified Fresh" com base em 103 críticas, com uma classificação média de 8/10.

Com um orçamento de US$ 16 milhões, o filme arrecadou US$ 92.8 milhões na América do Norte e um total de US$ 193 milhões globalmente, tornando-se um grande sucesso de bilheteria. Foi lançado usando a técnica de "plataforma", abrindo em poucas cidades e expandindo gradualmente à medida que o boca a boca gerava interesse.

O impacto do filme no gênero da comédia romântica é imenso; é amplamente considerado o arquétipo da "moderna comédia romântica". Estabeleceu um novo padrão, influenciando inúmeras produções posteriores com seu diálogo inteligente, estrutura narrativa não linear e exploração honesta das relações. Nora Ephron recebeu o BAFTA de Melhor Roteiro Original e foi indicada ao Oscar, WGA Award e Golden Globe. A trilha sonora, com arranjos de Marc Shaiman e canções de Harry Connick Jr., que ganhou seu primeiro Grammy de Melhor Performance Vocal Masculina de Jazz, também se tornou um clássico.

Ao longo dos anos, o filme foi reconhecido por diversas listas de prestígio: é o 23º na lista "100 Anos... 100 Risadas" do American Film Institute (AFI) e o 6º na lista "AFI's 10 Top 10" na categoria de comédia romântica. Em 2022, o filme foi selecionado para preservação no Registro Nacional de Filmes dos Estados Unidos pela Biblioteca do Congresso, solidificando seu status como uma obra culturalmente, historicamente ou esteticamente significativa.

Ainda hoje, "Harry e Sally: Feitos um para o Outro" ressoa com o público por sua honestidade em retratar as complexidades do amor, da amizade e da vida adulta em Nova York. É um filme que continua a provocar risos e reflexões, provando que a "inevitabilidade do amor encontrando um caminho, apesar da luta de seu emparelhamento excêntrico", permanece um tema universalmente cativante.

Fontes Pesquisadas

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  • https://sbiff.org/when-harry-met-sally/
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  • https://jwa.org/thisweek/july/12/when-harry-met-sally
  • https://www.youtube.com/watch?v=Fj-Y4eJ2-iA
  • https://en.wikipedia.org/wiki/Sleepless_in_Seattle
  • https://www.youtube.com/watch?v=1F563uJ-s_I
  • https://medium.com/the-coil/the-high-maintenance-problem-with-the-atlantics-revisiting-when-harry-met-sally-381c0fb12c8a

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