“Deus e o Diabo na Terra do Sol” é uma obra-prima seminal do cinema brasileiro, dirigida por Glauber Rocha em 1964. Este drama-faroeste épico, emblemático do movimento Cinema Novo, transcende a mera narrativa para se firmar como um manifesto visceral sobre a exploração, o messianismo, o cangaço e a busca por redenção em um sertão nordestino árido e brutal. Seu impacto cultural e político ressoa até hoje, consolidando-o como um dos filmes mais importantes da história do cinema nacional e uma alegoria atemporal da luta humana por liberdade e justiça.
Análise e Enredo
Lançado em um ano de turbulência política no Brasil – o golpe militar de 1964 –, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” não é apenas um filme; é uma experiência cinematográfica que lança um olhar cru e poético sobre a realidade do sertão nordestino e as complexas dinâmicas sociais que o moldam. Glauber Rocha, à época com apenas 25 anos, já demonstrava a genialidade que o consagraria como um dos maiores cineastas brasileiros, e este longa-metragem se tornou a pedra angular do Cinema Novo, propondo uma estética da fome e da violência como forma de expor as mazelas de um país subdesenvolvido.
A narrativa se desenrola como uma epopeia trágica e dialética, acompanhando a saga de Manuel (Geraldo Del Rey) e Rosa (Yoná Magalhães), um casal de sertanejos. O filme começa apresentando Manoel, um vaqueiro que vive uma vida de privações e exploração nas mãos do coronel Moraes. A centelha da revolta é acesa quando, numa partilha de gado, o coronel tenta enganá-lo, reivindicando para si os animais mortos pela seca e os vivos. Num acesso de fúria e indignação, Manoel mata o coronel, dando início a uma jornada de fuga e transformação.
Perseguidos pelos jagunços do coronel e pela figura implacável de Antônio das Mortes (Maurício do Valle), o “matador de cangaceiros” contratado pelos latifundiários e pela Igreja, Manoel e Rosa buscam refúgio. O primeiro caminho que encontram é o do misticismo e do fanatismo religioso, ao se juntarem aos seguidores do beato Sebastião (Lídio Silva), que prega o fim do sofrimento através de um retorno a um catolicismo místico e ritualístico, prometendo um paraíso "cheio de fartura" após a morte. Contudo, a fé cega de Sebastião rapidamente se revela tirânica e violenta, culminando em um sacrifício infantil que choca Rosa. É ela quem, em um ato de desespero e razão, assassina o beato, desencadeando a aniquilação do grupo por Antônio das Mortes.
Novamente em fuga, Manoel e Rosa são lançados a outro extremo da luta social: o cangaço. Eles se juntam ao bando do temido cangaceiro Corisco (Othon Bastos), o "Diabo Loiro", um homem marcado pela violência, mas que oferece uma forma de resistência através da insurreição armada contra os poderosos e a injustiça. Manoel é rebatizado como Satanás e participa de saques e destruições de fazendas, ganhando notoriedade através das cantigas do cego Júlio. Este caminho, porém, também é brutal e autodestrutivo. Antônio das Mortes reaparece para cumprir sua missão de exterminar os cangaceiros. Após um confronto épico, Corisco e seu bando são mortos.
O Final: Mar e Sertão, Violência e Esperança
O final de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” é tão enigmático quanto poderoso, um dos mais icônicos do cinema brasileiro. Após a morte de Corisco, Antônio das Mortes, numa atitude ambígua que revela a complexidade do personagem e seus próprios anseios de justiça social, poupa Manuel e Rosa, permitindo que eles fujam "para contar a história". Na cena final, o casal corre desesperadamente por uma paisagem desértica em direção ao mar, enquanto a voz do cantador entoa a profética frase de Sérgio Ricardo: "O sertão vai virar mar, e o mar vai virar sertão".
Essa imagem é carregada de múltiplos significados. A corrida em direção ao mar pode ser interpretada como a busca por uma nova realidade, uma utopia de redenção e liberdade que se contrapõe à aridez e à violência do sertão. É a esperança de que o ciclo de sofrimento e opressão possa ser quebrado. No entanto, a frase "o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão" sugere uma dialética constante, uma inversão contínua de forças e realidades. Não há uma solução fácil ou definitiva para os problemas do Brasil; a luta é cíclica, e a transformação é um processo contínuo e talvez interminável. O mar, símbolo de esperança e fuga, pode se tornar o novo sertão, e vice-versa, indicando que a miséria e a violência podem persistir sob novas formas, ou que a esperança pode surgir mesmo nos lugares mais áridos.
A ambiguidade de Antônio das Mortes também é crucial. Representante da ordem e dos poderes dominantes, ele é, ao mesmo tempo, um justiceiro solitário que parece questionar o próprio sistema que defende. Sua decisão de poupar Manuel e Rosa e encorajá-los a "contar a história" o coloca como uma figura que reconhece a necessidade de um testemunho, de uma memória viva das lutas do povo.
Elenco e Atuações de Destaque
Othon Bastos em "Deus e o Diabo na Terra do Sol".
O sucesso e a profundidade de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” devem-se, em grande parte, às atuações memoráveis de seu elenco. Geraldo Del Rey (Manuel) e Yoná Magalhães (Rosa) entregam performances viscerais, que expressam a angústia, a resiliência e a evolução de seus personagens através das provações do sertão. Del Rey capta a jornada de um homem simples que, movido pela injustiça, transita entre a fé cega e a violência revolucionária. Yoná Magalhães, como Rosa, é a personificação da força feminina e da voz da razão em meio ao fanatismo e à barbárie, sendo a única que não se rende ao delírio religioso, mas permanece ao lado do marido.
Maurício do Valle, no papel de Antônio das Mortes, é imponente e complexo, transformando o "matador de cangaceiros" em um ícone do cinema brasileiro. Sua atuação lhe rendeu o Prêmio Saci de Melhor Ator Coadjuvante em 1965. Othon Bastos, como o cangaceiro Corisco, o Diabo Loiro, é magnético e explosivo, emprestando ao personagem uma energia selvagem e desesperada. Lídio Silva, como o beato Sebastião, transmite a fervorosa e, por vezes, aterrorizante convicção de um líder religioso messiânico.
Curiosidades e Bastidores
As filmagens de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” aconteceram no sertão da Bahia, entre junho e setembro de 1963, com algumas cenas de interiores em Salvador. A escolha do local conferiu autenticidade e uma paisagem desoladora que é, por si só, um personagem do filme. O diretor Glauber Rocha, conhecido por sua abordagem “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, trabalhou com um orçamento limitado, mas com uma visão artística ambiciosa, misturando referências que iam de Guimarães Rosa a Sergei Eisenstein, do faroeste americano ao Neorrealismo italiano.
Uma curiosidade notável envolveu a atriz Yoná Magalhães. Ao chegar em Monte Santo, na Bahia, para as filmagens, sua beleza e estilo incomuns para a região causaram grande alvoroço entre os moradores locais. A atriz foi recebida com tanta curiosidade que um padre local precisou celebrar uma missa, com Yoná presente, para explicar aos fiéis que ela era uma atriz e não uma figura mística ou uma "princesa", ajudando a acalmar os ânimos da população. Outra dificuldade de bastidores foi a direção dos figurantes nas cenas de massa, especialmente no massacre dos beatos.
Em 2022, o filme passou por uma restauração em 4K a partir dos negativos originais de 35mm, que estavam em perfeitas condições na Cinemateca Brasileira. Essa restauração, comandada por Lino Meireles e Paloma Rocha (filha de Glauber), permitiu a redescoberta de detalhes antes imperceptíveis, como as medalhas no peito de Manuel após seu encontro com o beato Sebastião e até um figurante que parecia uma pedra.
Polêmicas e Interpretações Conflitantes
Desde seu lançamento, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” foi um filme de grande impacto e gerador de polêmicas. Lançado no mesmo ano do golpe militar de 1964, a obra foi alvo de censura, como muitas outras produções da época. A ditadura militar, com o AI-5, buscava reprimir a liberdade de expressão, e filmes que abordavam questões sociais e políticas eram particularmente visados.
As interpretações do enredo são vastas e, por vezes, conflitantes. Glauber Rocha propõe uma profunda dialética entre o divino e o diabólico, o messianismo e o cangaço, o bem e o mal. No entanto, o filme vai além do maniqueísmo, explorando as áreas cinzentas da condição humana no sertão. A própria representação do sertão é complexa: não é um inferno nem um céu, mas um "purgatório" onde a vida se desenrola em uma constante tensão entre esses opostos. Glauber, em sua "estética da fome", não glamouriza a região nem vitimiza seus habitantes, mas os mostra em sua luta complexa e muitas vezes insolúvel.
Outra discussão levantada é a respeito da recepção do filme pelo público-alvo. Embora o Cinema Novo buscasse dialogar com a realidade brasileira e com as camadas mais populares, a linguagem estética inovadora e a profundidade simbólica de filmes como “Deus e o Diabo” muitas vezes eram de difícil compreensão para o público acostumado com produções mais comerciais, de características hollywoodianas. Isso gerou um certo descompasso entre a intenção dos cineastas e a real capacidade de comunicação com as masser, com o filme inicialmente sofrendo para atrair grande público nas bilheterias.
Recepção e Legado
“Deus e o Diabo na Terra do Sol” estreou na 17ª edição do Festival de Cinema de Cannes, em 1964, onde competiu pela Palma de Ouro, o prêmio máximo do festival. Embora não tenha levado a Palma, a obra de Glauber Rocha foi aclamada internacionalmente, impressionando cineastas como Pier Paolo Pasolini e Manoel de Oliveira. Recebeu o Prêmio Especial do Júri no Festival de Acapulco em 1966 e o Prêmio Saci de Melhor Produtor e Melhor Ator Coadjuvante (para Maurício do Valle) em 1965. Foi também o representante brasileiro ao Oscar de Melhor Filme Internacional, embora não tenha sido indicado. Em 2022, a versão restaurada em 4K foi exibida na sessão Cannes Classics, reafirmando sua atemporalidade.
No Brasil, o filme é universalmente reconhecido como um marco. É constantemente incluído em listas de "melhores filmes brasileiros de todos os tempos", figurando entre as primeiras colocações em seleções de veículos como Folha de S.Paulo, Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), Rolling Stone, Terra, Gazeta do Povo e O Globo. A Abraccine, inclusive, o posicionou em segundo lugar na sua lista dos cem melhores filmes brasileiros.
O legado de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” é imenso. Ele não apenas solidificou a proposta estética e política do Cinema Novo, mas também influenciou gerações de cineastas brasileiros e internacionais. Diretores como Martin Scorsese, Jean-Luc Godard, Bong Joon-Ho e Quentin Tarantino já exaltaram a importância de Glauber Rocha e do Cinema Novo para a Sétima Arte. O cartaz do filme, idealizado por Rogério Duarte, tornou-se icônico e um símbolo da efervescência cultural dos anos 60 no Brasil, sendo a referência para a logo do Cine Glauber Rocha em Salvador. A obra continua a ser estudada e debatida, um testemunho vivo da capacidade do cinema em refletir e moldar a identidade de uma nação, e uma aula de cinema, como afirma Paloma Rocha, filha do diretor.
Fontes Pesquisadas
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Deus_e_o_Diabo_na_Terra_do_Sol
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- http://bancodeconteudos.cultura.gov.br/visualizar/documentos/002154
- https://desenhandorecordatorios.wordpress.com/2022/09/16/critica-deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol-1964/
- https://cinematecabh.com.br/filme/deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol/
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- https://calac.unfl.edu/calac/deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol/
- https://ims.com.br/filme/deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol/
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- https://ahshow.tv/filmes/deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol
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- https://periodicos.ufsm.br/visualcom/article/download/43037/html/285521
- https://www.itaucultural.org.br/secoes/depoimentos/deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol-os-60-anos-de-uma-obra-atemporal
- https://www.uol.com.br/entretenimento/noticias/redacao/2014/07/09/50-anos-de-deus-e-o-diabo-glauber-rocha-adorava-polemica-diz-othon-bastos.htm
- https://artsandculture.google.com/story/glauber-rocha-figura-central-no-cinema-novo-do-brasil/fQXBNNn4yO23LA?hl=pt-br
- https://www.uol.com.br/entretenimento/noticias/redacao/2014/07/16/improvisando-no-sertao-historias-pitorescas-sobre-deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol.htm
- https://50anosdefilmes.com.br/filmes/deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol-1964/
- https://medium.com/@jordytamura/deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol-de-glauber-rocha-13c54d241767
- https://blog.em.com.br/cultura/deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol-de-glauber-rocha/
- https://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,classico-do-dia-deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol-volta-se-criticamente-para-os-mitos-do-cangaco,70003282246
- https://questaodecritica.com.br/2013/01/deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol-em-busca-de-uma-experiencia-total/
- https://jornalismocultural.com.br/deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol-uma-camera-na-mao-uma-ideia-na-cabeca-e-o-cinema-brasileiro-nas-costas/
- https://piaui.folha.uol.com.br/artigo/deus-e-o-diabo-ano-i/
- https://www.pucminas.br/documentos/fca/anais/A_representacao_do_outro_em_Deus_e_o_Diabo_na_Terra_do_Sol.pdf
- https://www.festival-cannes.com/f/deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol/
- https://apaladewalsh.wordpress.com/2012/09/07/deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol-1964-de-glauber-rocha/




























