Dirigido pelo mestre do horror George A. Romero e roteirizado pelo icônico Stephen King em sua estreia como roteirista, "Creepshow: Show de Horrores" (1982) é uma antologia cinematográfica de terror e comédia. O filme é uma vibrante homenagem aos quadrinhos de horror da EC Comics dos anos 1950, traduzindo para a tela grande a estética e o tom macabro e moralista dessas publicações, com seu impacto ressoando como um clássico cult que capturou a essência do gênero para uma nova geração.
Análise e Enredo
"Creepshow: Show de Horrores" é estruturado como um gibi de terror que ganha vida, com uma história de abertura e encerramento que enquadra cinco contos arrepiantes, mas muitas vezes cômicos. A transição entre os segmentos é feita com o uso de painéis de quadrinhos, cores vivas e animações que simulam o virar das páginas, criando uma imersão completa na estética que o filme celebra.
Estrutura e Contos
O filme começa com Billy, um garoto que tem seu gibi de terror, "Creepshow", confiscado e jogado no lixo por seu pai autoritário, que desaprova o conteúdo. No entanto, o Creep, a figura esquelética anfitriã do gibi, surge para convidar o público a ler as histórias, que então se desenrolam na tela.
- "Dia dos Pais" (Father's Day): O primeiro segmento nos apresenta à família Grantham, que se reúne anualmente para celebrar o Dia dos Pais e, mais precisamente, para relembrar a morte de Nathan Grantham, o patriarca. Sete anos após Bedelia, sua filha, tê-lo assassinado brutalmente com um cinzeiro no Dia dos Pais por ele ter sido um pai tirânico e egoísta, Nathan retorna do túmulo como um zumbi em busca de seu bolo e vingança. Os herdeiros gananciosos, que se beneficiaram de sua morte, são confrontados por ele um a um.
- "A Morte Solitária de Jordy Verrill" (The Lonesome Death of Jordy Verrill): Stephen King, em sua estreia como ator, interpreta Jordy Verrill, um fazendeiro caipira que encontra um meteorito em sua propriedade. Ignorando a contaminação, ele toca no objeto, e uma vegetação alienígena começa a se espalhar rapidamente por seu corpo e por toda a sua fazenda, transformando-o em uma criatura vegetal grotesca. É uma história de punição por ignorância e ganância.
- "Algo Para Te Afogar" (Something to Tide You Over): Richard Vickers (Leslie Nielsen) é um milionário ciumento que descobre a infidelidade de sua esposa, Becky (Gaylen Ross), com Harry Wentworth (Ted Danson). Em um ato de vingança sádica, ele enterra os amantes até o pescoço em uma praia isolada, abaixo da linha da maré alta, deixando-os para se afogarem lentamente enquanto a água sobe. No entanto, a morte não é o fim para Becky e Harry, que retornam como afogados vingativos para assombrar Richard.
- "A Caixa" (The Crate): Duas décadas antes, uma caixa misteriosa foi encontrada trancada no porão da Universidade Horlicks. Dexter Stanley (Fritz Weaver), um professor, acidentalmente abre a caixa, libertando uma criatura peluda e sanguinária que ataca e mata seu assistente. Ele compartilha sua descoberta com seu colega, o professor Henry Northrup (Hal Holbrook), que vê na criatura uma solução para se livrar de sua esposa dominadora, Wilma (Adrienne Barbeau).
- "Eles Estão Rastejando Sobre Você!" (They're Creeping Up on You!): Upson Pratt (E.G. Marshall) é um empresário cruel, misantropo e misófobo, que vive em um apartamento estéril e hermeticamente fechado, obcecado por limpeza e controle. Quando um apagão atinge a cidade, seu apartamento é invadido por milhares de baratas. Pratt, com seu pavor de germes e insetos, é levado à loucura e confrontado com seu próprio destino no final.
O Final e Seus Significados
O epílogo do filme retorna a Billy, que, após o pai jogar seu gibi no lixo, consegue recuperar o exemplar e encontra um anúncio no verso para uma boneca vodu. Ele prontamente encomenda a boneca e a usa para se vingar do pai abusivo, espetando um alfinete na boneca correspondente ao pai.
O final de "Creepshow" reforça a temática de justiça poética e moralidade que permeia todas as histórias da antologia. Cada segmento apresenta personagens que, de uma forma ou de outra, recebem um castigo adequado por suas falhas morais, ganância, ciúme ou crueldade. O prólogo e o epílogo, centrados em Billy e seu gibi, servem como uma meta-narrativa sobre a catarse e a fantasia de vingança que o horror dos quadrinhos pode oferecer a crianças oprimidas. O filme sugere que, assim como os contos do gibi, a "vingança" de Billy é uma fantasia de empoderamento contra a autoridade opressora, transformando o "horror" em uma ferramenta de retribuição, mesmo que simbólica.
Elenco e Atuações de Destaque
"Creepshow" conta com um elenco de estrelas, muitas delas conhecidas por outros trabalhos no gênero ou que viriam a ser. Hal Holbrook, Adrienne Barbeau, Fritz Weaver, Leslie Nielsen, Carrie Nye, E. G. Marshall, Viveca Lindfors, Ted Danson e Ed Harris entregam performances memoráveis, muitas delas exageradas e caricatas, em consonância com o estilo dos quadrinhos.
- Stephen King, em sua estreia como roteirista e como ator no segmento "A Morte Solitária de Jordy Verrill", entrega uma performance notavelmente desajeitada e over-the-top, que se encaixa perfeitamente no tom tragicômico de seu personagem.
- Leslie Nielsen, conhecido por seus papéis cômicos posteriores, brilha como o marido vingativo Richard Vickers em "Algo Para Te Afogar", mostrando um lado mais sombrio e cruel, o que contrastava com sua imagem futura.
- E.G. Marshall, como o misófobo Upson Pratt, é particularmente eficaz em transmitir o pavor e a repulsa, tornando seu segmento "Eles Estão Rastejando Sobre Você!" uma experiência genuinamente desconfortável.
- Ted Danson e Ed Harris também aparecem em papéis iniciais em suas carreiras, adicionando um brilho ao já estelar elenco.
Curiosidades de Bastidores e Polêmicas
- A Colaboração dos Mestres: "Creepshow" marcou a primeira colaboração cinematográfica entre o diretor George A. Romero e o autor Stephen King, dois titãs do horror. A ideia de fazer uma homenagem aos quadrinhos da EC Comics surgiu da paixão compartilhada de ambos por essas publicações.
- Estilo Visual de HQ: Romero e sua equipe se esforçaram para replicar a estética dos quadrinhos na tela. Isso incluiu o uso de cores vibrantes e iluminação exagerada, enquadramentos que lembram painéis de quadrinhos, e transições animadas. O diretor de fotografia Michael Gornick foi fundamental para criar essa "realidade visual pouco comum".
- Efeitos Práticos de Tom Savini: Os efeitos especiais e de maquiagem foram supervisionados pelo lendário Tom Savini, conhecido por seu trabalho visceral. Savini e sua equipe criaram monstros, corpos em decomposição e cenas de gore com um toque de humor negro, utilizando látex de espuma e até US$2000 em pelos de iaque para a criatura de "A Caixa".
- As Baratas Reais: Para o segmento "Eles Estão Rastejando Sobre Você!", foram utilizadas milhares de baratas vivas. A produção suplementou as baratas reais com réplicas, incluindo cascas de amendoim pintadas. Trabalhar com tantos insetos criou um problema de odor no set, que se tornou "esmagador". Houve discussões sobre se o segmento seria filmado devido a restrições orçamentárias.
- Local de Filmagem: O filme foi rodado principalmente em Pittsburgh e seus subúrbios, incluindo Monroeville, onde Romero alugou uma antiga academia de meninos (Penn Hall) para construir cenários extensos, incluindo o ginásio que virou um palco sonoro para interiores como a casa de praia de "Algo Para Te Afogar" e o apartamento de Upson Pratt.
- Adaptação para Quadrinhos: O roteiro de Stephen King para o filme foi adaptado para uma graphic novel, lançada em julho de 1982, com arte de Bernie Wrightson e capa de Jack Kamen, um artista da EC Comics.
Recepção e Legado do Filme
"Creepshow: Show de Horrores" foi lançado em 12 de novembro de 1982 e arrecadou $21 milhões de dólares com um orçamento de $8 milhões, sendo considerado um sucesso de bilheteria e um "sleeper hit".
A recepção crítica foi mista na época, mas o filme rapidamente conquistou o status de clássico cult. Roger Ebert, por exemplo, descreveu-o como uma antologia de fobias humanas.
O filme é amplamente elogiado por sua abordagem fiel e amorosa aos quadrinhos de horror da EC Comics, algo que Romero e King conseguiram traduzir de forma eficaz para a tela. A "sensibilidade EC" influenciou uma geração de cineastas de horror/comédia.
Seu legado é duradouro: inspirou sequências como "Creepshow 2" (1987), que contou com roteiro de Romero baseado em histórias de King, e um "Creepshow 3" (2007) sem o envolvimento dos criadores originais. Além disso, gerou uma série de televisão para o serviço de streaming Shudder em 2019, que continua a celebrar o formato de antologia.
Apesar de alguns críticos apontarem que a atuação de Stephen King não foi das melhores, ou que algumas histórias poderiam ser mais "apertadas", a maioria concorda que "Creepshow" é um filme divertido, charmoso e uma cápsula do tempo perfeita para o horror dos anos 80, que ainda ressoa com os fãs do gênero.
Fontes Pesquisadas
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- https://filmgrab.wordpress.com/2014/08/09/creepshow/
- https://darkadaptedeye.wordpress.com/2016/07/13/movie-review-creepshow-1982/





























