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“Alma Viva” (2022), a aclamada primeira longa-metragem da realizadora luso-francesa Cristèle Alves Meira, é um drama de recorte etnográfico com fortes pinceladas de realismo mágico e humor negro, que mergulha nas profundezas da cultura transmontana, explorando temas como o luto, as complexas dinâmicas familiares, a superstição e a emigração. O filme causou impacto ao estrear na Semana da Crítica do Festival de Cannes e consolidou-se como um dos mais premiados do cinema português recente, tornando-se o candidato de Portugal aos Óscares de Melhor Filme Internacional em 2023.

Análise e Enredo

“Alma Viva” transporta o espectador para a pitoresca, mas profundamente enraizada em tradições, aldeia de Trás-os-Montes, que serve de cenário para a história de Salomé (interpretada por Lua Michel), uma menina de cerca de 10 anos que, como todos os verões, regressa de França para passar as férias com a sua família portuguesa. A trama desenrola-se quando a sua adorada avó (Ester Catalão), uma mulher forte com reputação de "bruxa" na comunidade local, morre subitamente. Este evento desencadeia uma série de conflitos e tensões familiares, com os adultos a disputarem ferozmente por questões relacionadas com o funeral e a escassa herança, expondo as suas mesquinhas ambições financeiras em vez de lamentar a matriarca.

No meio deste caos familiar, Salomé é assombrada pelo espírito da avó, que, segundo as crenças locais, era uma bruxa. A menina, que possui uma "alma aberta" e uma ligação espiritual profunda com a avó, acredita ser o instrumento para a avó buscar vingança e resolver desavenças pendentes. A realizadora Cristèle Alves Meira, que se inspirou em histórias poderosas e misteriosas ouvidas na sua infância em Trás-os-Montes, constrói uma narrativa onde o sobrenatural é uma parte intrínseca da cultura e da vida quotidiana, não um elemento estranho ou puramente de terror.

O filme aborda a dicotomia entre o real e o imaginário, o sagrado e o profano, a tradição e a modernidade, sob o prisma do olhar infantil e da observação. A câmara frequentemente posiciona-se ao nível dos olhos de Salomé, reforçando o seu protagonismo e a ideia de que o público vê o mundo através das suas lentes. A religiosidade popular, que mistura o catolicismo conservador com um xamanismo de crenças em espíritos, maldições e mandingas, é um pilar fundamental da trama. A realizadora explora a coexistência da superstição e da religião oficial, retratando um sincretismo que é característico da cultura transmontana.

Explicação Detalhada do Final

O final de "Alma Viva" é um dos pontos mais intrigantes e abertos a interpretação do filme. A pequena Salomé, impulsionada pelo que acredita ser o espírito da avó, decide agir. A avó, vista como bruxa na aldeia, era desprezada por alguns e talvez até tenha sido vítima de um "mau-olhado" ou feitiçaria, como sugere o enredo. O clímax envolve Salomé a tentar vingar a avó, nomeadamente contra uma vizinha, Gracinda (Marta Quina), que a menina suspeita ter envenenado a avó.

Numa cena que mistura o grotesco com o realismo fantástico, Salomé realiza uma "chacina" de galinhas na capoeira da vizinha, um ato que assume contornos de um ritual de possessão ou de uma vingança mística. Esta ação pode ser interpretada de múltiplas formas: pode ser a manifestação literal do espírito vingativo da avó a possuir Salomé; pode ser o resultado do luto e do trauma da menina, que canaliza a raiva e a dor num ato simbólico; ou pode ser uma combinação de ambos, onde a crença no sobrenatural é tão forte que se torna uma realidade para Salomé e, por extensão, para a aldeia. A cena da menina a ver o rosto da avó projetado sobre o seu no espelho reforça essa ambiguidade entre possessão e identificação profunda.

O filme, contudo, evita transformar-se num terror explícito, mantendo-se na chave do drama polido com toques de humor negro e realismo mágico. A cineasta Cristèle Alves Meira não oferece respostas definitivas, deixando o espectador navegar na incerteza entre a genuína existência do sobrenatural e a poderosa sugestão da crença cultural e do impacto psicológico na criança. O final, portanto, não é uma conclusão literal, mas sim a celebração da persistência das tradições e crenças em Trás-os-Montes e da forma como estas moldam a perceção da realidade e do luto, especialmente através dos olhos de uma criança sensível e profundamente ligada às suas raízes. A "vingança" de Salomé é, em última análise, uma forma de preservar a "alma viva" da avó na memória e nas práticas da aldeia.

Elenco e Atuações de Destaque

Um dos maiores trunfos de "Alma Viva" reside na autenticidade das suas atuações, resultado de um elenco que mistura atores profissionais com muitos não profissionais, residentes da aldeia onde o filme foi rodado. No centro da narrativa está Lua Michel, a filha da realizadora Cristèle Alves Meira, que entrega uma performance magnética e arrebatadora como Salomé. A sua capacidade de transitar da leveza descontraída ao drama intenso é notável, carregando o peso da narrativa centrada na sua personagem. Lua Michel foi merecidamente distinguida com o prémio de Melhor Atriz Principal nos Prémios Sophia e o prémio revelação no Festival Caminhos do Cinema Português, além de Melhor Atriz no Mediterrane Film Festival.

Ao seu lado, a veterana Ana Padrão brilha no papel de Fátima, uma das adultas em conflito, e a sua atuação valeu-lhe o prémio de Melhor Atriz Secundária nos Prémios Sophia e o prémio de interpretação secundária no Festival Caminhos do Cinema Português. Ester Catalão, no papel da avó, embora com menos tempo de ecrã devido à premissa, estabelece a forte ligação com Salomé que impulsiona a trama. O elenco conta ainda com Jacqueline Corado (Aida), Duarte Pina (Dantas), Arthur Brigas (Joaquim), Catherine Salée (Cathie) e Marta Quina (Gracinda), que contribuem para um retrato vívido e por vezes caótico das dinâmicas familiares.

Curiosidades e Bastidores

  • **Origens Pessoais:** "Alma Viva" é uma obra profundamente pessoal para Cristèle Alves Meira. O filme foi integralmente rodado em Junqueira, no concelho de Vimioso, Trás-os-Montes, a aldeia natal da avó da realizadora, que serviu de inspiração direta para a história e para os ambientes.
  • **Experiência Traumática:** A inspiração para o enredo veio de um episódio traumático na vida de Alves Meira, quando, aos 20 anos, a morte da sua avó resultou numa disputa familiar pelos custos do funeral e da sepultura, levando a que o corpo não fosse enterrado durante dois anos.
  • **Casting Familiar e Local:** A realizadora tomou a decisão "arrisada" de escalar a sua própria filha, Lua Michel, para o papel principal de Salomé, uma aposta que se revelou um sucesso retumbante. Além de atores profissionais, Cristèle Alves Meira recorreu a muitos não profissionais, a maioria residentes da aldeia, o que confere uma autenticidade inegável ao filme.
  • **Co-produção Internacional:** Apesar de ser um filme português na sua essência, "Alma Viva" é uma co-produção entre Portugal (Midas Filmes), França (Fluxus Films) e Bélgica (Entre Chien et Loup), o que reflete a origem luso-francesa da realizadora e a complexidade do financiamento cinematográfico.
  • **Filmagens e Estilo:** A direção de fotografia de Rui Poças, com a sua sensibilidade para a luz disponível, e a música de Amine Bouhafa, com arranjos folk, foram cruciais para a atmosfera do filme, realçando o caráter de simplicidade do vilarejo e a naturalidade do contacto com o mundo dos vivos e dos mortos.

Polêmicas e Interpretações Conflitantes

Embora "Alma Viva" tenha sido amplamente elogiado, algumas críticas apontam para certas particularidades que geram discussão. Um crítico mencionou duas cenas que considerou "exageradas" (sem, contudo, descartar a possibilidade de ocorrerem na realidade), referindo-se à discussão acesa entre os irmãos na presença do caixão da mãe e ao momento escolhido para o cortejo fúnebre. Estas cenas, embora possam parecer caricatas para alguns, são defendidas como uma forma de intensificar as ligações familiares e evidenciar a agressividade entre as personagens, mantendo um tom de realismo que se funde com o dramático.

Outro ponto de debate é a forma como o filme lida com o sobrenatural. Alguns críticos notam que a realizadora "falha em tentar por vezes transformar o longa em terror", sugerindo que, embora flerte com o género, não se compromete totalmente com ele, preferindo manter-se no drama polido. No entanto, essa abordagem pode ser vista como uma força, pois permite que o sobrenatural seja uma crença cultural naturalizada, em vez de um elemento estranho. A "possessão" de Salomé é interpretada por alguns como a manifestação do luto e do trauma infantil, enquanto para outros é a expressão genuína da crença local em espíritos e bruxaria. Essa ambiguidade intencional contribui para a riqueza interpretativa do filme, que navega entre o realismo social e o realismo mágico, sem se prender a um género único.

Houve também uma crítica de um leitor que expressou desagrado pela cena da "pesca à bomba", questionando a sua veracidade e preocupando-se com a possibilidade de danos a peixes para a realização da cena. Embora a cena seja breve, ilustra a crueza da vida rural e as tensões que podem surgir entre os costumes e a sensibilidade moderna.

Recepção da Crítica e do Público

“Alma Viva” foi recebido com grande entusiasmo pela crítica nacional e internacional, bem como por parte do público, alcançando um notável consenso sobre a sua qualidade. O filme estreou na prestigiada Semana da Crítica do Festival de Cinema de Cannes em 2022, um feito significativo para uma primeira longa-metragem. A sua relevância foi sublinhada pela Academia Portuguesa de Cinema ao escolhê-lo como candidato de Portugal para uma nomeação ao Óscar de Melhor Filme Internacional em 2023.

O filme tornou-se o mais premiado na 12ª edição dos Prémios Sophia, os prémios nacionais de cinema de Portugal, onde conquistou as estatuetas de Melhor Filme, Melhor Argumento Original, Melhor Caracterização e Efeitos Especiais, e Melhor Direção de Fotografia para Rui Poças. Lua Michel e Ana Padrão também foram agraciadas com os prémios de Melhor Atriz Principal e Melhor Atriz Secundária, respetivamente. Além disso, “Alma Viva” foi distinguido com o Globo de Ouro de Portugal de Melhor Filme em 2023.

Internacionalmente, o filme continuou a recolher louvores, ganhando o prémio do júri no Festival de Cinema de Marraquexe (presidido por Paolo Sorrentino) e uma menção especial no Festival de Cinema de Amiens, em França. No Festival Caminhos do Cinema Português, recebeu os prémios de melhor realização, argumento original, interpretação secundária para Ana Padrão, o prémio revelação para Lua Michel e o prémio da Federação Internacional de Cineclubes. O diretor de fotografia Rui Poças e o compositor Amine Bouhafa, pela banda sonora, também receberam reconhecimento em diversos festivais, incluindo o Mediterrane Film Festival.

A crítica elogiou a originalidade e o caráter pessoal da obra, a sua capacidade de mergulhar na cultura transmontana com veracidade e o modo como mistura o realismo social com elementos de realismo fantástico e humor negro. A performance de Lua Michel foi frequentemente apontada como um dos grandes destaques do filme. No entanto, em termos de bilheteria em Portugal, registrou 7.649 espectadores, um número modesto, mas dentro do esperado para filmes de arte e autor no mercado português. O legado de “Alma Viva” reside na sua capacidade de oferecer um retrato autêntico e poético da alma rural portuguesa, das mulheres que a habitam e da coexistência entre a modernidade, a superstição e a religião.

Fontes Pesquisadas

  • https://pt.wikipedia.org/wiki/Alma_Viva
  • https://jtm.com.mo/portugal/alma-viva-um-olhar-feminino-sobre-a-bruxaria-em-portugal/
  • https://fabricadoterror.com/critica-a-alma-viva-de-cristele-alves-meira/
  • https://memoria-ram.net/cinema/filmes/alma-viva/
  • https://www.theportugalnews.com/news/2022-11-21/portuguese-film-alma-viva-wins-international-awards/72005
  • https://www.semainedelacritique.com/en/director/cristele-alves-meira
  • https://www.vertentesdocinema.com/alma-viva-filme-2022/
  • https://www.magazine-hd.com/mhd/cinema/alma-viva-analise/
  • https://meioamargo.com/criticas/alma-viva-2022/
  • https://comunidadeculturaearte.com/alma-viva-de-cristele-alves-meira-a-assombracao-do-cinema-na-casa-das-bruxas/
  • https://www.screendaily.com/reviews/alma-viva-cannes-review/5170566.article
  • https://theplaylist.net/alma-viva-unearths-the-horror-and-magic-within-families-cannes-review-20220521/
  • https://cinecartaz.publico.pt/filme/alma-viva-403429
  • https://www.imovision.com.br/motivos-para-assistir-alma-viva/
  • https://midasfilmes.com/filmes/alma-viva/
  • https://www.adorocinema.com/filmes/filme-284980/elenco/
  • https://lusojornal.com/cinema-mais-tres-premios-internacionais-para-alma-viva-de-cristela-alves-meira/
  • https://forumluisatodi.pt/evento/alma-viva/
  • https://www.rtp.pt/filmes/?t=1364
  • https://www.timeout.pt/lisboa/pt/cinema/alma-viva
  • https://cnnportugal.iol.pt/alma-viva/cinema/filme-alma-viva-de-cristele-alves-meira-soma-mais-dois-premios-internacionais/20221121/637b75290cf2c62580749a0e
  • https://metropolis.com.pt/2025/02/12/alma-viva-primeira-longa-metragem-de-cristele-alves-meira/
  • https://camaraportuguesa.com.br/filme-alma-viva-e-o-candidato-de-portugal-para-o-oscar/
  • https://en.wikipedia.org/wiki/2022_Festival_du_nouveau_cin%C3%A9ma
  • https://www.primevideo.com/-/pt/detail/Alma-Viva/0S77B5XF25R895H40R12X8N4F9
  • https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2023/07/alma-viva-perturba-com-protagonista-sonambula-e-complexidade-humana.shtml
  • https://generamma.com/alma-viva/

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