O Club Atlético Platense, tradicional instituição do futebol argentino sediada em Vicente López (Grande Buenos Aires), vive um período de consolidação na elite da Liga Profesional de Fútbol após o histórico vice-campeonato da Copa de la Liga de 2023. Conhecido mundialmente como "El Calamar", o clube concilia uma rica mística de resistência urbana com o desafio contemporâneo de se modernizar e rivalizar com as potências econômicas do futebol sul-americano.
História do Clube: A Gênese de uma Identidade Única
A certidão de nascimento do Club Atlético Platense está indissociavelmente ligada à poeira das pistas de turfe e à audácia juvenil do início do século XX. Em 25 de maio de 1905, um grupo de jovens do bairro de Recoleta, em Buenos Aires, reuniu-se com o firme propósito de fundar um clube de futebol. O grande obstáculo para a concretização do plano era de ordem puramente financeira: faltavam fundos para a compra de bolas, camisas e o livro de atas oficial.
A solução para o impasse surgiu no Hipódromo de Palermo. Os jovens decidiram apostar seus escassos recursos em um cavalo chamado Gay Hermit, pertencente ao prestigiado haras Platense. Contra os prognósticos, o cavalo venceu a corrida, rendendo um dividendo generoso. Em sinal de profunda gratidão à fonte de sua súbita fortuna, os fundadores batizaram a nova agremiação como Club Atlético Platense. As cores originais do clube — o marrom e o branco — foram diretamente herdadas da jaqueta (farda) usada pelo jóquei de Gay Hermit naquela tarde vitoriosa.
Os primeiros anos do Platense foram marcados por uma constante peregrinação geográfica. Inicialmente sediado em Recoleta, o clube migrou para Retiro e, posteriormente, estabeleceu suas raízes mais profundas no bairro de Saavedra, no limite norte da cidade de Buenos Aires. Foi na famosa esquina das ruas Manuela Pedraza e Crámer que o Platense construiu seu templo espiritual, inaugurado em 1917, transformando-se no coração pulsante da identidade barulhenta e suburbana da região.
A Origem do Apelido "El Calamar"
Um dos aspectos mais fascinantes da história do Platense é a origem de seu icônico apelido. Ao contrário do que muitos supõem, "Calamar" (Lula, em espanhol) não decorre de nenhuma proximidade direta com o oceano. Em 1908, o jornalista e escritor uruguaio Antonio Palacio Zino, ao redigir uma crônica sobre uma partida do Platense disputada sob forte chuva em um gramado completamente lamacento, escreveu que os jogadores se moviam com extrema facilidade e destreza naquele pântano, "como calamares em seu elemento" (ou "como calamares en su tinta").
A metáfora poética e bem-humorada de Palacio Zino capturou perfeitamente o espírito resiliente da equipe. Rapidamente, a torcida e a imprensa adotaram o epíteto. Desde então, a cor marrom e a figura do molusco tornaram-se símbolos inseparáveis do clube.
---Eras de Ouro e Campanhas Históricas
Ao longo de sua trajetória secular, o Platense alternou períodos de brilho técnico refinado com epopeias dramáticas de sobrevivência na primeira divisão, o que lhe rendeu outra fama folclórica: a de ser indestrutível diante do rebaixamento (o "fantasma do descenso").
O Esquadrão de 1949 e a Excursão Europeia de 1951
A segunda metade da década de 1940 e o início dos anos 1950 representaram o auge técnico do futebol do Platense. Em 1949, a equipe realizou uma campanha memorável no campeonato da Primeira Divisão argentina, terminando em um histórico segundo lugar compartilhado com o River Plate (perdendo o desempate oficial pela vice-liderança). Naquela temporada, o "Calamar" aplicou uma goleada acachapante de 4 a 0 sobre o Boca Juniors na Bombonera, um feito que ecoa até hoje nos livros de história do futebol portenho.
Essa era de ouro credenciou o Platense a realizar uma das maiores façanhas de sua história: a gira europeia de 1951. Em pleno inverno do Velho Continente, o clube argentino desafiou as potências locais. O ponto alto da excursão ocorreu no dia 14 de fevereiro de 1951, no lendário San Siro, onde o Platense derrotou o poderoso Milan por 3 a 2. O time italiano contava em suas fileiras com o lendário trio sueco "Gre-No-Li" (Gunnar Gren, Gunnar Nordahl e Nils Liedholm). Pouco depois, em Madrid, o Platense também goleou a Lazio por 4 a 0, consolidando seu prestígio internacional.
O Drama do Metropolitano de 1967
Em 1967, sob a direção tática do lendário Ángel Labruna, o Platense esteve a um passo de alcançar sua primeira final de campeonato nacional na era profissional. No torneio Metropolitano daquele ano, a equipe praticou um futebol ofensivo e vistoso, alcançando a semifinal contra o Estudiantes de La Plata de Osvaldo Zubeldía.
A partida, disputada em campo neutro no estádio do Boca Juniors, é considerada um dos jogos mais dramáticos da história do futebol argentino. O Platense vencia por 3 a 1 e parecia ter a vaga assegurada na final. No entanto, em uma reação implacável e controversa, o Estudiantes conseguiu virar o placar para 4 a 3. A eliminação dolorosa custou ao clube a chance de disputar o título, mas aquela equipe ficou eternizada na memória dos torcedores pela qualidade de seu jogo.
Os "Milagres" contra o Rebaixamento nos Anos 70 e 80
Se o Platense não erguia taças de campeão nacional, ele se especializou em outro tipo de drama: as finais pela permanência. Durante as décadas de 1970 e 1980, o clube protagonizou salvamentos que desafiaram a lógica matemática.
- O desempate de 1977 contra o Lanús: Após uma partida tensa que terminou empatada, a permanência na elite foi decidida em uma dramática disputa de pênaltis que durou 22 cobranças. O goleiro do Platense, Miguelucci, defendeu o último chute, rebaixando o Lanús.
- A façanha de 1987 contra o Temperley: Precisando vencer o campeão River Plate no Monumental de Núñez na última rodada para forçar um jogo desempate contra o Temperley, o Platense perdia por 2 a 0. Em uma reação heroica comandada por Miguel Ángel Gambier, o "Calamar" virou para 3 a 2 e, posteriormente, venceu o desempate contra o Temperley, mantendo-se na primeira divisão.
O Êxodo de Saavedra e a Fortaleza de Vicente López
Para compreender a identidade do Platense, é indispensável analisar a sua geografia. Por mais de meio século, o clube esteve sediado no coração de Saavedra. Contudo, em 1971, em meio a crises financeiras e pressões políticas e imobiliárias durante a ditadura militar de Alejandro Agustín Lanusse, o Platense perdeu o terreno histórico de Manuela Pedraza e Crámer. O antigo estádio de madeira foi demolido, abrindo uma ferida profunda na alma do torcedor.
Durante oito anos, o Platense viveu como um clube "cigano", mandando seus jogos nos estádios de San Lorenzo, Atlanta ou Tigre. Esse exílio forçado terminou em 22 de julho de 1979, com a inauguração do Estadio Ciudad de Vicente López.
Localizado na província de Buenos Aires, logo após a Avenida General Paz (que divide a capital argentina da província), o novo estádio selou a transição do Platense de um clube puramente portenho para uma instituição de forte apelo na zona norte do conurbano bonaerense. O estádio, que começou com capacidade reduzida, foi sendo ampliado ao longo das décadas e hoje é uma praça esportiva moderna, com capacidade para aproximadamente 34.000 espectadores.
---Principais Ídolos e Técnicos que Marcaram Época
A galeria de heróis do Platense é repleta de personagens de técnica refinada, goleiros heróicos e treinadores que revolucionaram a tática do futebol argentino.
Ídolos Históricos
- Julio Cozzi (goleiro): Apelidado de "El Gigante de América", Cozzi é amplamente considerado um dos maiores goleiros da história do futebol sul-americano. Defendeu as cores do Platense em duas passagens (1941-1949 e 1956-1959). Foi o goleiro titular da Seleção Argentina campeã sul-americana em 1947.
- Vicente Sayago (atacante): É o maior artilheiro da história do Platense na era profissional, com 75 gols marcados entre as décadas de 1940 e 1950. Sua fidelidade à camisa marrom o transformou em um símbolo eterno de entrega.
- Santiago Vernazza (meio-campista/atacante): Revelado pelo clube, "Guito" Vernazza foi um ponta-direita de chute devastador. Brilhou no Platense no final dos anos 40 antes de se transferir para o River Plate e, posteriormente, para o futebol italiano (Palermo e Milan).
- Daniel Vega (atacante): Ídolo da era moderna. "Trapito" Vega é o maior artilheiro histórico do clube somando todas as categorias profissionais (86 gols). Ele liderou o Platense nos momentos mais difíceis da história recente (na terceira divisão) e encerrou sua carreira como o grande herói do acesso de volta à elite em 2021.
- David Trezeguet (atacante): Embora tenha alcançado a glória mundial defendendo a Seleção Francesa e a Juventus, o campeão do mundo de 1998 iniciou sua trajetória profissional nos gramados portenhos vestindo a camisa do Platense, estreando no time principal em 1993 com apenas 15 anos.
Técnicos Memoráveis
- Ángel Labruna: Uma das maiores lendas do futebol argentino, Labruna teve uma passagem revolucionária como treinador do Platense na década de 1960. Ele deu ao clube uma mentalidade vencedora e ofensiva, culminando na histórica campanha de 1967.
- Martín Palermo: O maior artilheiro da história do Boca Juniors inscreveu seu nome na história do Platense como treinador. Em 2023, sob o seu comando tático e motivacional, o "Calamar" superou todas as expectativas e alcançou a final da Copa da Liga Profissional, um feito inédito para o clube no formato de copas nacionais modernas.
As Grandes Rivalidades
O Platense possui duas rivalidades intensas, cada uma com sua própria raiz sociológica e geográfica.
1. O Clássico do Bairro: Platense vs. Argentinos Juniors
Este é o clássico mais tradicional e carregado de rivalidade urbana. A disputa remonta à proximidade geográfica original entre os bairros de Saavedra (reduto do Platense) e La Paternal/Villa Crespo (território do Argentinos Juniors). Embora o Platense tenha se mudado para Vicente López, a animosidade histórica não arrefeceu.
A rivalidade atingiu seu ponto de ebulição na década de 1970 e 1980, quando ambas as equipes se enfrentavam frequentemente em partidas dramáticas que decidiam quem permaneceria na Primeira Divisão. Trata-se de um duelo de identidades portenhas muito marcadas, caracterizado pela disputa ferrenha pela hegemonia da fronteira norte-oeste da capital.
2. O Clássico da Zona Norte: Platense vs. Tigre
Com a mudança definitiva do Platense para Vicente López, o confronto contra o Club Atlético Tigre (sediado em Victoria, San Fernando) ganhou contornos de um clássico regional genuíno da Zona Norte da Grande Buenos Aires.
As duas torcidas disputam o controle territorial e simbólico da região norte do conurbano. Os confrontos entre Platense e Tigre são historicamente tensos, cercados de forte esquema de segurança e grande apelo popular na região do Rio da Prata. O duelo transcende o futebol, refletindo rivalidades históricas entre os municípios vizinhos.
---Contexto e Momento Atual
Após amargar 22 anos nas divisões de acesso da Argentina — incluindo um período doloroso na Primera B Metropolitana (terceira divisão) —, o Platense retornou à Primeira Divisão em janeiro de 2021, sob o comando técnico de Juan Manuel Llop e a liderança espiritual de Daniel Vega em campo.
O ano de 2023 representou o ápice desse processo de reconstrução. Com uma gestão financeira austera liderada pelo presidente Sebastián Ordóñez, e sob o comando de Martín Palermo no banco de reservas, o Platense chocou o futebol argentino ao chegar à final da Copa de la Liga Profesional de 2023. O time eliminou gigantes como o Huracán e o Godoy Cruz nas fases de mata-mata, caindo apenas na grande final diante do Rosario Central (1-0), em um jogo tenso no Estádio Único Madre de Ciudades, em Santiago del Estero.
A campanha de 2023 garantiu ao Platense não apenas o respeito nacional, mas também um colchão de pontos confortável na tabela de promedios (média de pontos que define o rebaixamento na Argentina). Em 2024, após a saída de Palermo, o clube buscou manter a regularidade na elite do futebol argentino, apostando em comissões técnicas focadas na organização tática e na revelação de novos talentos de suas divisões de base, como a dupla de treinadores Favio Orsi e Sergio Gómez.
Recentemente, a diretoria do Platense anunciou um ambicioso plano de modernização do Estadio Ciudad de Vicente López, visando a melhoria das cabines de imprensa, renovação dos assentos e ampliação do sistema de iluminação de LED, adequando o "Templo do Marrom" aos padrões internacionais exigidos pela Conmebol para futuras competições continentais.
---Galeria de Títulos e Conquistas de Destaque
Apesar de não ostentar um título de campeão da Primeira Divisão profissional em seu palmarés, a sala de troféus do Platense reflete uma história rica de conquistas em torneios de acesso, copas de transição e competições oficiais da era amadora.
| Competição / Distinção | Status / Título | Temporadas / Anos |
|---|---|---|
| Primera División (Era Amadora) | Vice-campeão | 1916 |
| Primera División (Era Profissional) | Vice-campeão (compartilhado) | 1949 |
| Copa de la Liga Profesional | Vice-campeão | 2023 |
| Segunda Divisão (Primera B / Primera Nacional) | Campeão | 1976 (Torneo Primeros Equipos) |
| Primera B Metropolitana (Terceira Divisão) | Campeão | 2005/06, 2017/18 |
| Copa de Competencia Jockey Club (Era Amadora) | Vice-campeão | 1918 |
| Torneo Reducido de Ascenso (Acesso à Primeira) | Vencedor | 1976, 2020/21 |
Fontes Pesquisadas
- Página Oficial do Club Atlético Platense: cap.org.ar — Histórico de fundação, dados patrimoniais e cobertura das obras do estádio de Vicente López.
- Asociación del Fútbol Argentino (AFA): Arquivos históricos de torneios e súmulas oficiais das eras amadora e profissional.
- Diário Olé (Argentina): Cobertura jornalística do vice-campeonato da Copa de la Liga de 2023 e notícias sobre o elenco atual em 2024.
- El Gráfico: Edições históricas (gira europeia de 1951, o clássico de 1967 contra o Estudiantes e perfis biográficos de Julio Cozzi).
- Acervo Histórico do Bairro de Saavedra: Registros de jornais de época detalhando a demolição do estádio de Manuela Pedraza e Crámer.



