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Newell's Old Boys (Argentina)
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O Club Atlético Newell's Old Boys, sediado na fervorosa cidade de Rosário, é uma das instituições mais singulares e influentes do futebol argentino. Militando na Primera División da Liga Profesional de Fútbol (AFA), o clube vive atualmente um período de reestruturação esportiva e financeira, buscando reencontrar a consistência competitiva sob a eterna sombra romântica de suas lendárias divisões de base — que revelaram nomes como Lionel Messi e Marcelo Bielsa — e o sonho latente de repatriar seus maiores heróis internacionais.

História do Clube

1. Origens e Fundação: O Legado Pioneiro de Isaac Newell

A gênese do Club Atlético Newell's Old Boys confunde-se com a própria história da introdução do futebol na República Argentina. No final do século XIX, a cidade portuária de Rosário, província de Santa Fé, fervilhava como um polo comercial e ferroviário de forte influência britânica. É nesse cenário que surge a figura de Isaac Newell (1853–1907), um jovem inglês natural de Strood, Kent, que desembarcou na Argentina aos 16 anos de idade.

Dotado de um espírito pedagógico vanguardista, Newell fundou, em 1884, o Colegio Comercial Anglicano Argentino. Rompendo com as tradições educacionais rígidas da época, ele importou da Europa o conceito da educação física integrada ao currículo acadêmico, introduzindo uma bola de couro e as regras originais do futebol association aos seus alunos. A mistura de cores que viria a definir a identidade do clube nasceu no pátio desse colégio: o vermelho, extraído da bandeira do Reino Unido (pátria de Isaac), e o preto, em homenagem à bandeira do Império Alemão, terra natal de sua esposa e cofundadora da escola, Anna Margarethe Jockinsen.

Em 3 de novembro de 1903, encabeçado por Claudio Newell (filho de Isaac), um grupo de ex-alunos, professores e entusiastas reuniu-se para institucionalizar a prática esportiva que já dominava a instituição. Nascia assim o Club Atlético Newell's Old Boys (os "Velhos Garotos de Newell"), uma homenagem direta ao mestre pioneiro. O clube rapidamente se estabeleceu como uma potência local, sendo um dos fundadores da Liga Rosarina de Fútbol em 1905, onde conquistou a histórica primeira edição da Copa Santiago Pinasco.

Fundadores e primeiros atletas do Newell's Old Boys no início do século XX, trajando o clássico uniforme metade vermelho, metade preto.
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2. Eras de Ouro e Campanhas Históricas

A trajetória do Newell's Old Boys é pontuada por momentos de refinamento técnico extremo, um futebol vistoso e conquistas que desafiaram a hegemonia dos clubes de Buenos Aires (os chamados "Cinco Grandes").

A Glória de 1974: O Primeiro Grito Profissional em Solo Rival

Embora tenha conquistado copas nacionais na era amadora e no início do profissionalismo (como a Copa de Honor de 1911 e a Copa Adrián C. Escobar de 1949), o primeiro título da Primeira Divisão da AFA sob o formato profissional ocorreu no Torneio Metropolitano de 1974.

A consagração teve contornos dramáticos e quase mitológicos. No quadrangular final, em 2 de junho de 1974, o Newell's enfrentou seu arquirrival, o Rosario Central, no estádio deste último (Arroyito). O empate bastava para a Lepra sagrar-se campeã, mas o Central abriu 2 a 0. Em uma reação histórica, o Newell's reduziu a desvantagem e, aos 36 minutos do segundo tempo, Mario Nicasio Zanabria desferiu um chute memorável de perna esquerda, estufando as redes e selando o empate por 2 a 2. O Newell's dava sua primeira volta olímpica oficial justamente na casa de seu maior rival.

A Era Marcelo Bielsa (1990–1992): Identidade e Revolução Tática

Se existe um período que define a filosofia e a mística do Newell's Old Boys, este período é o início dos anos 1990, sob o comando do então jovem treinador Marcelo "El Loco" Bielsa. Promovido das categorias de base — onde havia feito um trabalho de mapeamento minucioso de jovens talentos por todo o interior do país —, Bielsa montou uma equipe que jogava com intensidade física sufocante, marcação sob pressão e transições verticais implacáveis.

  • Campeonato de 1990/1991: O Newell's venceu o Torneio Apertura de 1990 e enfrentou o Boca Juniors (vencedor do Clausura 1991) em uma final unificada de ida e volta. Após vencer por 1 a 0 em Rosário e perder pelo mesmo placar na mítica Bombonera debaixo de uma chuva torrencial, a equipe de Bielsa sagrou-se campeã na disputa por pênaltis, com atuação consagradora do goleiro Norberto Scoponi.
  • Torneio Clausura de 1992: Praticando um futebol ainda mais refinado, a equipe faturou o Clausura de 1992 sem contestações, consolidando nomes como Mauricio Pochettino, Eduardo Berizzo, Julio Zamora e Gerardo Martino.
  • As Campanhas na Copa Libertadores (1988 e 1992): O Newell's bateu às portas da glória continental por duas vezes. Em 1988, sob a batuta de José Yudica, caiu na final diante do Nacional do Uruguai. Em 1992, comandado por Bielsa, chegou à finalíssima contra o lendário São Paulo de Telê Santana. Após vencer por 1 a 0 em Rosário e sofrer o mesmo placar no Morumbi lotado, os rosarinos perderam a taça nas cobranças de pênaltis. Apesar do vice-campeonato, o impacto tático e cultural daquele time ecoa até hoje no futebol mundial.

O Renascimento de 2013: O Retorno de "Tata" Martino

Em 2012, o Newell's flertava perigosamente com o rebaixamento devido a médias de pontuação baixas (promedios). Foi quando o maior ídolo em campo da história do clube, Gerardo "Tata" Martino, recusou propostas milionárias do exterior para assumir o comando técnico por puro amor à instituição.

Martino não apenas salvou o clube do rebaixamento, mas implementou um futebol de posse de bola, técnica refinada e valorização do espaço que encantou a América do Sul. Liderado dentro de campo pelo retornado Maxi Rodríguez, pelo zagueiro Gabriel Heinze e pelo artilheiro Ignacio Scocco, o Newell's conquistou o Torneio Final de 2013 e alcançou as semifinais da Copa Libertadores do mesmo ano, sendo eliminado nos pênaltis pelo Atlético Mineiro de Ronaldinho Gaúcho em uma eliminatória épica.

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3. Contexto e Momento Atual do Time

O Newell's Old Boys atravessa um período de transição complexo, típico dos clubes de médio a grande porte do interior argentino que lutam para competir financeiramente com os gigantes portenhos e o poderio econômico dos clubes brasileiros na Copa Libertadores e Copa Sudamericana.

Recentemente, o clube tem enfrentado instabilidade no comando técnico. Após a saída de Gabriel Heinze do cargo de treinador ao fim da temporada de 2023, a diretoria buscou diferentes perfis táticos, passando por Maurício Larriera e Sebastián Méndez, até recorrer a soluções interinas da casa, como Ricardo Lunari, para tentar estabilizar a equipe na liga nacional em 2024. A falta de regularidade no campeonato doméstico tem afastado a equipe das posições de classificação para os torneios continentais da CONMEBOL.

Por outro lado, o Newell's continua sendo uma vitrine global graças às suas conexões históricas incomparáveis. Em 15 de fevereiro de 2024, o clube participou de um amistoso histórico contra o Inter Miami no DRV PNK Stadium, na Flórida. A partida foi desenhada como uma celebração a Lionel Messi (que jogou a juventude no Newell's antes de ir para o Barcelona) e ao técnico Gerardo Martino (então no clube norte-americano). O empate em 1 a 1 serviu para recolocar a marca internacional da Lepra em evidência global, reforçando o eterno apelo romântico de um possível retorno de Messi para encerrar sua carreira profissional em Rosário.

O amistoso internacional contra o Inter Miami em 2024 reafirmou a força global da marca "Newell's", umbilicalmente ligada à figura de Lionel Messi.
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4. Principais Ídolos e Técnicos que Marcaram Época

A galeria de heróis do Newell's Old Boys é vasta e reverenciada com fervor quase religioso por seus torcedores:

  • Marcelo Bielsa: O homem que transformou a mentalidade do clube. Seu nome batiza o próprio estádio da equipe desde 2009. Suas ideias táticas nasceram no Parque Independência e hoje influenciam técnicos do calibre de Pep Guardiola e Mauricio Pochettino.
  • Gerardo "Tata" Martino: É o jogador com mais partidas disputadas na história do clube (505 jogos) e conquistou quatro títulos nacionais (três como jogador e um como técnico), sendo a síntese perfeita do estilo de jogo técnico e inteligente que o Newell's prega.
  • Diego Armando Maradona: Embora tenha disputado apenas 5 partidas oficiais pelo clube entre 1993 e 1994, sua passagem pela Lepra é tratada como um evento místico. Maradona escolheu o Newell's para fazer seu retorno ao futebol argentino antes da Copa do Mundo de 1994, gerando treinos abertos com mais de 40 mil pessoas no estádio.
  • Lionel Messi: Embora nunca tenha estreado profissionalmente pelo clube, Messi jogou nas divisões de base do Newell's (a famosa "Máquina del '87") de 1994 a 2000, anotando quase 500 gols em torneios infantis. Sua ligação afetiva com o clube é pública e o Newell's se orgulha de ser o "clube de infância" do maior jogador do século XXI.
  • Maxi Rodríguez: Conhecido como "La Fiera", Maxi é o símbolo moderno da lealdade ao clube. Revelado no Parque, brilhou na Europa (Atlético de Madrid, Liverpool) e na Seleção Argentina, mas retornou no auge da carreira física em 2012 para salvar o clube do rebaixamento e guiá-lo ao título de 2013. Aposentou-se em 2021 em uma despedida emocionante que parou a cidade de Rosário.
  • Jorge Bernardo Griffa: Falecido em 2024, Griffa foi o maior descobridor de talentos da história do futebol argentino. Sob sua coordenação nas divisões de base do Newell's, foram revelados atletas como Valdano, Batistuta, Sensini, Pochettino, Samuel, Heinze e Maxi Rodríguez.
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5. Maiores Rivalidades: O Clásico Rosarino

Não há debate sociológico ou esportivo na Argentina que ignore a intensidade do Clásico Rosarino, o confronto entre Newell's Old Boys e Rosario Central. Trata-se da rivalidade urbana mais antiga, passional e polarizada do país fora da província de Buenos Aires.

A Origem dos Apelidos: Leprosos vs. Canallas

A identidade de ambos os clubes está umbilicalmente ligada aos apelidos nascidos na década de 1920. De acordo com a crônica histórica mais aceita, o hospital de isolamento Carrasco (que tratava de pacientes com hanseníase/lepra) organizou um jogo beneficente para arrecadar fundos. O Newell's Old Boys aceitou prontamente o convite para participar da partida de caridade. O Rosario Central, por sua vez, recusou-se a jogar.

A partir daquele episódio, os torcedores do Central apelidaram os rivais de "Leprosos" (Leprosos). Em contrapartida, os torcedores do Newell's responderam apelidando os rivais de "Canalhas" (Canallas), devido à recusa insensível em participar do ato beneficente. Com o passar das décadas, o que nasceu como insulto foi adotado com extremo orgulho por ambas as torcidas.

"Em Rosário não se vive o futebol; respira-se uma obsessão. O clássico divide famílias, dita o humor da semana e paralisa a cidade de uma maneira que Buenos Aires, com sua pulverização de clubes, jamais conseguirá compreender."
— Julio César "El Lopo" Villagra, cronista esportivo santafesino.

O "Banderazo": Um Ritual Único

Uma das manifestações de torcida mais impressionantes do mundo ocorre tradicionalmente nas quintas-feiras que antecedem o clássico de Rosário. Conhecido como "El Banderazo", o evento consiste na abertura dos portões do estádio Marcelo Bielsa para que dezenas de milhares de torcedores leprosos apoiem os jogadores durante um treino noturno leve. Sem jogo oficial, sem transmissão de TV aberta, o estádio lota apenas para demonstrar devoção absoluta às cores vermelha e preta antes do duelo contra o Central.

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6. Títulos, Taças e Medalhas de Destaque

Abaixo, detalhamos as conquistas de caráter nacional e de relevância histórica obtidas pelo Newell's Old Boys ao longo de sua trajetória oficial:

Competição Nível / Tipo Quantidade Anos das Conquistas
Primera División (AFA) Nacional (Liga) 6 Metropolitano 1974, Campeonato 1987/1988, Campeonato 1990/1991, Clausura 1992, Apertura 2004 e Torneo Final 2013.
Copa de Honor Municipalidad de Buenos Aires Nacional (Copa Nacional Amadora) 1 1911
Copa de Competencia de Primera División Nacional (Copa Asociación Amadora) 1 1913
Copa Dr. Carlos Ibarguren Nacional (Copa de Campeões de Ligas) 1 1921
Copa Adrián C. Escobar Nacional (Copa de Liga Profissional) 1 1949
Copa Santiago Pinasco / Copa Nicasio Vila Regional (Liga Rosarina - Era Amadora)* 15 1905, 1906, 1907, 1909, 1911, 1913, 1918, 1921, 1922, 1929, dentre outras edições de relevância histórica fundacional.

*Nota histórica: Os títulos da Liga Rosarina anteriores à integração total dos clubes de Rosário aos torneios da AFA (ocorrida em 1939) possuem alto valor documental para a historiografia do futebol argentino, embora não sejam computados como ligas nacionais unificadas.

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Fontes Pesquisadas

  • Asociación del Fútbol Argentino (AFA): Arquivos históricos de torneios e registros de filiação de clubes de Rosário (1939-presente).
  • Diario La Capital de Rosario: Hemeroteca digital e crônicas esportivas de época sobre o Clásico Rosarino e as campanhas de 1974, 1990 e 2013.
  • Revista El Gráfico: Edições especiais de cobertura das finais da Copa Libertadores de 1988 e 1992 e perfil tático do Newell's de Marcelo Bielsa.
  • "Pioneiros do Futebol Argentino": Registro documental sobre a família Newell e o Colegio Comercial Anglicano Argentino.
  • CONMEBOL: Relatórios oficiais de competições e o histórico de partidas internacionais do Newell's Old Boys.

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