O Club Atlético Los Andes, conhecido eternamente como "El Milrayitas", é uma das instituições mais tradicionais e socialmente representativas do futebol da Zona Sul da Grande Buenos Aires. Atualmente disputando a Primera B Metropolitana (a terceira divisão do futebol argentino para clubes diretamente filiados à AFA), o clube de Lomas de Zamora vive um momento de reconstrução institucional e esportiva, alimentado por uma torcida fervorosa e pela recente conquista do Torneio Apertura de 2024, que renovou a esperança de um breve retorno à Primera Nacional.
História do Clube: Origens e Fundação (1917)
A gênese do Club Atlético Los Andes remonta ao início do século XX, em uma Argentina que fervilhava com a consolidação do futebol como o grande esporte de massas. No dia 1º de janeiro de 1917, um grupo de jovens entusiastas de Lomas de Zamora reuniu-se com o propósito de fundar uma nova instituição desportiva e social que representasse o brio de sua vizinhança.
O nome escolhido para a agremiação carrega uma forte carga patriótica e histórica: Los Andes. A escolha foi uma homenagem direta à histórica travessia da Cordilheira dos Andes realizada pelo exército libertador do General José de San Martín, cujo centenário se celebrava exatamente naquele ano de 1917. Paralelamente, a façanha dos aeronautas Eduardo Bradley e Ángel María Zuloaga, que em 1916 cruzaram os Andes a bordo do balão "Eduardo Newbery", também serviu de inspiração para batizar o nascente clube.
Entre os fundadores mais proeminentes destacam-se nomes como Adolfo Lope, Marcos Panizzi e, fundamentalmente, Eduardo Gallardón. Este último não apenas foi um dos pioneiros na fundação, mas tornou-se o grande motor administrativo, social e espiritual do clube ao longo de décadas, razão pela qual o estádio do clube hoje carrega, com justiça, o seu nome.
As cores originais do clube passaram por transformações. Nos primeiros anos, a camisa ostentava listras verticais celestes e brancas. No entanto, por razões de filiação e para evitar semelhanças com outras equipes da época, em 1922 foi adotada a icônica e singular vestimenta que acompanha o clube até os dias atuais: uma camisa branca com finíssimas listras verticais vermelhas. Essa peculiaridade estética rendeu ao clube o seu apelido mais famoso e carinhoso: "Milrayitas" (Mil Listrinhas).
O Templo de Lomas: Estadio Eduardo Gallardón
Inaugurado em 28 de setembro de 1940, o Estadio Eduardo Gallardón é o coração pulsante do clube na Avenida Santa Fe. Com capacidade atual para aproximadamente 35.000 espectadores, trata-se de um dos maiores e mais imponentes estádios das categorias de acesso da Argentina.
O jogo inaugural ocorreu contra o Temperley, estabelecendo desde o primeiro dia de vida da praça esportiva a centralidade da maior rivalidade do clube. A construção do estádio foi uma verdadeira epopeia comunitária, liderada por Gallardón, onde sócios e vizinhos doaram materiais, recursos e horas de trabalho braçal para erguer as arquibancadas de cimento que hoje dominam a paisagem de Lomas de Zamora.
Eras de Ouro e Campanhas Históricas
A trajetória esportiva do Los Andes na elite do futebol argentino, embora intermitente, é repleta de momentos de imenso brilho técnico e façanhas contra as maiores potências do país.
A Ascensão de 1960: A Estreia na Elite
O primeiro grande marco do futebol do Los Andes ocorreu na temporada de 1960. Sob a direção técnica de Héctor D'Angelo, o clube conquistou o campeonato da Primera B (segunda divisão) ao derrotar o Talleres de Remedios de Escalada na última rodada, garantindo o histórico acesso à Primera División pela primeira vez. A equipe contava com figuras lendárias como o goleiro León Goldbaum e o artilheiro Ángel Reynoso.
O "Equipo de los Sueños" de 1968
O ponto alto da história futebolística do clube ocorreu durante o Campeonato Metropolitano de 1968. Dirigido pelo lendário treinador Ángel Tulio Zof, o Los Andes montou uma equipe que jogava um futebol vistoso, ofensivo e de refinada técnica individual. Aquele elenco ficou conhecido nacionalmente como "El Equipo de los Sueños" (O Time dos Sonhos).
Naquela campanha histórica, o Los Andes terminou em um surpreendente 6º lugar na Zona A (à frente de gigantes como o Boca Juniors). O ápice daquela campanha foi a histórica vitória por 3 a 1 contra o River Plate em pleno Monumental de Núñez, além de um categórico triunfo por 2 a 1 sobre o San Lorenzo de Almagro (que viria a ser o campeão invicto daquele torneio, conhecido como "Los Matadores"). A espinha dorsal daquele esquadrão contava com Abel Da Graca, Alberto Cardacci, Marcos Conigliaro e o genial Alfredo "Mono" Obberti, que sagrou-se artilheiro do campeonato com 13 gols.
O Retorno em 2000: A Epopeia sob o comando de Jorge Ginarte
Após décadas de trânsito pelas categorias de acesso, o Los Andes voltou a tocar o céu com as mãos na temporada 1999/2000. Sob a liderança tática e emocional de Jorge Ginarte, um dos maiores ídolos da história do clube, o "Milrayitas" fez uma campanha memorável na Primera B Nacional. No Reduzido pelo segundo acesso, eliminou potências do interior e enfrentou o Quilmes na final. Com um empate heroico por 1 a 1 no jogo de volta no estádio do Quilmes (gol de Fabio Pieters), o Los Andes carimbou seu retorno à divisão de elite do futebol argentino, desencadeando uma das maiores festas populares da história de Lomas de Zamora.
Principais Ídolos e Técnicos que Marcaram Época
- Alfredo "Mono" Obberti: Considerado por muitos o jogador de maior refinamento técnico a vestir a camisa vermelha e branca. Artilheiro implacável e criador de jogadas magistral, foi a estrela do time de 1968 antes de brilhar no Newell's Old Boys e no Grêmio (Brasil).
- Jorge Ginarte: Conhecido carinhosamente como "El Gordo", Ginarte é a personificação do sentimento do Los Andes. Foi jogador do clube e, como treinador, comandou a equipe em múltiplas passagens, sendo o arquiteto do histórico acesso à primeira divisão no ano de 2000.
- Gilmar Villagrán: Ponta-esquerda uruguaio de habilidade desconcertante e cobranças de falta cirúrgicas. Defendeu o clube na década de 1980 e início de 1990, tornando-se um dos maiores artilheiros estrangeiros da instituição e um ídolo cultuado pela torcida.
- Abel Da Graca: Símbolo de raça, liderança e fidelidade ao clube. Disputou centenas de partidas pelo Los Andes durante as décadas de 1960 e 1970, sendo peça-chave tanto no setor defensivo quanto no meio-campo.
- Orlando Romero: O "Chango" foi um dos jogadores mais talentosos surgidos nas divisões de base do clube, brilhando nos anos 1970 com dribles curtos e assistências memoráveis.
As Maiores Rivalidades: O Sangue Quente da Zona Sul
O Los Andes está inserido em uma das regiões de maior densidade futebolística do planeta, o que propicia rivalidades locais de altíssima combustão social e esportiva.
O Clássico de Lomas de Zamora: Los Andes vs. Temperley
O verdadeiro e mais fervoroso rival do Los Andes é o Club Atlético Temperley. Este confronto é conhecido como o "Clásico de Lomas de Zamora" ou "Clásico de la Zona Sur". A rivalidade é estritamente de proximidade geográfica e raízes sociais comuns: as sedes sociais e estádios de ambos os clubes estão separados por pouquíssimos quilômetros ao longo da histórica Avenida Hipólito Yrigoyen.
O primeiro confronto oficial ocorreu em 1923, e desde então, cada partida entre ambos é vivida como uma verdadeira batalha de identidade local. Ambas as torcidas disputam ferreamente a supremacia territorial da região, dividindo bairros, escolas e famílias em Lomas de Zamora.
A Rivalidade com o Banfield
Outro rival histórico de enorme relevância é o Club Atlético Banfield. Embora o clássico histórico do Banfield seja o Lanús, a proximidade com o Los Andes (cujas sedes pertencem ao mesmo partido administrativo de Lomas de Zamora) faz com que os duelos entre o "Taladro" e o "Milrayitas" carreguem uma enorme carga de tensão e paixão local, frequentemente chamados de "Clásico del Partido de Lomas".
O Momento Atual: Lutas, Superação e a Busca pelo Retorno
Nas últimas décadas, o Los Andes tem enfrentado sérias dificuldades financeiras e institucionais, que refletiram em rebaixamentos desportivos. O clube hoje milita na Primera B Metropolitana, a terceira divisão do futebol argentino.
No entanto, o ano de 2024 trouxe um sopro de esperança e renovação para a imensa massa de torcedores. Sob a direção técnica de Fernando Ruiz, o Los Andes realizou uma campanha sólida e conquistou o Torneio Apertura de 2024 da Primera B Metropolitana após uma vitória dramática por 3 a 2 contra o Cañuelas. Esta conquista garantiu ao clube uma vaga na grande final pelo acesso direto à Primera Nacional (segunda divisão), reacesando a paixão popular em Lomas de Zamora e demonstrando a resiliência de uma instituição que se recusa a perder seu protagonismo histórico.
Institucionalmente, o clube também passa por um processo de saneamento de suas finanças e de fortalecimento de seu papel social, oferecendo dezenas de atividades desportivas e educativas para os jovens da comunidade, funcionando como um verdadeiro refúgio social no sul da Grande Buenos Aires.
Galeria de Títulos e Conquistas de Destaque
| Competição | Nível | Títulos / Conquistas | Temporadas / Anos |
|---|---|---|---|
| Primera B (Segunda Divisão) | Segunda Divisão Nacional | 3 (Campeão) | 1960, 1999/2000 (Reduzido), 2014 (Zona B) |
| Torneo Apertura - Primera B Metropolitana | Terceira Divisão | 1 (Campeão) | 2024 |
| Primera C | Terceira Divisão (Era Amadora/Transição) | 3 (Campeão) | 1926, 1938, 1957 |
| Ascenso à Primera División | Promoção de Categoria | 3 (Acessos) | 1960, 1967 (Reclasificatório), 2000 (Reduzido) |
Fontes Pesquisadas
- AFA (Asociación del Fútbol Argentino): Registros históricos de torneios e listagens oficiais de filiados.
- Club Atlético Los Andes - Sitio Oficial: Departamento de História e Museu do Club Atlético Los Andes.
- Diário Olé e Clarín (Esportes): Cobertura jornalística das campanhas recentes do Los Andes na Primera B Metropolitana (2023-2024).
- Revista El Gráfico: Arquivos históricos das décadas de 1960, 1970 e 2000 detalhando as campanhas do "Equipo de los Sueños" e o acesso sob o comando de Jorge Ginarte.
- "Lomas de Zamora y su historia" - Monografias de historiadores locais detalhando o impacto social do clube no desenvolvimento urbano da Zona Sul de Buenos Aires.



