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O Club Atlético Claypole, lendário clube do Conurbano Sul da Grande Buenos Aires, vive um dos momentos mais fascinantes de sua centenária trajetória. Atualmente disputando a unificada e ultra-competitiva Primera C Metropolitana (a quarta divisão do futebol argentino unificada em 2024), o "Tambero" concilia sua mística de equipe operária com campanhas copeiras que assombraram gigantes da elite argentina recentemente, consolidando-se como um bastião de resistência cultural e esportiva no Partido de Almirante Brown.

História do Club Atlético Claypole: Da Terra dos Tambos ao Palco Nacional

1. Fundações e Origens Rurais (1923)

Para compreender a gênese do Club Atlético Claypole, é necessário recuar ao início do século XX, quando a localidade de Claypole, situada no Partido de Almirante Brown, no sul da Grande Buenos Aires, era uma paisagem dominantemente rural. A região era pontilhada por tambos (estabelecimentos produtores de leite) que abasteciam a metrópole portenha. O desenvolvimento local acelerou-se graças à ferrovia Ferrocarril del Sud, cujas terras para a construção da estação haviam sido doadas em 1884 por Don Pedro Claypole.

No dia 1º de outubro de 1923, um grupo de jovens entusiasmados, influenciados pela crescente popularização do football trazido pelos ingleses, reuniu-se com o objetivo de criar uma instituição que servisse de polo social e esportivo para a juventude local. Entre os fundadores mais proeminentes estavam os irmãos Félix, Julio e Sebastián de Vicente, além de personalidades como Eduardo e Héctor Sívori, e o primeiro presidente eleito, Félix de Vicente.

As cores do clube carregam uma simplicidade clássica e imponente: o branco e o preto, dispostos em listras verticais. A escolha das cores é cercada de folclore. A versão historicamente mais aceita e documentada aponta que, diante da escassez de recursos na Argentina da década de 1920, os fundadores conseguiram a doação de um jogo de camisas com essas cores vindas de um clube vizinho (algumas fontes mencionam o Almagro, outras apontam para a influência direta de marinheiros ingleses de passagem pela região). Desde então, o uniforme alvinegro tornou-se a identidade indissociável de Claypole.

O apelido "El Tambero" surgiu naturalmente, uma referência direta aos trabalhadores das fazendas de gado leiteiro que compunham a torcida e, muitas vezes, o próprio quadro de jogadores do clube em seus primeiros anos de amadorismo.

2. A Filiação à AFA e a Construção do Templo (1978)

Durante as suas primeiras cinco décadas de existência, o Claypole limitou-se a disputar ligas regionais e amistosos na zona sul, com destaque para a Liga de Adrogué. A grande guinada institucional ocorreu no final da década de 1970. Sob a liderança do dinâmico e obstinado presidente Rodolfo Vicente Capocasa, o clube iniciou o processo de filiação à Asociación del Fútbol Argentino (AFA).

A aprovação oficial veio em 1978. Para competir nos torneios nacionais da AFA (ingressando na Primera D, então a última divisão), o clube necessitava urgentemente de um estádio próprio que cumprisse as exigências de segurança e infraestrutura. Capocasa liderou uma verdadeira cruzada comunitária. Moradores, torcedores e comerciantes locais doaram materiais, ergueram as primeiras arquibancadas de madeira e nivelaram o terreno localizado na Avenida Lacaze.

Em homenagem àquele que foi o grande arquiteto desse milagre estrutural, o estádio foi batizado como Estadio Rodolfo Vicente Capocasa. Tragicamente, Capocasa faleceu pouco antes de ver consolidada a consolidação definitiva do estádio com arquibancadas de cimento, mas seu nome ficou eternizado no cimento que ele próprio ajudou a erguer.

3. Eras de Ouro e Campanhas Históricas

A trajetória esportiva do Claypole na AFA é marcada pela resiliência nas divisões de acesso. Contudo, três períodos destacam-se como verdadeiras eras de ouro para o clube:

A) O Primeiro Acesso (1984)

Apenas seis anos após a sua filiação, o Claypole alcançou o seu primeiro grande feito esportivo. Sob a direção técnica de Antonio "Lito" Mazzei, o alvinegro realizou uma campanha memorável na Primera D em 1984. O acesso à Primera C foi conquistado após uma disputada fase de playoff, culminando na vitória decisiva sobre o San Carlos, o que desencadeou uma festa sem precedentes nas ruas de Claypole.

B) O Título de 1997 e o Comando de Hugo Neuman

O maior título de campeonato da história do clube veio na temporada 1996/1997. Com uma equipe aguerrida e taticamente impecável comandada pelo treinador Hugo Neuman, o Claypole sagrou-se campeão do Clausura da Primera D. Na finalíssima pelo acesso direto à Primera C, o "Tambero" derrotou o Comunicaciones em duas partidas históricas disputadas em estádios neutros, consolidando uma geração de jogadores que até hoje são reverenciados nas arquibancadas do Capocasa.

C) O Retorno à Primera C e o Impacto na Copa Argentina (2020-2023)

Após anos de ostracismo e crises financeiras na Primera D, o Claypole iniciou um processo de reconstrução sob a presidência de Javier Gomez. No início de 2021 (no torneio de transição de 2020, atrasado devido à pandemia de COVID-19), sob o comando técnico do ídolo Roque Drago, o clube venceu a final contra o Liniers por 1 a 0, garantindo o retorno à Primera C.

Esse acesso credenciou o Claypole a disputar a fase final da Copa Argentina 2021 contra o todo-poderoso Boca Juniors. Em 3 de março de 2021, em uma partida disputada no Estádio de Lanús, o modesto Claypole assombrou o país. O "Tambero" abriu o placar aos 29 minutos do primeiro tempo com um gol histórico do defensor Leonel Landaburu. Embora o Boca Juniors tenha virado o jogo para 2 a 1 com gols de Sebastián Villa e Edwin Cardona, a atuação heroica do Claypole foi aplaudida de pé pela imprensa nacional.

O ápice copeiro, porém, estava reservado para 22 de fevereiro de 2023. Pela primeira rodada da Copa Argentina daquele ano, o Claypole enfrentou o tradicional Newell's Old Boys (da primeira divisão) na cidade de San Nicolás. Demonstrando uma maturidade tática impressionante, o Claypole venceu por 1 a 0, com um gol antológico do atacante Leonel Llodra no início do segundo tempo. Foi a maior vitória da história centenária do clube, eliminando uma equipe da elite do futebol sul-americano.

4. O Clássico de Almirante Brown: A Rivalidade com o San Martín de Burzaco

A maior e mais feroz rivalidade do Club Atlético Pole é contra o San Martín de Burzaco, no confronto conhecido como o "Clássico de Almirante Brown". A origem desse clássico é territorial e social. Ambas as cidades pertencem ao mesmo município (Partido de Almirante Brown) e estão separadas por escassos quilômetros na zona sul do Conurbano.

O primeiro confronto oficial ocorreu no dia 15 de setembro de 1979, terminando com uma vitória do San Martín por 2 a 1. Desde então, cada partida entre as duas equipes paralisa a região. Historicamente, os confrontos são marcados por extrema tensão, o que levou os órgãos de segurança da Província de Buenos Aires (APREVIDE) a decretar, por muitos anos, que o clássico fosse jogado com portões fechados ou apenas com público local.

Diferente de outros clássicos portenhos baseados em diferenças de classe, o "Clássico de Almirante Brown" é uma disputa de pura identidade de bairro, onde o orgulho de pertencer à própria comunidade está em jogo em cada dividida de bola.

5. Grandes Ídolos e Personagens Históricos

  • Rodolfo Vicente Capocasa: Dirigente lendário. Sua abnegação física e financeira viabilizou a existência do estádio e a filiação do clube à AFA.
  • Hugo Neuman: Treinador tático que moldou a equipe campeã de 1997, reconhecido por sua capacidade de extrair o máximo de elencos limitados.
  • Roque Drago: Treinador que resgatou o orgulho do clube na era moderna. Sob sua gestão, o clube conquistou o acesso de 2021 e encarou o Boca Juniors de igual para igual.
  • Leonel Llodra: Atacante conhecido como "El Gato", autor do gol mais gritado da história do clube contra o Newell's Old Boys em 2023.
  • Emanuel Díaz: Meio-campista clássico e capitão durante o acesso de 2021, autor do pênalti decisivo contra o Liniers que garantiu o retorno do clube à Primera C.

6. Contexto Atual e Desafios Modernos (2024)

O ano de 2024 marcou uma profunda revolução estrutural no futebol de acesso da Argentina. A AFA determinou a unificação das divisões Primera C e Primera D, criando uma única divisão profissionalizada denominada Primera C Metropolitana. Essa mudança eliminou o amadorismo da antiga Primera D e elevou drasticamente o nível de exigência competitiva, financeira e de infraestrutura.

O Claypole adaptou-se rapidamente a este novo cenário. Sob a presidência de Javier Gomez e com parcerias de patrocínio que trouxeram estabilidade financeira, o clube realizou reformas importantes em seu estádio, incluindo a melhoria do gramado e a modernização dos vestiários do Estadio Rodolfo Capocasa. O objetivo claro da gestão é consolidar o clube como candidato real ao acesso para a Primera B Metropolitana (terceira divisão), aproximando o "Tambero" do sonho histórico do profissionalismo de elite.

7. Quadro de Honrarias e Títulos

Abaixo, detalham-se as principais conquistas e feitos de destaque da trajetória do Club Atlético Claypole no âmbito da AFA:

Competição / Feito Nível Temporadas / Conquistas
Primera D (Clausura) Quinta Divisão Campeão em 1996/1997
Primera D (Torneo Transición) Quinta Divisão Campeão em 2020 (Acesso à Primera C)
Acesso à Primera C via Octogonal Promoção 1984, 1997
Campanha Histórica na Copa Argentina Fase Final 2021 (Eliminado de forma honrosa pelo Boca Juniors, 2 a 1)
Melhor Desempenho na Copa Argentina 16 avos de Final 2023 (Vitória histórica sobre o Newell's Old Boys por 1 a 0; eliminação subsequente contra o Belgrano de Córdoba por 1 a 0)

Fontes Pesquisadas

  • Asociación del Fútbol Argentino (AFA) - Arquivos Históricos de Clubes Filiados.
  • Diário Esportivo Olé - Coberturas das partidas da Copa Argentina de 2021 e 2023.
  • Clarín Deportes - Reportagens especiais sobre a história do "Tambero" e o estádio Rodolfo Capocasa.
  • El Diario Sur (Almirante Brown) - Notícias regionais e crônicas do Clássico de Almirante Brown.
  • "Historia del Fútbol de Ascenso", de Jorge Gallego e Diego Fabbri.

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