O termo Procuradoria, no âmbito do Direito Público e Constitucional, designa a instituição ou o órgão incumbido da representação judicial e extrajudicial das pessoas jurídicas de direito público interno, bem como do exercício das atividades de consultoria e assessoramento jurídico do Poder Executivo. Classificada doutrinariamente como uma Função Essencial à Justiça, sua finalidade precípua é a viabilização jurídica das políticas públicas e a defesa do patrimônio e do interesse público primário.
1. Definição, Conceito e Natureza Jurídica
A Procuradoria, ou Advocacia Pública, constitui o feixe de órgãos que exercem a representação estatal em juízo e fora dele. Sob o prisma orgânico, é o setor da Administração Pública voltado ao controle interno da legalidade dos atos administrativos e à defesa dos interesses do Erário. Sob o prisma funcional, consubstancia-se em uma atividade técnica de Estado, pautada pela autonomia funcional e técnico-jurídica de seus membros.
A natureza jurídica da Procuradoria é de instituição permanente e essencial à função jurisdicional do Estado, conforme se depreende da topografia constitucional (Capítulo IV do Título IV da CRFB/88). Diferencia-se do Ministério Público por sua função precípua de defesa da pessoa jurídica de direito público (União, Estados, DF ou Municípios), enquanto o Parquet atua na defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis.
2. Evolução Histórica no Direito Brasileiro e Comparado
Historicamente, as funções de representação judicial e acusação criminal eram amalgamadas. No Direito Luso-Brasileiro, as figuras do "Procurador dos Feitos da Coroa" e do "Promotor de Justiça" coexistiam com competências por vezes sobrepostas. No Brasil Império, a representação da Coroa era exercida por órgãos vinculados ao Tesouro Nacional.
A distinção nítida entre a defesa do Estado (Advocacia Pública) e a defesa da sociedade (Ministério Público) consolidou-se apenas com a Constituição Federal de 1988. Antes disso, sob a égide da Constituição de 1967/69, o Ministério Público ainda exercia a representação judicial da União. A Carta de 1988 promoveu a "profissionalização" da defesa estatal, criando a Advocacia-Geral da União (AGU) e institucionalizando as Procuradorias Estaduais e do Distrito Federal como carreiras típicas de Estado.
3. Amparo Legal e Previsão Normativa
O regime jurídico das Procuradorias encontra-se estruturado nos seguintes dispositivos fundamentais:
- Constituição Federal (CRFB/88):
- Artigo 131: Define a Advocacia-Geral da União (AGU) como a instituição que representa a União, judicial e extrajudicialmente.
- Artigo 132: Estabelece que os Procuradores dos Estados e do Distrito Federal exercerão a representação judicial e a consultoria jurídica das respectivas unidades federadas, organizados em carreira, mediante concurso público.
- Lei Complementar nº 73/1993: Institui a Lei Orgânica da Advocacia-Geral da União.
- Código de Processo Civil (Lei nº 13.105/2015):
- Artigo 75: Determina que a União, os Estados e os Municípios serão representados em juízo, ativa e passivamente, por seus procuradores.
- Artigos 182 a 184: Tratam das prerrogativas processuais da Advocacia Pública, como o prazo em dobro para todas as suas manifestações processuais.
- Lei nº 14.133/2021 (Nova Lei de Licitações): Reforça o papel da Procuradoria (assessoramento jurídico) no controle prévio de legalidade de editais e contratos administrativos.
4. Aplicação Prática e Entendimento Jurisprudencial
A jurisprudência dos Tribunais Superiores tem consolidado o papel das Procuradorias, especialmente no que tange à exclusividade da representação e às prerrogativas da carreira.
Unicidade da Representação e Exclusividade: O Supremo Tribunal Federal (STF), por meio da ADI 4261, reafirmou que a atividade de assessoramento jurídico e representação judicial no âmbito dos Estados é exclusiva dos Procuradores de Estado, sendo inconstitucional a criação de órgãos jurídicos paralelos para autarquias ou fundações que não estejam sob o controle da Procuradoria-Geral (Princípio da Unicidade).
Honorários de Sucumbência: Um dos debates mais intensos versou sobre a constitucionalidade do recebimento de honorários sucumbenciais por procuradores públicos. No julgamento da ADI 6053, o STF declarou constitucional o recebimento de honorários, desde que respeitado o teto remuneratório constitucional previsto no Art. 37, XI, da CRFB/88.
Procuradorias Municipais: Diferente dos Estados, a Constituição não previu expressamente a obrigatoriedade de carreira de Procuradores para todos os Municípios. Contudo, o entendimento do STF (RE 663.696 - Tema 465) e a evolução doutrinária apontam para a necessidade de concurso público para o exercício dessas funções, vedando a contratação discricionária para atividades rotineiras e permanentes de advocacia pública municipal.
5. Princípios Correlatos e Divergências Doutrinárias
A atuação das Procuradorias é regida por princípios fundamentais:
- Princípio da Legalidade Estrita: O Procurador vincula-se à defesa do interesse público conforme definido em lei, não possuindo a liberdade de atuação de um advogado privado.
- Princípio da Indisponibilidade do Interesse Público: A atuação em juízo (acordos, desistências) depende de autorização legal específica, dada a natureza do patrimônio gerido.
- Autonomia Técnica: Embora vinculada administrativamente ao Poder Executivo, a Procuradoria goza de independência técnica para exarar pareceres contrários aos interesses imediatos do gestor, caso estes confrontem o ordenamento jurídico.
Uma divergência relevante reside na Autonomia Administrativa e Financeira. Enquanto o Ministério Público e a Defensoria Pública possuem autonomia plena constitucionalmente garantida, a Advocacia Pública ainda luta pelo reconhecimento formal dessa mesma autonomia em nível constitucional (PEC 82/2007 e PEC 443/2009), embora o STF já tenha reconhecido em julgados recentes (como na ADI 6331) que as Procuradorias possuem uma autonomia funcional inerente à sua natureza de órgão de controle.
6. Relevância Contemporânea e Impactos no Ordenamento
Na atualidade, a Procuradoria transcendeu a mera atuação reativa em juízo. O impacto prático mais relevante reside na Advocacia Pública Consultiva e na Prevenção de Litígios. Com a introdução de métodos de consensualidade na Administração Pública (Lei 13.140/2015), as Procuradorias passaram a gerir Câmaras de Conciliação e Arbitragem, reduzindo o volume de processos judiciais e conferindo maior eficiência à gestão pública.
Além disso, o papel do Procurador é central no Compliance Público e no combate à corrupção, atuando na análise de riscos jurídicos e na recuperação de ativos desviados, consolidando a Procuradoria como um órgão de Estado, e não de governo.
Referências Legais e Jurisprudenciais
- BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Arts. 131 e 132.
- BRASIL. Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil.
- BRASIL. Supremo Tribunal Federal. ADI 6053 (Honorários Sucumbenciais). Relator: Min. Marco Aurélio.
- BRASIL. Supremo Tribunal Federal. ADI 4261 (Princípio da Unicidade da Representação). Relator: Min. Ayres Britto.
- BRASIL. Supremo Tribunal Federal. RE 663.696 (Teto remuneratório e natureza da carreira).
- BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Súmula 153: "A desistência da execução fiscal, após o oferecimento dos embargos, não exime o exequente dos honorários advocatícios."














