Este município é o berço de Machado de Assis, maior nome da literatura brasileira, e serviu de morada para Clarice Lispector e Lima Barreto, sendo o cenário principal dos maiores clássicos nacionais.
O Eco das Ruas e o Sussurro das Margens: Uma Radiografia Exaustiva da Cena Literária Contemporânea do Rio de Janeiro
A cidade do Rio de Janeiro, historicamente reconhecida como o epicentro cultural, intelectual e político do Brasil durante os períodos colonial, imperial e republicano, vivencia na atualidade um momento de profunda efervescência, reconfiguração e descentralização em sua cartografia literária. Com a chancela de Capital Mundial do Livro concedida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) para o ano de 2025 — um marco histórico formidável, por se tratar da primeira vez em vinte e cinco anos que tal título é atribuído a uma cidade de língua portuguesa 1 —, o município consolida-se não apenas como um repositório passivo de memórias do passado, mas como um laboratório sociológico e estético vivo de experimentação poética e narrativa. A programação de fomento que acompanha essa titulação injeta milhões em editais, promove a Academia Editorial Jr., cria o Prêmio Jabuti Carioca e espalha a iniciativa Rio de Livros por estações de transporte público 1, evidenciando um esforço institucional para acompanhar a pulsação das ruas. Contudo, a verdadeira vitalidade da literatura carioca contemporânea não se restringe aos salões das grandes editoras hegemônicas da Zona Sul ou às listas de mais vendidos do eixo comercial padrão. Ela pulsa, de forma aguerrida, inovadora e muitas vezes invisibilizada, nas margens: nas editoras independentes de pequeno porte, nos saraus de subúrbio, nas competições incisivas de slam (poesia falada), nos coletivos periféricos e na produção gráfica artesanal de fanzines.
Esta análise exaustiva e pormenorizada propõe-se a mapear as complexas dinâmicas antropológicas, econômicas e estéticas que regem a cena literária do Rio de Janeiro na atualidade. A partir de um resgate das raízes históricas que moldaram o leitor e o escritor carioca — passando pelos paradigmas do século XIX e pela estruturação do campo intelectual —, o exame adentrará as minúcias da produção cultural independente contemporânea, destacando os nomes, as obras, as correntes temáticas e as iniciativas comunitárias que operam fora do escopo da mídia tradicional, mas que constituem os verdadeiros motores da bibliodiversidade do estado fluminense.
1. Raízes e Tradição: O Alicerce Literário Carioca e a Formação do Campo Intelectual
Para compreender a polifonia estrutural da literatura fluminense contemporânea, é imperativo observar os alicerces históricos e sociológicos sobre os quais ela foi construída. A relação do Rio de Janeiro com a leitura, a escrita e a circulação de ideias é antiga e permeada por contradições fascinantes que desafiam o senso comum historiográfico.
1.1. O Leitor Colonial e a Gênese do Consumo Literário
Pesquisas avançadas sobre a história da leitura no Brasil colonial e imperial indicam que, contrariando a tese amplamente difundida da ausência total de um público leitor antes da chegada da Família Real, havia uma circulação ativa e capilarizada de textos na cidade do Rio de Janeiro. Dados de arquivos históricos revelam que a elite e a classe média emergente possuíam hábitos de leitura peculiares. Havia uma predileção flagrante por romances sentimentais e de aventura em detrimento dos textos clássicos da alta cultura da Antiguidade.2 Registros de bibliotecas e importações da época mostram, por exemplo, pouquíssima procura pela Ilíada ou pela Odisseia — cujas referências mitológicas e linguagem intrincada afastavam o leitor comum —, enquanto obras de apelo emocional direto e andamento ágil dominavam o imaginário.2 O leitor carioca formou-se, portanto, na intersecção entre o desejo de entretenimento prático, a busca por identidade e a necessidade de narrativas que contassem com intervenções do narrador para explicar o mundo, evidenciando um público que dialogava com a literatura de forma passional e utilitária.2
1.2. A Capital das Letras e a Dissecação da Sociedade
No final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, o Rio de Janeiro consolidou-se indiscutivelmente como a capital das letras do país. A crônica, o conto e o romance passaram a refletir a urbanidade crescente, a modernização excludente e as profundas fraturas sociais da então capital federal.3 Nomes totêmicos como Machado de Assis e Lima Barreto não apenas retrataram a sociedade fluminense, mas a dissecaram com precisão cirúrgica. Enquanto Machado de Assis operava a partir de uma ironia sofisticada para expor as hipocrisias da elite patriarcal escravocrata, Lima Barreto inaugurou uma literatura de denúncia frontal contra o racismo, a burocracia estatal e o elitismo intelectual, elementos ainda centrais para a literatura marginal de hoje.4
Paralelamente, o jornalismo literário ganhou contornos de antropologia urbana através da figura de João do Rio. Vagando pelos becos, morros, gafieiras e centros de religiões de matriz africana, João do Rio, em obras como A Alma Encantadora das Ruas, inaugurou uma tradição de literatura voltada à margem, uma prática precursora e ancestral da atual literatura periférica.5 A crítica literária institucional, por sua vez, capitaneada por figuras imponentes como José Veríssimo, pautou o rigor e o tom frequentemente moralista que balizaria o cânone nacional durante décadas, estabelecendo as fronteiras rígidas entre o que era considerado "alta literatura" e o que era relegado ao esquecimento.7
A aplicação da teoria dos campos do sociólogo Pierre Bourdieu à história literária do Rio de Janeiro nas décadas de 1930 e 1940 demonstra como a consagração do "homem de letras" carioca não dependia apenas do talento individual, mas de uma complexa rede de relações de poder, dominação e legitimação institucional.8 O "habitus" do escritor carioca dessa época era moldado pela proximidade com o Estado, com a grande imprensa e com instituições como a Academia Brasileira de Letras.
1.3. O Apagamento e o Resgate das Vozes Femininas Fundadoras
É estritamente fundamental resgatar o papel fulcral das mulheres nesse período de fundação da literatura fluminense. Muito antes de o mercado editorial contemporâneo abrir espaço para debates sobre equidade de gênero, vozes femininas traçavam narrativas pungentes sobre o papel da mulher, as amarras do casamento e a asfixia da sociedade patriarcal carioca.
Figuras célebres como Júlia Lopes de Almeida — autora cuja obra A Família Medeiros e o conto aterrador "Os Porcos" demonstram uma acurada e crua observação social, baseada na oralidade das fazendas e na pura imaginação 6 —, além de Carmen Dolores e Delia, foram fundamentais para a sedimentação da ficção nacional realista e naturalista.5 Júlia Lopes de Almeida, que chegou a ser cogitada para a fundação da Academia Brasileira de Letras mas foi excluída por seu gênero, produziu crônicas e ensaios de uma atualidade assustadora. O resgate de clássicos esquecidos dessas autoras hoje é promovido por um esforço conjunto de acadêmicos e, de forma muito pragmática, por pequenas editoras independentes do Rio de Janeiro, que compreendem que a integridade do futuro da literatura depende da preservação e correção de seu passado.9
Essa herança formadora, repleta de contrastes — entre a norma culta de Machado e a oralidade das ruas de João do Rio, entre o campo intelectual bourdieusiano de legitimação institucional e o apagamento feminino histórico —, pavimentou o terreno conflituoso e rico para a cena atual. Os escritores independentes contemporâneos do Rio de Janeiro herdam, conscientemente ou não, a insubordinação de Lima Barreto e a urgência de relatar a cidade a partir de seus escombros e vielas.
2. A Cena Contemporânea (Foco Principal): A Pulsação Independente e a Reconstrução Periférica
A cena literária do Rio de Janeiro no século XXI caracteriza-se por uma profunda descentralização geográfica e curatorial. O eixo produtor migrou de forma inexorável do centro histórico e dos bairros abastados da Zona Sul para abraçar com vigor a Zona Norte, a Zona Oeste, a Baixada Fluminense e as inúmeras favelas que pontilham o relevo da metrópole. O que se observa, sob uma ótica sociológica e mercadológica, é a formação de um ecossistema literário autônomo, sustentado por coletivos engajados, pequenas e microeditoras de vanguarda, e uma rede de solidariedade visceral entre autores que prescindem, cada vez mais, da validação das grandes corporações editoriais para fazer circular a palavra.
2.1. O Papel Estratégico das Pequenas Editoras e a Luta pela Bibliodiversidade
As editoras independentes atuam como os verdadeiros bastiões da "bibliodiversidade" carioca. Diferente das grandes casas editoriais que, por força da lógica de capital, operam sob a premissa implacável do lucro a curto prazo, da tiragem em larga escala e do alinhamento a tendências massificadas, os pequenos selos assumem o risco estético, comercial e político de apostar em novas vozes, de resgatar obras fora de catálogo e de publicar gêneros que o mainstream negligencia.
Selos fluminenses afiliados a organizações como a Liga Brasileira de Editoras (LIBRE) têm remodelado o panorama. A Bambolê Editora, a Bambual Editora e a Ímã Editorial estruturam catálogos que privilegiam a alta qualidade ficcional, o pensamento crítico e o ensaio humanístico.10 A capacidade de articulação dessas pequenas casas é notável; em feiras monumentais como a Bienal do Livro do Rio, elas frequentemente se unem em grupos — como o coletivo de 20 editoras independentes denominado "Compiladas" — para garantir espaços de exibição e viabilizar a concorrência frente aos gigantes do setor.11
Um exemplo literário eloquente de resgate histórico atrelado ao compromisso do mercado independente é o trabalho da editora Janela Amarela. Capitaneada por profissionais dedicadas à preservação da memória literária, a editora tem se empenhado em republicar tesouros de Júlia Lopes de Almeida. Além de trazer a público contos e ensaios dessa autora monumental, a editora expande o resgate de vozes femininas ao publicar novos títulos de Chrysanthème e apresentar nomes esquecidos como Maria Clara da Cunha Santos, cujo diário de viagem recém-lançado, América e Europa, relata as raras experiências de uma escritora carioca oitocentista desbravando continentes.9
A materialidade do livro também ganha contornos de resistência nessas iniciativas menores. O objeto-livro é reconceitualizado não como um produto de prateleira descartável, mas como um artefato afetivo. Iniciativas como as da Editora Arpillera, que produz livros de autores como Yara Fers costurados à mão em edições primorosas e artesanais, desafiam a reprodutibilidade técnica excessiva do mercado globalizado, devolvendo ao livro sua aura artística.9
2.2. A Subversão Epistemológica do Bando Editorial Favelofágico
Ao analisar a cena literária das margens do Rio de Janeiro, a iniciativa mais revolucionária e filosoficamente robusta da última década é, sem sombra de dúvida, o Bando Editorial Favelofágico. Celebrando atualmente dez anos de atuação contínua, o projeto foi concebido pelo editor e pesquisador Felipe Eugênio e atua de forma orgânica e estrutural no Ecomuseu de Manguinhos e no Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM).12 A equipe base conta ainda com Mariane Martins (Coordenadora da V Residência Literária Favelofágica), Vanessa Almeida (Coordenadora do Ecomuseu), além de membros fundamentais como Brunna Arakaki, Flora Tarumim, Manu da Cuíca e Rafael Maieiro.13
O Bando não se limita à função clássica de uma editora; trata-se de um projeto estético-político de altíssima sofisticação que subverte a lógica da consagração literária. O pilar teórico do selo é inspirado na Antropofagia Tupinambá e no Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade. O projeto propõe o conceito de "favelofagia" — deglutir as imposições culturais e literárias da classe dominante, digeri-las e recriá-las a partir do lugar de fala marginalizado e da vivência endêmica da favela.4 Visualmente, a identidade do Bando reverbera esse legado ao evocar o Abaporu de Tarsila do Amaral, mas adaptado à realidade dos becos.14
O selo faz uma crítica ácida e frontal à chamada "estética da violência" — a narrativa que monopolizou a visão sobre a favela nas décadas de 1990 e 2000, onde o espaço periférico só ganhava visibilidade se retratado sob a lente do narcotráfico, do déficit e da tragédia.4 Para combater esse estigma, o Bando Editorial Favelofágico instituiu um programa contínuo de residências literárias. Diferente de plataformas amadoras, o Bando oferece remuneração financeira e acompanhamento editorial profissional durante seis meses para autores da periferia.14
A excelência dessa curadoria transparece nos lançamentos recentes de sua quinta residência, marcada por eventos de lançamento locais em espaços como o Bar do Papa em Cascadura (no chamado Rolé Literário), a Casa Viva Manguinhos e o Museu da Maré.12 Foram entregues ao público obras de profunda densidade estética:
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Maré, de Adriana Kairos.
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Porque as lágrimas não vertem, de Daniel de Abreu Brasil.
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A febre de Momo, de Diogo Lyra.
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Mímesis, de Isabel Marz.
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Pequenas colisões, de Mauro Siqueira.
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Mormaço, de Steffany Dias.14
O impacto dessa iniciativa é de tal magnitude que frequentemente rompe a "bolha da independência" e as barreiras invisíveis do mercado. O selo já revelou autores que foram rapidamente absorvidos pelas maiores editoras do país, provando que a margem dita o futuro do centro. Exemplos notórios incluem Rafael Simeão, que teve seu aclamado livro de contos Quando chega nossa vez acaba lançado pelo selo Alfaguara (Companhia das Letras) em 2024, e Janaina Abilio, que trilha o mesmo caminho de reconhecimento comercial.14
2.3. Autores Independentes e a Tomada dos Espaços Monumentais
O ecossistema contemporâneo substituiu a figura do escritor recluso, alheio aos meios de produção, pelo "autor-empreendedor-ativista". Esses autores não apenas geram o texto literário; eles diagramam, revisam, contratam capistas, promovem engajamento em redes sociais, organizam financiamentos coletivos, e carregam suas obras em mochilas pelas ruas do Rio.
Espaços de proporções monumentais, como a Bienal do Livro do Rio de Janeiro, que antes eram redutos exclusivos das grandes majors literárias, passaram a ser tensionados e democraticamente ocupados por essas vozes. Durante as celebrações dos quarenta anos da Bienal em 2023, e na robusta edição de 2025, os pavilhões e estandes destinados aos autores independentes e a coletivos converteram-se em polos de imensa aglomeração, superando por vezes as filas de autores tradicionais.16 Grandes conglomerados editoriais, como a Companhia das Letras, dividem hoje as atenções do público com jovens autores em auto-publicação e autores lançados por microeditoras regionais.18
A tabela a seguir sistematiza uma amostra representativa e detalhada de autores independentes, microeditados ou amparados por pequenos selos que atualmente movimentam o panorama criativo fluminense, com presença marcante em eventos de grande porte:
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Autor(a) |
Obras Recentes / Lançamentos |
Gêneros e Foco Temático |
Editora / Selo / Coletivo de Origem |
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Marina Hadlich |
Até essa comédia se tornar romântica, O menino que se escondia |
Romance adulto contemporâneo, Literatura Infantil com viés formativo |
Grupo Editorial Portal / Integra o Coletivo Escreviventes 17 |
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Leticia Maia |
Amor em grãos |
Romance ficcional contemporâneo (narrativa de transformação existencial e viagem ao Japão) |
Publicação Independente / Atua no Clube de leitura Pé de Palavra 17 |
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Marcelo Aceti |
Outros acetetos |
Poesia minimalista ("Acetetos") e publicações literárias em formato de revista cultural |
Editora Litteris / Criador da Revista Lira (com Evelyn Murad) 17 |
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Jenny Rugeroni |
Insubordinada, A herdeira do silêncio, O ano em que não choveu |
Romance contemporâneo com protagonismo feminino forte, destaque no Prêmio Kindle |
Publicação Independente / Coletivo Escreviventes 17 |
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Luiz Gustavo Sá |
Ninguém está olhando |
Contos literários ancorados na vivência do cotidiano urbano de Niterói/RJ e Sul |
Editora Penalux (Pré-selecionado para Prêmio Sesc) 17 |
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Célio Albuquerque |
1979: o ano que ressignificou a MPB |
Não ficção, História da Música Brasileira, Ensaio Cultural e Jornalístico |
Garota FM Books / Máquina de Livros 17 |
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Neide Graça |
Cadê a lagoa que estava aqui? |
Literatura Infantojuvenil com foco central em Educação Ambiental e ação antrópica |
AfetoEditora (Ilustrações de Nando Santos) 17 |
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Patricia Schunk |
Descobrindo a cor de dentro |
Literatura Infantil voltada ao autoconhecimento, inteligência emocional e essência pessoal |
Tag Tuthor Books 17 |
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Nicole Ayres |
Dançando na varanda |
Narrativa Autobiográfica, Saúde mental feminina, Superação de colapsos emocionais |
Editora Flyve / Publicação digital no Kindle Unlimited 17 |
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Flávia Joss |
Histórias e memórias, Canções para desviver, Desalinho |
Crônicas urbanas e Poesia, refletindo o espaço e a memória da cidade de São Gonçalo |
Tocando com palavras / Tag Tuthor 17 |
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Gabrielli Hathaway |
Diversos títulos (recordistas de vendas diretas) |
Romance e Fantasia Jovem Adulto (YA) focados na representatividade geracional |
Autopublicação / Independente 19 |
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Amanda Freire |
Diversos títulos |
Romance jovem e ficção reflexiva focada nos dilemas contemporâneos |
Autopublicação / Independente 19 |
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Cristina Santos |
Dondoleando |
Literatura Infantil ancorada na vivência educacional periférica |
Independente (Autora ligada à SME-RJ) 20 |
O que essa rica amostra demográfica e bibliográfica demonstra é a completa ausência de um monólito estético. A literatura carioca não produz apenas sobre um tema ou em um estilo. Coletivos atuantes como o Coletivo Escreviventes providenciam a infraestrutura logística e, muitas vezes, emocional para que autoras consigam produzir, debater e escoar suas narrativas com segurança e apoio mútuo.17 A dupla validação alcançada pela autopublicação contemporânea é notável: o autor busca a validação algorítmica através do e-commerce digital, ao mesmo tempo que exerce o exaustivo engajamento tátil, o "corpo a corpo" e o debate presencial com as multidões nas tendas e corredores dos Riocentros da vida.
2.4. A Palavra Viva e Transmutadora: Saraus, Coletivos Locais e a Força dos Slams
Se o livro impresso e costurado representa a fixação temporal da memória da cidade, o Slam (campeonato de poesia falada) e o Sarau são a respiração ofegante, viva e rítmica das ruas fluminenses. O Rio de Janeiro converteu-se em palco de uma verdadeira "guerrilha poética", na qual a literatura retoma, de supetão, a sua função social primordial, ancestral e tribal de partilha oral e comunhão pública.21
Estudos acadêmicos robustos, como os conduzidos pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) através da pesquisa sobre a Periferia Brasileira de Letras (PBL) em parceria com o Ecomuseu de Manguinhos, analisam a profunda relevância desses grupos.22 A pesquisa classifica a atuação dos coletivos literários nas periferias cariocas como análoga ao comportamento de "famílias lupinas": uma alcatéia que atua coletivamente e de forma aguerrida para proteger seus membros da hostilidade do Estado e da violência institucional. Os saraus promovem, segundo a Fiocruz, uma imediata "politização mútua" e apontam para formas inovadoras de participação social, provando que a poesia nas favelas atua como um elemento crucial de redução de danos psíquicos, promoção da saúde mental e fomento à cidadania.22
Os saraus no Rio de Janeiro, com seu caráter gregário, musical e flexível, formam uma malha de resistência que cobre todas as zonas do município. Na Zona Oeste, território frequentemente negligenciado no acesso aos equipamentos públicos culturais 24, o Sarau Circuito Literário Conversa Com Verso aglutina escritores independentes e poetas locais para fortalecer a identidade cultural, criando um espaço seguro de declamação e troca de vivências literárias de forma gratuita e contínua.25 Nas áreas centrais e na Tijuca, iniciativas domiciliares intimistas, porém politizadas, como o Sarau da Varanda, idealizado e curado pela escritora e musicista Chris Hermann, transformam de maneira engenhosa o espaço habitacional privado em uma verdadeira ágora pública, reunindo artistas, músicos e poetas na promoção da solidariedade mensal.21 Em Copacabana, a persistência inabalável da arte oral se faz presente através de grupos consagrados pelo tempo, como o coletivo Poesia Simplesmente. Com quase três décadas de atividades ininterruptas (27 anos completados em 2025), membros como Angela Maria Carrocino e Eurídice Hespanhol organizam o Sarau Terça Converso no histórico Teatro Glaucio Gill, integrando o microfone aberto com o público e encerrando as noites com catárticas e ancestrais cirandas no palco.21
No entanto, a evolução mais combativa e visceral da performance literária urbana nas periferias culminou na cultura do Poetry Slam. As batalhas de poesia falada, que chegaram ao Brasil originárias de Chicago e se disseminaram vertiginosamente na década de 2010 26, ganharam contornos de protesto identitário e afirmação existencial no Rio de Janeiro. A regra é minimalista, mas a entrega é máxima: três minutos, poemas estritamente autorais, ausência de adereços ou instrumentos musicais, apenas a potência retórica do corpo e da voz do poeta contra o silêncio da cidade.27
O Slam das Minas RJ figura, indubitavelmente, como um dos agrupamentos mais vitais em atuação na América Latina. O coletivo provê um santuário de fala exclusivo e irrestrito para mulheres, pessoas trans e indivíduos não binários extravasarem poéticas contundentes sobre misoginia, assédio, sobrevivência, racismo estrutural e empoderamento econômico.29 Poetas de projeção nacional, como Nati de Poesia, articulam-se com a ambiência sonora de artistas como a DJ Bieta para forjar espetáculos literários pocket que arrastam legiões aos aparelhos culturais, como o Instituto Moreira Salles (IMS).29 A memória sociológica do Slam carioca e da atuação feminista nos espaços públicos é eternamente marcada pela genialidade da saudosa pesquisadora e poeta Talita Miranda da Costa Mathias. Falecida precocemente, Talita deixou um legado teórico substancial sobre as possibilidades do "corpo marginalizado transformar o espaço público com arte e ativismo", um postulado que hoje guia as novas gerações de slammers.30 A potência da rima do slammer do Sudeste está em constante intercâmbio; poetas do estado dialogam com circuitos vizinhos, a exemplo do Slam ES e de campeões como Vitor Miguel, Jadson Titânio e Afronta MC, solidificando uma rede regional de literatura afiada.26
Uma ramificação recente e que atesta o colossal poder de penetração da cultura de rua na malha institucional formal do Rio de Janeiro é o pioneiro Slam do Estudante RJ. Idealizado com brilhantismo pelos professores de literatura Gabriela Bueno e Leonardo Melo, o projeto nasceu de uma tentativa quase desesperada de resgatar o interesse de jovens do Ensino Médio — muitos apáticos ou em vias de evasão — pelas aulas de português.31 O que iniciou de maneira tímida como uma pequena competição declamatória na hora do recreio em uma escola da Barra da Tijuca, tomou proporções cívicas. Em 2024, na icônica Cidade das Artes, o projeto operou o que sociólogos consideram o grande milagre carioca: colocou, frente a frente, alunos de colégios públicos da periferia e colégios privados de elite em uma arena literária comum.31 Ao transformarem dores como o bullying, a depressão, as rupturas familiares e os descobrimentos de gênero em prosódia afiada, os jovens estudantes restabeleceram vínculos perdidos com o ambiente educacional.
O grau de legitimação desse movimento foi carimbado por uma imagem improvável há algumas décadas: a própria Academia Brasileira de Letras (ABL) reconheceu e endossou o evento. Imortais veneráveis como os acadêmicos Antonio Torres, Carlos Secchin, Godofredo de Oliveira Neto e Ana Maria Machado (além de convidadas literárias imensas como Ana Maria Gonçalves) assumiram os papéis de jurados do certame, levantando as famosas plaquetas com notas que variam de 9,5 a 10.28 Segundo as diretrizes da ABL, a adesão ao SLAM revitaliza a imagem da Academia e a reconecta com as juventudes periféricas e com a cultura viva contemporânea 28, comprovando a fratura irreversível do muro que separava o erudito do popular. O reconhecimento oficial estende-se a instâncias educacionais, como as premiações da 2ª edição do Rio de Letras da Secretaria de Educação.32
2.5. Os Polos Descentralizadores: Os Festivais FLUP e FLISC
A consagração de espaços de encontro literário e comercial fora das tendas dos grandes centros de convenções corporativos da Barra da Tijuca alterou o eixo gravitacional da formação de leitores no Rio de Janeiro.
A Festa Literária das Periferias (FLUP), desde o seu nascedouro nas favelas pacificadas, cristalizou-se como o maior patrimônio imaterial da intelectualidade urbana carioca.33 Distintamente das feiras moldadas unicamente para a liquidação de prateleiras, a FLUP é fundamentalmente um festival formativo, um imenso farol incubador e criador de centenas de novos autores. Em 2025, na sua emblemática 15ª edição, a FLUP propõe o instigante tema "Ideias para Reencantar o Mundo: Escrevivências, Sonhos e Batidões". Esta curadoria é uma celebração profunda do legado revolucionário, político, sonoro e poético do Caribe e de sua imensurável influência na diáspora africana brasileira — com forte destaque para a cultura rítmica dos soundsystems que ecoam nos morros fluminenses.33
O epicentro intelectual da FLUP 2025 é a homenagem justa e definitiva à magistral escritora Conceição Evaristo. O seu arcabouço conceitual, a "Escrevivência" — que postula a necessidade da mulher negra escrever a partir da vivência direta de seu corpo e sua ancestralidade, invertendo a lógica escravocrata da preta velha que contava histórias de ninar na casa-grande, para assumir agora a narrativa que "desperta os seus" —, converteu-se na principal matriz teórica que orienta as novas gerações de escritores no Rio.33 A envergadura internacional da FLUP atrai expoentes globais e nacionais da literatura, da academia e do judiciário. Entre os convidados notórios que elevam o patamar dos debates estão a escritora Ana Maria Gonçalves (autora da obra colossal Um Defeito de Cor), a jurista e magistrada federal pioneira na luta antirracista Adriana Alves dos Santos Cruz, e acadêmicas de renome como Mame-Fatou Niang e Janaína Oliveira (curadora do Fórum Itinerante de Cinema Negro - FICINE), atestando, inequivocamente, que a literatura produzida pelas periferias cariocas na contemporaneidade é interseccional, global e intelectualmente sofisticada.34
No outro extremo geográfico e demográfico da cidade, a Feira Literária de Santa Cruz (FLISC) desempenha uma função curadora e democrática vital. A Zona Oeste, um território de dimensões continentais dentro do Rio de Janeiro, é marcada por graves tensões de segurança e por um doloroso apagamento histórico — processo este que soterrou rastros de quilombos ancestrais e que historicamente refreou o acesso a equipamentos culturais robustos.24 É neste solo árido que a FLISC, idealizada pelo ativista e produtor Anderson Assis e realizada pela Adesign Produções, semeia a arte.
Alcançando em 2025 sua notável 9ª edição e celebrando 25 anos de histórias vinculadas ao seu ideário embrionário, a feira transcorre em locais emblemáticos como o Colégio Camões e a Casa de Cultura de Santa Cruz, inserida organicamente na programação do Rio Capital Mundial do Livro.1 Homenageando efemérides como os 500 anos de nascimento de Luís de Camões e revisitando o espírito de ruptura e reinvenção originário da Semana de Arte Moderna de 1922, a FLISC sustenta-se por meio de uma intricada e resiliente malha de patrocínios regionais privados (empresas de alimentos e nutrição atuantes na região).36 A magnitude é inegável: o evento impacta direta e indiretamente mais de 200 mil indivíduos.37 Mais do que apresentar palestrantes best-sellers (como filósofos, psicólogos e booktokers), o diferencial da FLISC é a convergência de quatro linguagens (literatura, artes visuais, cênicas e música), e o franco acolhimento de coletivos de arte urbana do bairro, a exemplo do Coletivo West.35 Na FLISC, e em festivais literários espraiados nos subúrbios (como a Feira Literária de Santa Teresa - FLIST e parcerias com campi do IFRN e universidades 1), a periferia reivindica seu posto de consumidora crítica e, simultaneamente, matriz irradiadora de epistemologias.
2.6. Fanzines, Livros Cartoneiros e a Resistência do "Faça Você Mesmo"
Operando no instigante limiar entre as artes gráficas experimentais e a literatura marginal mais rudimentar encontram-se os fanzines (aglutinação dos termos fanatic e magazines). Na atual era do antropoceno digital e da superexposição virtual, a tenaz persistência da materialidade precária, fotocopiada, dobrada e grampeada do fanzine no Rio de Janeiro representa um gesto deliberado de subversão tátil. A autopublicação via impressoras domésticas confere aos seus realizadores uma agilidade de resposta política, humorística e estética que as engrenagens da indústria editorial tradicional jamais alcançarão.39
Pesquisadores de peso e artistas fanzineiros, como o eminente teórico Gazy Andraus, que forjou o conceito ativo de "fanzinejar", e o educador Yuri Amaral, têm demonstrado em publicações que esses singelos folhetos são artefatos revolucionários no ambiente pedagógico.40 No Rio de Janeiro e estados correlatos, as oficinas de zines são maciçamente empregadas nas complexas realidades das salas de Educação de Jovens e Adultos (EJA).41 Através do fanzine, o jovem e o adulto semi-analfabeto que antes se sentia intimidado pelas trezentas páginas de lombada quadrada descobre que pode figurar como protagonista autoral e publicar suas próprias crônicas, poemas visuais e manifestos. Projetos que abordam educação ambiental (descarte de lixo, água) e sustentabilidade fazem do zine um meio ideal para alfabetização ecológica em comunidades populares.41
Eventos fundamentais para esta cena, como a mostra Zine City, são epicentros de convergência para fanzineiros underground, desenhistas independentes, publicações mutantes e zines objeto de arte (como os catalogados nos arquivos da "Mostra Nacional de Fanzines" e em fanzinotecas estudadas academicamente).39 As manifestações de clubes e projetos lúdicos, como o que resgata a história de pequenos times de futebol do subúrbio em formato zine, atestam a versatilidade absoluta dessa mídia.44
Irmanada visceralmente à lógica fanzineira, floresce a confecção laboriosa dos "livros cartoneiros" — obras cujas capas são literalmente manufaturadas com papelão reciclado catado nas ruas pelos catadores, pintados e desenhados à mão. Coletivos, ativistas e literatos que circulam pelas adjacências de eventos populares e periferias (como Júnia Paixão, os ensaístas Zê, o ativista Zé Heleno e Weverton Duarte Araújo) orquestram oficinas em escolas e museus onde a montagem do livro cartoneiro transcende a atividade escolar.46 O suporte físico da obra, originário do material recolhido pela base da pirâmide de classes sociais do Rio, carrega impresso em suas ondulações de papelão uma mensagem insofismável: na ecologia literária das periferias, a escassez material, a reciclagem e a genialidade combinam-se como formidáveis veículos de empoderamento cívico.46
3. Temáticas e Obras: Os Ecos do Agora e a Multiplicidade Discursiva
Se outrora as críticas definidoras da literatura fluminense se restringiam a apontar a busca incansável pela exótica cor local ou pelas amarras deterministas do naturalismo cru do início do século XX, a ficção, a poesia e o ensaio produzidos pela prolífica nova cena carioca são catapultados por imperativos estéticos e urgências sociais de outra envergadura. A profunda análise qualitativa dos catálogos expostos nas tendas independentes, nas estantes das fanzinotecas e nos palcos dos saraus evidencia o domínio de macrotendências temáticas fundamentais: a reivindicação ontológica do espaço urbano, as poéticas do amparo psicológico e da fuga ficcional, o retorno à extrema contenção e a pedagogia da ecologia.
3.1. Reivindicação Endêmica do Território e Fuga do Fetiche Sociológico
Durante décadas, quando os polos consagrados de legitimação literária detinham os olhos na "margem" geográfica carioca, a favela, as submoradias e o subúrbio ferroviário eram invariavelmente enquadrados através da lente limitante do fetiche sociológico.4 Essa tendência produzia obras cujo foco recaía quase invariavelmente na miséria aviltante ou na tragédia operada pela hiperviolência bélica. A contemporaneidade literária gestada nessas próprias regiões rejeita e desautoriza frontalmente esse olhar parasitário e estrangeiro. Os novos autores oriundos de vielas de Manguinhos, da Maré ou de Santa Cruz assumem a autoria de seus corpos e o monopólio subjetivo de suas próprias narrativas.
Na já examinada curadoria impecável do Bando Editorial Favelofágico, percebe-se um esmero e uma experimentação formal rigorosa. Para essa nova guarda, não existem condescendências técnicas sob o pretexto de ser "literatura-verdade". O desafio contemporâneo não é apenas escrever sobre o podre poder da bala, mas ousar e tensionar a arquitetura da língua portuguesa como ferramenta de contestações.14 Nas tramas delineadas por Isabel Marz (em Mímesis), nas tensões carnavalescas de Diogo Lyra (em A febre de Momo) ou nas memórias atmosféricas desenhadas por Steffany Dias (em Mormaço), o território considerado área de "risco" é destrinchado como um caldeirão caleidoscópico de afetos, de nostalgia suburbana, de alegrias vernaculares e de paradoxos morais profundos.14 Essa vertente constrói uma poética regional sólida que tem origens no ideário literário marginal iniciado na virada do milênio, mas que, na Baía de Guanabara, adquire idiossincrasias irreproduzíveis devido à topografia impiedosa da pólis dividida.
Essa luta contra a restrição temática espelha uma denúncia mais ampla discutida por acadêmicos nos meios literários (como nos ensaios fomentados pelas reflexões da publicação Bravo!): existe um "limite invisível" ou um teto de vidro na consagração cultural de excelência.47 Assim como a opressão racial cria gargalos para a ascensão corporativa da negritude, o sistema canônico muitas vezes só concebe "migalhas de espaço" e concessões ínfimas para as literaturas produzidas em fanzines ou pelas penas femininas periféricas; romper essa barreira não exige apenas força de vontade, mas uma reengenharia antropológica que os coletivos no Rio vêm realizando passo a passo.47 A visibilidade alcançada pelas pesquisas críticas e teses (em revistas da UERJ e da UFMG, sobre a obra de Cruz e Sousa e as gambiarras literárias 30) aponta o valor dessa literatura enquanto discurso contínuo de denúncia das injustiças raciais e estruturais perpetuadas.
3.2. A Pluralidade Ocupacional: Do Escapismo Fantástico ao Minimalismo de Contenção
Muitas vezes, impõe-se de modo errôneo ao escritor independente ou negro a obrigatoriedade restritiva de escrever apenas sobre os traumas de sua vivência sociológica. A cena contemporânea dinamita essa cobrança ao demonstrar a maturidade de seu espectro de gêneros. Em franca ascensão e dominando as conversas das bienais e das interações algorítmicas, verifica-se o boom espetacular da ficção comercial voltada ao entretenimento ágil.
Vasta legião de escritoras independentes do estado tem explorado os territórios infindáveis do romance literário (gênero Young Adult ou Novo Adulto), da literatura fantástica, e da vertente reconfortante (a estética de "arquétipo conforto" nas tramas). Autoras independentes recordistas em estandes como Gabrielli Hathaway e Amanda Freire, que esgotam suas publicações físicas em poucos dias nas feiras abertas, narram histórias onde o protagonismo fluminense pode embarcar em grandes contendas mágicas ou em dilemas juvenis clássicos sobre produtividade, formação amorosa e angústia das novas gerações.19 Na mesma esfera ficcional madura figuram obras como Amor em grãos (Leticia Maia), uma intrincada odisseia de uma mulher buscando sua recriação pessoal em território japonês, e Até essa comédia se tornar romântica (Marina Hadlich), atestando a pujança do romance focado nas nuances emocionais.17 A autobiografia terapêutica ou os ensaios de superação psíquica (frequentemente disponíveis nas plataformas Kindle Unlimited ou no acervo da editora Flyve), como se depreende de Dançando na varanda, da escritora Nicole Ayres 17, reforçam a inclinação para temáticas de desconstrução da saúde mental fragilizada e das estratégias curativas que ressoam dolorosamente na juventude de hoje.
Servindo como o reverso exato à exuberância narrativa e folhetinesca de quinhentas páginas, e contrastando com a extenuação informacional das redes sociais contemporâneas, floresce a poesia do silêncio e do minimalismo. O engenhoso escritor e curador niteroiense Marcelo Aceti aprofunda em seus lançamentos (como no volume de poesia Outros acetetos e através do periódico Revista Lira) um estilo batizado de "acetetos".17 Essas pílulas de altíssima compactação semântica e visual exigem do transeunte carioca uma interrupção cognitiva. O minimalismo opõe-se frontalmente ao consumo fast-food do conteúdo, e sua legitimação através de coletâneas consolida uma linha poética de sofisticação formal apurada em meio à vertigem metropolitana. Em compasso analítico assemelhado, obras monumentais de não-ficção e reportagem histórica, a exemplo da obra compilada pelo jornalista Célio Albuquerque, 1979: o ano que ressignificou a MPB 17, escavam minuciosamente os bastidores de álbuns fundamentais, oferecendo relatos vívidos do impacto sociopolítico que a arte da música impôs no país ao longo da sua história recente, desvinculando o rigor enciclopédico dos gabinetes acadêmicos para entregá-lo nas mãos dos curiosos culturais independentes.
3.3. Consciência do Amanhã: Pedagogia, Ecologia e Formação Cidadã
Uma das facetas mais instigantes dessa nova demografia literária no Rio de Janeiro concentra-se no futuro das consciências cidadãs. A literatura independente voltada à pedagogia infantil e juvenil tem assumido compromissos urgentes para a preservação não apenas das mentes, mas da própria geografia e da sustentabilidade planetária.41
Através da publicação afetuosa, obras como Cadê a lagoa que estava aqui?, da escritora Neide Graça, desviam-se das clássicas fábulas alienantes para questionar assertivamente o desaparecimento de corpos hídricos provocados pelos impactos nefastos das especulações e assoreamentos oriundos da ignorância antrópica.17 Ao traçar para crianças a história de amigos que investigam a morte de ecossistemas outrora exuberantes nas cidades do Rio, a literatura atinge sua plenitude como vetora de conscientização ambiental primária. Outras incursões literárias na infância e na formação educacional (frequentemente conduzidas por ativistas que laboram como professoras das redes estaduais e municipais em favelas e subúrbios) direcionam a energia criativa à formação do eixo identitário.20 Obras independentes aclamadas em contações de histórias, como Descobrindo a cor de dentro, assinada por Patricia Schunk, debruçam-se em apresentar conceitos laboriosos e necessários sobre a inteligência psicológica e o brilho subjetivo individual.17 O lançamento do envolvente Dondoleando, da agitadora cultural e pedagoga na SME-RJ, Cristina Santos 20, traduz e cristaliza a inserção maciça e inegociável do cotidiano plural e afirmativo dentro das escolas e lares nas regiões metropolitanas em tempos confusos de hiperconexão, confirmando a literatura como um espaço prioritário para a segurança ontológica da infância periférica fluminense.
4. O Triunfo e a Transmutação: Reencantando a Cartografia Carioca
A constatação de que o Rio de Janeiro carrega no ano de 2025 as insígnias gloriosas de Capital Mundial do Livro 1 resvala numa simbologia imensurável, pois o que está sendo coroado e laureado internacionalmente pelas diretrizes da UNESCO não é meramente a poeira e o mármore de antigas academias de barões e condes do Império (ainda que indispensáveis na fundação histórica do cânone 6). Celebra-se, indubitavelmente, as "favelofagias", as liras independentes, os slammers e as resistências dos fanzineiros, que constroem dia a dia uma engrenagem contínua e incansável de invenção e renovação existencial a partir do abismo social.
A presente pesquisa analítica e extensiva atesta e infere categoricamente que a vitalidade circulatória e a saúde inabalável da cena literária carioca contemporânea, ao final do primeiro quarto do século XXI, jamais devem ser perscrutadas ou medidas exclusivamente por listas de livros rentáveis ou pelos frios relatórios fiscais das combalidas e reduzidas redes de grandes livrarias corporativas nos luxuosos centros comerciais da Zona Sul. O pulso verdadeiro aferido ao longo desta análise situa-se inequivocamente no calor avassalador das tendas de expositores da Bienal ocupadas pelas microeditoras, no poder arrebatador dos coletivos sociopoéticos que cortam a metrópole da Zona Oeste às ladeiras de Niterói, nas ágoras criadas por saraus domésticos em tijucanos alpendres, e nas folhas artesanais costuradas à mão pela teimosia da arte.9
O insight macroscópico mais cristalino e irrefutável que emerge da profusão polifônica de dados, obras e comportamentos analisados é o desmonte prático, estrutural e irreversível da hegemonia patriarcal, institucionalizada e excludente da curadoria editorial brasileira clássica. O avanço formidável dos equipamentos portáteis de autopublicação 17, aliado ao monumental resgate gregário gerado fisicamente pelas inflamadas batalhas de Poetry Slams nos pilotis da urbe e ao florescer das residências antropológicas de coletivos engajados das favelas 14, provocou uma falha tectônica inaudita no campo intelectual forjado nos anos 1940: transferiu definitivamente o temido martelo de validação estética das mãos exclusivas dos acadêmicos encastelados 7 para a pluralidade de uma comunidade ativamente leitora, consumidora e falante.23
A sofisticadíssima poética epistemológica e subversiva da "escrevivência" concebida por Evaristo 33, acoplada filosoficamente aos manifestos marginais de deglutição estética das violências endêmicas — onde o fanzine recorta e expõe falhas sistêmicas da metrópole — consagra uma força cultural que é simultaneamente denúncia visceral, reparações históricas (para com autoras do porte de Júlia Lopes e corpos feminilizados invisibilizados) 9, e arte dotada de sofisticação universal, seja minimalista 17 ou fantástica.19
Portanto, os centenas de expoentes e autores independentes operantes do Rio de Janeiro demonstram que situar-se "fora do mainstream comercial padrão" e às margens dos grandes contratos da indústria deixou, há muito tempo, de configurar uma infeliz sala de espera, de desamparo ou de transição provisória em direção a um pseudo-sucesso. Transformou-se, isso sim, no epicentro deliberado, soberano, resoluto e política e esteticamente autossuficiente para uma recusa criadora. Na contramão dos privilégios hereditários, esses indivíduos edificaram com suas próprias unhas, gargantas e tintas recicláveis um ecossistema inteiramente paralelo e inegociável.46 Através de plataformas educacionais revolucionárias como o Slam do Estudante ou feiras que democratizam os céus da Zona Norte e Oeste (FLUP, FLISC) 28, o estado não ostenta um simples acervo bibliográfico; o Rio ostenta uma multidão imensa que exige o seu merecido e tardio direito inalienável ao panteão e ao assento estético nas prateleiras da vida intelectual.
A literatura, como observada no calor sufocante e nos versos afiados de Manguinhos a Copacabana, redime o tecido comunitário rasgado pela desigualdade. O amanhã, o mainstream invisível que reescreve a cultura nacional em 2025, rima com a resiliência. Conclui-se, irrevogavelmente, que a literatura do Rio de Janeiro só permanece eterna, gloriosa e pulsante porque em cada beco ou esquina não silenciada do subúrbio se ouve a força indomável do seu próximo, inédito e avassalador poema.
Referências citadas
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Bando Editorial Favelofágico completa 10 anos com residência e seis novos livros de autores periféricos | PublishNews, acessado em abril 10, 2026, https://www.publishnews.com.br/materias/2025/05/13/bando-editorial-favelofagico-completa-10-anos-com-residencia-e-seis-novos-livros-de-autores-perifericos
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