Este município do Estado de Rondônia é o polo da literatura regional, com obras que narram a construção da lendária Estrada de Ferro Madeira-Mamoré e a vida nos seringais, destacando-se autores como Manoel Rodrigues Ferreira e a produção contemporânea da Academia Rondoniense de Letras.
Nas Entrelinhas da Amazônia: A Cena Literária de Porto Velho Entre a Tradição e a Urgência do Agora
Por Pesquisador Literário Convidado
Porto Velho, a capital do noroeste brasileiro, completa 111 anos em 2025, e se há algo que a moderna Rondônia tem de mais rico além de suas reservas minerais e da força bruta da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, é a sua produção literária pulsante. Longe dos holofotes do eixo Rio-São Paulo, a cena literária local vive um momento paradoxalmente fascinante: ao mesmo tempo em que luta por espaço e reconhecimento institucional, ferve em pequenos saraus, publicações independentes e na potência dos fanzines. Este artigo é uma imersão nas raízes, na resistência e na renovação da literatura de Porto Velho.
1. Raízes e Tradição: A Poesia dos Trilhos e da Floresta
A história literária de Porto Velho não começou ontem, embora por muito tempo tenha sido tratada como um "sertão" literário. Durante décadas, a produção cultural na região esteve atrelada ao ímpeto dos viajantes, engenheiros e desbravadores. Contudo, no final do século XX, a cena começou a se consolidar em coletivos.
Um achado documental de peso para a pesquisa é a existência do periódico "Opus Cultural", uma publicação circulante em Porto Velho no início dos anos 1990 . Longe das grandes gráficas, este era um espaço de resistência impressa, abrigando a poesia crua de nomes como Ademir Martins, Djanira Pio, Augusto Garuzzi, Adriana Márcia A. Coutinho, Luiz Fernandes da Silva, entre outros . Esses autores são a ponte entre o século passado e a contemporaneidade, mostrando que a necessidade de "dizer" a Amazônia através da palavra já era uma constante.
Essa tradição de periferia e marginalidade, tão cara à literatura brasileira, encontrou na capital rondoniense um de seus expoentes mais radicais na figura da escritora Catia Cernov. Radicada em Porto Velho, Cernov é um nome fundamental para entender a "Literatura Marginal na Amazônia". Em 2010, ela lançou Amazônia em Chamas (Selo Povo), um livro que nasceu literalmente do caos: produzido em fanzines e distribuído em coletivos como o CCP (Portal do Consciente Coletivo) .
"Não queremos mais a interpretação de mundo e a experiência social que nos foi imposta. Queremos saber mais sobre o 'todo', queremos conhecer o 'outro'."
— Manifesto do Coletivo CCP (2010)
Catia Cernov foi notada pelo escritor paulistano Ferréz, ícone da literatura marginal, que a publicou em sua revista e posteriormente no livro. Essa conexão prova que a literatura de Porto Velho, quando autêntica, ecoa Brasil afora .
2. A Cena Contemporânea: Saraus, Políticas Públicas e a Geração Independente
Se o passado foi de sementes solitárias, o presente é de florestas de coletivos. A cena contemporânea de Porto Velho é vibrante e está, finalmente, ocupando os espaços centrais da cidade. Em outubro de 2025, durante as comemorações de 111 anos do município, a Roda Literária transformou o icônico Plano Inclinado da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré em um grande ponto de encontro de leitores e criadores .
Eventos como este, promovidos pela Prefeitura e pela Associação de Jornalistas e Escritores de Rondônia (Ajero) , são vitrines essenciais para nomes que estão no "underground" local. Ali, nomes como a escritora Eva da Silva (natural de Guajará-Mirim, mas com intensa atuação na capital), autora de impressionantes 20 livros, dividem espaço com novos talentos . A fotógrafa e servidora pública Stéphanie Vilela também representa essa nova gama de artistas que transitam entre a imagem e o texto, utilizando a literatura como ferramenta de pertencimento .
O Pequeno Editor e o Autor Independente
O suporte físico para esses novos autores vem das pequenas editoras. A Editora Caliope Artes, Literatura & Personalizado (Kalliope Editora & Artes Ltda), aberta em 2022, é um exemplo claro dessa nova infraestrutura cultural. Com um capital social inicial de R$ 3.000, ela representa a aposta no livro como objeto artesanal e de valor afetivo .
Além dela, plataformas como o Clube de Autores têm sido a principal trincheira dos escritores locais. O poeta Augusto Branco é o maior expoente desse movimento. Publicado originalmente de forma independente, Branco ganhou reconhecimento internacional (citado pela revista Nature) e hoje é uma referência global de que é possível fazer sucesso sem as grandes editoras do Sudeste .
A Lei que Pode Mudar o Jogo
Há um movimento político em andamento que pode oxigenar definitivamente a cena local. Foi apresentado na Câmara Municipal o Projeto de Lei "Lei Augusto Branco" , que prevê a destinação de 0,5% do orçamento anual da Secretaria Municipal de Educação para a compra direta de livros de autores rondonienses para as escolas e plataformas digitais . Se aprovada, será um marco histórico, pois cria um circuito econômico real para o pequeno escritor.
3. Temáticas e Obras: A Alma da Floresta Urbana
Qual é a cara da literatura produzida em Porto Velho hoje? Diferente do que muitos imaginam, não se trata apenas de literatura bucólica ou descritiva da selva.
Gêneros e Urgências
A poesia ainda é a rainha, especialmente a poesia marginal e de forte apelo social, herdeira direta de Cernov e do coletivo CCP . No entanto, a prosa tem avançado, mesclando a crônica do cotidiano amazônico com o realismo urbano. Os temas recorrentes incluem:
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A solidão urbana na Amazônia: Contrastar a velocidade da modernização (as construtoras, o avanço do agronegócio) com o tempo lento do rio.
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Memória e Ferrovia: A Madeira-Mamoré ainda é uma musa inspiradora, aparecendo em contos e poemas como metáfora da dor e da superação .
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Pertença e Identidade: A luta para se afirmar "rondoniense" em um estado formado por migrantes de todo o país é um conflito gerador de ótima literatura.
Exemplos de Produção Recente
A pesquisa em blogs e redes sociais indica uma produção incessante, mesmo que de tiragem pequena:
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Catia Cernov: Amazônia em Chamas (Contos) — Uma obra visceral que usa o caos e a linguagem coloquial para descrever a periferia amazônica .
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Augusto Branco: Coleção VIDA e Calíope (Poesia) — Obra de apelo universal e filosófico, que transita entre o best-seller e a profundidade lírica, provando a força do autor independente .
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Eva da Silva: Com 20 livros publicados, sua obra é um estudo de caso sobre a perseverança feminina na literatura regional, embora os títulos específicos necessitem de maior aprofundamento em acervos locais .
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Obras Coletivas e Fanzines: Seguindo a tradição dos anos 90, coletivos anônimos ainda circulam "zines" em eventos como a Roda Literária, mantendo viva a cultura do faça-você-mesmo .
Conclusão: Escrevendo o Futuro com Tinta Independente
Porto Velho prova que a literatura brasileira não é um monólito. Enquanto o mercado editorial tradicional enfrenta crises, a capital de Rondônia vive uma espécie de Renascimento silencioso. A cena local equilibra-se entre a memória dos poetas dos anos 90 e a luta feroz dos novos escritores por políticas públicas (como a Lei Augusto Branco) e espaços de visibilidade.
A leitura e a escrita, na beira do Rio Madeira, são atos de resistência. Para o pesquisador ou amante da literatura que deseja sair do óbvio, Porto Velho oferece um acervo humano rico, plural e urgentemente necessário ao mapa literário do país.
Referências
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INFORMA RONDÔNIA. Roda Literária celebra literatura e talentos locais durante os 111 anos de Porto Velho. 2025.
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PORTAL DIÁRIO DE RONDÔNIA. Roda Literária celebra a cultura e destaca talentos locais nas comemorações dos 111 anos de Porto Velho. 2025.
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OUTRAS PALAVRAS. Literatura marginal na Amazônia. 2010.
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BLOG DO CLUBE DE AUTORES. Porto Velho-RO homenageia escritor do Clube de Autores e propõe lei para incentivar autores locais. 2025.
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MIAMI UNIVERSITY LIBRARIES. Opus Cultural Archive (Porto Velho, RO). 1991.
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CONSULTAS PLUS. Kalliope Editora & Artes Ltda (Editora Caliope). Dados CNPJ. 2022.
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LITERATURA PERIFÉRICA. Blog: Literatura (é) a Cura (Menção a Catia Cernov). 2011.
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