Este município do Estado do Pará é berço de uma literatura ribeirinha pulsante, onde os mitos das águas e o cotidiano dos miritiueiros são temas centrais para escritores e poetas da região.
As palavras que vêm do Miriti: a cena literária de Abaetetuba entre a tradição e a resistência cultural
Introdução
Em Abaetetuba, a literatura nasce do mesmo lugar que os brinquedos de miriti: da sabedoria ribeirinha, da relação ancestral com a floresta e da necessidade de contar histórias em uma terra que já foi chamada de "sem face" . Conhecida internacionalmente como a "Capital Mundial do Brinquedo de Miriti", a cidade paraense guarda um patrimônio imaterial que vai além do artesanato – suas vozes literárias, muitas vezes artesanais e independentes, constroem uma cena rica, pulsante e ainda pouco explorada pelo mainstream editorial.
Este artigo é um mergulho nessas águas. Das raízes fincadas na cultura cabocla aos novos autores que circulam por prêmios nacionais e saraus periféricos, traçamos um panorama da literatura abaetetubense, celebrando a força de uma produção que resiste e se reinventa.
1. Raízes e Tradição: O Alicerce de uma Identidade Literária
A história literária de Abaetetuba não pode ser dissociada de sua geografia e de seu imaginário. Antes de ser cidade, a região era um encontro de culturas: ribeirinhos, indígenas e migrantes que moldaram uma visão de mundo única. A toponímia da cidade, que vem do tupi e significa "lugar de homem ilustre" ou "ajuntamento de homens verdadeiros", já prenunciava a força de sua gente .
Embora a cena literária organizada tenha ganhado força no século XX com figuras como Jorge Machado – autor de obras que resgatam a história local, como "Mater Puríssima: Histórias da Festa de Conceição em Abaeté do Tocantins" –, a grande referência intelectual que ilumina a região é o gigante João de Jesus Paes Loureiro. Nascido em Belém, mas com sua obra profundamente ambientada nas paisagens próximas a Abaetetuba (como a Ilha da Pacoca), Paes Loureiro é um dos maiores nomes da literatura amazônica, e sua sombra criativa é uma referência constante para os autores locais .
A tradição oral e a "cena cabocla" – termo estudado por pesquisadores como Alberto Valter Vinagre Mendes em sua pesquisa de doutorado sobre o declínio da cena cabocla em Abaetetuba – foram o berço onde a literatura local se gestou. As "fofoias" (embarcações típicas) e os tempos marcados pelas marés são elementos que deixaram de ser apenas cenário para se tornarem personagens vivos nas narrativas da região .
2. A Cena Contemporânea: O Sopro Novo da Periferia Amazônica
A pesquisa revela um movimento interessante: Abaetetuba não possui uma grande estrutura de mercado editorial (a histórica Alam Editora, por exemplo, está com CNPJ baixado ), mas a produção literária floresce na independência, nas salas de aula da UFPA e em projetos de intervenção cultural. É uma literatura que nasce da necessidade de dar rosto e voz à própria cidade.
Pedro Augusto Baía: O Reconhecimento Nacional
O maior expoente vivo da nova literatura de Abaetetuba é, sem dúvida, Pedro Augusto Baía. Aos 37 anos, doutor em Psicologia e analista judiciário, Pedro rompeu as barreiras regionais ao vencer o Prêmio Sesc de Literatura 2022 na categoria Conto com o livro "Corpos Benzidos em Metal Pesado" .
Sua obra é um mosaico de contradições. Em vez da Amazônia folclórica e ingênua, Pedro Baía mostra a ferida aberta: a violência contra minorias (LGBTQIA+, negros, indígenas), os grandes incêndios florestais e, de forma visceral, o impacto da poluição por metais pesados de um polo industrial na vida dos ribeirinhos. Ele é o herdeiro direto da "literatura artesanal" que viu na infância, mas com um olhar urbano, político e psicológico .
A Poesia de Combate e o Legado de Cruz Lobato
Enquanto Pedro Baía domina a prosa contemporânea, a poesia encontra eco na antologia "Antologia Poética Abaetetuba" (Editora Nobres Letras, 2021), organizada por Cruz Lobato. A obra reúne poemas e prosas que buscam consolidar um "legado poético" para as novas gerações, mostrando que, mesmo na era digital, a palavra impressa ainda é um ato de resistência e afeto na cidade .
A Voz Acadêmica e a Pesquisa Cultural
A Universidade Federal do Pará (UFPA) – Campus Abaetetuba funciona como um celeiro de novos talentos. Pesquisadores como Camilla Dias de Freitas, autora do projeto "Escritores de uma Terra sem Face" (2018), mostram que a produção literária está intrinsecamente ligada à educação. Seu trabalho, que resultou na publicação de um livreto de poesias por alunos da EJA, prova que a literatura local está sendo escrita nas periferias e nas salas de aula, e não apenas nos círculos acadêmicos fechados .
3. Temáticas e Obras: A Estética da Floresta Urbana
A literatura de Abaetetuba contemporânea pode ser definida por um conceito específico: realismo amazônico. Diferente da visão ufanista da floresta intocada, os novos autores mergulham no caos da transição.
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Gêneros Predominantes: O conto e a poesia lírica são os formatos mais comuns, talvez pela economia de recursos ou pela tradição oral que ainda ecoa neles.
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Temas Centrais:
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O Corpo como Território: Em Pedro Baía, os corpos são "benzidos" e violentados, seja pela indústria ou pelo preconceito .
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Ecologia e Devastação: A natureza não é só cenário, mas agente da narrativa. A poluição dos rios e o desmatamento são antagonistas constantes.
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O Sincrético Religioso: A força do Círio de Nazaré, onde os brinquedos de miriti servem como ex-votos (oferendas), aparece como pano de fundo para discussões sobre fé e resistência cultural .
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Memória e Esquecimento: A pesquisa de Alberto Vinagre sobre o "declínio da cena cabocla" ecoa na literatura: há uma tentativa de registrar modos de vida que estão desaparecendo, como o trabalho dos "tiradores de fofoias" .
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Produção Independente e Saraus
Apesar da dificuldade em catalogar editoras ativas (já que muitos optam pela publicação independente ou por selos de fora, como a Nobres Letras), a cena fervilha nos espaços alternativos. A MIRITONG (ONG do Miriti) , além de preservar o artesanato, tem se mostrado um ponto de encontro para a memória cultural da cidade, sendo um potencial palco para saraus e slams que unem a poesia falada ao som do rio.
Conclusão
A cena literária de Abaetetuba é um reflexo da Amazônia real: resiliente, contraditória e profundamente criativa. Se por um lado faltam grandes livrarias ou editoras de massa, por outro sobra matéria-prima humana. A literatura que se faz na "Capital do Miriti" não está nos escaninhos das grandes gráficas de São Paulo; ela está nas rodas de conversa da feira, nas pesquisas acadêmicas da UFPA e nas páginas independentes de autores como Pedro Augusto Baía, que levam o nome da cidade para o país.
Longe de ser uma "terra sem face", Abaetetuba se revela um caleidoscópio literário onde a tradição do brinquedo de madeira se encontra com a palavra pesada e urgente do metal pesado.
Referências Bibliográficas
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[1] LEIAGORA. Vencedores do ‘Prêmio Sesc de Literatura’ falam sobre obras e vivências em feira literária. Cuiabá, 16 nov. 2023.
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[2] CONSULTAS PLUS. Alam Editora Ltda - CNPJ de Abaetetuba/PA. 2022.
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[3] SIGAA UFPA. Banca de QUALIFICAÇÃO: ALBERTO VALTER VINAGRE MENDES. 2022.
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[4] URUAÚ-TAPERA. Arte, cultura e memória coletiva de Abaetetuba e ícone do Círio. 20 out. 2025.
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[5] LEIAGORA. Vencedores do ‘Prêmio Sesc de Literatura’ falam sobre obras e vivências em feira literária. 2023.
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[6] Portal de Periódicos UFRJ. Literatura regional, identidade e cultura: um diálogo entre a gente de Belém ‘de outrora’ e de ‘Abaeté do Tocantins’. 2019.
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[7] Prefeitura Municipal de Abaetetuba. Abaetetuba encanta público na COP30 com imersão cultural. 19 nov. 2025.
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[8] UFPA – Campus Universitário de Abaetetuba. Escritores de uma terra sem face: o ensino e produção de poesia sobre o município de Abaetetuba. 2018.
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[9] Rede Artesol. Abaetetuba – Pará (Capital Mundial do Brinquedo de Miriti). 2024.
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[10] Livraria Leitura. Antologia Poética Abaetetuba - Cruz Lobato. Editora Nobres Letras, 2021.
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