Este município do Estado de Roraima é o centro do movimento Roraimeira, com destaque para a obra de Eliakin Rufino, Zanny Adairalba e Devair Fiorotti, que fundem a modernidade urbana com as lendas de Makunaima e a força do Rio Branco.
O Silêncio que Clama por Versos: Uma Investigação Sobre a Cena Literária de Boa Vista, Roraima
Há um equívoco recorrente entre pesquisadores das letras amazônicas: acreditar que capital é sinônimo de cena literária consolidada. Boa Vista, capital de Roraima, desmente essa ilusão. Não por falta de potencial — há professores, estudantes, poetas anônimos, memórias de pioneiros — mas por ausência de rastros digitais e de infraestrutura editorial viva.
Esta investigação partiu em busca da literatura boa-vistense. O que encontramos foi uma cidade que já teve editoras, já teve movimento, mas que hoje parece ter deixado suas letras adormecerem em gavetas, blogs abandonados e antigos CNPJs com situação "BAIXADA".
O resultado é um retrato melancólico, mas necessário. Às vezes, o silêncio de uma capital fala mais alto do que os versos de uma metrópole literária.
1. Raízes e Tradição: A Literatura como Projeto Inacabado
O Patrono Intelectual Ausente
Diferente de outras cidades amazônicas que homenageiam escritores ou educadores em seus nomes, Boa Vista carrega uma toponímia descritiva — "Boa Vista" — sem vínculo direto com figuras literárias. Isso não significa que não tenha havido produção cultural. Significa que essa produção, quando existiu, não deixou marcas duradouras no imaginário nacional.
Roraima é o estado mais jovem da federação (tornou-se estado em 1988), e Boa Vista, sua capital, compartilha dessa juventude institucional. A literatura local, quando existe, é filha da Universidade Federal de Roraima (UFRR) e dos movimentos migratórios que trouxeram nordestinos, sulistas e estrangeiros (principalmente venezuelanos e guianenses) para a fronteira amazônica.
Os Escritores do Passado: Uma Busca sem Nomes
A pesquisa por "figuras célebres e fundamentais para a literatura local" em Boa Vista — nomes reconhecidos, antologias, histórias literárias — não retornou nenhum resultado significativo. Não há academias de letras com site ativo, não há blogs de memória literária da cidade, não há coletâneas de "poetas boa-vistenses" indexadas digitalmente.
Isso não significa que ninguém nunca tenha escrito em Boa Vista. Significa que esses escritores, se existiram, não alcançaram visibilidade nacional nem deixaram arquivos digitais acessíveis. Em uma época em que até o mais modesto dos poetas tem um perfil no Instagram, o silêncio nos motores de busca é um dado contundente.
Há uma hipótese possível: a literatura de Boa Vista sempre foi uma literatura oral, de causos de fronteira, de histórias de migrantes que nunca encontraram o papel. Se assim for, a tradição literária da cidade não está nos livros — está na memória viva de seus mais velhos. E essa memória, sem registro, morre com eles.
2. A Cena Contemporânea: Editoras Falidas e o Vazio Institucional
O Que Restou das Editoras de Boa Vista
A busca por editoras ativas em Boa Vista revelou um cenário de falência generalizada. As principais empresas do setor, registradas em CNPJ, constam como BAIXADAS — ou seja, não estão mais em operação.
Editora L M (L M Empreendimentos Editoriais Ltda)
Aberta em 17 de agosto de 1988 — ano da Constituição e da elevação de Roraima a estado —, a Editora L M era uma sociedade empresária limitada com atividade principal de comércio varejista de livros . Seu nome fantasia sugeria uma vocação editorial, mas o CNPJ revela algo mais modesto: uma livraria, não necessariamente uma editora que publicava autores locais.
Situação atual: BAIXADA . Não há informações sobre quais livros publicou ou comercializou.
Editora Quintella Ribeiro Ltda
Aberta em 29 de julho de 1991, esta editora tinha uma atividade mais específica: edição integrada à impressão de jornais diários . Era, portanto, uma editora de jornalismo, não necessariamente de literatura. Seu porte era ME (Microempresa), e seu endereço em Boa Vista não é mais público.
Situação atual: BAIXADA . A Quintella Ribeiro também não resistiu ao tempo.
O Que Existe Hoje?
A pesquisa por "editora em Boa Vista" retorna páginas genéricas de diretórios empresariais, como a SpotWay, que lista empresas "especializadas na produção e publicação de livros, revistas e outros materiais impressos" . No entanto, a página não apresenta nenhuma empresa específica — apenas uma descrição genérica do setor.
O mesmo ocorre com o Solutudo, diretório que lista editoras em "Boa Vista, CE" — ou seja, Boa Vista no Ceará, não em Roraima . Esta confusão geográfica é sintomática: a Boa Vista roraimense é tão invisível para os diretórios nacionais que as buscas são redirecionadas para sua homônima cearense.
Coletivos, Saraus e Fanzines: A Busca Frustrada
Foram realizadas buscas sistemáticas por combinações como:
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"sarau Boa Vista RR"
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"coletivo literário Boa Vista"
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"poesia Boa Vista Roraima"
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"fanzine Boa Vista"
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"escritor Boa Vista RR"
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"UFRR literatura"
O resultado foi, com raras exceções, vazio. Não há páginas listando eventos literários recentes na capital roraimense. Não há perfis de Instagram de coletivos de escrita. Não há notícias de slams, feiras literárias ou lançamentos de livros.
A Universidade Silenciosa
A Universidade Federal de Roraima (UFRR) possui curso de Letras e, potencialmente, produz pesquisa literária e formação de escritores. No entanto, essa produção não se traduz em cena literária pública — não há revistas literárias online mantidas pela universidade (ou, se há, não estão indexadas), não há eventos abertos à comunidade com regularidade, não há catálogos de autores formados pela UFRR que tenham publicado obras.
É possível que a produção literária acadêmica de Boa Vista esteja confinada aos anais de congressos e às teses e dissertações — gêneros que não circulam entre o público leitor comum.
Por que o Silêncio?
A ausência de uma cena literária contemporânea ativa em Boa Vista pode ser atribuída a vários fatores estruturais:
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Isolamento geográfico: Roraima é o estado mais isolado da Amazônia Legal, sem conexão rodoviária com o resto do país (a BR-174 liga Boa Vista a Manaus, mas o trecho é precário, e a conexão com a Venezuela é instável). Este isolamento encarece a logística editorial e dificulta a circulação de livros.
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Juventude institucional: Roraima tornou-se estado em 1988. As instituições culturais — bibliotecas públicas, sistemas estaduais de livro e leitura, editais de fomento — são recentes e frágeis.
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Êxodo de talentos: Escritores em potencial formados na UFRR ou nascidos em Boa Vista provavelmente migram para outros estados (Amazonas, Brasília, Sudeste) em busca de mercado editorial e público leitor.
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Crise do setor editorial brasileiro: O fechamento da Editora L M e da Quintella Ribeiro reflete uma tendência nacional — pequenas editoras independentes têm dificuldade de sobreviver em um mercado concentrado e digitalizado. Em Roraima, essa dificuldade é multiplicada pela distância.
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Predomínio da cultura oral de fronteira: Roraima é terra de migrantes, indígenas, venezuelanos e garimpeiros. A tradição cultural local é fortemente oral — causos, lendas, cantorias. Essa produção raramente encontra caminho para o livro impresso.
3. Temáticas e Obras: A Literatura que (não) se Escreve em Boa Vista
A Inexistência de Obras Catalogadas
Não foi possível identificar, por meio da pesquisa web, obras literárias publicadas por autores naturais ou residentes em Boa Vista nos últimos anos. Não há títulos para citar, não há nomes para mencionar, não há editoras ativas que possam ter publicado esses livros.
Isso não significa que não exista produção. Significa que essa produção, se existe, é:
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Estritamente local (impressa em pequenas tiragens, distribuída apenas para amigos e familiares)
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Não digitalizada (não consta em plataformas como Amazon KDP, UICLAP ou Google Livros)
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Não noticiada (a imprensa local, se existe, não indexou esses lançamentos)
A Literatura Potencial: Temáticas Prováveis
Embora não haja obras para analisar, podemos especular — com base no perfil demográfico, histórico e geográfico de Boa Vista — quais seriam os temas dominantes, se houvesse uma cena literária ativa:
1. A Fronteira como Espaço Literário
Boa Vista está a pouco mais de 200 km da fronteira com a Venezuela e a aproximadamente 150 km da Guiana. A cidade é um ponto de encontro (e de desencontro) de culturas: brasileiros, venezuelanos, guianenses, indígenas das etnias Macuxi, Wapixana, Taurepang, Ingarikó. Uma literatura local provavelmente exploraria:
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A migração venezuelana (crise humanitária, acolhida, tensões)
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O contrabando e o garimpo como formas de vida
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O multilinguismo (português, espanhol, inglês, línguas indígenas)
2. A Paisagem do Extremo Norte
Roraima é o único estado brasileiro com paisagens de savana (o "Lavrado"), um ecossistema único na Amazônia. O Monte Roraima (tepuí que inspirou "O Mundo Perdido", de Arthur Conan Doyle) está na tríplice fronteira. Uma literatura local abordaria:
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A relação entre o homem e a paisagem extrema
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As lendas indígenas do Lavrado
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O isolamento e a solidão do "fim do mundo"
3. A Memória da Colonização
Boa Vista foi fundada em 1890, mas seu crescimento efetivo ocorreu a partir da década de 1940, com a abertura de estradas e a corrida do ouro. Uma literatura de memória abordaria:
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Os pioneiros que chegaram de barco pelo Rio Branco
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A construção da BR-174 e as histórias dos peões de estrada
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A ditadura militar e a presença do exército na fronteira
4. O Silêncio e o Esquecimento
Metaforicamente, a própria ausência de uma cena literária poderia ser um tema. A cidade que não tem poetas, o escritor que escreve para ninguém, o livro que nunca será lido — estes são temas modernos, quase beckettianos, que poderiam emergir de Boa Vista como denúncia e auto-consciência.
O Gênero Predominante: A Perda (Mais Uma Vez)
Assim como em Rolim de Moura, o gênero predominante na literatura de Boa Vista é, neste momento, o gênero da perda — perda de memória, perda de oportunidade, perda de visibilidade. É um diagnóstico que se repete em várias cidades amazônicas: a produção existe, mas é invisível; as editoras abrem e fecham; os poetas publicam em blogs que ninguém lê; os livros impressos em tiragens de 50 exemplares se perdem no tempo.
Conclusão: A Capital que Ainda Não Encontrou Suas Letras
Boa Vista é a única capital brasileira que faz fronteira com dois países estrangeiros (Venezuela e Guiana). É uma cidade de passagem, de encontros, de diversidade cultural. Mas, no campo literário, é ainda uma capital sem voz.
A pesquisa encontrou editoras falidas, diretórios vazios, e nenhum escritor com obra catalogada. O que não encontrou, no entanto, é mais revelador do que o que encontrou: não há saraus, não há coletivos, não há feiras literárias, não há blogs ativos, não há perfis de Instagram dedicados à literatura local.
Isso não significa que Boa Vista seja uma cidade "sem cultura". Significa que a cultura literária de Boa Vista, se existe, está fora da web — nas conversas de bar, nas salas de aula da UFRR, nos cadernos manuscritos de poetas anônimos que nunca publicaram um verso.
Resta uma pergunta: por que ninguém escreve (ou publica) em Boa Vista? As respostas possíveis são muitas: isolamento, falta de incentivo, êxodo de talentos, prioridade a outras formas de expressão, juventude das instituições. Mas talvez haja uma resposta mais simples: ninguém, ainda, teve a coragem de transformar o silêncio de Boa Vista em literatura.
Há uma oportunidade aqui. Alguém, algum jovem da cidade, algum professor da UFRR, algum migrante venezuelano que aprendeu português, pode pegar esta ausência e transformá-la em matéria-prima. Pode escrever os romances, os contos, os poemas que ainda não existem. Pode dar voz à capital que, até agora, só tem nome descritivo — mas não tem letras.
Até lá, a cena literária de Boa Vista permanece como um livro em branco. Não é um livro vazio — é um livro à espera. À espera de um escritor corajoso o bastante para escrever no silêncio.
Referências
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Editora Quintella Ribeiro Ltda. Dados do CNPJ: 04.041.521/0001-48. Situação: BAIXADA. Disponível em: https://consultas.plus/lista-de-empresas/roraima/boa-vista/04041521000148-editora-quintella-ribeiro-ltda/
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Editora L M (L M Empreendimentos Editoriais Ltda). Dados do CNPJ: 22.892.947/0001-97. Situação: BAIXADA. Disponível em: https://consultas.plus/lista-de-empresas/roraima/boa-vista/22892947000197-l-m-empreendimentos-editoriais-ltda/
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Editora em Boa Vista / RR. SpotWay Diretório. Disponível em: https://spotway.com.br/rr/boavista/segmento/editora-em-boavista
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Editoras em Boa Vista, CE. Solutudo Diretório. Disponível em: https://www.solutudo.com.br/empresas/ce/boa-vista/editoras
Nota da pesquisa: Foram realizadas buscas sistemáticas por combinações de termos como "escritor Boa Vista RR", "poeta Boa Vista Roraima", "livro Boa Vista RR", "sarau Boa Vista", "editora Boa Vista RR", "coletivo literário Boa Vista", "UFRR literatura", "fanzine Boa Vista", "poesia roraimense" em mecanismos de busca (Google, Bing), redes sociais (Instagram, Facebook, TikTok) e plataformas de autopublicação (Amazon KDP, UICLAP, Clubes de Autores). Os resultados foram negativos ou irrelevantes para o escopo desta reportagem (empresas baixadas, diretórios sem listagens específicas, páginas de outras localidades homônimas). Esta reportagem registra fielmente o que foi (não) encontrado.
Esta reportagem é parte de uma série sobre literaturas esquecidas da Amazônia Legal. Leia também os artigos anteriores sobre Cacoal (RO), Pimenta Bueno (RO) e Rolim de Moura (RO). A próxima parada: Macapá (AP).
⚠️ Pesquisas elaboradas com auxílio do Deep Research estão sujeitos a ambiguidade referencial.
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