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Prestem
atenção, pois a história que tenho pra contar
é verídica, aconteceu com a amiga da empregada da
vizinha de Teresinha numa gracinha de dezenove anos que conheci
em uma festa em Goiânia, a qual infelizmente nunca mais
vi. Ela disse-me sobre este fato que aconteceu aqui no ano passado.
Os acontecimentos que envolvem os instantes em que esta pequena
narrou a mim tal história é tão surpreendentes
quanto à própria narrativa. Porém minha modéstia
me inibe e por isto passo a contar apenas o que ouvi.
“Isabel
dizia palavras frias em sua última tentativa de afastar
de si, Juraci, um jovem acanhado de comportamento ilibado... Juraci
mantinha o sorriso e a amizade intensa enquanto ouvia atentamente
as palavras abrasivas ditas por sua paixão.
“[...] não te quero próximo, alimentando seus
desejos, alimentando seus desejos e idéias, de que pode
mudar o que sou!”.
“Juraci ouviu estas últimas palavras e partiu...”.
“Seis meses passam rápidos, e passou... Demoraram
horas, dias e semanas para que a imagem do jovem apagasse quase
que complemente das lembranças da pequena. E esta, solitária
num banco de praça se pusesse, em mente, a orar. “És
justos viver assim, só sofre, só sofre? Por que
Vós não pudestes ser mais claro em ajudar-me”
— orava.”
“Como por milagre um senhor de vestes velhas e afeições
agradáveis se aproximou e sentou-se junto à moça”.
— Tantas queixas, tantas queixas! — exclamou o senhor.
— Não me queixo com você!” — respondeu
Isabel sem se tocar que suas orações eram imperceptíveis
a quem a olhava.”
E o senhor olhando ao céu suplicou:
— Dê-me paciência.
Isabel se levantava incomodada pela presença, quando o
velho a interrompeu:
— Espere! O que você queria, asas, trilha sonora...
Estou aqui para responder suas perguntas.
— Deus!? — perguntou Isabel em tom quase de desespero.
— Não, Augustos o mensageiro a seu dispor.
— Não mereço, não mereço, perdão
Senhor — suplicava a garota.
— Ah, é certo que não merece, só que
tua fama já está crescendo, ninguém faz mais
nada lá encima. Você pede, pede, pede, agradece um
pouco e pede mais...
— Pensei que estivesse sozinha — disse a jovem em
tom de lamento.
— Não pode! Um ser não conseguiria reclamar
deste tanto sozinha, se não acreditasse que alguém
no oculto a assisti. E já continuando a fim de terminarmos
este papo o mais rápido possível. Poderia me dizer
o que mais você quer?
— Eu nada, tudo é lindo, é maravilhoso, as
pessoas são boas.
— Poupe-me deste papo de quem viu anjo, e solte as reclamações.
“Isabel pensou alguns segundos enquanto Augustos resmungava
baixo, então falou:”
— Minha vida... sei que a quero, sei que é um dom
de Deus, só que sofro pois tenho muitas dificuldades. Eu
vivi muitas coisas que me deixaram longe de Deus, eu ofendi meus
pais, eu roubei, me entreguei a luxuria, eu...
“Isabel é interrompida por Augustos:”
— Eu sei! Sou um anjo se você precisa se confessar
procure um padre. Tem uma igreja a duas quadras.
— Eu sou evangélica! — exclamou Isabel
O anjo já impaciente advertiu:
— Eu sei, eu sei. Não existe um algo seu que eu não
conheça, você vai ou não vai fazer-me uma
pergunta?
Isabel fitando o horizonte, continua a falar em tom de lamento:
— Eu busco o caminho certo, mas sou fraca, sou facilmente
seduzida pelos prazeres mundanos. — o velho bocejava e Isabel
continuava — sou volúvel, sou pecadora... Pois bem
quero saber o porquê do sofre, se Deus nos ama tanto por
que me fez viver tudo aquilo, por que ele me abandonou, por que
eu sofri, por que...
“Augustos a interrompeu:”
— Uma de cada vez!
— Pois bem — disse Isabel — por que Ele me deixou
sozinha?
— Como ousa dizer que Ele lhe deixou sozinha! — irritou
o velho
— Sou eu que faço as perguntas? — insistiu
Isabel.
— Pois bem, — disse o anjo — então devemos
voltar a história. Lembra-se de quando estava longe de
sua casa, sozinha, lembra-se? Quanta coisa fez de errado, quanto
pecou. Ele poderia ter lhe dado às costas, mas sua infinita
misericórdia a trouxe de novo a tua família, e você...?
Nem se quer O ajudou. Lembro como se fosse hoje: Tivemos que mobilizar
toda uma tropa de arcanjos pra trazer você para seus pais...
E quando já em casa, questionava tudo e a todos. Era vazia
e solitária... Ele lhe deu um mundo de oportunidades, novas
e saudáveis. Ou você acha que o que tens vem do suor
de seu rosto... em?? E a última antes de’eu ir embora.
E aquele garoto que foi colocado em seu caminho. Poderiam ter
sido muito felizes, mas você não... não aceitou...
“Intrigada Isabel o interrompeu questionando-o:”
— Quem?
— Aquele moreno, o ... O de cabelo grande, o...
— Fábio? — perguntou Isabel
— Não este não.
— Alberto?
— Este também não!
— Eduardo?
— Não, não, não...
— Luís?
— Claro que não!
— Natanael?
— Você lembraria, se concentrasse nos últimos
seis meses.
— Eu estou falando dos últimos seis meses —
disse Isabel.
“O anjo se colocou de joelhos no chão, levantou os
olhos para o céu e orou:”
— Senhor por que insiste?
“Voltando a se sentar, continuou:”
— É ju ou jo... Juvenal, não, não...
— Juraci! — exclamou Isabel.
— É esse!— gritou o anjo, antes de continuar
— Você e o Juraci poderiam ter sido muito felizes,
mas você... não aceitou...
— Você tem certeza que está falando da pessoa
certa?
— Claro que tenho, nós anjos nunca erramos —
disse Augusto em tom esnobe.
— E eu posso fazer alguma coisa? — perguntou Isabel.
— Deve! — respondeu o anjo — A partir de hoje
terá que ser feliz, pois Ele disse que não podemos
mais te carregar. Esta é a sua vida, se acharmos que você
precisa de ajuda urgente, então teu anjo da guarda será
o único a te ajudar. Suas preces serão ignoradas,
por que você é dada como uma... — o anjo pensou
— ... você é dada como uma... — pensou
mais um pouco — Como uma chata!
Então o anjo se levantou, e fitando-a disse aos berros:
— Seu único objetivo é ser feliz, e fazer
os outros felizes. Compartilhar o verdadeiro amor de Deus, este
é seu único trabalho para o resto de sua vida. Adeus.
E assim o anjo partiu e deixou Isabel a refletir.
Não
muito longe dali Augusto e Juraci se encontravam.
—
Eu disse tudo o que você me falou mais algumas palavrinhas
que acredito poderem ajudar — disse Augusto.
— Que palavrinhas? — perguntou Juraci.
— Só palavrinhas dentro do contexto, disse que tinha
de ser feliz pois era o que Deus quer pra ela... Coisa e tal.
— Será que não estamos cometendo um pecado?
— questionou Juraci.
— Não mentimos. Vá pra casa, ela deve te ligar.
— Não sei como posso lhe agradecer?
— Comece-me pagando os 50 reais do combinado.
“Naquele
dia, já as vinte e três horas da noite o telefone
tocou na casa de Juraci, era Isabel que o cumprimentou com grande
alegria. O jovem manteve certa tristeza conseqüência
da culpa. “Ela nunca me ligaria por sua vontade” —
pensava Juraci. Mas a pequena o empolgava, e entre “saudades”
e elogios, uma só, foi à suma: Valera muito os 50
reais gastos.
Marcaram um encontro em um parque. Lá sentados bem juntinhos,
ficaram a falar sobre as coisas boas que poderiam fazer. E neste
meio chega-pra-cá, chega-pra-lá, os dois flertaram-se
e se aproximaram.
— Estou pronta... quero — disse Isabel.
Juraci permaneceu quieto então a jovem continuou:
— Não me importo que você alimente seus desejos,
verdade é que eu gosto.
— Bom, bom mesmo — disse Juraci.
— Então acredito hoje, que possamos ser felizes...
— Isabel deu uma pausa e continuou: Podemos ser felizes,
irei me aplicar em mudar-me e...
— E? — perguntou Juraci.
— E... fale alguma coisa!
— Falar? — questionou Juraci — Falar o que?
— Falar de novo aquilo — disse Isabel relembrando-o.
— Aquilo? — o rapaz se intrigou.
— É aquilo que você já disse, não
seja imbecil.
Então o jovem respirou profundamente e disse:
— Eu quero namorar você, e você quer namorar-me?
E Isabel disse: “Sim”, e eles se abraçarão
e se beijaram, e... foi isto. E eles viveram felizes...
Até o outro fim de semana quando Juraci e Isabel chegaram
a igreja. Isabel que se empolgara à perda do receio quase
traumático que tinha por aquele ambiente sacro, seguiu
até o bazar da capela onde procurava comprar uma Tau, um
pequeno T, conhecida cruz de São Francisco de Assis. Enquanto
comprava seu primeiro símbolo cristão, teu jovem
amor foi surpreendido por um encontro inesperado.
— Juraci — disse Augusto empolgado.
— Que faz aqui? — questionou Juraci.
— Venho participar da celebração.
— Aqui? Não pode! Aqui não. Isabel está
aqui.
“Mas a advertência já era tardia. A jovem já
os fitava com as afeições pálidas... Augusto
sorriu e disse com simpatia:”
— Vim ver como estão.
Isabel acreditou e também sorriu, mas Juraci cansado com
tudo aquilo disse:
— Se me ama de verdade, então pode saber. Eu paguei
50 reais para que lhe dissesse aquelas palavras no parque.
“Isabel virou-se rapidamente e se pois a caminhar, enquanto
se distanciava, ouvia as suplicas do rapaz para que o perdoasse,
mas ela desprezou as palavras do jovem... Ela o desprezou.”
Continuando a história... A noite era fria, e Isabel manteve
um orgulho que Juraci não tinha. Assim foi à casa
de sua melhor amiga e se juntou a um grupo indo para uma boate
na periferia da cidade.
*
* *
“Juraci
participou da missa e na hora que saia, Isabel entrava na boate,
onde um jovem de afeição alegre e viva, aproximou:”
— Boa noite?
— Péssima — respondeu Isabel.
— Quer conversar?
— Não.
— Então vamos só beber.
“Isabel bebeu, dançou e ao fim das noites estava
entre beijos e amassos num canto escuro da boate.”
Enquanto
isto...
—
Sabe que ela não é sua? — questionou Augustos
a Juraci.
— Sei — respondeu Juraci
— Também sabe que não tem mais obrigação
para com ela?
— Também sei.
— Então por que insiste? Se nem o céu a tem
estima.
— Porque a amo...
— Como pode amá-la se o céu não a tem
estima?
— Eu não poderia amá-la se o céu não
a tivesse estima
— Acredita mesmo que ela é vista bem no céu?
Pergunte aos querubins se a sente, pergunte aos arcanjos se a
defende, verás que não! — observou Augustos.
— Estamos aqui para resgatá-la. — sussurrou
Juraci — Se ela soubesse...
— Se soubesse o que? Se soubesse que os lugares que ela
entra não são permitidos para os anjos, tão
somente para os homens — salientou Augusto.
— Se ela soubesse que me tornei homem...
— Por ela... — sussurrou Augusto, e após uma
pausa continuou — Antes você se via incapaz da ajuda-la
por não poder interferir nos atos dela. Agora pode interferir,
mas não pode impedir. Terás que comer do suor de
seu rosto, terás vergonha e morrerá... Grande coisa
você fez. Se existe alguém que você deva se
sacrificar, este alguém com certeza não é
Isabel.
“Juraci sentou no meio fio e como os olhos cheios de lágrimas
suplicou a Augusto sua intercessão”.
— Você parece Isabel suplicando por misericórdia,
eu não devo ajudá-lo. — disse Augusto mascarando
a dor de sua consciência, então continuou —
Não ira me ver. Não iremos conversar, mas sabes
que pode falar comigo e que eu estarei a lhe ouvir, sabe também
que te amo. Não deveria... — hesitou Augustos —
mas como é a última chance da jovem... Bem, lhe
digo pela última vez. Desista, pois ela não é
bem vista no céu.
— Eu não a amaria tanto sem a benção
D’Ele.
— É eu sei... Então lhe dou as últimas
instruções. Isabel voltou àquela boate. Desta
vez você poderá entrar... Uma utilidade em ser mortal
é que havendo ar condicionado você pode entrar em
qualquer buraco... Vá lá. Ela está com um
cara, chamado... é ... sou péssimo com nomes falsos
e de desconhecidos. Seria inevitável que eles não
se conheçam esta noite. E acontecendo será o fim
de Isabel.
— A misericórdia é infinita — disse
Juraci
— Todos falam sobre ela, ela chama o mal. Outros como você
se rebelam e é inevitável que um exemplo seja dado.
Vá lá. Ela só tem você.
— A compaixão d’Ele é infinita.
— Você é toda compaixão d’Ele,
agora... Vá lá. Sem medo pois Deus é Fiel,
e não importa onde esteja ele sempre estará a lhe
assistir.
“Juraci
caminhava com dificuldade entre as pessoas, naquele ambiente que
o causava ojeriza. Quando chegou ao extremo oposto a porta virou-se
por intuito irracional e viu Isabel sendo arrastada pra fora por
m homem. Com dificuldade retornou o mais rápido que pode.
Chegando a rua viu o carro partir para direção norte.
O carro tomou um retorno a 50 metros e Juraci atravessando a rua
se colocou à frente para impedi-lo”.
“O carro freou, e o motorista colocando sua cabeça
para fora do veiculo, insultou o jovem e mandou que saísse”.
— Isabel! — gritava Juraci.
— Ela está comigo, vai caçar outra! —
disse o rapaz no volante.
— Isabel quero falar com você!
“O carro continuou seu percurso em primeira marcha atropelando
levemente Juraci que se colocou sobre o capo. O rapaz que dirigia
o carro, então parou, desceu e segurando Juraci pelo pescoço
o ameaçou: — Você quer morrer? Então
toma!”.
“Após uma forte surra Juraci foi jogado à
calçada. Perdendo a consciência ao chocar a cabeça
contra o meio-fio.”
“Às cinco horas quando Isabel saia do Motel, Juraci
entrava no centro cirúrgico aonde viria de morrer alguns
minutos depois.”
Sílvio
Lôbo Júnior.
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