XIII
Após o episódio no shopping, as coisas nunca mais foram as mesmas para Sílvio. Ele conhecia Caroline o suficiente para não ver um caso passageiro como um obstáculo para que ambos pudessem viver algo mais intenso. A falta de sinceridade, pelo contrário, era uma barreira intransponível. Sinônimo de infidelidade e com uma consequência óbvia: a traição.
Num destes dias, posterior ao último telefonema de Caroline para Alex, o jovem casal se encontraria na faculdade. Como sempre, Sílvio esperaria a amiga chegar e a olharia com insistência esperando um sorriso, sem poder retribuir por acordar sempre triste, consequência da distimia.
Hoje, sentou-se longe dela, permaneceu aéreo toda a aula. Ao final, caminhou com seu andar meio típico, quase ébrio, e, à frente da menina, sorriu e perguntou:
— Então, Anna?
— Bem, e você?
— Estou bem. Vejo que você... — Anna Caroline é interrompida.
— Eu sabia, somos muito diferentes.
— Somos, eu, você, o Vinícius, o Wadson, a Pollyana... todos somos muito diferentes.
— Mas eles não tinham os mesmos planos que a gente. — disse Sílvio, gesticulando com os dedos a marcação de aspas na palavra 'planos'.
— Tínhamos que nos conhecer, e nos conhecemos. Hoje sei que somos incompatíveis. — disse Caroline, com o mesmo gesto na palavra 'incompatíveis'.
— Seria legal! — disse Sílvio, num sussurro, mas audível.
— Também acho... — completou Caroline, que gostava muito do amigo, mas não compreendia porque ele se afastava a cada dia.
— Se acha mesmo, por que não se comportou de forma mais... "decente"?
— Como assim?
— Está vendo, é isto, você não vê malícia nem no que é indiscutivelmente errado.
— Do que estamos falando?
— Da consciência de algumas pessoas que não as deixa descansar.
— O que você está insinuando?
— Faça um exame de consciência. Será que não tem nada que lhe perturbe? Nenhuma falha, ninguém para pedir desculpas por não ter sido sincera?
— Mesmo que eu não tenha sido sincera em algo, que direitos você tem de jogar isto na minha cara? Está pensando que é minha mãe?
— O direito que me deu, ao me chamar de amigo.
— Vejo que tenho que rever quem são meus amigos.
Caroline levantou-se, recolheu seus materiais com o intuito de sair, estava confusa com tudo, falava sem saber exatamente o que dizia, apenas replicava as observações, sem qualquer juízo do que dizia.
“Mas como ajudar Alex?”, pensou ser a vez de engolir o orgulho e pedir ajuda para o amigo. — Depois discutiria sobre os motivos da crise de Sílvio. Nisto, colocou os materiais em uma cadeira mais próxima de Sílvio:
— Por agora, há coisas mais importantes. — disse tranquilamente.
— Como o quê? — questionou Sílvio, mantendo o tom irritado.
— Alex.
— Ah! Claro, por que perguntei? Tão óbvio. — ironizou Sílvio.
— O que foi, cara?! — questionou Caroline com novo sobressalto.
— Nada! Se você pensa que posso ajudar nosso garanhão, em algo, é só falar.
— Você está ironizando, não?
— Ironizando em quê?
— No garanhão. Alex não é um garanhão.
— Claro que não. Ele é muito tímido para isto... Agora estou ironizando.
— Alex é tímido sim. Já te contei sobre... — Caroline é interrompida.
— Se Alex for tímido, tenho deficiência mental. Ele é muito esperto, isto sim!
— Você não o conhece. Eu te contei tudo o que sabe dele, e por que você está fazendo prejulgamentos? Você está com ciúmes.
— Ciúmes, eu?
— Ciúmes sim, e ainda bem que você descobriu que eu seja assim tão diferente de você. Pois, assim eu me poupo de ter que viver mais decepções.
— Digo o mesmo. Se posso ajudar em algo, é só falar.
Caroline conteve-se, pensou em não falar, mas lembrando de Alex, engoliu mais um gole do orgulho e continuou:
— Alex sofre de amnésia. Sei que você conhece bons especialistas aqui na cidade, e queria que auxiliasse ele nisto.
O pedido de ajuda é tão inesperado que muda imediatamente o semblante de Sílvio:
— Uhau! — exclamou Sílvio — Ele sofreu algum acidente ou está em choque por algo que presenciou?
— Exatamente por isso que ele precisa de ajuda. Por não lembrar. Acredito que foi algo na sua infância ou adolescência.
— Ele deve procurar um médico, um profissional dará os devidos encaminhamentos.
— Pensei até em lhe apresentar Alex. Hoje vejo ser boa ideia.
— Por quê? — perguntou Sílvio, sentindo-se o mais cínico dos homens.
— Por favor, né!
— Segunda, depois da aula de português, eu vou ao analista, se ele quiser me acompanhar.
— Não sei se é uma boa ideia. Você não está se comportando bem ultimamente. Está surpreendentemente pior que já costumava estar.
— Acredite, Anna, tenho muitos motivos para desarmar este sorriso que tenho ostentado no rosto nos últimos dias, mas te prometo que não farei nenhum comentário sobre você e ele.
— Que tem eu e ele?
— Ah! É melhor deixar cada um com sua consciência. Você que sabe. Se ainda confia em mim, ... me apresente ele. Por hoje é só, até amanhã.
Pela primeira vez desde que se conheceram, Sílvio não acompanhou Caroline até o ponto de ônibus.
* * *
Ah! Tenho que falar um pouquinho do meu casal de amigos, Sílvio e Carol. Pedir desculpas pela forma em que os envolvi em minha história. Não queria que o coração de Sílvio se ferisse pelos fatos que acontecerão, mas afirmo que foi sem querer. Alex tem vida própria. Senão por que seria tão bobo?
Por hora, adianto que Sílvio continuou um amigo leal a Caroline. Apenas cessou seus esforços em conquistá-la. Não por ver Alex como um rival, ou por acreditar existir desinteresse da jovem. Mas por não suportar se ver apaixonado por alguém com quem mentisse para ele.
Não que eu esteja aqui defendendo o caráter ilibado de Sílvio. Ele não é nenhum santo! É um tanto intempestivo, até, porém é inegável a forma bela que ele coloca a amizade à frente de seus objetivos, ele é fiel como poucos são.
Apesar de toda a decepção sofrida, respeita Caroline sendo leal com a amiga. Em meio a isto, iam se conhecendo e se compreendendo.
Também não vamos endeusá-lo. Ele a amava, e deste amor vinha toda a aceitação.
O episódio do shopping havia deixado a todos atônitos. Para Sílvio, em especial, as coisas mudaram drasticamente. Ele conhecia Caroline bem o suficiente para saber que um relacionamento passageiro não seria um obstáculo para que ambos explorassem algo mais profundo. No entanto, a falta de sinceridade, ao contrário, representava uma barreira intransponível, sinônimo de infidelidade e, consequentemente, de traição.
Naquele dia, após o último telefonema de Caroline para Alex, o jovem casal se encontraria na faculdade. Como de costume, Sílvio esperaria pela amiga, fitando-a com insistência, ansiando por um sorriso que ele não conseguia retribuir, pois acordava sempre triste, mergulhado em sua distimia.
Hoje, ele sentou-se longe dela, mantendo-se aéreo durante toda a aula. Ao final, caminhou com seu passo característico, quase cambaleante, e, ao se aproximar da menina, sorriu e perguntou:
— Então, Anna?
— Bem, e você?
— Estou bem. Vejo que você... — Anna Caroline foi interrompida.
— Eu sabia, somos muito diferentes.
— Somos, eu, você, o Vinícius, o Wadson, a Pollyana... todos nós somos muito diferentes.
— Mas eles não tinham os mesmos planos que nós. — disse Sílvio, fazendo aspas no ar com os dedos para a palavra 'planos'.
— Tínhamos que nos conhecer, e nos conhecemos. Hoje sei que somos incompatíveis. — disse Caroline, com o mesmo gesto para a palavra 'incompatíveis'.
— Seria legal! — disse Sílvio em um sussurro, mas audível.
— Também acho... — completou Caroline, que gostava muito do amigo, mas não compreendia por que ele se afastava a cada dia.
— Se acha mesmo, por que não se comportou de forma mais... “decente”?
— Como assim?
— Está vendo, é isto, você não vê malícia nem no que é indiscutivelmente errado.
— Do que estamos falando?
— Da consciência de algumas pessoas que não as deixa descansar.
— O que você está insinuando?
— Faça um exame de consciência. Será que não tem nada que lhe perturbe? Nenhuma falha, ninguém para pedir desculpas por não ter sido sincera?
— Mesmo que eu não tenha sido sincera em algo, que direitos você tem de jogar isto na minha cara? Está pensando que é minha mãe?
— O direito que me deu, ao me chamar de amigo.
— Vejo que tenho que rever quem são meus amigos.
Caroline levantou-se, recolheu seus materiais com o intuito de sair. Estava confusa com tudo, falava sem saber exatamente o que dizia, apenas replicava as observações sem qualquer juízo do que proferia.
“Mas como ajudar Alex?”, pensou ser a sua vez de engolir o orgulho e pedir ajuda ao amigo. — Depois, discutiria os motivos da crise de Sílvio. Assim, colocou os materiais em uma cadeira mais próxima de Sílvio:
— Por agora, há coisas mais importantes. — disse tranquilamente.
— Como o quê? — questionou Sílvio, mantendo o tom irritado.
— Alex.
— Ah! Claro, por que perguntei? Tão óbvio. — ironizou Sílvio.
— O que foi, cara?! — questionou Caroline com novo sobressalto.
— Nada! Se você pensa que posso ajudar nosso garanhão em algo, é só falar.
— Você está ironizando, não?
— Ironizando em quê?
— No garanhão. Alex não é um garanhão.
— Claro que não. Ele é muito tímido para isto... Agora estou ironizando.
— Alex é tímido sim. Já te contei sobre... — Caroline foi interrompida.
— Se Alex for tímido, tenho deficiência mental. Ele é muito esperto, isto sim!
— Você não o conhece. Eu te contei tudo o que sabe dele, e por que você está fazendo prejulgamentos? Você está com ciúmes.
— Ciúmes, eu?
— Ciúmes sim, e ainda bem que você descobriu que eu seja assim tão diferente de você. Pois, assim eu me poupo de ter que viver mais decepções.
— Digo o mesmo. Se posso ajudar em algo, é só falar.
Caroline conteve-se, pensou em não falar, mas, lembrando de Alex, engoliu mais um gole de orgulho e continuou:
— Alex sofre de amnésia. Sei que você conhece bons especialistas aqui na cidade, e queria que auxiliasse ele nisto.
O pedido de ajuda é tão inesperado que muda imediatamente o semblante de Sílvio:
— Uhau! — exclamou Sílvio — Ele sofreu algum acidente ou está em choque por algo que presenciou?
— Exatamente por isso que ele precisa de ajuda. Por não lembrar. Acredito que foi algo na sua infância ou adolescência.
— Ele deve procurar um médico, um profissional dará os devidos encaminhamentos.
— Pensei até em lhe apresentar Alex. Hoje vejo ser boa ideia.
— Por quê? — perguntou Sílvio, sentindo-se o mais cínico dos homens.
— Por favor, né!
— Segunda, depois da aula de português, eu vou ao analista, se ele quiser me acompanhar.
— Não sei se é uma boa ideia. Você não está se comportando bem ultimamente. Está surpreendentemente pior do que já costumava estar.
— Acredite, Anna, tenho muitos motivos para desarmar este sorriso que tenho ostentado no rosto nos últimos dias, mas te prometo que não farei nenhum comentário sobre você e ele.
— Que tem eu e ele?
— Ah! É melhor deixar cada um com sua consciência. Você que sabe. Se ainda confia em mim, ... me apresente ele. Por hoje é só, até amanhã.
* * *
Pela primeira vez desde que se conheceram, Sílvio não acompanhou Caroline até o ponto de ônibus.
Ah! Tenho que falar um pouquinho do meu casal de amigos, Sílvio e Carol. Pedir desculpas pela forma em que os envolvi em minha história. Não queria que o coração de Sílvio se ferisse pelos fatos que acontecerão, mas afirmo que foi sem querer. Alex tem vida própria. Senão por que seria tão bobo?
Por hora, adianto que Sílvio continuou um amigo leal a Caroline. Apenas cessou seus esforços em conquistá-la. Não por ver Alex como um rival, ou por acreditar existir desinteresse da jovem. Mas por não suportar se ver apaixonado por alguém com quem mentisse para ele.
Não que eu esteja aqui defendendo o caráter ilibado de Sílvio. Ele não é nenhum santo! É um tanto intempestivo, até, porém é inegável a forma bela que ele coloca a amizade à frente de seus objetivos; ele é fiel como poucos são.
Apesar de toda a decepção sofrida, respeita Caroline sendo leal com a amiga. Em meio a isto, iam se conhecendo e se compreendendo.
Também não vamos endeusá-lo. Ele a amava, e deste amor vinha toda a aceitação.



